Eiji
6 Capítulo Cinco
— Aonde vão? — Perguntou Hashirama, sem esconder sua enorme curiosidade. Ele hesitou em me entregar Eiji, mas bastou um olhar sério e logo consegui pegar o pequeno.
— Vou levá-lo para conhecer um lugar em que ia quando era mais novo — eu disse na intenção de tranquilizá-lo, mas apesar de estar escondendo certas coisas dele naquele dia, essa parte era verdadeira.
— Ok — ele assentiu devagar, mas me olhou desconfiado assim que cruzou os braços. — Vocês... vão voltar, certo?
Fiquei surpreso por ouvir aquilo e ainda mais ao ver a expressão desconfiada de meu irmão ganhar um leve tom de tristeza.
— Se não fôssemos voltar, você seria o primeiro a saber — eu disse após terminar de pegar uma pequena mala e aconchegar Eiji em meu colo. Me aproximei dele novamente e me senti culpado quando olhei em seus olhos. — Não se preocupe.
Hashirama assentiu mais uma vez, e mesmo ele parecendo um pouco mais aliviado, o sentimento de culpa ainda ficou em meu interior.
“Me desculpe, An-chan”, pensei ao sair de casa. Até aquele momento nunca havia pensado de maneira pessoal como havia sido para Hashirama ser deixado por mim por um ano inteiro. Apenas as obrigações com o clã e o trabalho que deixei para ele me deixavam pensativo, e foi incômodo perceber que fiz muito mais idiotices no passado do que tinha me dado conta.
Meu irmão nos acompanhou até a porta, como no dia em que saí de casa para esconder a existência de Eiji. Mas diferente daquela época, ao olhar para trás, notei muito mais do que antes. Desde que havia passado a criar o pequeno, passei a ser daquela maneira. Muito mais observador sobre o que os outros sentiam, e me afetava — de maneira boa ou ruim — com o que via com mais facilidade. Eu não sabia como havia me tornado daquela maneira, mas de certo modo não achava de todo ruim. Com aquilo também aprendi a cuidar melhor das pessoas que me eram importantes.
Hashirama sorriu como bobo — assim como era costume — quando Eiji chamou por seu nome em tom animado antes de sairmos. Meu irmão acenou em nossa direção, e percebi seu olhar nos seguir até nos perder de vista. Sabia que ele ainda estava preocupado, apesar de também ter certeza de que acreditou em minhas palavras antes de sair, mas pude notar que agia daquela maneira igualmente por outro motivo. Ele havia se apegado a Eiji tão rápido quanto eu, e seu olhar que nos perseguiu enquanto nos afastávamos era mais protetor do que desconfiado. Ao pensar nisso eu segurei Eiji com mais firmeza e o levantei à minha frente. O pequeno me olhou animado com aquela posição que adorava e sorriu ao ouvir a minha voz.
— Que tipo de magia você usou em todos nós, pequeno?
Ele riu de maneira gostosa quando o chacoalhei e o levantei um pouco mais, e assim como o meu irmão, abri aquele sorriso que jamais acharia que um dia mostraria com tanta frequência. Tudo por causa de uma coisa tão pequena como aquela que ria sem parar em meus braços.
A caminhada foi feita devagar e demorou mais tempo que costumava para chegar em nosso destino. A primeira vez que fui naquela direção estava com o meu pai e há muitos anos, e nas outras oportunidades segui por ali sozinho, logo não havia com o que me preocupar. Eu corria sem pensar em nada, ou como na primeira vez segui o ritmo dos passos apressados de meu pai. Ele era bom para mim e meus irmãos, mas vez ou outra sua falta de atenção em nossas limitações por conta da idade nos atrapalhava, mas sinceramente eu gostava daquilo. Ele corria sem se preocupar com a óbvia diferença de resistência entre nós dois e me lembrava que quando chegamos no local em que ele queria me mostrar, sentia como se meus pulmões haviam sido arrancados. Era difícil alcançá-lo, mas eu gostava e era agradecido por não ter sido subestimado, pois tentar me igualar a ele me fez crescer mais rápido e ser muito mais resistente do que seria sem o meu pai.
