Eiji

5 Capítulo Quatro


Eu não olhei para trás por nem um segundo. A expressão que vi em Izuna ainda estava em minha mente enquanto corria e de maneira alguma queria renovar aquela imagem em minhas lembranças. Eu realmente não me importava em como ele estava se sentindo naquele momento, mas se fosse terrivelmente mal, seria bom. Ele merecia. Porém, ainda assim não quis olhá-lo. Aquela expressão me trouxe a lembrança do quão patético fui ao deixar que levasse Eiji de mim, e essa era uma das coisas que gostaria de enterrar em meu passado.

Estava tão distraído com os meus pensamentos que acabei acelerando o passo sem perceber, e só notei a velocidade quando Eiji se moveu em meu colo e me agarrou com força. Ao notar meu exagero, diminui a velocidade de imediato até a corrida se tornar em uma caminhada e logo parei por completo.

Eiji ainda me segurava com força e seus olhos se fecharam por um momento enquanto se balançava de um lado para o outro.

— Me desculpe, pequeno — disse em tom baixo ao tocar suas costas. Ele estava tonto por conta da minha movimentação repentina e rápida demais, e me senti culpado por ter me esquecido de sua fragilidade.

Esperei paciente até que ele abrisse os olhos novamente, e quando aconteceu, ri em tom baixo. Ele ainda parecia zonzo, mas sorria enquanto olhava em volta, como se estivesse se divertindo com a visão turva. Eiji também riu em certo momento, o que fez meu peito se aquecer mais uma vez. Eu havia sentido a falta daquele som.

Me sentida calmo novamente, por tê-lo em meus braços, e meu sorriso abandonado há semanas estava de volta, porém, ele se desfez com rapidez quando o pequeno parou de se mexer por um tempo e me olhou como se tivesse dado conta de algo. Eiji em seguida olhou a nossa volta, e voltou a se mover, mas com mais energia que antes. Era como se procurasse algo. Ele se mostrou desesperado quando se apoiou em meus ombros e olhou por trás deles. Pude ouvir um baixo murmúrio trêmulo quando o pequeno apertou o tecido de minha roupa.

— O que houve? — Perguntei preocupado enquanto tentava virá-lo para me olhar.

— Izu — sua voz saiu baixa e triste, mas não foi seu tom que me surpreendeu, mas sim a palavra. Eu não queria acreditar naquilo, e poderia muito bem ignorar, fingindo não passar das palavras aleatórias que ele inventava para tentar se comunicar, mas não pude quando o vi se debater em meu colo.

— Eiji — o chamei com preocupação mais uma vez, e como parecia que queria, o coloquei no chão.

O pequeno se agarrou em minhas pernas e fez como antes e olhou ao redor da floresta. Ele parecia cada vez mais desesperado e mostrou claramente o que sentia quando me soltou e olhou para o caminho de onde tínhamos vindo.

— Izu! — Ele gritou alto e fechou as mãozinhas em punhos assim que começou a chorar.

Ao vê-lo daquela maneira, não pude ignorar. Ele estava claramente chamando por Izuna, e aquilo fez com que meu coração se quebrasse por vários motivos.

Imediatamente eu me ajoelhei e o abracei. O pequeno aumentou ainda mais o choro enquanto daquela vez chamava por mim, e o apertei ainda mais em meus braços.

— Está tudo bem. Papa está aqui — disse em tom baixo enquanto acariciava suas costas. Ele se agarrou em mim com força quando voltou a chamar por Izuna mais uma vez, e fiquei ali por muitos minutos, sem saber o que fazer e me perguntando como o faria esquecer daquilo.

Quando enfim o peguei no colo, Eiji não chorava com tanta intensidade como antes. Ele deitou a cabeça em meu ombro e suspirou de maneira cansada. Estava odiando vê-lo de tal maneira, mas nada podia fazer para melhorar a situação, então a única saída que vi foi continuar o meu caminho, andando normalmente daquela vez.

— Finalmente vou levá-lo para a nossa casa — passei a conversar com ele na metade do caminho. Eiji ainda estava desanimado e com a cabeça em meu ombro, mas sabia que podia me ouvir. — Irá gostar de lá. É mais confortável e teremos a nossa família — disse esperançoso por uma reação, mesmo sem saber se ele me entendia completamente. E para o meu alivio, Eiji enfim levantou a cabeça e voltou a me olhar.

