Eiji
14 Capítulo Onze - Parte I
Notas iniciais
Foi ainda mais difícil deixar Izuna ir daquela vez. Poder tê-lo em meus braços naqueles últimos dias me deixou ganancioso, e não queria ter nada menos que aquilo. Eu ainda podia sentir um pouco das sensações causadas pelos toques que havíamos compartilhado horas antes de termos que nos despedir, e imaginar que ficaria sem nem ao menos ouvir sua voz, me causou um sentimento pesado no peito.
Nós três estávamos do lado de fora, como era costume sempre que ele tinha que ir embora. O pequeno estava em pé ao meu lado, e segurava a minha mão com força, já nervoso com a despedida que viria em breve. Ele logo me soltou quando Izuna se ajoelhou à sua frente e segurou suas mãozinhas.
— Se lembra da nossa conversa? — Ele perguntou para Eiji enquanto acariciava suas mãos.
O pequeno assentiu devagar.
— Eu não vou chorar, porque você volta logo.
Izuna sorriu fraco enquanto bagunçava os cabelos curtos e negros, e fez um sinal positivo com a mão antes de puxá-lo para um abraço. Eiji não conseguiu esconder sua tristeza quando correspondeu àquele gesto, mas como havia prometido, segurou o choro, e voltou a segurar a minha mão assim que foi solto. Ele recebeu um beijo na testa antes de Izuna se levantar e então, foi a minha vez de ter um pouco de atenção.
— Você também, hm? — Izuna brincou ao tocar o meu peitoral.
— Não posso prometer algo assim — o respondi sério, mas logo me entreguei a uma leve risada juntamente com ele.
Fiquei aliviado por poder vê-lo sorrir um pouco. Todas as vezes em que tinha que ir embora o clima ficava pesado, carregado de tristeza, e apesar de ainda sentir o mesmo aperto no peito de sempre ao chegar naquele momento, acabei cedendo a certeza de que logo o veria, e o rápido selar de lábios que trocamos também serviu para nos deixar menos melancólicos com a distância. Ainda era melhor que antes, quando tínhamos nada para se agarrar além de olhares tristes e simples acenos.
Eiji apertou levemente a minha mão quando roubei um segundo rápido beijo de Izuna antes de nos afastarmos. Ele obviamente ainda levaria algum tempo para se acostumar com aquilo, mas ao menos, após a conversa que teve com Izuna um pouco antes daquilo, ficou menos emburrado ao nos ver daquela maneira muito mais carinhosa do que antes.
A hora de Izuna ir veio muito rápida, e assim que ele se afastou de mim, teve que se despedir de vez.
— Até logo — disse ele, e um pouco desanimado soltou um longo suspiro antes de enfim dar as costas e ir embora.
A minha mão foi apertada novamente quando Izuna olhou para trás e acenou em nossa direção pela última vez antes sumir da minha visão. Ouvi um suspiro trêmulo e em seguida um baixo soluço, e logo olhei para o pequeno, que mesmo ainda tentando se segurar, derramou uma lágrima.
— Quer vir para o meu colo? — Perguntei enquanto acariciava sua mão com o polegar. Eiji balançou a cabeça de um lado para o outro e deixou escapar outra lágrima.
— Eu não estou chorando — afirmou o pequeno com teimosia, enquanto mantinha o olhar tristonho na direção de onde Izuna havia ido.
— Eiji... — suspirei fundo, me sentindo mal por vê-lo daquela maneira. Estava pronto para confortá-lo, mas levei um pequeno susto quando ele soltou a minha mão com violência e me olhou nervoso. Suas mãozinhas se fecharam em punhos e as sobrancelhas juntaram enquanto derramava ainda mais lágrimas.
— Eu não estou chorando! — Ele repetiu em tom alto e frustrado. — Você é que está!
O pequeno saiu correndo assim que terminou de falar. Chocado com aquele jeito novo que o vi agir, apenas o observei ir até a porta, e fiquei ainda mais surpreso por vê-lo tropeçar — claramente de propósito — nos próprios pés e cair no chão. Eu corri até ele, e Eiji logo se sentou sobre o chão. Quando me ajoelhei à sua frente, vi que a expressão nervosa não estava mais lá, mas as lágrimas se intensificaram e o pequeno gritou alto, enfim chorando sem resguardos.