Eu sempre pensei que se um dia tivesse um filho, queria ser como o meu pai. Eu não o trataria como uma carga ou o subestimaria por ser novo demais. Ele seria um igual e não admitiria regalias ou reclamações, não importasse a idade que meu filho teria. Era o que eu pensava antes de Eiji, e ri de mim mesmo ao olhar para o pequeno enquanto fazíamos uma pausa da caminhada porque estava cansado, mesmo tendo permanecido em meu colo o tempo todo.
— Eu respeito o seu avô mais do que nunca agora — eu disse ao balançá-lo sobre as minhas pernas. — Jamais teria forças para tratá-lo daquela maneira. Porque você é fofo demais — apertei sua bochecha e ri ao ouvi-lo reclamar.
Logo voltamos a caminhar, e para o meu alivio, além de estarmos bem próximos de nosso destino, Eiji quis arriscar andar um pouco. Soltei um suspiro aliviado por sentir meus braços mais leves, mas não tive conforto por muito tempo. Ele ainda não andava com muita segurança e tive que curvar minhas costas enquanto o ajudava segurando suas mãozinhas.
Eiji cansou muito mais rápido do que o costume e voltou para o meu colo, mas não o culpava. Apesar de o dia não estar quente, o sol ainda atrapalhava e até mesmo eu me senti mais cansado do que quando corria por ali. Cuidar de uma criança era definitivamente mais cansativo do que qualquer outra coisa.
Quando finalmente chegamos, pude realmente me sentir aliviado. O local estava como me lembrava, com exceção da grama que havia crescido um pouco mais, mas nada que atrapalhasse a nossa permanência ali. O ponto principal daquele lugar no meio da floresta não era o vasto campo gramado ou as grandes árvores que em certa época do ano eram cobertas de flores, trazendo um aroma incrível. Meu pai dizia que eram esses os pontos positivos, para poder se acalmar e pensar melhor em suas estratégias, por esse motivo me mostrou o lugar, um ano antes de sua morte. Eu concordava com ele sobre a paz que aqueles elementos traziam, porém, para mim o melhor de tudo era o grande lago que se fosse atravessado, ganharia o caminho para uma floresta diferente daquela, mas igualmente vazia. Era um ótimo lugar para pensar. Era o lugar de meu pai, e passou a ser o meu depois de algum tempo. Eu queria que Eiji também tivesse o costume de ir ali quando crescesse. Que tivesse o mesmo prazer de mergulhar naquele lago como eu tinha quando era mais novo. Seria o nosso segredo, se eu não estivesse precisando de um lugar isolado para fazer aquilo.
Enquanto com dificuldade colocava um fino lençol sobre o chão, passei a repensar naquilo. Realmente não havia opção mais segura, mas como havia previsto, já estava me arrependendo antes de tudo.
Coloquei Eiji sentado no lençol assim que estava perfeitamente estendido no gramado. O pequeno começou a reclamar de algo, e adivinhei certo quando ofereci seu alimento, que foi devorado em segundos. Mais tarde o pequeno se distraiu com seus brinquedos trazidos na mala, e nem sequer olhou para o lago que eu tanto venerava.
— Em alguns anos, quem sabe — disse desanimado enquanto afagava as costas dele.
O pequeno me ofereceu um de seus brinquedos, e aquilo era uma clara obrigação de brincar com ele, não um pedido, e sem hesitar me juntei a ele.
O lugar não estava mais calmo como antes por causa de nossa presença. Nada era silencioso e quieto quando Eiji estava a fim de brincar e tentar falar sem parar. Ele ás vezes gritava, feliz com alguma bobagem que eu fazia enquanto brincávamos ali, e mesmo com todo o barulho, conseguia me sentir ainda melhor do que quando ia até aquele lugar sozinho. Mas aquele sentimento bom em meu peito se foi em certo momento, especificamente quando senti a presença de uma terceira pessoa.
Instintivamente trouxe Eiji para mais perto, mesmo sabendo quem era e que eu mesmo o havia convidado para ir até ali. Uma sensação ruim me tomou quando o vi surgir entre as árvores e tive certeza de que realmente me arrependeria. Eu não o queria ali ou perto de Eiji, mas como antes precisei respirar fundo e pensar apenas no que o pequeno precisava e sentia.
