Eiji

24 Capítulo Dezenove


Notas iniciais
Olá, amores~ Estava me preparando para postar no sábado, como costume, mas com o feriado, e principalmente por ser dia das crianças, não teve como não me sentir inspirada com Eiji. Então aqui estou. Espero que gostem!

O discurso de Hashirama e as poucas, mas claras palavras de Madara fizeram com que muitos à nossa volta enfim abrissem os olhos. Mesmo que ainda relutantes, alguns apertaram as mãos, outros apenas aceitaram a decisão dos líderes em silêncio, mas depois de tudo, houve aqueles que não conseguiram entender o significado daquela parceria, ou simplesmente não quiseram compreender. Menos da metade dos Hagoromo não aceitaram se juntar a nós, mas eles eram experientes, e não foram tão tolos para nos enfrentar. Eles se retiraram em silêncio, mas não antes de um deles, o que parecia ser o líder dos que resistiram, parar em frente de Hashirama e Madara, e cuspir em seus pés.

Madara tentou reagir, mas Hashirama o deteve com um discreto olhar. O irmão de Izuna não parecia que recuava por pouca coisa, mas ele mostrou não se importar em seguir o jeito de Hashirama daquela vez. Ambos pareciam saber se comunicar muito bem para quem, não muito tempo antes, só conversavam através dos punhos. Por um momento me lembrei de Izuna e eu, mas me senti estranho ao enfim conseguir pensar com clareza sobre tudo o que havia acontecido naquela batalha. Eles se amavam, era claro, mas, ainda assim, conseguiram se enfrentar. Eu não sabia se isso era um sinal de que ambos eram mais fortes que nós, os irmãos mais novos, ou se simplesmente não se importavam de machucar um ao outro por uma causa. Eu jamais conseguiria ser “forte” de tal maneira, e achava que Hashirama também. Minha mente trabalhou em cima do assunto enquanto os observava conversando com os membros dos clãs, um ao lado do outro, tranquilos demais. E foi quando percebi que meus sentimentos por Izuna haviam me deixado confuso não somente sobre nossa relação, mas também sobre nossos irmãos. Eu não estava errado sobre Hashirama, apenas não havia prestado a atenção em nada além de Izuna no momento em que Madara caiu.

A certeza de que estava certo veio quando nossos irmãos se aproximaram, e em tom baixo Izuna perguntou se Madara estava bem. Ele o olhou de forma ofendida ao afirmar que não havia se machucado, e quando desviei a atenção para Hashirama, o vi se agitar e olhar para o chão. Era claro que ele não iria conseguir machucar Madara, não depois de tudo. Ele era como eu.

No momento não consegui tirar palavra alguma de meu irmão sobre o assunto, porém, mais tarde soube que a luta entre ambos havia começado séria, mas no fim não conseguiram manter os sentimentos de outrora. Madara também pisou em seu orgulho naquele dia, e admitiu que era Hashirama quem precisava derrotá-lo para que tudo terminasse de uma vez. Eu fiquei tão surpreso quanto Izuna ao saber de outro movimento inesperado de Madara. De alguma forma, ele havia mudado, e quando o ouvi perguntar sobre Eiji, entendi o porquê. Ele também era como eu.

Após ter certeza de que todos estavam de acordo e que os corpos estavam sendo devidamente retirados do campo destruído, Izuna e eu enfim partimos. Eiji estava seguro, mas, ainda assim, não conseguimos esperar por mais um minuto sequer para ir até ele.

O pequeno nos recebeu com um largo sorriso ao pôr do sol. Ele correu até nós, sendo recebido pelos braços de Izuna, que o apertaram com força ao trazê-lo para seu colo. Eu me distraí com ambos por alguns segundos, admirando a minha família, me sentindo aliviado por enfim poder dizer que estávamos a salvo e juntos, porém, a presença de outras pessoas me tirou os pensamentos e sentimentos tranquilos. Aos poucos os moradores saíram de suas casas de madeira, direcionando seus olhares amedrontados para Izuna, e confusos em minha direção.

Senti Izuna tenso ao meu lado, mas não tive tempo de olhar em sua direção. No segundo seguinte o meu olhar se encontrou com o de Aika, que mostrava uma mistura dos olhares dos outros, mas com algo a mais; e foi a minha vez de me sentir tenso com a atenção.

