Eiji
25 Epílogo.
Houve uma época em que eu achava que sabia tudo sobre tudo, que era o lado certo em qualquer conflito, e que jamais andaria de uma maneira que não era a esperada. Eu calculava os meus passos com cautela, enfrentava os que opunham a mim; me achava superior, inteligente.
Eu era um idiota.
Tudo? Eu não sabia nem a metade. Meus passos desviaram uma vez e nunca mais voltaram para o mesmo caminho de antes; minha inteligência não serviu para muito quando precisei limpar a fralda de um bebê pela primeira vez, ainda menos na hora de descobrir porque ele chorava tanto. Por um tempo passei a pensar que aquele desvio havia sido a pior decisão que tomei, mas eu não estava certo, como em inúmeras vezes em minha vida.
Eu olhei para trás muitas vezes, mas jamais voltei para aquele caminho. Quanto mais eu me lembrava do passado, mais envergonhado me tornava, e ficou claro que aquele desvio na verdade havia sido a melhor decisão que poderia ter tomado. Estar errado nunca foi tão benéfico, pois graças a todas as mudanças em minha vida, eu era feliz. Mesmo continuando sem paciência alguma em alguns casos.
— Eiji — chamei por meu filho enquanto me lembrava de tudo o que havíamos passado ali. Faltava apenas duas caixas para levarmos para baixo, e depois de doze anos, nós nos despediríamos da cabana de forma definitiva.
Eu gostava de pensar que um dia voltaríamos a visitá-la, como vinha sendo nos últimos anos. Havia muitas lembranças boas ali; com meu pai, Hashirama, Izuna e Eiji... a cada passo que eu dava, olhar que prendia até mesmo na grama do lado de fora, havia algo a ser contado. Mas eu sabia que aquela visita poderia demorar muito.
— Eiji — o chamei novamente, desta vez indo até o corredor, para que minha voz o alcançasse com mais clareza.
Konoha não era perto, e era o nosso lar há algum tempo. Parte de nossas coisas haviam sido deixadas na cabana, nos esperando para quando a vila estivesse cem por cento pronta, e enfim era hora de ir. Estávamos ali há três dias, guardando coisas e na maior parte do tempo, cuidando do treinamento de Eiji, que naquele mês era a minha responsabilidade. Ele era incrível em seus movimentos, mas ainda faltava muita disciplina, e principalmente, a aprender a atender um chamado imediatamente.
Eu coloquei as mãos na cintura, respirando fundo antes de revirar os olhos. Meu peito se inflou e com minha paciência voando para longe gritei por ele o mais alto que minhas cordas vocais permitiram.
— Estou indo, estou indo — ouvi os passos apressados subindo a escada juntamente com sua voz. Em segundos Eiji estava à minha frente, levantando o rosto para me encarar. — Para o que esse escândalo? Até mesmo Konoha deve tê-lo escutado!
Ele achava que por ter completado treze anos naquele mês, era um adulto e que poderia dizer e fazer o que quisesse, mas eu nunca o deixava ir tão longe. Eu me curvei sobre ele, apoiando o meu braço em sua cabeça, deixando ainda mais evidente a diferença de altura, o que sempre o deixava nervoso. Meu rosto se abaixou, ficando próximo ao dele, e encarei com seriedade seus olhos que eram tão parecidos com os meus.
— Se fosse rápido o suficiente, ninguém além de você teria que me escutar, rapaz.
O rosto de Eiji se tornou corado enquanto seu corpo tremia levemente.
— Eu sou — afirmou ele, fechando os olhos pela vergonha de ter gaguejado. — O senhor mesmo disse que eu estou mais rápido.
Ele realmente era rápido, mas insistia em tentar ser tanto quanto eu, e sempre que tocávamos no assunto, Eiji se desconcertava e mostrava que ainda era apenas um garoto, o que obviamente o deixava furioso, e ao mesmo tempo com medo do que eu diria. Izuna não gostava quando eu o provocava, mas o jeito com que conseguia fazer Eiji abaixar o nariz com poucas palavras me divertia ao mesmo tempo que o ensinava a ser mais respeitoso.
Eu acabei rindo em tom baixo, e o deixando sem resposta, me afastei, apontando para uma das caixas que ele iria levar para baixo.
Quando enfim as poucas caixas estavam do lado de fora e fechei a porta da cabana, parei por um momento, a observando ao lado de Eiji. Eu havia achado que me sentiria triste ou com saudade antecipada, mas olhá-la pela última vez não foi tão ruim quanto pensei. Eu amava aquele lugar, mas o que causava tal sentimento com tanta intensidade eram as pessoas com quem convivi ali, e naquele momento, a maioria delas estava bem longe, para onde seguimos caminho após nos despedirmos da cabana.