Quando Izuna se aproximou, ignorou a minha presença, o que agradeci mentalmente, mas não pude fazer o mesmo quando ele se ajoelhou ao lado de Eiji e tentou tocá-lo. Me senti ainda mais incomodado e alerta, e afastei um pouco o pequeno, que sem entender o que estava acontecendo, se segurou em minha blusa. Ele ainda não havia notado Izuna, e aproveitei aquilo para antes de tudo avisá-lo:
— Se fizer algo suspeito, não hesitarei como antes.
O olhar de Izuna finalmente caiu sobre mim e o vi suspirar pesadamente antes de assentir e voltar a me ignorar. Aos poucos soltei o pequeno, e o coloquei de volta sobre o chão. Assim que Eiji se separou de meus braços, ouviu o chamado por seu nome e finalmente notou o outro atrás de si. A felicidade ao ver Izuna foi muito clara, e para me controlar, tive que desviar o olhar quando o vi se jogar sobre o colo dele. Era incômodo. Extremamente incômodo. Minhas mãos se apertavam uma na outra enquanto tentava controlar o meu nervosismo.
Vez ou outra não conseguia resistir e os sons das risadas de Eiji me chamavam a atenção e os olhava brincando. O pequeno parecia feliz demais por ter Izuna ali, até mais do que quando estava comigo, e perceber isso fez o meu peito se apertar.
Estava odiando ver Izuna agir como se o conhecesse bem. Tudo piorava com o tom de voz infantil com que falava com o pequeno. Ele por acaso não sabia que Eiji o entenderia mesmo falando normalmente, ou todos aqueles anos de guerra haviam afetado a sua mente? Ri internamente ao olhá-lo agir como um idiota enquanto falava e afirmar secretamente que provavelmente era a última opção.
Aquilo era ridículo, e ficava cada vez pior conforme os minutos passavam lentamente e de forma torturante. Eles não paravam rir. O que era tão engraçado? Eu definitivamente não gostava daquele clima, e sem pensar mais uma vez, me levantei dali e passei a recolher os brinquedos com pressa.
— Já é o suficiente — eu disse assim que terminei de guardar tudo e peguei Eiji do chão. — Nós precisamos ir.
— O quê? — Perguntou Izuna com surpresa e se levantou quando puxei o lençol a fim de guardá-lo. — Não! — Exclamou quando tentou tocar Eiji e o afastei. — Estamos aqui há apenas uma hora.
— É bastante tempo — respondi sem olhá-lo e finalmente com a mala pronta para sair dali o mais rápido possível.
Izuna me chamou quando dei as costas, e teria ignorado se o pequeno não tivesse ficado agitado com o clima pesado que ficara entre nós. Meus pés ficaram parados no mesmo lugar e quis me acalmar antes de virar em sua direção, mas antes disso o ouvi mais uma vez:
— Quando irei vê-lo novamente?
Finalmente me virei e pela primeira vez naquele dia nos encaramos sem indiferença. Eu estava nervoso por ter ele à minha frente, como sempre.
— Eu não sei se isso vai dar certo.
Eu sabia que não daria, mas tentei por Eiji. Porém, não conseguia seguir com aquilo.
— Isso não é justo! — Izuna deu um passo à frente ao falar. — Eu...
— Eu não ligo para o que pensa e muito menos o que sente — cortei sua fala ao deixar claro. — Isso, foi por ele, nada mais.
Apontei rapidamente para Eiji enquanto falava e o pequeno, não entendendo o que estava acontecendo, nos observou em silêncio e agarrou o meu dedo, achando que estava brincando com ele.
Izuna o observou por algum tempo como eu e soltou um longo suspiro.
— E acha que agora que o deixou me ver por uma hora, tudo voltará a ser como antes? — Seu tom calmo ao dizer tal coisa me irritou, pois soou como uma provocação juntamente com aquelas palavras. Izuna não era calmo daquela maneira. Pelo menos não o Izuna que eu conhecia.
Minhas mãos foram automaticamente para a gola da blusa dele e o trouxe para mais perto com rapidez. Izuna reagiu imediatamente e sacou uma kunai, a pressionando em minha cintura em seguida.
