Eiji
18 Capítulo Treze
Hiroshi estava absolutamente certo quando disse saber o que Eiji tinha. Com os novos remédios, a febre do pequeno sumiu completamente no dia seguinte, e nos próximos que vieram, aos poucos sua energia também foi retomada. Mas, infelizmente, Izuna só pôde ver o começo da melhora. Apesar de Hashirama não se mostrar mais irritado com sua presença, ele tinha suas próprias obrigações no clã Uchiha, e principalmente, tinha que voltar para Madara, que duvidava que não estivesse nem um pouco desconfiado. Izuna nunca falava sobre como seu irmão reagia com seus dias fora de casa, mas ás vezes conseguia notar que nem sempre era simples ir nos visitar. Porém, ele voltou para a cabana na semana seguinte, nos mostrando seu sorriso animado ao ver Eiji já conseguindo se manter sentado ao invés de ficar deitado o tempo todo como antes.
Mais uma semana, e o pequeno já estava andando pela casa. Ainda não tinha a mesma energia de antes, mas ao menos podia deixar a cama com mais frequência, o que nos deixou muito mais aliviados. Naqueles dias, enfim conseguimos encerrar as arrumações no segundo andar. Suspiramos aliviados e observamos orgulhosos para o resultado final, mas em mim havia um sentimento a mais. Estava ansioso. Izuna passaria a noite conosco naquele dia em que tudo ficou pronto, e seria a primeira vez que teríamos um lugar apenas para nós dois. Fazia algum tempo em que não nos tocávamos com mais profundidade. A doença de Eiji nos tomou toda a atenção, e a saudade que sentia de tê-lo de uma forma mais íntima estava me consumindo.
Eu estava ansioso por aquela noite. Finalmente teríamos o nosso quarto, e eu satisfaria os meus desejos sem me preocupar em sermos vistos por nosso filho. E sabia que Izuna pensava em coisa parecida. Os olhares e toques discretos que recebi durante o dia deixavam claras as suas intenções, o que me deixava ainda mais agitado para que a hora passasse logo.
Eiji estava com medo de dormir sozinho, por isso permaneci ao lado dele em seu novo quarto, até que pegasse no sono. Por conta dos remédios que ele ainda tomava, sempre dormia com mais facilidade que o normal, então não demorei a beijar seu rosto adormecido e deixá-lo sozinho no quarto.
Meus passos pela cabana foram apressados para trancar as portas no térreo e apagar as chamas que iluminavam o local. Logo subi a escada, e não parei até alcançar a porta de nosso quarto. Ao fechá-la atrás de mim, o vi deitado sobre a larga cama que poderia comportar até três adultos encorpados. Um tolo sorriso se abriu em meus lábios ao me aproximar e pensar que aquele tamanho era um exagero e completo desperdício, visto que ocuparíamos nem mesmo a metade na maioria das vezes, pois obviamente não conseguiríamos nos desgrudar nem para simplesmente dormir.
O meu sorriso foi retribuído pelo dele, que não se moveu, até me ver subir sobre seu corpo. Seus braços imediatamente rodearam o meu pescoço e um longo e profundo beijo teve início. Impaciente, minha mão desceu de seu peitoral até a calça do pijama, que foi facilmente invadida. Izuna soltou um suspiro em minha boca quando toquei seu membro e sem cerimônias passei a acariciá-lo.
Havia sentido tanto a falta dele que fechei meus sentidos para qualquer coisa que não fosse seu corpo abaixo de mim, o que foi um erro. Quando notei, por pouco foi tarde. Assim que ouvi a porta sendo aberta e rapidamente um ser pequeno e completamente assustado entrou, nos separamos.
— Não quero dormir sozinho — Eiji disse de forma chorosa e coçou os olhinhos avermelhados.
Soltei um suspiro frustrado pela interrupção, mas ao mesmo tempo aliviado por não termos sido pegos daquela forma. Izuna acariciou o meu braço e me olhou levemente decepcionado, mas em seguida chamou Eiji para deitar conosco.
A estreia de nosso novo quarto não fora nada como eu havia imaginado, mas após a frustração passar, não consegui me manter sério por muito tempo. O pequeno parecia realmente assustado, e não podia culpá-lo por tal coisa. Todo aquele tempo havíamos o acostumado a nos ter ao seu lado durante a noite toda, e não seria assim tão fácil tirar tal costume.
Nós não fizemos nada além de abraçar Eiji naquela noite, mas o que me consolava e mantinha um sorriso em meus lábios era ter a minha família reunida, como deveria ser.