— Você tem um tio que irá adorar conhecê-lo — sorri ao dizer, e me senti mais confiante de que o faria deixar seja lá o que viveu naquelas últimas semanas para trás. — Quer conhecer o seu tio, não?

Eiji me olhou pensativo por algum tempo e pendeu a cabeça para o lado ao dizer:

— Mada?

— Que diabos? — Minha reação foi automática ao gritar, mas por sorte não assustei o pequeno, apenas o fiz rir com a minha surpresa que me fez tropeçar em meus próprios pés. — Não! Seu tio se chama Hashirama — disse com uma mistura de nervosismo e graça por vê-lo sorrir mais uma vez. — Diga: Hashirama — disse lentamente, e o vendo mexer a boquinha devagar, tentando me imitar. — Hashirama!

— Hazi... ama — sua voz fina saiu hesitante e quando terminou a palavra com muito esforço, me olhou, esperando por aprovação, que não resisti em dar.

— Melhor — suspirei fundo ao dizer e acariciar sua cabeça. — Muito melhor.

Eiji pareceu mais animado com minha reação, e pelo resto do caminho não ouvi mais choros e fiquei extremamente aliviado por também não ter mais chamados por “Izu” ou “Mada”, este último principalmente. Eu não conseguia acreditar que Izuna realmente o havia levado para a sua casa, e pior, ter deixado que o garoto convivesse com Madara! Eiji não o chamaria se não tivesse passado no mínimo algumas semanas ao lado dele, e imaginar mais um Uchiha com meu filho no colo fazia meu corpo estremecer de raiva.

Meus olhos voltaram para o pequeno enquanto andávamos, e o observei ainda tentando dizer o nome de meu irmão. Meu bom humor voltou automaticamente e acabei pensando que ao menos, aparentemente, não haviam tratado o pequeno como qualquer coisa. Ele parecia bem apesar de tudo. Suas roupas eram novas e estava limpo, como costumava deixá-lo, e se Eiji havia ficado daquela maneira quando não viu Izuna, ao menos algo de bom o outro devia ter feito.

Eu não estava agradecido a ele, mas fiquei aliviado por me dar conta de que tudo não havia sido tão traumatizante para o pequeno. Também fiquei a imaginar como ele havia reagido quando acordou semanas antes e não me viu ao seu lado. Ele chorou como fez por Izuna? Pensou em mim durante todos aqueles dias? Eu não tinha como saber, mas mesmo com meu orgulho ferido, esperava que não. Antes de meus sentimentos, queria cuidar dos dele, e soava terrível imaginá-lo sofrendo como sofri sem ele em meus braços.

***

Assim que coloquei meus pés no clã, me senti levemente incomodado. Todos que nos viam faziam expressões estranhas ou cochichavam nos ouvidos uns dos outros. A curiosidade de todos já era esperada, mas foi incômodo ter tantos olhares sobre mim daquela maneira.

Já era fim de tarde quando finalmente alcancei a nossa casa, e antes de entrar pela porta, voltei a ficar atento ao pequeno em meu colo. Ele havia se agitado o dia todo e caído no sono apenas por uma hora durante a tarde, mas, ainda assim, parecia atento a cada detalhe à sua volta.

Quando entramos na casa, os olhos de Eiji correram pelo lugar, e com pressa quis descer de meu colo, me fazendo soltar um suspiro aliviado. Ele estava mais pesado e carregá-lo por todas aquelas horas haviam me tirado parte das forças.

Eiji, curioso com o novo ambiente andou pela sala de entrada, mas não se afastou demais, até mesmo olhava para trás vez ou outra para ter certeza de que eu ainda estava ali. Eu ri de seu jeito curioso ao tocar um simples sofá, e duvidava que me escutava tagarelar sobre o que ele via. Na verdade, só consegui realmente sua atenção quando chamei por meu irmão, que como se estivesse esperando o chamado a qualquer momento, apareceu para nos receber em um piscar de olhos.