Eu só queria acabar com aquilo de uma vez. Não devia desculpas ou promessas a ele, porém, mais uma vez Eiji foi o motivo para recuar e deixar o meu orgulho de lado. O pequeno não notou a kunai em minha cintura ou sequer interpretou o meu jeito de agir com o outro como uma ameaça, e inocentemente tocou o peito de Izuna que estava bem próximo de nós. Ele riu sem motivo algum e deu leves tapas nele, em seguida fazendo o mesmo em meu rosto, onde aproximou seus lábios e em seguida tentou morder.
Ambos soltamos suspiros derrotados e também sem saber o motivo nos olhamos envergonhados ao nos separarmos. Eiji logo perdeu o interesse em meu rosto e sua mão foi como sempre seu alvo de mordidas, se distraindo de nosso assunto novamente.
— Vamos conversar sobre isso sozinhos em uma outra oportunidade — disse finalmente, assim que notei que o silêncio entre nós não seria quebrado por ele.
— Sabe muito bem que se nos encontrarmos sozinhos, não vamos conversar de maneira alguma.
Izuna me olhou sério e esperou por uma resposta, que não veio de imediato. Ele estava certo. Se Eiji não estivesse entre nós na próxima vez em que nos víssemos, não haveria conversas. O quase conflito de minutos atrás teria ido além se o pequeno não estivesse ali, e provavelmente voltaria para casa completamente destruído, assim como era sempre quando nos encontrávamos. Ao pensar naquilo acariciei a minha própria mão, ainda podendo sentir a marca de nossa última luta.
Tentei pensar em Eiji novamente, mas não consegui enquanto encarava Izuna esperando por uma resposta.
“Não me olhe como se pudesse me mudar com suas palavras”, pensei com nervosismo. Dei as costas mais uma vez e o ouvi suspirar impaciente.
— Sexta-feira, no começo da tarde — eu disse sem olhá-lo. — Não se atrase.
Nós resolveríamos aquilo. Com conversa ou não, aquela história teria fim. Eiji iria sofrer, e sabia que estava sendo horrível por fazê-lo passar por aquilo, mas ele ainda era novo demais, e mesmo que demorasse meses, algum dia acabaria esquecendo Izuna ou qualquer Uchiha. Com esses pensamentos eu me afastei dali, surpreso por não ter sido impedido por Izuna e com o coração em pedaços por ouvir o pequeno em meus braços começar a chorar enquanto olhava para trás e estendia o bracinho na direção dele.
Eiji chorou por muitas horas naquele dia. Não houve conversa ou brincadeira que o acalmasse por bastante tempo, e quando chegamos em casa, ainda podia ouvi-lo soluçar em meu peito, onde descansava a cabeça. Tive que arranjar uma desculpa qualquer como cansaço para Hashirama, quando perguntou preocupado o que havia acontecido para Eiji ficar daquela maneira. Eu não queria mentir para o meu irmão mais uma vez e muito menos deixar o pequeno daquela maneira, porém, acabei fazendo ambas as coisas por conta de meu orgulho novamente.
Quando Eiji enfim se acalmou, foi porque acabou adormecendo. Naquele meio tempo repassei o que havia acontecido durante aquela manhã e não importava o quanto tentava ver um lado bom para aquilo, só conseguia me sentir mal por tudo. Tanto pelos momentos bons para Eiji quanto os ruins, e por isso me sentia extremamente culpado. No fim, não consegui deixar os meus sentimentos completamente de lado.
Minha culpa durou muito mais do que esperei. O pequeno acordou eventualmente e não parecia mais chateado como antes. Ele ficou feliz por ver Hashirama e passou o resto das horas se distraindo com ele enquanto eu, não muito longe deles, tentava esquecer o que havia acontecido tentando estudar o mapa de meu irmão. Tentei me concentrar, mas naqueles círculos no papel só conseguia ver Eiji rir para Izuna e em seguida chorar como nunca. Meus olhos voltaram para ele brincando com Hashirama, e ri de seu jeitinho fofo ao tentar se comunicar com suas palavras inventadas e gestos com as mãos. Ele era precioso demais para passar por aquilo. Me sentia um lixo por deixar com que tudo acontecesse com tanta facilidade.