Na próxima noite em que Izuna permaneceu conosco, Eiji já estava se acostumando a nova rotina, e conseguiu dormir em seu quarto a noite toda, e finalmente pudemos ter um tempo para nós. Mais uma vez perdemos a noção do tempo, e só conseguimos nos largar quando o horário passava um pouco além da metade da madrugada. Foi uma das melhores noites que já havia tido, e dormi com um largo sorriso nos lábios enquanto o apertava em meus braços e me sentia ser abraçado da mesma forma. Era perfeito, mas a realidade nos visitou na manhã seguinte e logo cedo.
Após a noite em que o pequeno invadiu o nosso quarto e quase fomos pegos, sugeri que trancássemos a porta, para ao menos sermos avisados antes de sermos interrompidos, mas Izuna recusou a ideia e me olhou nervoso por ter dito aquilo. Achou cruel demais trancar Eiji pelo lado de fora, e se manteve firme em negar a minha ideia, que se mostrou completamente necessária naquela manhã. Nós estávamos exaustos, e daquela vez não conseguimos nem ao menos colocar nossas roupas de volta antes de cairmos em um profundo sono. E o resultado, foi sermos acordados por um animado Eiji em um primeiro momento, e no seguinte, fomos olhados com curiosidade e em seguida confusão por estarmos dormindo sem nossas roupas.
Izuna sempre ficava envergonhado quando Eiji nos via entre simples carinhos ou beijos, mas nunca o havia visto tão constrangido como naquela manhã. Ele nem ao menos conseguiu falar, e seu rosto rosado se tornou tão vermelho que acabei me preocupando com seu estado.
Eiji obviamente nos encheu de perguntas sobre o motivo de estarmos dormindo daquela maneira, e como era o único ali que conseguia ao menos falar — apesar de não estar menos envergonhado que o meu companheiro — fui o encarregado de desviar o assunto e adiar as respostas que não queria dar de maneira alguma.
Depois daquela manhã, Izuna aceitou a ideia de trancarmos o quarto. E avisamos o pequeno sobre isso, dizendo que bastava bater na porta com força e abriríamos imediatamente. Como o esperado, ele perguntou o motivo, e acabamos dando a desculpa de que era comum as portas de qualquer pais ficarem trancadas durante a noite. Eu me sentia mal por não dar uma explicação melhor, mas o pequeno pareceu convencido, e minha vergonha me deixou manter aquelas palavras intactas.
Apesar do constrangimento, era extremamente satisfatório ver aos poucos Eiji voltar a ser o que era. Ele tagarelava sem parar, bagunçava o seu novo quarto, espalhando os brinquedos por todos o chão; chorava e nos ignorava quando estava nervoso, ainda sentia ciúme por ver Izuna e eu juntos, e fazia questão de ficar entre nós, para que não nos abraçássemos ou nos tocássemos de maneira alguma. Tudo era estressante e me deixava sem paciência na maioria das vezes, mas jamais trocaria aqueles momentos por qualquer outra coisa. Vê-lo quieto, apenas dormindo e impossibilitado de se mover ou sequer falar me deixou traumatizado, e preferia suas birras e perguntas constrangedoras do que voltar àquela semana desesperadora.
— Nós devemos ser mais rígidos com ele — Izuna disse certa vez, enquanto se preparava para ir embora. Um rápido beijo foi depositado em meus lábios, e no mesmo local recebi uma leve caricia de seu polegar. — Conversamos sobre isso quando eu voltar?
Eu assenti devagar, sinceramente achando uma boa ideia, mas no momento sem conseguir me concentrar naquele assunto.
Não importava quantas vezes tínhamos que nos despedir, eu nunca me acostumava. Sentia o meu peito se apertar e o meu corpo pesava, juntamente com a minha mente, que não conseguia absorver nada além da solidão antecipada que me tomava. Eu sabia que jamais me acostumaria com aquilo, o que tornava o sentimento ainda pior a cada vez que abraçava a sua cintura e recebia seus braços ao redor de meus ombros como naquele momento. Mas naquele dia em especial, havia um toque a mais em meus sentimentos. Eu não sabia o que era, mas me deixava ainda mais desesperado por ter que deixá-lo ir.
Os nossos lábios voltaram a se encontrar no segundo seguinte, e o apertei com força ao beijá-lo. Aquele sentimento estranho se intensificou ainda mais quando nos separamos, e de repente, senti a necessidade de mais um abraço, que foi retribuído rapidamente quando o envolvi outra vez. Escondi o meu rosto em seu ombro, e não consegui segurar um suspiro quando senti o carinho em meus cabelos.