Mais uma vez nos víamos cercados de cochichos, mas estes eram mais assustados do que surpresos. Todos ali eram pessoas comuns, mas que já haviam visto muito da maldade do mundo shinobi, e por ser o meu povo, toda a crueldade era vista como apenas dos Uchiha e seus aliados. Eles estavam apavorados com a presença de Izuna.

Aika foi a primeira a se aproximar, e sem tirar os olhos de Izuna, perguntou a mim o que estava acontecendo. Ela nunca havia visto Izuna, aquela era a primeira vez em tantos anos, mas Aika o conhecia. Quando conheci Izuna, eu não falava de outra coisa além do shinobi que havia ousado me enfrentar e se igualar a mim, e ao crescer, o costume continuou, mesmo que não com tanta frequência quanto antes. Aika sabia exatamente como ele parecia, e até mesmo seu jeito de agir. Eu não havia poupado nenhum detalhe.

Eu podia sentir que ela estava tão apavorada quanto os outros, e não a culpava. Depois de tudo o que havia dito a ela sobre Izuna, aquela reação era a esperada, porém, foi com surpresa que a vi observá-lo com Eiji em seu colo, e aos poucos relaxar os ombros. Seu olhar se voltou para mim, e ela abriu um sorriso ansioso ao dar um passo à frente.

— Acabou? — Perguntou Aika, deixando os outros à nossa volta mais ansiosos do amedrontados.

Eu também me aproximei dela, e em tom baixo dei a resposta, em seguida pedi que levasse Eiji e Izuna para dentro de sua casa. Aika hesitou assim como Izuna, mas ambos andaram em silêncio.

Esperei que os três estivessem fora de minhas vistas, e finalmente dei atenção ao povo que parecia não saber mais o que sentir. Não querendo prolongar seus sofrimentos, eu anunciei o fim da guerra, assim como o meu irmão havia ordenado. As pessoas soltaram sons surpresos. Alguns pareciam descrentes e outros tão alegres que passaram a se abraçar, mas as expressões em seus rostos logo mudaram quando prometi a visita de Hashirama em breve, para dizer qual seriam os nossos próximos passos, e também, consigo traria a lista de feridos e mortos na última batalha. Eu observei a todos, sem exceção, derramar lágrimas; tanto tristes quanto de alivio. A guerra havia acabado, estavam a salvo, mas todos haviam perdido muito. Não havia como ter apenas um sentimento quanto o desfecho daquela longa fase nas nossas vidas.

Eu me retirei após responder as perguntas mais urgentes, e com sentimento parecido com o de todos, entrei pela porta da casa de Aika. A primeira visão que tive foi de Izuna, ajoelhado sobre o chão enquanto Eiji o segurava pelos ombros.

— Você demorou — o pequeno disse em tom manhoso, e vi Izuna forçar um sorriso. Parecia que aquela não havia sido a primeira vez que o pequeno estava reclamando daquilo.

— Eu sei — respondeu Izuna. — Sinto muito, bebê.

Enquanto me livrava da armadura e a deixava de lado, vi Eiji tocar o rosto de Izuna, onde um corte comprido se destacava em sua pele clara.

— Dói?

Izuna balançou a cabeça em negação ao tocar a mãozinha sobre sua bochecha.

— Então por que está triste?

A segunda pergunta de Eiji fez meu peito se apertar, e a sensação piorou quando Izuna não conseguiu disfarçar seu estado. Izuna abraçou o pequeno e se levantou com ele em seu colo, e com a voz trêmula, afirmou que estava apenas cansado.

Aika estava ao lado deles, eu podia senti-la, mas nada conseguiu desviar o meu olhar daquela direção, e muito menos afastar os meus braços que apertaram ambos com força assim que os alcancei.

Havíamos aguentado longas horas no campo de batalha, e só naquele momento senti todo o cansaço da luta me tomar. Mas não foi apenas pelo esforço físico; minha mente também estava à beira da exaustão, e ver Izuna daquela maneira outra vez me fez entrar em um estado amortecido. Ele não estava chorando como antes, mas sua expressão triste me preocupava, mesmo estando de maneira parecida. Eu queria confortá-lo e dizer que tudo ficaria melhor a partir daquele dia, mas não consegui. Estava cansado demais para qualquer coisa.

Eu só voltei a sentir meus movimentos novamente quando meus olhos se levantaram, e finalmente encarei Aika, que se mantinha ao nosso lado, observando-nos atentamente, mas não era como antes. Ela não parecia surpresa, amedrontada, ou de qualquer outra forma, e não poder ler sua feição me fez estremecer levemente. Eu não fazia ideia de como ela iria reagir quando soubesse sobre Izuna, e pelo o que observava de nós, era bem provável que já desconfiasse.