— Eu caí! — Ele gritou quando percebeu que tinha a minha atenção. Eu estava com pena dele, mas o choque por ver aquela cena me deixou meio lento e só o peguei no colo algum tempo depois.
— É por isso que está chorando? — Perguntei desconfiado, mas obviamente já sabendo a verdade.
— Sim! — Ele berrou outra vez enquanto se afundava ainda mais em lágrimas e apertava a minha camiseta com força.
Me segurei para não balançar a cabeça de um lado para outro por causa daquilo. Ele estava triste por ver Izuna ir mais uma vez e o entendia, mas me senti um pouco incomodado com o seu jeito de lidar com a promessa que havia feito e ainda assim fazer o que queria. Eu não conseguia entender como ele havia aprendido aquele tipo de coisa. Fingir uma queda para poder chorar por outro motivo. Aquilo era trapaça, mentira, e nunca havíamos ensinado coisas do tipo para Eiji. Fiquei preso nesse assunto pelo resto da noite, imaginando como ele poderia ter conseguido ter aquele tipo de raciocínio sozinho, mas no fim, apesar de hesitante por não ser algo bom, não pude deixar de me sentir um pouco orgulhoso. Ele era inteligente demais.
***
Nós passamos um pouco mais de uma semana sem ver Izuna. Ele deu notícias algumas vezes durante aqueles dias, mas como sempre, não podia dar tantos detalhes sobre o seu afastamento, o que me deixava preocupado não só com ele, mas também com o meu clã.
Era difícil viver dividido como vinha sendo. De um lado queria avisar Hashirama que talvez os Uchiha estivessem planejando algo, mas do outro, não queria incitar outra batalha em que Izuna poderia se machucar novamente. Se pudesse, o faria ficar conosco de vez, mas sabia que seria impossível se eu ainda lutasse naquela guerra ao lado de meu irmão. Izuna jamais aceitaria fazer parte dos Senju enquanto fossemos uma ameaça para os Uchiha, e eu... ainda nem ao menos sabia se seria capaz de fazer parte do clã dele, mesmo sem uma guerra. Eu o queria ao meu lado, e não tinha mais aquela sede de sangue Uchiha como antigamente, mas mentiria se dissesse que não guardava magoa alguma daquele clã. Izuna não era responsável pela morte da maior parte da minha família, mas não podia dizer o mesmo dos outros, e ainda havia Madara. Izuna o amava e idolatrava, me contava histórias de quando eram mais novos até aquele momento, mostrando uma pessoa bem diferente do que eu via, e isso deveria me fazer ao menos tentar olhá-lo de outra maneira, mas não conseguia. Ele poderia ser bom para Izuna, mas eram irmãos, aquilo era normal. Madara também poderia não ter ligação com as mortes de Itama e Kawarama, mas... ele havia magoado Hashirama, pisado em seus sentimentos e traído sua confiança. Eu não conseguia confiar nele.
Era uma situação complicada a que vivia, mas não pretendia voltar atrás. Eu não me arrependia, assim como havia dito a Izuna; tudo o que queria era que as coisas pudessem ser menos arriscadas, pois acima de tudo, tínhamos Eiji para proteger. O pequeno estava ficando cada vez mais esperto. Ele havia voltado a perguntar sobre o meu jutsu, e começara a nos questionar o motivo de não poder sair com tanta frequência. Sempre que não podia ir ver Hashirama, ele agia como se fosse nossa culpa e ganhávamos uma boa dose de desprezo por algumas horas do dia. Ele também perguntava de Aika, e os amigos que havia feito no Norte. Eu queria que ele pudesse ter contato com outras crianças com frequência, ter apenas adultos ao seu lado o limitava a aprender certas coisas. Sempre acabava cedendo a muitas coisas por ele, mas não podia ceder a sua carinha de choro quando negava um passeio. Não podia arriscar sua segurança, e ele obviamente não entendia isso.