— Você está bem? — Ele perguntou em tom baixo e preocupado, enquanto afundava ainda mais os dedos em meus fios.
Eu assenti outra vez, e fechei os meus olhos ao aproveitar a caricia que sabia que demoraria a voltar a receber.
— Não demore para voltar, ok? — Pedi em tom baixo, e levemente envergonhado por deixar meus sentimentos tão transparentes. O nosso abraço se intensificou quando o ouvi afirmar que voltaria o mais rápido possível, e soltei outro suspiro. — Eu amo você.
— Eu também amo você. Amo demais.
Ele me apertou com ainda mais força naquele momento, e senti o meu coração se descontrolar como havia se tornado costume. Eu o amava tanto, e ficarmos longe um do outro machucava muito, ainda mais por não sabermos o que aconteceria enquanto estávamos separados, e aquela sensação em meu peito me deixa pior a cada segundo que aproximava sua partida, que não demorou a acontecer.
Eiji não chorou daquela vez, mas sua expressão emburrada e o silêncio que sempre o tomava quando estava triste ou nervoso foi o que nos abraçou pelo resto do dia.
Izuna e eu já havíamos conversado sobre aquela situação mais de uma vez. Ele também se sentia devastado quando tinha que ir, e desejava passar mais tempo ao nosso lado. Mas nossa realidade não nos permitia mais do que três visitar por semana, e uma noite passada juntos naquele mesmo período. Eu não suportava aquilo, ele também, e principalmente Eiji era afetado pelo modo que vivíamos. Ele passou a ficar mais estressado e raivoso com o tempo, o que era um dos motivos de Izuna querer conversar sobre sermos mais rígidos com o pequeno, mas no fundo sabíamos que nem tudo seria resolvido com broncas e castigos. Eiji estava triste e frustrado, assim como nós, mas era apenas uma criança e não sabia direito como reagir a tais sentimentos.
Os dias passaram ainda mais lentos após Izuna ter ido mais uma vez, e o sentimento ruim diminuiu aos poucos, mas não me largou em momento sequer. Eu torcia todos os dias para que aquilo fosse apenas saudade ou frustração, mas quando em uma manhã senti uma presença se aproximando, não pareceu ser apenas tais sentimentos.
Eu estava do lado de fora, cuidando da lavagem de algumas roupas, enquanto Eiji sentado em um pequeno banco ao meu lado, cantarolava ao rabiscar a folha em seu colo. Ele já estava recuperado, mas ainda em tratamento, o que me fazia levá-lo para todo o canto que eu fosse, para que pudesse ficar de olho em qualquer reação que o remédio pudesse causar. Foi ali que senti a presença de Izuna, fraca por conta da distância, mas não tive dúvidas de que era ele. Eu quis sorrir ao vê-lo se aproximar minutos depois, mas, algo me fez recuar e o olhei preocupado. Ele estava sério demais, e mesmo que estivesse feliz por vê-lo, ainda era cedo demais para recebermos outra visita.
— Papai! — Eiji gritou assim que o viu, e após pular de sua cadeira e abandonar seus desenhos, correu até ele, que se ajoelhou sobre o gramado e o recebeu com um abraço.
— Ei, bebê! — Ele enfim sorriu ao falar, mas foi por pouco tempo que vi sinceridade em sua expressão alegre. — Como você está?
— Bem — Eiji ficou extremamente animado quando Izuna segurou suas mãozinhas. — Eu fiz muitos desenhos.
— Isso é incrível — Izuna forçou outro sorriso para o pequeno, e por alguns segundos seu olhar sério se dirigiu a mim e em seguida suavizou ao voltar para ele. — Escute, pode ir para dentro por um momento? Eu preciso conversar com o papa.
— Ok — Eiji o respondeu desanimado. — Mas não demore.
Meu coração bateu rápido com a ansiedade que sentia naquele momento. Me dividia entre o alívio por vê-lo bem e à minha frente, entre o medo e curiosidade pelo o que havia acontecido para vir antecipadamente e com uma expressão como aquela.
— Aconteceu alguma coisa? — Perguntei rapidamente, assim que Eiji se afastou. — Estava te esperando apenas amanhã.
Ele se levantou e veio até mim, sem esconder seu nervosismo, mas nada disse quando parou à minha frente. Seus olhos foram até o pequeno, e se mantiveram na mesma direção, até o vermos entrar na cabana, e então voltei a receber sua atenção.