Eu soltei o abraço que dava em Izuna e Eiji, e dei um passo à frente, pronto — ou quase — para esclarecer as coisas. Ela também fazia parte de minha família, e se havia alguém que merecia alguma explicação, essa pessoa era Aika. Mas antes que eu me aproximasse, vi sua expressão mudar, e após um suspiro, em seus lábios um leve sorriso se abriu. Nós não conversamos o que eu queria naquele momento, mas eu senti que ela havia compreendido a situação de alguma forma, e mais tarde soube com certeza.

Ela não nos deixou ir embora naquele dia, dizendo que não permitiria que levássemos Eiji enquanto estivéssemos tão cansados e vulneráveis. Quando soube que nem todos cederam a aliança, Aika até mesmo apelou para Izuna, e o assustou ao agarrar seu braço, levando-o até um dos quartos, e ela ordenou que ele dormisse ali. Por um momento bom humor me tomou, e não resisti ao rir da expressão assustada de Izuna.

“O segundo shinobi mais poderoso dos Uchiha com medo de uma idosa Senju”, o pensamento me fez rir outra vez, e os segui pela casa, sendo acompanhado de Eiji, que segurou em minha mão, perguntando se realmente dormiríamos os três ali. O pequeno sorriu largamente quando, não querendo contrariar Aika, afirmei que sim. Ele soltou a minha mão, e animado, correu na minha frente.

Eu tentei seguir pelo mesmo caminho que o meu filho, mas fui impedido por Aika, que saiu do quarto e segurou meu pulso. Ela me olhou com seriedade, e então soube que enfim ouviria algumas palavras sobre a minha vida.

— É ele, não é? — Perguntou ela, ainda séria no começo, mas no fim, sorrindo de maneira estranha.

— Sim, é Izuna Uchiha — a respondi, olhando-a com confusão. Achava que já estava bem claro quem ele era. Ela havia mostrado que sabia ao se dirigir a ele mais cedo.

— Eu sei quem ele é, seu idiota! — Exclamou ela, ofendida, mas com um toque bem-humorado ao revirar os olhos. — Me refiro a pessoa que te fez finalmente concordar com o seu irmão.

Aika cruzou os braços e me olhou de forma divertida, provavelmente por me ver sem jeito como fiquei naquele momento. Eu não sabia como ela fazia aquilo, mas conseguia ter qualquer informação, mesmo estando tão distante — Aika me assustava.

— Eu conversei com Hashirama — ela riu ao confessar, e soltei um suspiro nervoso. Era claro que meu irmão abriria a boca na primeira oportunidade. — Mas não fique nervoso com ele. Seu irmão não me disse muito, apenas que sua mudança era principalmente por Eiji, mas que havia outra pessoa e... notei que Eiji diz “papa” e “papai”, se referindo a pessoas diferentes.

Aquela foi a vez dela se mostrar envergonhada, e com o jeito que Hashirama havia aprendido com ela, coçou a nuca ao rir de maneira tímida. Eu finalmente me senti mais tranquilo em sua presença, e deixei minha postura ao abaixar os ombros.

— Isso é tudo o que tem a dizer? — Eu havia ficado aliviado, mas esperava por palavras menos amigáveis.

Aika deu de ombros.

— Eu o conheço, sei que não é imprudente, e que ama aquele rapaz, só precisei olhar para vocês um ao lado do outro — ela riu outra vez. — Ele despertou o melhor em você, então sou agradecida — Aika deu um passo à frente, abaixando o tom de voz —, apesar de ter um pouco de medo dele.

Eu ri um pouco alto demais, recebendo um olhar repreendedor de Aika.

— Eu acho que Eiji foi quem despertou o nosso melhor — afirmei quando lhe toquei o braço. — E não há necessidade de temê-lo, acredite em mim; Izuna é tão amoroso quanto Eiji.

Ela me olhou duvidosa, e ao se afastar, a ouvi murmurar que eu dizia aquelas coisas por causa do que sentia por Izuna — ela ainda duvidava que um Uchiha pudesse ser “amoroso”.

Nós passamos a noite na residência de Aika. Izuna demorou a dormir, temendo ser atacado pelos moradores que não pareciam muito contentes com sua presença, mas depois de tanto insistir que todos eram inofensivos, ele enfim conseguiu fechar os olhos. Ele também estava cansado, e não demorou para que eu escutasse sua respiração se tornar pesada por conta do profundo sono.