Eiji se mostrou tímido assim que o viu e correu para a minha direção. Minhas pernas foram agarradas com força e o pequeno escondeu metade do rosto ali, deixando o resto para observar a nossa nova companhia se aproximar. Ele poderia estar surpreso, mas sua curiosidade não foi cessada.

Hashirama se abaixou quando ficou à minha frente e com um fraco sorriso, perguntou:

— Então, este é Eiji?

O pequeno apertou ainda mais a minha calça ao ouvir a voz dele e levantou o rosto em minha direção. Logo eu também me abaixei e ao segurar a pequena cintura, o virei na direção de meu irmão.

— Eiji, este é o tio Hashirama de quem eu havia falado — disse divertido com a expressão deslumbrada de Hashirama sobre o pequeno.

— Hazi... — Eiji tentou, porém outra vez o nome não saiu como deveria e ainda mais encurtado do que da primeira que havia tentado. Mas ele não desistiu e continuou a tentar várias vezes seguidas, o que nos arrancou risadas.

O pequeno ficou nervoso por não ter conseguido falar como queria, e sua expressão só o fez ainda mais fofo. Hashirama pareceu pensar o mesmo que eu ao rir como bobo e soltar um outro som estranho em seguida. Ele logo estendeu o braço e tocou o topo da cabeça de Eiji.

— Você pode me chamar de Hashi — ele sorriu abertamente ao dizer aquilo e se direcionou a mim. — Ele é inteligente demais para essa idade.

— Bem, dizem que as crianças herdam muito dos pais — sorri convencido para ele, mas minha pose se desfez e o insultei em tom baixo quando o ouvi sussurrar que talvez a inteligência não tivesse vindo de mim.

Os momentos seguintes foram dedicados totalmente a curiosidade de Eiji. O pequeno logo voltou para o meu colo e mostrei parte da casa para ele, que como na sala, se atentou a cada detalhe.

Nosso passeio no novo lar de Eiji teve fim quando alcancei o meu quarto. Lá estavam os brinquedos que ele era apegado e assim que seus olhos os encontraram, desceu de meu colo e fui completamente esquecido por um momento. Mas ele logo me procurou com o olhar, e os sons enrolados que para ele talvez fosse uma conversa ecoaram pela casa. Sua mãozinha aprontou em minha direção e como uma criança corri até ele e também me afundei em todos aqueles brinquedos.

Logo Hashirama voltou a se juntar a nós, e foi nostálgico e ao mesmo tempo estranho nos ver sentados sobre o chão e rodeados de brinquedos. Quando éramos pequenos tínhamos tanto quanto Eiji, porém, havia a desvantagem de ter que dividir, e o pior, em quatro pessoas.

Me lembrar do passado, onde nós quatro sentávamos em uma roda para brincar, conversar ou fazer qualquer outra coisa fez meu peito aquecer, mas também trouxe a tristeza de no fim acarbamos apenas os dois ali. Minhas costas se curvaram por um momento, mas logo consegui recuperar a minha pose ao ver Hashirama brincar com Eiji, que não parecia mais ter medo dele. Eu sempre me lembraria de Itama e Kawarama, mas não éramos mais apenas os dois, e tal pensamento me fez abrir um fraco sorriso e me juntar a brincadeira.

***

— Então, Madara sabe sobre ele — Hashirama perguntou sério enquanto me observava colocar Eiji sobre a cama. Depois de muito lutar, o pequeno enfim havia sido vencido pelo sono. — Izuna disse algo que indicasse que Madara também sabe de onde Eiji veio?

— Não — respondi em tom baixo ao me virar para ele. — Na verdade, não houve conversa alguma entre nós.

Hashirama assentiu sem alterar sua expressão séria.

— Se preocupa por ter chances de Madara saber?

— Sim — respondeu ele, claramente sem pensar, mas logo percebeu o que dizia e pigarreou. — Quero dizer... me pergunto o que ele faria se achasse que foi uma ideia minha.

— Acha que ele pode pensar isso?

Hashirama olhou com tristeza em direção a Eiji e se abaixou para acariciar a cabeça do pequeno.

— Eu não sei de mais nada sobre o que ele pensa.

Seu tom de voz magoado me preocupou como muitas das outras expressões que via naquele “novo” Hashirama, e decidido ao menos a entender o que estava acontecendo, me aproximei e coloquei minha mão sobre o ombro dele.