— Meu irmão — Izuna foi direto em sua resposta, e foi ainda mais claro o seu desespero no tom de voz. — Ele vem me pressionando nas últimas semanas. Fazendo perguntas e cada vez mais desconfiado. Notou que não lutamos na última batalha e...
— Se acalme, Izuna — eu o segurei pelos braços ao vê-lo se desesperar cada vez mais e se atropelar em suas palavras. Eu estava tão preocupado com ele, mas apesar de querer abraçá-lo e dizer que tudo estava bem, sabia que não podia, quando nem ao menos sabia o que realmente estava acontecendo. — Ele descobriu alguma coisa?
Izuna me olhou da mesma forma que transmitia em sua voz e soltou um suspiro trêmulo. Sua reação me deixou ainda mais agitado.
— Eu não acho. Mas, não consegui esconder que quero evitar lutar, e ele explodiu com isso. Ficou chateado, e disse que se eu não lutasse contra você na próxima vez, ele mesmo o faria — sua voz se tornou chorosa ao final da frase e em seguida recebi um apertado abraço em minha cintura. — Eu não quero perdê-lo — ele disse em tom abafado por meu peito.
— Você não vai — afirmei assim que retribui o abraço, em seguida, beijei o topo de sua cabeça. — Por que não me disse sobre isso antes?
Eu estava chateado por vê-lo não confiar em minha força. Mesmo sabendo que Madara era mais forte, meu orgulho se feria por imaginar que Izuna não tinha tanta fé em minhas habilidades. Mas, ainda assim, não trouxe aquele assunto naquele momento, e me foquei em minha pergunta, que obviamente era muito mais importante do que minha autoestima.
— Eu não queria colocar mais problemas em sua cabeça — ele me soltou do abraço ao dizer e seus olhos avermelhados me encararam. — E tudo estava sob controle, até ele insistir nisso hoje.
Ele estava com tanto medo. Era visível em sua expressão, nos olhos e a maneira que tremeu levemente quando segurei suas mãos em frente ao meu peito. Eu detestava vê-lo daquela forma. Detestava aquela guerra, e secretamente guardava o mesmo sentimento por seu irmão, por tantos motivos que era difícil contar todos. Eu não conseguia mais aguentar tudo aquilo.
— Izuna — o chamei o mais calmo que consegui, e em seguida beijei suas mãos com paciência. — Eu acho que chegou a hora de decidirmos.
Ele não pareceu surpreso com as minhas palavras, mas sua expressão continuou com o mesmo desespero de antes.
— Eu não quero dar as costas para o meu irmão.
— Muito menos eu quero fazer isso com o meu, mas... — soltei um baixo suspiro — eles não podem mais decidir como vivemos as nossas vidas. Eu estou cansado dessa guerra há muito tempo e, para mim, já passou da hora de você ficar aqui todos os dias, e para sempre.
Izuna enfim se mostrou surpreso, mas em um momento que não imaginei que ficaria. Era óbvio que eu o queria ao meu lado todos os dias, pensava que havia deixado aquilo claro há tempos, mas, ainda assim, ele ficou surpreso e em seguida vi suas bochechas ficarem rosadas.
— Para sempre? — Ele perguntou em tom baixo e esboçando um fraco sorriso no final. Ali, enfim percebi o motivo de sua expressão surpresa, e com um tolo sorriso soltei suas mãos e toquei seu rosto ao me aproximar novamente.
— Mas é claro — afirmei enquanto acariciava sua pele levemente quente. — Eu não consigo imaginar a minha vida sem você. Não consigo e não quero.
Ele sorriu outra vez, mas muito menos acanhado, e os olhos brilhantes à minha frente fizeram o meu coração ficar descontrolado outra vez. Não era mais tão difícil ser sincero com ele, mas, ainda assim, não conseguia controlar minhas emoções quando o via reagir tão belamente quando me ouvia dizer algo do tipo. O longo beijo que trocamos a seguir de minhas palavras foi inevitável, e o responsável por selar nossa decisão que no fundo, já estava tomada há muito tempo.
— Eu irei falar com ele hoje à noite — Izuna informou assim que o beijo teve fim, e voltou a me abraçar. Sua cabeça descansou em meu ombro e o ouvi suspirar menos aflito.
— Não irá ficar? — Perguntei, levemente decepcionado, mas interiormente já imaginando que ele iria querer resolver tudo o mais rápido possível, e tinha o meu total apoio.