***

Dias passaram após a visita de Hashirama no Norte e nossa partida de volta para a cabana, e ainda era um pouco difícil esquecer ou ao menos aquietar as lembranças de nossa última batalha. Nós sabíamos que nossa recuperação seria lenta, mas saber não fez com que fosse menos doloroso.

Após voltarmos para casa, nós estávamos sempre juntos e com Eiji próximo, e foi difícil quando Izuna teve que se ausentar por um dia inteiro, para comparecer ao funeral de seus companheiros shinobi. A cerimonia de meu clã aconteceu dois dias antes daquele, e corri de volta para casa, grudando em Izuna e Eiji mais uma vez. Mais do que antes, era doloroso ficar longe de ambos. Por sorte Izuna parecia sentir o mesmo, e voltou para nós rapidamente depois de se despedir de Madara.

Uma semana havia passado, e nós ainda estávamos tentando nos recuperar das perdas, mas estávamos bem, de uma maneira que jamais estivemos antes daquele momento. O meu peito pesava ao pensar nos garotos que eu havia treinado e que enterrei naquela semana; meus irmãos também visitaram minha mente, me fazendo imaginar como estariam felizes com o fim da guerra se estivessem vivos, mas apesar de tudo, também havia alivio. Eiji e Izuna estavam a salvo, e eu, ao lado deles para poder planejar nosso futuro juntos. Imaginar que realmente Izuna e eu, juntos, poderíamos ver Eiji crescer, afastava a tristeza, e sempre trazia um fraco sorriso para os meus lábios.

Quando os meus pensamentos voavam para o possível futuro, não conseguia controlar a alegria que enchia o meu peito, e no final daquela semana não foi diferente. Eu apertei Izuna com força em meus braços ao imaginar Eiji adolescente e nos dando trabalho, e sorri como bobo quando fantasiei com seu pai mais velho e ainda mais atraente. Izuna não podia ouvir os meus pensamentos, mas, ainda assim, reclamou de meu jeito avoado e como ele próprio disse “com cara de idiota” — ele havia aprendido tal frase com Aika. A fim de provocá-lo o apertei ainda mais, arrancando uma risada de nosso pequeno, que estava sentando no chão juntamente conosco, brincando com seu cavalo de madeira enquanto também se dividia em desenhar.

Após Izuna cessar a reclamação e ajeitar suas costas em meu peito, eu afastei seus cabelos que estavam soltos naquele dia, e o ouvi outra vez quando beijei levemente seu pescoço. Mas não houve reclamações daquela vez, apenas um baixo som, semelhante a um ronronar enquanto sentia sua mão subir para o meu cabelo. Uma agradável calmaria nos abraçou no mesmo instante em que abaixei minha cabeça outra vez e apertei sua cintura com um pouco mais de força, mas sem surpresa alguma ela se foi rapidamente — afinal, quietude nunca fora o forte de nossa família.

Ouvimos a voz de Eiji um pouco alta demais, demonstrando que ainda não admitia nos ver abraçados sem estar com ele no meio. Eu ri ao levantar o rosto e ver sua expressão emburrada, e Izuna por pouco não fez o mesmo. O rosto de Eiji mudou rapidamente, e o observamos endireitar a postura de maneira atípica — até mesmo pareceu um adulto por alguns segundos. O pequeno sentou sobre as pernas e pousou as mãozinhas nos joelhos e me encarou com seriedade, em seguida fez o mesmo com Izuna.

E então, percebi que algo grande estava por vir.

— Posso fazer uma pergunta?

A pergunta só trouxe certeza; era algo grande e constrangedor. Sempre era.

— É claro, pequeno — o incentivei, mesmo sabendo que me arrependeria.

Eiji se ajeitou sobre suas pernas mais uma vez, e com claro nervosismo, mexeu nos curtos cabelos negros.

— Quando eu vou ter um irmãozinho? — A pergunta saiu rápida e eufórica, e em tom alto e fino.

— O quê? — A minha voz e a de Izuna soaram pelo quarto de Eiji em tom ainda mais alto do que o do pequeno, tamanha fora a nossa surpresa. Em momento algum pensei que era aquele tipo de pergunta, ou sequer que ele pensava em coisas do tipo.

— Kouji tem o meu tamanho e tem um irmão... — o pequeno nos contou em tom baixo e manhoso.