— An-chan — o chamei em tom baixo e consegui sua atenção. — Nós precisamos conversar.

— Depois — respondeu com um sorriso triste e balançou a cabeça de um lado para o outro. Logo ele respirou fundo e me olhou com mais confiança. — Agora precisamos dormir, e amanhã mostrar a Eiji como os Senju vivem!

Ele parecia animado novamente, e sorri de canto em resposta, mas era óbvio que Hashirama estava escondendo algo, e mesmo que demorasse um pouco mais, não iria desistir de conseguir respostas.

***

A medida que os dias foram passando, Eiji se mostrava cada vez mais à vontade em casa. Ele não se escondia mais de Hashirama nos primeiros momentos em que o via, e até mesmo ia atrás dele no escritório ou em qualquer lugar da casa em que podia estar. E eu, bem novamente. Era como se minha estabilidade mental dependesse daquele garoto, e tal pensamento se mostrava verdadeiro em cada pequena coisa que acontecia em nosso dia a dia. Quando ele fazia algo novo ou quase se acidentava por querer fazer o que ainda não conseguia — como correr, principalmente —, eu sempre agia de uma forma diferente e acabava o dia pensando no que havia acontecido e no que poderia acontecer no dia seguinte. Me sentia ansioso por cada segundo que sabia que o veria crescer cada vez mais, mas ao mesmo tempo ficava amedrontado pelas coisas que ainda não sabia como lidar, e me perguntava se algum dia conseguiria agir de forma completamente correta ao educar aquele garoto.

Uma das minhas principais preocupações era o jeito discreto, mas intenso que agia comigo. Hashirama dizia que eu estava colocando problemas onde não tinha, que estava paranoico com o que havia acontecido, mas eu sabia que havia algo de errado com Eiji. Não era apenas por observá-lo, mas também sentia. Todas as vezes em que ele andava pela casa, atrás de Hashirama ou de algum dos criados, ele só continuava seus passos quando tinha certeza que ainda podia manter os olhos sobre mim. Ele sempre olhava para trás, como se temesse algo. E eu sabia o que era. O pequeno ainda achava que o que houve antes poderia voltar a acontecer, e se me perdesse de vista, poderia desaparecer como antes. Ele estava traumatizado. Como ninguém mais além de mim não via aquilo? Talvez pudesse notar melhor porque o conhecia como ninguém, ou pelo simples fato de me sentir como ele. Eu também não gostava de tirar os olhos do pequeno. Quando tinha que me afastar por pouco tempo, apenas para ir até outro cômodo, já me sentia preocupado e com medo de alguém aparecer de repente e levá-lo. Mas apesar da preocupação, eu sabia que aquilo jamais voltaria a acontecer. Eu não estava mais descuidado como antes, e ficava atento a qualquer presença ao nosso redor por todas as horas do dia.

Também havia outro assunto do qual vez ou outra me tirava o sono. Mas aquele não era sobre mim, e de novo quando o viam agir daquela forma, não sabiam o motivo, mas eu, obviamente sabia o que estava acontecendo.

Todos os dias, após se adaptar na nova casa, Eiji brincava normalmente, chamava por Hashirama, não tirava os olhos de mim e então, vinha o pôr do sol e algo mudava. Ele sempre subia sobre o baú que ficava em baixo da grande janela da sala e observava o lado de fora. Em todas as vezes tinha a minha ajuda para subir, e em certo dia, quando tentei recusar a colocá-lo ali, foi como se tivesse aberto uma torneira de lágrimas.

Eu jamais tornei a recusar a ajuda, pois de início parecia uma atitude inocente de uma criança curiosa, mas que logo se tornou de grande significado quando em uma tarde Hashirama foi quem o colocou ali, e minutos depois substituí o meu irmão.

— Ei, pequeno, o que faz aqui de novo? — Perguntei preocupado, já que há dias havia percebido que ele se tornava cada vez mais triste quando olhava pela janela. — O que tem lá fora? — Insisti ao olhar para a mesma direção que ele. Sabia que ele não entendia direito as minhas perguntas, mas não conseguia mais evitar.

