Eiji

11 Capítulo Nove - Parte II


Os dias passaram lentamente enquanto esperava por notícias. Fiquei a imaginar todos os tipos de atrocidades, onde Izuna não mandava seu gavião de uma vez porque estava morto ou quase. Havia horas em que eu não fazia nada além de andar de um lado para o outro e esperar — era a única coisa que podia fazer, afinal.

Eiji passou a se preocupar com o meu jeito, e ao notar isso, tive que procurar me acalmar. Ele já estava triste demais por não poder ver Izuna, e não precisava de mais pensamentos ruins por minha causa. Pensando em focar no pequeno, me encarreguei de pensar apenas em suas necessidades. Ele pareceu mais calmo e risonho quando voltei a contar as histórias que tanto gostava. Em uma noite também acendemos a nossa fogueira; no dia seguinte fomos até o lago e Eiji se divertiu com o meu dragão de água. Estava aliviado por poder fazê-lo sorrir daquela maneira de sempre, mas meu peito nunca deixou de ficar pesado e o sentimento incômodo também não ia embora.

Em certo dia, Eiji se sentou no banco na frente da cabana. Quando o notei ali, fui fazer companhia a ele, e o vi encarando as árvores um pouco longe dali. Perguntei o que ele estava procurando, e a resposta era a esperada, mas, ainda assim, me atingiu em cheio. Era como se tivesse voltado no tempo, e aquele Eiji de um pouco mais de um ano de idade voltava a esperar por Izuna sobre o baú em baixo da janela.

Me senti muito mal por ele, e ali naquele banco passei a pensar se seria uma má ideia procurar por Izuna, ou ao menos por notícias. Ele havia dito que mandaria sinal de vida, e não acreditava que ignoraria suas palavras daquela maneira, não quando sabia que teria um garotinho ansioso e apegado esperando todos os dias.

Eu comecei a pensar no pior novamente, e engoli os sentimentos que tentaram surgir ao imaginar como seria a nossa vida sem Izuna. Tudo o que passou por minha mente naquele momento foi apenas os piores e mais sofridos cenários. Minha garganta se fechou ao abaixar o olhar para Eiji, que mantinha os olhos fixos nas árvores, esperando Izuna aparecer a qualquer momento. Mas eu sabia que ele não iria aparecer. Não havia como, depois de tudo.

Fechei os meus olhos naquele momento e suspirei fundo. Senti meu corpo amortecido por um momento, como se estivesse realmente sonhando, e deixei a minha mente voar para todos os momentos em que o tivemos ali ou até mesmo antes. Quando nos conhecemos, crescendo como inimigos, de crianças que se odiavam apenas porque disseram que deveria ser daquela maneira à adolescentes raivosos, para depois, adultos rancorosos e vingativos, e então, pais daquele garoto ao meu lado, que nos fez deixar tudo para trás e recomeçar de outra maneira. De um jeito que nós decidimos como seria.

Sorri tristemente ao me lembrar de tudo aquilo, e ia deixar que minha mente fosse mais a fundo quando fui obrigado a abrir os olhos e voltar para o presente de forma abrupta. Demorou algum tempo para entender o que estava acontecendo, e fui despertando aos poucos, notando as mãozinhas de Eiji em meu braço, me chacoalhando insistentemente enquanto ele gritava algo. Ele logo me soltou e sorriu largamente enquanto apontava para cima, e quando meus olhos seguiram naquela direção, senti o meu coração bater com tanta força que pensei que o meu peito rasgaria.

Era o gavião de Izuna.