O caminho era longo, e foi ainda mais por causa das caixas que nos faziam andar devagar enquanto as carregávamos. Eram apenas duas para cada um, porém, estavam tão cheias quanto o baú de brinquedos de Daiki.
— Estou morrendo de calor — reclamou Eiji, assim como eu já estava esperando. — Vamos parar por um instante.
Suas pernas se arrastavam pelo chão de forma dramática, que combinava perfeitamente com sua expressão naquele momento. Os meus olhos reviraram diante da cena.
— Não estamos nem na metade do caminho, não seja mole.
Eiji suspirou pesadamente — outra ação com drama desnecessário.
— Sinto falta do meu pai — provocou Eiji, ciente que Izuna teria usado um tom mais duro que o meu, mas falando porque sabia que eu me afetaria com suas palavras.
— Eu também — rebati de uma forma que sabia que não era a esperada, tendo a vez de suspirar como ele. Eiji me olhou por um momento, e riu em tom baixo ao balançar a cabeça de um lado para o outro.
Não via Izuna há apenas três dias, mas os últimos dez anos juntos me desacostumou a ficar longe dele qualquer fosse o tempo. Nós trabalhamos juntos para construir Konoha; quando surgia algum problema que ameaçava a vila, nós dois resolvíamos no lugar de nossos irmãos; e as missões que nos eram dadas também eram cumpridas conosco lado a lado. Era a primeira vez em muito tempo que me encarregava de algo sem tê-lo ao meu lado. A nossa responsabilidade em casa nos obrigava separar nossas obrigações externas.
Eu sabia que estava sendo dramático como Eiji naquele momento, então me juntei a ele na risada. No fim, o nosso primogênito era mais parecido conosco do que mostrava para os outros, e eu, não tão rígido como gostava de pensar que era. Meus pés pararam no instante seguinte, e ao colocar as caixas no chão, ofereci água e um tempo para Eiji.
No dia seguinte, nós enfim chegamos em Konoha. Eiji havia parado de reclamar na metade do caminho, mas eu pude notar o cansaço em seu sorriso aliviado. Ele ainda era um garoto, e sabia que exigia demais dele vez ou outra, mas sem saber, seu jeito de tentar superar seus limites quando desafiado me enchia de orgulho. Mesmo reclamando, ele sempre conseguia.
Nós andamos um pouco mais, até pararmos em frente à uma casa de dois andares, com as paredes recém-pintadas de branco e janelas azuis.
— O que acha? — Perguntei a Eiji enquanto observava o local finalmente pronto.
— É bonita — Eiji sorriu ao dar um passo à frente. Era a primeira vez que visitava o local. Ele virou a cabeça em minha direção, me olhando um pouco sem jeito. — Parece com aquele desenho.
Eu também dei um passo, ficando ao lado dele. As caixas foram para o chão, trazendo alívio para os meus braços, e suspirei longamente, abrindo um largo sorriso logo em seguida. Eiji tinha vergonha dos desenhos que fazia quando era pequeno e mostrávamos a todos que queriam ver — até mesmo os que não queriam —, mas sabíamos que o seu desejo por trás daquele ainda estava em seu coração. A decisão de construí-la foi feita sem segundos pensamentos. Ele havia feito tanto por nós, o mínimo que poderíamos fazer era retribuir de tal maneira.
— De acordo com o plano, certo? — Toquei suas costas ao dizer, deixando-o ainda mais envergonhado, o que me fez alargar o sorriso. Ele era como um retrato de Izuna.
— Obrigado, pai. Por tudo — seus olhos brilharam com animação ao dizer, e espantando sua vergonha, voltou a olhar para a casa. — Eu adorei, mas acho que Daiki já deve ter destruído tudo por dentro.
Nós rimos juntos, e consegui imaginar o que ele havia dito naquele momento com clareza.
— Eu tenho a mesma sensação — o respondi ainda risonho, e dei um leve tapa em suas costas, incentivando-o a levar as caixas para dentro.
Não era um lugar destruído o que entramos, mas não podíamos ignorar os brinquedos espalhados pelo chão; eram tantos que foi impossível transitar pela sala sem pisarmos nas pelúcias dadas por Aika e Madara, mas com cautela evitamos os cavalos de madeira feitos por Hashirama.