— Não. Eu o deixei bastante nervoso para poder vir aqui, e precisamos esclarecer as coisas de uma vez por todas — ele passou a acariciar o meu peitoral enquanto falava. — Amanhã eu voltarei, para ficar. E então, você poderá ir falar com Hashirama.
A última frase foi dita em tom baixo, mas a ouvi com clareza, e cada palavra penetrou em meu cérebro, me fazendo estremecer levemente. Eu estava feliz por finalmente ter certeza de que teria a minha família reunida todos os dias, e decidido a ir em frente com a nossa decisão, mas imaginar como meu irmão reagiria ao meu afastamento, me deixava temeroso.
Izuna não demorou muito para ir embora. Eiji tentou convencê-lo a ficar e ameaçou chorar quando não conseguiu, porém, suas lágrimas foram seguradas quando o ouviu prometer que voltaria no dia seguinte. Nós combinado de nada dizer para o pequeno, até que Izuna estivesse oficialmente morando conosco, então, tivemos que o deixar no escuro por mais um dia.
— Se você não puder voltar amanhã, me mande notícias, ok? — Disse seriamente e no tom mais baixo que consegui, para que Eiji não me escutasse. — Se você não aparecer e não tiver notícias de que está bem, irei à sua procura.
— Não será necessário — ele também usou seu tom sério e baixo ao dizer e segurar o meu rosto com ambas as mãos. — Não faça nada que arrisque a sua vida, certo?
— Farei qualquer coisa para manter você e Eiji seguros — teimei ao dizer, achando que receberia uma repreensão, mas tudo o que me deu foi um suave sorriso e um rápido beijo nos lábios.
Ele se foi com pressa naquele dia, e no seguinte, esperei impaciente enquanto andava de um lado para o outro. Cada hora que passava e eu não o via ou sentia chegar, ficava cada vez mais nervoso, preocupado, e para completar, tinha Eiji que de minuto a minuto perguntava a que horas Izuna chegaria. O pequeno inocentemente estava ansioso para mostrar seus novos desenhos para o seu pai, enquanto eu, era tomado por ansiedade para vê-lo a salvo e enfim ao nosso lado.
Eu não conhecia Madara tão bem. Tudo o que sabia era por histórias de meu irmão e Izuna. Cada um o via de forma diferente, e eram poucas similaridades em seus relatos, o que me fazia imaginar qual daqueles era o verdadeiro líder dos Uchiha, se aquelas duas partes formavam quem ele era, ou se nenhuma delas era a sua verdadeira face. Não ter muitas informações me deixava incomodado, e me sentia inútil por poder apenas esperar em um momento como aquele. Imaginava se ele seria capaz de machucar o irmão quando o ouvisse. E se não, o que Madara faria? Ele o impediria de partir? O expulsaria dos Uchiha? Tiraria o título de Izuna, que só era superado por ele mesmo? Eu não tinha certeza de nada, o que me deixou inquieto a manhã toda, piorando após o almoço, e me deixando a beira da loucura no meio da tarde, quando ainda não via sinal de Izuna.
Eiji acabou pegando no sono no final da tarde, o que me deixou com ainda mais tempo livre para pensar no que não deveria. Quando o deixei sozinho em seu quarto, desci as escadas, pronto para bolar um plano para ir até Izuna, mas assim que pisei no térreo, senti o meu peito se esquentar, e o coração acelerou enquanto corria até a porta da frente. E ele estava lá. Com suas malas e os olhos avermelhados pelo claro choro que não estava mais presente, mas pude notar que fora intenso. Um longo suspiro aliviado saiu por meus lábios após correr a curta distância até ele, e ao abraçá-lo com urgência.
— Você está bem? — Perguntei apressadamente assim que o senti se apertar em meu corpo, e minha preocupação se elevou quando o ouvi soluçar em meu ombro e balançar a cabeça de um lado para o outro. — Está machucado?
Ele balançou a cabeça mais uma vez, me deixando aliviado, mas tal sentimento passou ao ouvi-lo chorar baixinho enquanto me segurava em um forte abraço. Eu nada mais perguntei ou sequer disse, e apenas o deixei colocar para fora o que estava sentindo, enquanto ficava agradecido por Eiji estar dormindo em uma hora como aquela.
Aos poucos ele foi conseguindo me explicar o que havia acontecido. Me contou a maneira que Madara se alterou ao ouvi-lo, e como não conseguiu contar a ele sobre o nosso relacionamento. Apenas a verdadeira história sobre Eiji e como havíamos decidido não lutar mais foi o que conseguiu contar, e seu irmão explodiu de raiva, piorando quando soube da mudança de casa.