Kouji era o amigo que Eiji havia feito no Norte, e ficava feliz que o pequeno tinha alguém de sua idade para brincar, mas isso foi só até aquele momento, em que o maldito Kouji nos encurralou em um canto enquanto não sabíamos como explicar a situação ou sequer dizer qualquer coisa.

Eu permaneci com os lábios abertos, na esperança que em qualquer minuto algo saísse por eles, mas foi difícil enquanto encarava os olhos esperançosos de Eiji.

Izuna se desprendeu de meus braços, e o ouvi suspirar profundamente antes de ver seu rosto tão desesperado quanto o meu.

— Não é assim tão simples, bebê — Izuna foi o primeiro a conseguir falar, e se inclinou para a frente, tocando uma das mãos de Eiji.

— Por quê? — A óbvia pergunta veio, e mais uma vez ficamos em silêncio. Aquilo era muito mais difícil do que qualquer batalha.

O assunto sobre a curiosidade de Eiji estar aumentando a cada dia já havia nos cercado, e concordamos em pensar em uma maneira menos complicada de explicar para ele, quando perguntasse o motivo de ter dois pais no lugar de uma mãe e um pai, como as outras família. Nós pensamos com cuidado, a fim de nos preparar para o momento que sabíamos que não demoraria a vir, mas jamais esperamos aquele tipo de pergunta. Nós tínhamos a resposta ensaiada sobre o nosso relacionamento, mas nada sobre o assunto que Eiji abordou, o que nos deixou completamente mudos outra vez, enquanto encarávamos a face esperançosa do pequeno, que no fim se tornou frustrada.

— Eu quero um irmão! — Exclamou Eiji, se levantando e batendo os pezinhos sobre o chão de madeira. Seus braços se cruzaram e vi sua expressão se tornar chorosa.

— Ei, ei! — Eu me aproximei, tocando seus braços, obrigando-o a descruzá-los. — Isso é uma coisa que eu e o papai que têm que decidir, certo?

Acabei sendo mais duro do que deveria, e Eiji derramou as lágrimas que estava segurando. Eu olhei para Izuna com desespero, e vi seu olhar repreendedor um pouco antes de suavizar e dar atenção ao pequeno, que não aceitou o abraço que fora oferecido. Ele estava decidido a ter o que queria.

Eu nunca havia pensado no assunto. Até ali, em todas as vezes que imaginava o futuro, éramos apenas nós três. Na situação em que vínhamos vivendo nos últimos anos já era um milagre termos Eiji; um milagre que também jamais havíamos pensado em ter. Um segundo filho não estava em nossos planos. Izuna também pareceu não ter pensado no assunto, e se mostrou tão despreparado quanto eu naquele momento, porém, quando o espanto que a pergunta do pequeno causou passou, me senti diferente. O que imaginei poucos minutos antes voltou para a minha mente, mas desta vez com uma quarta pessoa ao nosso lado, tão pequena e graciosa, e não foi difícil imaginar Izuna podendo tê-la em seus braços desde o primeiro suspiro, coisa que não foi possível com Eiji.

Meu peito se aqueceu com a cena imaginada, e mais uma vez o que jamais esperei soou como a melhor coisa que poderia acontecer. Eu também queria um irmão para Eiji.

— Isso não é algo que acontece rápido, Eiji — enfim expliquei para ele, voltando a tocar seus braços. Eu olhei para Izuna ao meu lado, que assentiu diante de minhas palavras, e um pouco receoso com sua reação, com a outra mão toquei a sua que estava sobre o chão. — Mas podemos conversar sobre o assunto.

Obviamente eu ainda não sabia a opinião de Izuna sobre termos mais um filho, e me senti tenso quando encarei seus olhos arregalados pela clara surpresa. Pensei em dizer algo para deixar claro que era apenas um pensamento, mas o sorriso de Izuna que se abriu em seguida me fez ficar calado. Ele concordou de forma tímida e encostou a testa em meu ombro, ocultando o rosto de minha visão, mas seu jeito foi o suficiente para me fazer sorrir bobamente, e enfim ver Eiji fazer o mesmo.

O pequeno levantou os bracinhos para cima e gritou que teria um irmão, mesmo conosco deixando claro que era apenas uma conversa para o futuro. Apesar de toda a beleza que era imaginar aumentar a nossa família, nós não poderíamos agir imprudentemente. A guerra havia terminado, mas ainda havia muito o que fazer para organizarmos nossas vidas.