Assim que as caixas foram deixadas em um canto, o barulho denunciou nossa presença para o primeiro habitante da nova casa, que estava de costas, sentado no meio de ainda mais brinquedos. Seus olhinhos se arregalaram assim que nos viu e o sorriso com poucos dentes se abriu por conta da alta risada. Ele apoiou as mãos sobre o chão e rapidamente ficou em pé. Os pés pequenos cobertos por meias brancas — que Izuna com certeza havia o obrigado a usar — correram desajeitados por cima de todos os brinquedos, e me vi sorrindo bobamente enquanto o meu coração acelerava. Meus braços estavam prontos para levantar e pegar aquela criatura adoravelmente pequena, mas minha animação morreu quando a cabeça coberta de cabelos claros passou direto ao meu lado.
— Eiji!
Soltei um suspiro desanimado e deixei meus ombros caírem ao ver o pequeno Daiki correr para os braços do irmão, que o recebeu com euforia. Eles eram inseparáveis, sempre agiam de tal maneira, mas ainda não aceitava ser o segundo ou terceiro na fila para ganhar a atenção. Me sentia patético por agir de tal maneira por causa de uma criança de apenas cinco anos de idade, mas essa era uma parte de mim que já havia aceito desde que Eiji também era daquele tamanho.
Eu sabia que depois de tagarelar com Eiji, Daiki iria pular para o meu colo e enfim receberia um apertado abraço, e tudo ficaria bem, mas foi outra pessoa quem trouxe a minha animação de volta. Ouvi uma risada contida às minhas costas, e quando me virei, o meu peito se aqueceu de uma forma aconchegante.
— Ele sentiu a sua falta — Izuna afirmou ao se aproximar, sorrindo fraco ao tocar o meu peitoral.
— Não parece — tentei me mostrar emburrado ao dizer, mas o abraço que recebi me fez sorrir bobamente enquanto o retribuía. Eu estava com saudade daquele abraço, da voz que sussurrou em meu ouvido o quanto havia sentido a minha falta, e principalmente daqueles olhos negros que me encantavam desde muitos anos atrás.
Os nossos lábios se encontraram em um beijo rápido, e um segundo mais longo estava prestes a começar quando ouvi um pigarrear ao nosso lado. Quando nos viramos, vimos Eiji colocar a mão sobre os olhos de Daiki enquanto nos encarava com repreensão.
— A casa tem quartos, não?
Nós rimos imediatamente. Muitas coisas haviam mudado com o tempo, mas o jeito com que Eiji se irritava com nossas demonstrações de carinho ainda estava ali, mesmo que atualmente fosse mais por vergonha do que ciúme. Seu rosto se tornou levemente corado quando nos aproximamos, e quando Daiki pulou para o meu colo e me deu o esperado abraço, Eiji também recebeu um apertado de seu outro pai.
Era bom estar em casa.
Mais tarde naquele dia, me deitei ao lado de Izuna, o segurando em meus braços outra vez, e contei a ele sobre os dias que passei com Eiji na cabana. Seu treinamento, as coisas que achamos guardadas nos cômodos e nem ao menos lembrávamos que existiam, e principalmente a reação de nosso filho ao ver a nova casa. Izuna ficou surpreso ao saber da reação que foi mais madura do que esperávamos, e rimos de nós mesmos, que depois de tudo ainda não havíamos nos acostumados com as surpresas que aquele garoto sempre nos trazia; fosse nas atitudes ou na aparência, com o passar dos anos, Eiji sempre vinha com algo que não esperávamos.
— Desde que nasceu ele nos surpreende — acabei rindo enquanto falava.
— Sou agradecido por sempre ser de um jeito bom.
Eu assenti para Izuna, também me sentindo agradecido, mas no fundo, por mais motivos do que aquela nossa conversa. Eu amava a nossa vida como era naquele momento; amava os nossos filhos, a casa e o trabalho, e era óbvio que tudo não teria sido possível se Eiji não tivesse existido. Foi ele quem me desviou de meu caminho e me trouxe tudo o que nunca imaginei que teria e que prezava mais do que qualquer coisa. Ele me agradeceu pela casa, mas era eu quem deveria agradecê-lo.
Há treze anos eu havia criado Eiji para ganhar a guerra contra os Uchiha, e ele realmente fez isso, mas imprevisível como era, não foi da forma que em um primeiro momento esperei. Ele não lutou ou teve que manchar as mãos de sangue, nem ao menos precisou ser um adulto. Eiji simplesmente nos amou, e fez com que abríssemos os olhos para os nossos próprios sentimentos. Ele não fez os Senju ganhar; Eiji nos uniu e salvou mais do que sua família. Ele sempre quis ser o dragão daquela história que gostava quando pequeno, mas, sem saber, foi o herói que não só salvou uma pessoa, mas também o nosso mundo.
Todas as vezes em que alguém perguntava o grande fator para ter nos mudado daquela maneira tão radical, não havia como dizer outro nome ou coisa além de: Eiji. E eu era extremamente orgulhoso por poder dizer que era seu pai.
Fale com o autor