— Ele me odeia — disse Izuna, quando se acalmou um pouco, e afrouxou o abraço.
— Eu duvido muito — o respondi prontamente, enquanto o fazia olhar para mim.
— Ele disse isso claramente — as lágrimas voltaram a escorrer por seu rosto assim que me contou, e senti o meu peito apertar.
— Ele é seu irmão, Izuna — insisti enquanto o recebia em meus braços mais uma vez. — Eu mesmo já disse que odiava Hashirama várias vezes, mas sempre foi por raiva momentânea. Tenho certeza de que o ama, só deve estar magoado.
— Eu não sei — ele respondeu ainda mais abalado, o que me fez a minha raiva por Madara aumentar naquele momento.
— Se não o amasse, não teria se importado tanto com sua partida — afirmei, só me dando conta de que aquilo realmente fosse uma possibilidade, quando saiu por meus lábios. — E se lembra, de quando conversamos sobre “ódio”?
Izuna ficou em silêncio naquele momento, mas devagar assentiu e se soltou de nosso abraço. Eu o ajudei a pegar as malas sem nada dizer, e só voltei a ouvir sua voz e deixar que a minha saísse quando o paradeiro de Eiji foi questionado.
— Esses remédios são muito fortes — comentei após contar que o pequeno estava dormindo em uma hora como aquela.
Izuna se manteve em silêncio por mais tempo após nossa curta conversa, e a preocupação se instalou em meu peito de forma definitiva por todas aquelas horas. Ele tomou um banho depois que deixamos suas coisas no quarto, e ficou algum tempo a observar o nosso filho ainda adormecido. Eu os deixei a sós por um momento, imaginando que Izuna se sentiria ainda pior por ser observado em um momento frágil, mas foi com surpresa que o vi aparecer em nosso quarto poucos minutos depois.
Eu estava sentado sobre a cama enquanto lia um dos pergaminhos que meu irmão havia enviado no começo da semana, e este foi deixado de lado imediatamente quando o vi subir no colchão, e em seguida sobre mim. Sua cabeça descansou em meu peito quando minha cintura foi abraçada e o ouvi suspirar quando passei a acariciar suas costas e cabelos.
— Eu não consigo tirar a expressão dele da minha mente — Izuna voltou a falar finalmente. — Estava tão decepcionado, triste...
— Você se arrepende?
A minha pergunta saiu mais calma do que realmente estava. Era uma questão que martelava em minha mente desde o momento em que o vi, parado na entrada com todas aquelas malas, e apesar de jogar toda a culpa por seu estado em Madara, não conseguia evitar pensar que talvez aquilo fosse na verdade tudo por mim.
— Não — ele respondeu rapidamente e levantou a cabeça para me olhar. — Eu sei que isso foi para o melhor, mas, ainda assim, machuca.
— Um dia ele irá entender — soltei um suspiro aliviado quando ele voltou a deitar a cabeça em meu peito, e o abracei em seguida, sentindo todo aquele alívio ir embora quando pensei em meu lado daquela história. — E espero que Hashirama também.
— Eu espero que estejam vivos para isso acontecer um dia.
O que ouvi fez o meu peito se apertar, e mesmo querendo concordar com aquilo, nada saiu por meus lábios. Eu não conseguia imaginar algo de ruim acontecendo com o meu irmão, nem ao menos queria pensar na possibilidade de perdê-lo. Era doloroso demais perder um irmão, e eu já havia perdido dois deles. Não sabia se conseguiria suportar perder mais um, e justo o que sempre foi o meu melhor amigo.
— Posso te perguntar algo? — Perguntei com cautela, e mais uma vez Izuna se moveu, para poder olhar em meus olhos e assentir. — Você acha que haveria alguma chance, a mínima que fosse, de seu irmão recuar ou aceitar a parceria que meu irmão tanto queria?
Eu sempre repudiei aquela ideia, alegando que jamais poderíamos confiar nos Uchiha, mas naquele momento, não conseguia mais pensar como antes. Ainda era difícil me imaginar confiando em Madara, mas se Izuna dissesse que deveria fazer tal coisa, eu faria.
— Ele jamais recuará — Izuna respondeu com certeza. — E essa parceria... não conheço o seu irmão tão bem, mas, ele também não desistiu disso?
— Ele diz que sim, mas no fundo sei que não. É difícil admitir, mas, ele estar do jeito que está é em partes por minha culpa.
Ele me olhou com curiosidade, e se ajeitou sobre mim.