Izuna ainda não queria contar a ele sobre a guerra, e eu nem ao menos lutei contra suas palavras. Já era difícil tentar explicar para ele os motivos de seus pais de repente estarem agindo de forma diferente um com o outro, e imaginava como seria quando soubesse que ambos éramos inimigos fora daquela cabana. Pensar que um dia suas perguntas seriam ainda mais complicadas me deixava nada ansioso para que crescesse, ainda mais quando chegasse em uma idade em que questionaria o motivo de ter dois homens como pais. Suas perguntas muitas vezes eram inocentes e constrangedoras, mas à medida que iam crescendo, me assustavam cada vez mais.
Izuna havia tido uma rápida conversa com Eiji antes de ir embora. O pequeno havia demonstrado mais de sua irritação ao nos ver simplesmente abraçados, e daquela vez precisou de uma explicação melhor do que a completamente vaga que havíamos dado. Izuna preferiu conversar com ele sozinho, e não soube com detalhes o que havia dito, mas pareceu convencê-lo por aquele momento. Porém, algumas curiosidades sobre o assunto começaram a despertar no pequeno, e sozinho, tive que lidar com algumas perguntas; como quanto tempo ficaríamos daquele jeito, ou se viveríamos felizes para sempre como em sua história, a qual usou como padrão fixo para entender o que acontecia entre nós. Muitas vezes fiquei sem saber o que responder, e isso o deixou cada vez mais pensativo. Eu sabia que logo também teria que ter uma conversa séria com ele, porém, adiei o quanto pude, enquanto me dividia em escolher as palavras certas e sentir uma saudade tremenda de seu pai.
Izuna havia mandado um recado dias depois, dizendo a data exata em que voltaria para nós. O pequeno e eu ficamos extremamente ansiosos o dia todo, mas no meio da tarde recebemos um novo recado, avisando que ainda viria, mas um pouco mais tarde do que pretendia. A ansiedade aumentou um pouco mais depois daquilo. Não houve um dia sem ele em que não deitei em minha cama cheio de saudade de tê-lo em meus braços, ou simplesmente ouvi-lo falar, ou brincar e brigar com Eiji durante dia. E para piorar, para tentar controlar sua ansiedade, o pequeno voltou com suas perguntas.
— Você vai abraçar o papai quando ele chegar? — Perguntou ele, tentando parecer despreocupado, mas era óbvio o ciúme em seu tom de voz e em seguida no olhar, quando respondi que provavelmente iria.
Eiji ficou quieto após ter sua resposta, e mais uma vez pensativo. Ali vi o momento de finalmente termos a nossa conversa. Não o queria pensando bobagens ou se sentindo excluído, e teria que passar por cima daquele medo bobo de admitir o que sentia para uma criança. Porém, não cheguei nem ao menos a me sentar ao seu lado em uma das cadeiras da cozinha. A presença de Izuna foi sentida por mim assim que o pensamento da conversa passou por minha cabeça, e a nossa casa se tornou agitada quando contei ao pequeno sobre seu pai. Ele não tentou se esconder ou abriu a porta antes de Izuna como sempre fazia. Eiji desceu da cadeira, me olhou de canto e esperou pacientemente, até a porta enfim ser aberta.
Meu coração bateu rápido quando o vi depois de todos aqueles dias, e sorri como bobo quando ele fez o mesmo em minha direção. Eu definitivamente havia sentido a falta daquele sorriso.
Eiji correu para os braços dele assim que a porta foi fechada, e roubou a nossa atenção. Izuna o recebeu com um forte abraço e beijos em suas bochechas, que o fizeram rir divertido. O pequeno logo o encheu de perguntas sobre sua demora, mas não teve suas respostas quando seus pés descalços foram notados. Izuna o mandou buscar ao menos meias imediatamente, e feliz demais por ter seu outro pai, Eiji correu para o segundo andar sem reclamar como normalmente faria.
Eu os observei em silêncio, até enfim voltar a ter a atenção de Izuna sobre mim.
— Está muito frio, Tobirama — ele se aproximou enquanto falava e também retirava o cachecol e desabotoava o grosso casaco que usava. — Como pôde deixá-lo sem as meias?
Ele estava bravo comigo, e como era costume, chegou me enchendo de problemas que seriam facilmente resolvidos. A lareira estava acesa e esquentava a cabana perfeitamente, mas não foi o suficiente para Izuna, que continuou a falar sem parar. Sorri calmo ao vê-lo reclamando como sempre. Eu havia sentido falta daquilo.