Eiji encostou os bracinhos no parapeito da janela assim que me ouviu e deitou a cabeça sobre eles. Ele me olhou tão triste que naquele momento pensei ter sentido algo atravessar o meu coração. Sua atenção logo voltou ao lado de fora, e então ouvi o que eu menos esperava e sinceramente não queria:

— Izu...

E foi quando descobri do que aquilo se tratava. De alguma maneira, Eiji não conseguia esquecer Izuna, e parecia esperar por ele naquela janela. Vê-lo daquela forma me entristecia, mas fui egoísta e passei a ignorar o significado daquele gesto que continuou religiosamente por todos os dias.

“E o que posso fazer? Nada! ”, era o pensamento que tinha todas as vezes em que chegava a hora do dia em que Eiji subia naquele baú. Eu ignorei o quanto pude, mas meu coração acabou não aguentando vê-lo daquela maneira.

Em certo dia, o pequeno ficou mais tempo que o normal na janela. Eu estava distraído, lendo o relatório de uma missão de reconhecimento em que alguns de nossos shinobi haviam ido, e só notei a hora quando li a última frase. Eiji estava quieto demais para alguém “falante” como era, e desconfiado, o virei em minha direção. O que vi fez meu coração falhar por algum tempo, e enfim vi que aquilo não estava certo. O rosto do pequeno estava banhado por lágrimas. Ele havia chorado aquele tempo todo em silêncio enquanto eu, ignorava a sua dor. Eu o abracei no momento seguinte, e senti minha garganta se fechar com o baixo suspiro que o ouvi soltar. Aquilo definitivamente estava errado.

Naquela noite, não consegui nem ao menos fechar os olhos. Eiji dormia tranquilamente sobre o meu peito e aquela visão sempre me trazia calma, porém, se tornou difícil aproveitar aqueles momentos de calmaria sabendo que no dia seguinte, ao pôr do sol, o pequeno seria tomado pela tristeza novamente.

Fiquei a pensar no assunto por todas aquelas horas, e assim que o céu se tornou claro, minha decisão enfim foi tomada. Eu não sabia se era sábio, e tinha a certeza de que me arrependeria independente do resultado, mas faria aquilo por Eiji.

Quando todos na casa já estavam em pé, eu me arrumei com pressa e fui até o escritório de Hashirama. Ele sorriu bobamente ao ver Eiji em meu colo e estendeu os braços em nossa direção.

— Eu preciso sair, An-chan, — avisei assim que coloquei o pequeno em seu colo — pode ficar de olho em Eiji?

— Claro, mas aonde vai?

Hashirama me olhou desconfiado, e não o culpei por isso. Considerando tudo o que já havia feito, aquilo era normal.

— Não se preocupe. Não vou criar nada durante essas horas. Estou dando um tempo nisso.

— Tempo? Pensei que tivesse desistido daquele laboratório!

Seu comentário me arrancou uma alta risada e fui olhado com indignação. Eu nada disse para afirmar ou negar o que ele havia dito e simplesmente mantive o sorriso e beijei o topo da cabeça de Eiji.

— Até mais tarde, pequeno — disse em tom baixo e voltando a atenção para Hashirama. — Antes do pôr do sol estarei de volta. Não o deixe sozinho, ouviu?

Hashirama ainda me olhou com repreensão, mas assentiu, voltando sua atenção para Eiji e o distraindo com sua voz que soava como um idiota. Enquanto eu, suspirei fundo e sai dali sem saber como me sentir.

Eu fui um tolo, sabia disso. Por todo aquele tempo em que tentei esquecer que Eiji havia convivido com os Uchiha, vinha dizendo para mim mesmo que os sentimentos do pequeno vinham antes dos meus, mas depois de tudo percebi que acabei priorizando os meus próprios. Não queria aceitar que Eiji havia se apegado a Izuna, ainda me recusava a dizer até para mim que o outro, apesar de tudo, também era algo para ele, e que a saudade estava o machucando. Pensei apenas em mim ao ignorar sua tristeza sempre que olhava pela janela e o jeito com que chamava por Izuna. Fui egoísta e um pai horrível, tudo por conta de meu orgulho e ódio pelo outro. Mas estava na hora de agir mais do que pensar ou falar. Eu enfim priorizaria os sentimentos de Eiji.