— Por que diz isso?
— Ele... sempre foi bom demais, sabe? Nunca aceitei isso com facilidade, achava ser uma fraqueza e que nos faria perder. Você sabe muito bem como eram as coisas antes de Eiji — desviei o olhar por um momento, envergonhado por lembrar de como eu era no passado. — Um dia, disse para ele que os sentimentos que tinha por Madara jamais parariam a guerra, apenas uma batalha em que os Senju ganhassem. Ele ficou tão bravo, não falou ou olhou para mim por bastante tempo, mas no fim, acabou absorvendo as minhas palavras — voltei meu olhar para o rosto de Izuna e o acariciei levemente. — Eu não o entendia. Não entendia muitas coisas. Nunca deveria ter falado aquilo.
— Sei como se sente. Eu também acabei influenciando Madara em algumas coisas que me arrependo. Ele mudou nos últimos anos, e a maior parte do motivo sou eu — ele se mostrou chateado ao dizer. — Ele é tão quieto agora... antigamente, costumávamos conversar por horas sem um tópico fixo — Izuna riu em tom baixo. — Mas ainda somos bastante próximos. Quero dizer, éramos — ele sorriu com tristeza. — Me sinto como se o tivesse quebrado e fugido em seguida, ainda por cima para viver o que ele um dia quis, mas não pôde por minha causa.
Seus olhos voltaram a ser dominados por lágrimas ao me dizer o que estava sentindo, e elas escorreram por seu rosto segundos antes de Izuna o esconder em meu peito. Eu ainda estava preocupado com ele, mas sua última frase chamou a minha atenção de outra maneira, me trazendo a lembrança de uma antiga conversa que havia tido com Hashirama, e isso me deixou confuso em um primeiro momento.
Eu esperei que Izuna se acalmasse mais uma vez, guardando minha curiosidade e teorias para mais tarde. Quando o vi completamente calmo, continuei com a caricia em suas costas e em tom baixo, perguntei:
— O que disse a ele?
Izuna pareceu um pouco desconfortável com a minha pergunta, e por um momento, pensei em deixar aquele assunto para outro dia, porém, algo em mim me fez insistir naquilo, achando que no fim, após ouvi-lo, teria alguma solução para o nosso problema.
— Vamos, não precisa guardar isso só para si — eu disse tranquilamente ao tocar seus cabelos. — Vamos afogar nossas mágoas juntos.
Ele riu em tom baixo ao ouvir a minha última frase, e voltei ver seu rosto avermelhado por conta do choro de minutos atrás.
— Ele também é uma ótima pessoa. Sempre foi, ainda é — Izuna soltou um suspiro, tentando recuperar o fôlego perdido pelas lágrimas. — Mas não era um problema para mim. É só que... Ele amava tanto o seu irmão, desde o começo, quando o conheceu. Nunca me disse isso diretamente, mas é tão transparente que nem ao menos precisa — ele sorriu de canto ao dizer.
O que ouvi teria me pego de surpresa, se por todos aqueles minutos não estivesse a pensar naquilo. O que já havia escutado de Izuna mais cedo acendeu minhas suspeitas, e naquele momento, vi que eu estava certo, e Hashirama completamente equivocado.
— Eu fiquei com raiva quando notei, anos atrás — o sorriso de Izuna se tornou triste quando continuou a falar. — Gritei com ele, disse que nosso pai o odiaria, que era nojento. E olhe para mim agora. Eu é que sou nojento.
— É claro que não — me adiantei a dizer um pouco antes de ele terminar de falar. Minha mão voltou para seu rosto e o olhei com repreensão. — Não diga isso. Você apenas não entendia o que estava acontecendo.
— Dê que adianta entender agora? — Ele rebateu um pouco nervoso, mas pude ver que ainda se sentia arrependido e triste.
— Talvez adiante para alguma coisa — me esforcei para falar, enquanto me perdia em meus próprios pensamentos. Meus olhos voltaram a encarar os dele, e mesmo me sentindo incomodado com a minha ideia, soube que deveria fazer aquilo não só por nós e nossos clãs, mas principalmente por Hashirama. — Ele ainda tem os mesmos sentimentos por meu irmão?
— Sim. Absolutamente — Izuna respondeu seriamente, mas um pouco confuso. — Ele é mais quieto agora, mas ainda não consegue se esconder de mim — seu fraco sorriso vitorioso me fez sorrir da mesma maneira. — Por quê?
— Acho que é hora de nos intrometermos novamente.