— Eu estou muito bem, Izuna, obrigado — disse debochado, assim que ele parou à minha frente. — E quanto a você?
Ele também sorriu antes de apoiar as mãos em meu peito, e em seguida se inclinar em minha direção. Nossos lábios se juntaram em uma carícia rápida, e logo o largo sorriso dele estava ali para aquecer o meu peito.
— Muito melhor agora — ele respondeu risonho e subiu as mãos até os meus ombros.
— Está gelado — notei ao esbarrar nossos narizes. — Deixe-me aquecê-lo, hm?
Minhas mãos deslizaram por baixo do grosso casaco que ele usava e assim que rodeei sua cintura com os braços, o levantei alguns centímetros, até ficarmos na mesma altura. Izuna riu em tom baixo quando se segurou em meu pescoço e correspondeu o beijo saudoso que comecei em seguida. O senti suspirar em minha boca enquanto aprofundava ainda mais a caricia, e acabei sorrindo satisfeito com aquilo. Eu havia sentido tanto a falta dele. Parecia que a distância havia se tornado ainda pior depois que passamos a nos envolver daquela maneira, e meus braços o apertavam sobre mim como se não o tocasse há meses, quando na verdade não nos víamos há pouco mais de uma semana.
Os beijos extremamente longos se tornaram os meus favoritos por causa dele. Os lábios de Izuna eram deliciosos e viciantes, e era difícil conseguir largá-lo quando estávamos daquela maneira. E eu teria continuado com aquele beijo por muito mais tempo, porém, a voz que ouvimos não muito longe dali, infelizmente nos fez parar e contra a vontade separamos os nossos lábios.
— Que nojo! — Foi a frase que nos interrompeu. Imediatamente segui o som daquela voz, e vi Eiji no meio da escada e nos olhando boquiaberto. — Eca! — Ele exclamou enquanto fazia uma cara enojada e em seguida desceu o resto dos degraus.
— Ei, pequeno — tentei agir normalmente, pois sabia que Izuna estava se sentindo envergonhado por termos sido pegos aos beijos por Eiji, que se aproximou rapidamente e nos encarou de perto.
— Mas o que é isso? — Ele perguntou indignado e ao mesmo tempo claramente chocado.
Izuna sorriu sem jeito enquanto colocava uma mecha de seus cabelos atrás da orelha, e aquele era o sinal de que ele começaria a se enrolar por conta da vergonha, então tomei a frente naquela conversa e o respondi com naturalidade:
— Nós já te explicamos o que é um beijo.
— Não — ele bateu o pé no chão com nervosismo. — Esse é muito diferente. Você... — Eiji hesitou por um momento, parecendo criar coragem, e em seguida levantou o dedo em minha direção. — Você colocou a língua na boca dele!
Eiji fez outra careta enojada e colocou a língua para fora, como se fosse vomitar.
Fiquei um pouco sem jeito por ouvir aquilo, mas não mais que Izuna, que corou por completo no mesmo instante. Porém, ele não pareceu a fim de permanecer em silêncio, e seus lábios logo se moveram, mas antes que um de nós pudesse dizer qualquer coisa, Eiji nos cortou com seu olhar subitamente raivoso, e em seguida suas mãozinhas se chocaram contra as minhas pernas. Ele pareceu ainda mais frustrado ao não conseguir me empurrar como queria, e seus olhos se encheram de lágrimas ao dizer:
— Vocês não podem fazer isso!
— Eiji — Izuna o chamou com repreensão pelo o que havia feito, mas ao mesmo tempo o olhou preocupado e tentou tocá-lo quando se abaixou para olhá-lo de perto, mas Eiji o ignorou e saiu correndo dali, indo diretamente para a sua cama e afundando o rosto no travesseiro.
— Espere — segurei o braço de Izuna quando percebi que ia segui-lo. — Deixe-me conversar com ele desta vez — pedi enquanto acariciava suas costas. — Por que não vai ver como ficou o segundo andar? Agora só faltam móveis novos.