Tentei manter a minha mente limpa enquanto corria por aquele caminho mais uma vez. Em tom baixo repetia a importância de me arriscar daquela maneira, e também por deixar o meu orgulho de lado. E eu achava estar preparado depois de tanta concentração e tempo para colocar meus sentimentos de lado, mas foi difícil não me sentir tentado a descer naquele acampamento mais uma vez e destruir o máximo que conseguisse.

“Por Eiji”, repeti em minha mente pela incontável vez e fechei os olhos. Me esforcei para clarear a mente mais uma vez e tentar sentir o chacra dele, se por sorte estivesse naquele lugar mais uma vez, mas o que senti me fez abrir os olhos rapidamente e abaixei o meu corpo.

— Droga — murmurei para o nada, me sentindo tenso imediatamente.

Madara estava no acampamento, e sua presença significava problemas para mim. Meu orgulho sempre me fazia tentar enfrentá-lo no campo de batalha, mas eu não era idiota e reconhecia que sua força só conseguia ser comparada com a de meu irmão. Eu teria que recuar e tentar achar Izuna de outra maneira, e então entregar o que queria.

Me senti frustrado ao dar um passo para trás, e desejei que ao menos uma vez as coisas fossem mais simples. Acabei rindo em tom baixo, pois no momento em que pensei de tal maneira, ele apareceu, exatamente como no dia em que armamos uma emboscada para os Uchiha bem ali.

O estrago que fizemos havia sido grande, e na verdade não deveria ter me sentido tão surpreso por ver os irmãos ali. Eles obviamente tentariam reerguer o lugar de outra maneira. Não como uma base igual a antiga, mas sim uma armadilha para nós. Os Uchiha eram bons guerreiros, mas ingênuos demais em seus planos.

Mesmo com Izuna ali, não havia o que fazer. Se chamasse a atenção dele, também estaria praticamente implorando para Madara me atacar. Um não esconderia o inimigo do outro, eu tinha a certeza disso, por isso continuei a recuar. Porém, não sabia dizer como, mas assim que estava prestes a perder a vista total do acampamento, ele se virou em minha direção.

Foi por poucos segundos, mas o vi levantar a cabeça e tive a impressão de que nossos olhares haviam se encontrado. E eu não fiquei para ter certeza. Eu corri como nunca, tendo a confiança de que seja quem fosse querer me acompanhar, não conseguiria — até mesmo Madara — e realmente teria sido de tal maneira, se não tivesse sentido uma solitária presença bem longe dali, também confiante que poderia me alcançar.

Soltei uma risada debochada ao conseguir reconhecer o chacra que me perseguia, e diminui a minha velocidade. Com um pulo subi em uma das árvores que rodeavam o lugar e o esperei.

A demora não foi tanta, mas suspirei impaciente até poder ver seu olhar raivoso lá em baixo.

— Pensei que tivéssemos um trato — disse ele com raiva, e pude ver que em suas mãos apertava o cabo de uma espada.

Minhas sobrancelhas se juntaram no mesmo momento em que o ouvi e como se fosse óbvio, respondi:

— Foi apenas por aquele dia.

O olhar de Izuna ficou mais intenso e em seguida apontou a espada em minha direção. Minhas mãos tremeram de vontade de também sacar minhas armas, mas as mantive quietas, enquanto mais uma vez tentava manter a minha mente limpa. Eu não estava ali para aquilo, infelizmente.

Quando me movi, Izuna pareceu agitado e pronto para me atacar, porém ele logo me olhou confuso ao me ver retirar em vez de uma arma, um papel de meu bolso.

— Hoje não — disse simplesmente e joguei o papel em sua direção. Izuna não tirou os olhos de mim e assim que o papel tocou o chão, senti mais uma presença se aproximar.

Izuna se distraiu com a aproximação que claramente era de seu irmão — mesmo estando tão longe que nem ao menos podíamos vê-lo — e assim que desviou o olhar, não hesitei em sumir dali. O que fui fazer, achando ser pelo bem de Eiji, estava feito, e a partir dali a decisão seria apenas dele.

Enquanto me afastava, pude enfim pensar com sinceridade que após aquilo, realmente não havia mais nada que eu pudesse fazer.