Demorou um pouco mais de um ano, após o pedido de Eiji, para enfim termos um sinal de que tudo se ajeitaria, como Hashirama e Madara haviam prometido. Eles trabalharam juntos por meses, viajando e conversando com pessoas importantes, tentando convencê-las de seus ideais, e três semanas após o aniversário de quatro anos de Eiji, recebi o gavião de meu irmão. O recado era tão animado que não consegui segurar o sorriso ao conseguir lê-lo com sua voz em minha mente.

Ele e Madara enfim haviam conseguido mais aliados, e um acordo com o País do Fogo. Finalmente a vila que idealizaram quando eram mais jovens tinha real chance de virar realidade, e ambos pediam por mim e Izuna na próxima reunião com o Daimyō do país.

Eu podia ouvir a risada aliviada de Hashirama ecoar em minha mente, se misturando com a minha no exterior. O último ano havia sido incrível, cheio de planos e sonhos que não eram freados por nossa consciência ou guerra alguma; apesar de toda a agitação e trabalho nos clãs, Izuna e eu nos sentíamos mais livres do que nunca. Mas aquela notícia foi o que trouxe o sentimento da certeza de que estávamos recomeçando as nossas vidas de maneira correta.

Izuna também ficou animado com a notícia, e Eiji, mesmo sem entender o quanto aquilo era um grande passo, se agitou o dia todo, contando seus próprios planos, que envolviam morar perto de seus tios, poder vê-los todos os dias, enquanto dormiria uma vez por semana na casa de Aika, que também deveria morar ao lado dele, juntamente com Kouji e seus outros amigos com quem havia se apegado ainda mais nos últimos meses. Eiji já havia planejado cada movimento que daria na vila de seus tios, até mesmo havia desenhado nossa futura casa, que surpreendentemente parecia muito boa.

Izuna o incentivou a continuar com seus planos, mesmo achando difícil todos serem vizinhos como o pequeno imaginava. A vila que Hashirama planejava seria grande, e nos imaginar envolvidos em sua construção me deixava tão animado quanto eles.

O dia foi passado apenas com conversas entre nós três. Não houve estudos, treinamentos ou limpezas na casa; nós apenas deixamos nossas mentes focarem no que viria a seguir.

Apesar da agitação — ou talvez exatamente por ela — Eiji dormiu em seu horário costumeiro, mas não no lugar onde devia. O pequeno se enfiou entre Izuna e eu sobre a cama, e em tom manhoso, pediu para dormir ali. Ele estava crescendo mais rápido, e não gostávamos de ceder aos seus pedidos mimados que vez ou outra insistiam em aparecer, porém, ainda era difícil resistir a sua expressão fofa e o bico nos lábios.

Eiji dormiu entre nós naquela noite em que estávamos ansiosos para que passasse logo, para podermos nos reunir com nossos irmãos. Nossa conversa sobre o dia seguinte foi feita com sussurros para não acordarmos o nosso filho. A empolgação entre nós era grande demais e pensei que não conseguiríamos nos aquietar, mas Izuna se calou após um tempo. O quarto estava parcialmente iluminado, mas, ainda assim, conseguia observar seus olhos brilhantes me encarando em silêncio. Quando pensei em perguntar se havia algo de errado, Izuna levantou a mão que antes acariciava as costas de Eiji, e a pousou em meus cabelos, que receberam uma leve caricia.

— Eu quero que ele tenha os cabelos como os seus — sussurrou ele, abrindo um largo sorriso.

Meu coração bateu descontrolado assim que o ouvi. Havíamos tido aquela conversa meses atrás, que foi terminada sem conclusão, mas com a decisão de retornarmos a falar sobre aquilo quando tivéssemos certeza de nosso novo estilo de vida. Izuna também queria, e Eiji não havia esquecido o seu pedido, enquanto eu, esperava apenas por aquelas palavras. Meu sorriso foi tão largo quanto o dele, e senti meu peito aquecer ao também levantar meu braço e tocar seu rosto.

— E olhos como os seus — um leve suspirou saiu por meus lábios ao imaginar aquele futuro pela incontável vez. Eu estava feliz; extremamente feliz.

Eiji teria um irmão.

Notas finais
Bom, esse foi o último capítulo, mas calma, terá um epílogo! Se tudo der certo, no próximo sábado ele vai estar aqui pra encerrar a história dos nossos bebês ;; Vou deixar pra falar mais aqui na semana que vem. hehe Até a próxima!