Izuna me olhou preocupado e em seguida para Eiji que chorava baixinho contra o travesseiro. Ele hesitou por um momento, mas logo assentiu desanimado e seguiu para a escada após eu beijar sua cabeça. Eu sabia que ele também queria conversar com o pequeno, mas daquela vez senti que eu é quem deveria fazer aquilo. Eiji parecia nervoso com ambos, mas tive uma atenção especial em sua fúria, e foi o que me motivou ainda mais a fazer aquilo sozinho, além de dever a ele muitas respostas daquela semana.
Me aproximei da cama, podendo ouvir o soluçar abafado pelo travesseiro.
— Ei — o chamei assim que sentei ao seu lado. — Está bravo comigo? — Toquei suas costas ao perguntar, e recebi silêncio por alguns segundos. Mas Eiji aos poucos virou a cabeça e revelou metade do rosto avermelhado quando enfim assentiu. — Por quê? — Perguntei um pouco afetado por vê-lo daquela maneira por minha causa, e o sentimento piorou quando recebi a minha resposta.
— Você... e o papai... — ele tentava falar entre soluços — vão me deixar de lado agora.
Imediatamente eu me deitei ao seu lado, e passei a acariciar a suas costas enquanto falava com seriedade:
— Mas é claro que não, pequeno. Nós nunca o deixamos de lado. Por que faríamos isso agora? — Minha mão subiu até seus cabelos e enfim pude ver seu rosto por inteiro quando se virou completamente para mim. — Nós te amamos mais do que tudo.
— Promete? — O pequeno perguntou em tom baixo e rouco. Eu assenti rapidamente, e o ouvi suspirar assim que desviou o olhar para baixo.
— Você não gosta de ver o papai e eu juntos desse jeito?
— É estranho.
— Eu sei — disse em tom baixo e também desviando o olhar. Eu sabia muito bem o quão estranha era aquela situação, e pensar que se aquilo era óbvio para uma criança que praticamente nada sabia da vida, me trazia uma leve insegurança.
Izuna e eu éramos inimigos de guerra, criados para nos odiar, e ainda por cima, como bônus naquela história completamente fora do normal, éramos dois homens — apaixonados e que tinham um filho. Mesmo esses ainda não sendo os motivos da estranheza do pequeno, era óbvio que para os outros seria se soubessem. Mas ainda depois de repassar toda a situação em minha mente naquele momento, não consegui ter aquela insegurança por muito tempo. Não me importava o que achassem de nós no futuro, pelo o contrário, queria que falassem o quanto quisessem, pois, os burburinhos significariam que passaríamos por aquela época sem precisar nos separar. Eu poderia perder tudo o que tinha. Dinheiro, nome, reputação, mas não a eles, que eram os únicos que me importavam juntamente com o meu irmão.
— Por que vocês têm que ficar assim agora? — A pergunta do pequeno me tirou de meus pensamentos, e voltei a encarar seus olhos avermelhados.
— Bem... porque temos sentimentos um pelo outro, — toquei sua mão ao falar — um pouco diferente do que temos por você, mas não quer dizer que é maior ou melhor.
Eiji desviou o olhar outra vez quando assentiu ainda chateado, e foi quando percebi que obviamente ele já havia escutado aquilo de Izuna. Ele agora queria a minha resposta.
— Vou te contar um segredo, ok? — Disse ao me aproximar um pouco mais, e como esperei, seus olhos curiosos voltaram para mim. — Izuna e eu nos conhecemos há muito tempo, desde que éramos pequenos.
— Mesmo? Pequenos iguais a mim?
— Mesmo — sorri um pouco mais tranquilo por vê-lo mais interessado do que triste. — Mas não tão pequenos assim. Tínhamos dez anos de idade.
Ele ficou pensativo com minhas palavras, provavelmente tentando imaginar como era uma criança de dez anos.
— Vocês eram amigos? — A pergunta veio com ainda mais curiosidade e enfim o vi sorrir, mesmo que pouco.
— Não — respondi entre uma breve risada. — Nós brigávamos bastante, até mesmo depois de crescidos. — O pequeno pareceu surpreso ao me ouvir. — Mas paramos com isso quando você chegou em nossas vidas — sorri outra vez ao me lembrar dele tão pequeno em meus braços. — Nós tomamos conta de você juntos, e sem perceber, acabamos tomando conta um do outro também.