Ele me olhou confuso, mas em seguida parecia que não conseguia decidir se mantinha a expressão espantada ou se sorria.
— Seu irmão...
— Sim — disse naturalmente, como se fosse uma coisa trivial. — Ele mesmo já me disse.
— Vamos fazer isso, Tobirama — o sorriso de Izuna finalmente apareceu e se alargou quando seus olhos animados se dirigiram a mim. — Imediatamente. E eu já sei como!
Ele se sentou entre as minhas pernas, e sua expressão esperançosa e feliz me fez também abrir um largo sorriso. Minhas mãos foram até a cintura dele quando me ajeitei na cama, e soltei uma baixa risada, seguida de um suspiro enfim completamente aliviado.
— Parece que o meu Izuna está de volta.
Suas bochechas se tornaram levemente rosadas ao me ouvir, mas o sorriso não se desfez e sua risada fez o meu peito se aquecer de imediato.
Ele ficou completamente animado depois da conversa que tivemos, e o ouvi tagarelar sobre o seu plano que a princípio parecia uma loucura, mas que no fim, tive que apoiar. Nós não tínhamos muitas opções em mãos, e a única saída daquilo estava no plano de Izuna, mas, ainda assim, deixei claro o quanto achava aquilo arriscado e perigoso, e obviamente não fui ouvido.
Quando Eiji enfim acordou, a casa se tornou ainda mais animada. Ele correu para a nossa cama assim que viu Izuna, e pelo resto da noite só pude ouvir risadas e com completa satisfação, observar os sorrisos de ambos. Tudo ficou ainda melhor na hora do jantar, quando Izuna decidiu que era a hora de contar ao pequeno sobre sua mudança. Eiji nos olhou incrédulo por alguns segundos, e em seguida ficou em pé na cadeira da cozinha.
— Todos os dias? — Ele perguntou em tom alto, ainda custando a acreditar naquilo. — Para sempre?
Eiji soltou um grito assim que Izuna afirmou que sim, e eu, uma alta risada quando o pequeno não conseguiu controlar sua alegria e subiu sobre a mesa, correndo para os braços de Izuna com urgência.
Após sua euforia passar, o aviso sobre subir na mesa ser proibido obviamente veio, mas Eiji não se importou com a bronca e voltou para a sua cadeira com um largo sorriso, que continuou com ele durante todo o jantar. Naturalmente Izuna e eu começamos uma conversa, aproveitando aquele momento para impor outras regras que já havíamos adiado tanto para ele, mas Eiji continuou dócil e concordando com tudo o que dizíamos, o que foi um pouco estranho de presenciar.
Em certo momento, o assunto virou apenas para nós dois, e sem percebermos, já olhávamos bobamente um para o outro enquanto entrelaçávamos nossos dedos sobre a mesa. Eu estava tão feliz por tê-lo ali ao meu lado, por poder ver Eiji sorrir tanto, que não me importei em agir feito um bobo apaixonado na frente de nosso filho.
Quando me lembrei da presença do pequeno, me virei para ele, já esperando seu olhar semicerrado e a expressão emburrada por nos ver agir daquela maneira, mas como toda a sua atitude no jantar, me deixou surpreso outra vez. Ele estava quieto, com os cotovelos sobre a mesa enquanto apoiava o rosto com as mãozinhas. Seu olhar estava fixo sobre nós, mas não havia sinal de descontentamento, pelo contrário, ele sorria suavemente e até mesmo soltou um fraco suspiro.
— O que foi, pequeno? — Perguntei curioso, e em seguida Izuna o olhou da mesma forma. Mas tudo o que recebemos em troca de nossa atenção foi um balançar negativo com a cabeça e outro suspiro.
Izuna e eu nos olhamos confusos, mas no fim, acabamos rindo de forma discreta. Pela primeira vez, Eiji parecia feliz em nos ver juntos daquela maneira, e não consegui esconder o quanto aquilo me agradava.
A mão de Izuna que eu segurava foi levantada, e a beijei suavemente.
— Bem-vindo à sua nova casa — disse um pouco sem jeito, mas sentindo o meu peito se encher com o largo sorriso à minha frente.
Izuna se inclinou e beijou os meus lábios rapidamente, e nesse meio tempo ouvimos uma baixa risada ao nosso lado. Imediatamente voltamos a nossa atenção para Eiji, e mantendo nossos sorrisos, levantamos das cadeiras e corremos até ele, que soltou um grito, seguido de uma gostosa risada quando recebeu beijos barulhentos e animados em suas bochechas.
Fale com o autor