Antes do jantar, Eiji, impaciente demais para se equilibrar, engatinhou até a sala, sabendo que seria seguido por mim. Ele me olhou quando se levantou e em seguida bateu duas vezes no topo do baú em baixo da janela. Me senti apreensivo por ajudá-lo a subir ali, esperando por mais choros ou expressões tristes, mas o pequeno agiu diferente e trocou tudo o que fazia ali todos os dias por empolgação enquanto olhava para o lado de fora. Ele estava esperando por Izuna outra vez, mas sua felicidade por tê-lo visto naquele dia aparentemente o fez ter esperanças de que o veria outra vez.
“O que eu fiz?”, me perguntei, sentindo-me ainda mais culpado, mas sorrindo fraco quando o vi voltar seu olhar alegre em minha direção.
***
“Eu só posso ser um idiota”, pensei seriamente naquela tarde de sexta-feira.
Meus olhos passaram por Izuna, que me ignorava mais uma vez, e desceram até a pequena pessoa que não deveria estar ali. Eu não consegui deixá-lo quando vi seus olhos curiosos me observar enquanto me arrumava e principalmente ao me lembrar da empolgação com que olhava pela janela todos os dias e só descia do baú quando estava exausto. Eu odiava aquilo, mas era óbvio que sentia a falta de Izuna.
Izuna ficou claramente surpreso por ver Eiji comigo no começo da tarde, mas nada disse sobre o assunto e apenas deu a atenção para o garoto, que pareceu se iluminar assim que passou de meu colo para o dele. Aquelas atitudes de Eiji me machucavam, mas me esforçava para me mostrar tão indiferente quanto Izuna parecia estar por mim.
Admitia que sua atitude aliviava um pouco a tensão daquele momento, mas era incômodo observá-los agir como se eu não estivesse ali. Porém, a indiferença de Izuna e o meu silêncio tiveram que ter fim quando Eiji se levantou sozinho e colocou os pés descalços no gramado. Izuna ficou desesperado e tentou trazê-lo de volta para o lençol, mas o impedi, o que resultou em uma briga silenciosa de olhares por um tempo, seguindo de uma leve discussão. Por parte de Izuna, sobre o perigo de Eiji se cortar em algo enquanto andava sem proteção, e por mim, por querer que o pequeno aprendesse a andar com mais segurança e sem um de nós para ajudá-lo.
— Isso definitivamente não dará certo — disse raivoso quando Izuna não aguentou ver Eiji se afastar um pouco mais e o trouxe de volta para o nosso lado.
— É tudo sua culpa.
Sua voz acusadora me fez virar para ele e juntar as sobrancelhas. Eu não precisava ouvir aquilo dele quando o motivo de uma situação como aquela foi por sua atitude impensada de levar Eiji assim que o viu. Ele queria me irritar com aquilo.
— Eu disse para levá-lo para casa? Para deixar com que se apegasse? — Fiz as perguntas em tom alto demais por conta da raiva. — Não me recordo.
— O que eu poderia fazer? — Izuna também aumentou o tom de voz. — Ele é...
— Ele não é seu filho só porque o manteve por um pouco mais de um mês — cuspi as palavras com raiva, cortando o que eu já sabia o que ele iria falar.
— Não! — Exclamou ele ainda mais nervoso, mas estranhamente se aquietando com urgência.
Naquele momento notamos Eiji nos observar assustado pelo modo agressivo com que conversávamos, e a fim de tranquilizá-lo, respirei fundo e tratei de me acalmar aos poucos.
— O motivo é muito maior que esse, — Izuna continuou, mas em um tom mais ameno — e você sabe muito bem disso — ele me olhou nos olhos pela primeira vez naquele dia. — Pode ter sido por pouco tempo, mas foi o suficiente para mim, e claramente para ele também. Você deveria entender.
— Eu só não entendo o que espera — foi a minha resposta imediata e completamente séria, que não foi rebatida.
Izuna desviou o olhar e ficou em silêncio por um bom tempo, e fiz o mesmo que ele. Nós não deveríamos conversar, nunca levaria a nada, sabíamos bem disso, e sem precisar dizer nada, fingimos que aquele assunto não havia surgido. Izuna voltou a me ignorar e a brincar com Eiji pelo resto dos minutos que dei a eles, e por todo aquele tempo não voltei a encará-lo, nem mesmo antes de irmos embora dali.
Eiji chorou mais uma vez, mas sua tristeza não durou tanto quanto da primeira vez. Ele chegou animado em casa, o que me deixou mais aliviado, porém, ao pôr do sol, quis voltar para aquele maldito baú e esperou por Izuna até pegar no sono.