— Então viraram amigos — ele insistiu naquele assunto ao afirmar em vez de perguntar daquela vez. Parecia não conseguir nos imaginar brigando com frequência.
— Sim, e graças a você — segurei seu nariz ao falar, e logo ri juntamente com ele. Acabei também me empolgando em contar aquelas coisas. — Depois, acabamos vendo que não podíamos ser só amigos, nos apaixonamos, como naquele livro do herói — Eiji assentiu rapidamente ao ser lembrado da história —, é por isso que os nossos carinhos são diferentes.
O pequeno assentiu para mim, mas sabia que ele ainda tinha perguntas em sua mente, principalmente por ter nos visto daquela maneira que para ele era completamente nova e estranha.
— Você se lembra de como se sentiu hoje, quando o viu entrar pela porta? — Recebi uma resposta afirmativa assim que perguntei. — Como se sentiu?
— Feliz.
— Por quê?
— Porque eu estava com saudade — ele esticou os lábios, formando um adorável bico ao explicar o que sentiu.
— Eu também — ri em tom baixo. — Papa sentiu tanto a falta do papai. É por isso que agi daquela maneira — disse em tom baixo, um pouco envergonhado por admitir aquilo em voz alta, mas valeu a pena depois de tudo, pois mais uma vez vi Eiji sorrir. — Mas é um carinho de adultos, e você não deveria ter visto. Eu sinto muito — arrumei sua curta franja ao me desculpar, e de repente vi suas bochechas gordinhas ficarem levemente avermelhadas, e claramente não pelo choro de mais cedo.
Eiji se arrastou na cama, ficando ainda mais próximo de mim. Em seguida ele olhou para a escada e quando voltou a olhar em meus olhos, colocou a mãozinha ao lado dos lábios, como se quisesse cobri-los para outros que não fossem eu.
— Papa... você ama o papai?
A pergunta sussurrada como se fosse um segredo me atingiu em cheio, e meu coração disparou ao mesmo tempo em que senti o meu rosto esquentar. O pequeno esperou por uma resposta com aparente ansiedade, e mesmo envergonhado por admitir tanto para ele, acabei assentindo devagar.
— Como se sente sobre isso? — Perguntei, também ansioso, quando enfim achei a minha voz.
Eiji se mexeu na cama e deitou as costas sobre o colchão. O pequeno passou a brincar com os próprios dedos enquanto olhava unicamente para eles.
— É melhor do que brigar — enfim disse e me olhou novamente. — Eu gosto. Mas não quando ficam grudados.
Sua cara emburrada, mas ao mesmo tempo querendo ceder, me fez abrir um largo sorriso e não resisti em enchê-lo de beijos. Eiji riu enquanto tentava me afastar, e quando enfim conseguiu, me senti completamente aliviado por vê-lo sorrir daquela maneira novamente.
— Eu te amo, pequeno — acabei dizendo espontaneamente e recebi mais um prêmio por ver sua expressão envergonhada, ao menos por alguns segundos.
— Eu também — ele segurou o meu rosto com as duas mãozinhas ao dizer. — Amo você mais que o papai ama. E amo o papai mais do que você ama.
— Oh, isso é uma competição? — Ri divertido diante daquilo e em seguida fiz cocegas em sua barriga.
Ele ria enquanto me empurrava e pedia para que eu parasse, mas ao mesmo tempo se agarrava em meus braços. O pequeno estava acostumado a ter toda a atenção só para ele, por isso estava tão chateado ao nos ver juntos daquela maneira, então, mesmo louco para subir e ficar com Izuna, ou chamá-lo para se juntar a nós, resolvi ficar mais algum tempo ali.
Eiji logo se aquietou e quando voltou a me olhar daquele jeito curioso de sempre, me encheu de perguntas sobre o nosso passado, e como brigávamos. Eu não podia dizer a ele como tudo realmente era, mas por sorte consegui distraí-lo daquelas perguntas, e acabei começando uma história sobre Hashirama quando era mais jovem. Eiji ficou atento e reagiu em cada parte, mas dormiu antes de chegar na metade da história. Ele havia acordado muito cedo para esperar Izuna, e no fim não aguentou por tanto tempo. E só o deixei quando me certifiquei de que estava completamente confortável e dormindo profundamente.
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