Naquela noite eu jurei não voltar mais naquele lugar, mesmo sendo tão importante para mim. Izuna, antes de me afastar, simplesmente disse um dia da semana seguinte e o horário, assim como eu já havia feito com ele. Era óbvio o que aquilo queria dizer, mas não podia mais fazer aquilo, foi o que pensei naquela noite inteira, mas como antes, Eiji amoleceu o meu coração e mais uma vez me vi irritado e pronto para pular na garganta de Izuna.
— Você poderia deixá-lo comigo e voltar em algumas horas — sugeriu Izuna sem me olhar. — Seria mais fácil para todos nós.
— E deixá-lo sozinho com Eiji? — Ri debochado e o olhei indignado quando finalmente ganhei atenção. — Pensei que fosse óbvio, mas parece que vou ter que lhe explicar — me aproximei dele e o encarei sério. — Eu não confio em você, então isso nunca irá acontecer.
— Eu não busco a sua confiança, — ele rebateu rapidamente — só quero um tempo com Eiji em que você não esteja à nossa volta como um cão de guarda!
Ele definitivamente queria me tirar do sério, mas não cedi como queria e apenas voltei a me afastar e respondi sem me alterar:
— Não brinque com a sua sorte, Izuna.
Eu passei a ficar com raiva o tempo todo após aqueles dias. Era parecido como antigamente, mas havia algo a mais em nossos olhares, uma rivalidade diferente que jamais achei que existiria. As semanas foram passando e Eiji ficava feliz por ver Izuna uma vez a cada sete dias, e nós dois, após o silêncio constrangedor de sempre, acabávamos disputando pela atenção do pequeno, que diferente de antes em que dava atenção apenas para Izuna quando chegávamos perto do lago, se dividia entre nós.
— Tobirama — Izuna se dirigiu diretamente a mim pela primeira vez em semanas. Eu não virei para olhá-lo, e continuei a observar Eiji se afastar um pouco de nós, andando no gramado e com os pés devidamente calçados. — Sabe que nunca vou desistir dele, não é?
Mesmo com aquela pergunta, não me virei para ele e muito menos me alterei. Havia chegado ao ponto de me cansar daquilo. Eiji estava ali e eu não podia avançar sobre Izuna como fazia em batalha, e sinceramente, já sabia o que se passava em sua mente. Eu podia estar sempre silencioso naqueles encontros, mas não era idiota e sabia observar bem. Izuna já estava envolvido demais.
— Eu sei — eu disse simplesmente. — E isso me deixa com uma coisa a mais para pensar — finalmente virei meu rosto para ele ao dizer. — Como irei explicar para ele algum dia, que você morreu e fui eu o responsável?
Izuna retribuiu o olhar sério quando me ouviu, mas não me respondeu imediatamente. Parecia pensativo, e por um momento imaginei se estaria pensando o mesmo que eu. A guerra, apesar de estar andando com passos lentos, ainda estava viva e não demoraria muito para voltarmos a nos enfrentar. A próxima batalha pelo poder poderia ser como as que já havíamos travado, e voltaríamos gravemente feridos ou pouco, mas também podia significar o fim para um de nós, e estava confiante que seria o fim dele e dos Uchiha.
— Acho que isso é uma coisa com que eu deveria me preocupar — Izuna se pronunciou finalmente e não tirou os olhos de minha direção.
Também fiquei atento a ele e as palavras que ouvi. Com aquilo ficou claro que pensava como eu, mas havia um significado a mais ali, que notei com rapidez e assenti para ele antes de voltar a observar Eiji.
O jeito que conversávamos era estranho por ter palavras tão ameaçadoras e usarmos tons tão calmos, mas era porque sabíamos como seria o fim daquilo. Um de nós cairia, e sem precisar de muito mais que aquelas palavras, concordamos em como terminaria aquela história.
Era estranho poder me comunicar tão bem com Izuna a ponto de não precisarmos de muitas palavras para nos entender, mas foi um alívio poder ter certeza de que um dia não precisaria mais passar por momentos como aquele.
Com um acordo mudo, decidimos que o último a ficar em pé cuidaria de Eiji, e tinha a certeza de que este seria eu.
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