Eu só consegui respirar normalmente quando estava com o papel em mãos, podendo ver sua letra avisando que estava vivo e se recuperando do ferimento sofrido. O recado foi o mais longo que ele já havia mandado, e nele Izuna pedia desculpas por não ter dado notícias antes da batalha, alegando ter tido olhos em cima de si a todo momento enquanto se preparavam no acampamento ou até mesmo em sua casa. Ele também explicou que o mesmo aconteceu naquela semana após ter sido apunhalado. Nos primeiros dias, não conseguia se mover por causa da dor, mas quando conseguiu, Madara não permitiu que ficasse sozinho, temendo que sua situação piorasse. Ele pediu desculpas novamente por isso, e também a Eiji, no recado que deixou para o pequeno, pedindo que tivesse um pouco mais de paciência e para esperá-lo. A última parte li em voz alta para ele ouvir. Pela primeira vez o vi corar quando li a última frase em que Izuna dizia que o amava e estava com saudades. Foi impossível não achar aquilo completamente adorável. Tanto Eiji quanto Izuna, eles eram fofos demais.

Eu acabei lendo aquele recado mais de três vezes antes de notar que o gavião dele ainda estava ali. E o significado daquilo me fez abrir um largo sorriso e levar Eiji para dentro de casa. Izuna estava esperando uma resposta, então nós escreveríamos uma.

Eiji quis ter as primeiras palavras para ele, e as escrevi sem tirar o sorriso do rosto. Cada palavra era tão fofa e inocente que me fazia ter vontade de apertá-lo com força naquele momento, mas me segurei enquanto escrevia. Subitamente me senti tímido quando foi a minha vez de colocar as minhas palavras ali. Izuna parecia diferente naquele recado; mais sentimental e livre de um pouco do orgulho. Ele nunca havia me pedido desculpas por nada, e daquela vez havia pedido duas vezes no papel. Seu jeito novo de agir me fez ficar sem saber o que dizer para ele, pois haviam muitas coisas em meu coração naquele momento e que sabia que não deveria colocar para fora, mas ao reler suas palavras, fiquei a me perguntar se Izuna ficaria feliz se eu realmente dissesse tudo que estava guardado em meu peito.

Eu pensei por algum tempo, mas me apressei por causa de Eiji, que ficava me mandando escrever logo para que o seu recado chegasse mais cedo para o seu pai. Eu ri em tom baixo de suas palavras raivosas, mas ao mesmo tempo tão fofas, e enfim comecei a escrever.

Em minha parte do recado pedi que me desse mais detalhes do estado de sua saúde, e respondi sua pergunta sobre quem havia cuidado de Eiji enquanto estávamos batalhando. Ele também já sabia sobre Aika, e imaginei que não se importaria com a minha decisão de ter deixado o pequeno sob os cuidados dela. Também disse com palavras mais adultas o quanto Eiji sentia a falta dele, e no fim, não consegui dizer que eu também estava como o nosso pequeno. Mas escrevi bem, apesar de pouco, e não foi surpresa ver no dia seguinte o gavião voltar a nos visitar, com palavras mais animadas e curiosas e ainda cheias de saudade. No próximo dia depois daquele, ele também mandou recados, e nos outros também, e sem perceber estávamos trocando mensagens diariamente e com assuntos banais sobre o dia a dia, assim como conversávamos quando podíamos nos ver pessoalmente. Eu realmente sentia a falta dele, mas aquelas mensagens conseguiam me acalmar muito mais do que o silêncio que antes tanto prezava.

Os dias foram voltando a passar um pouco mais rápido depois que soube que Izuna estava bem, e uma absurda ideia passou por minha mente quando certo dia recebi seu primeiro recado na parte da manhã. Nele Izuna contava que se sentia um pouco melhor e que até mesmo andou nos arredores de sua casa por alguns minutos. Meu olhar foi diretamente para Eiji, e imaginei o quão feliz ele ficaria em poder vê-lo em breve, e no momento seguinte larguei a roupa que estava lavando e me apressei a escrever a minha ideia desprovida de juízo para Izuna, que ainda mais desmiolado que eu, mandou sua resposta aceitando tudo no começo da tarde.

Eu logo aprontei Eiji e o avisei que ele visitaria Hashirama por aquele dia. Ele se assustou e perguntou se iria ficar sem me ver por muito tempo igual a última vez, mas logo o tranquilizei, dizendo que voltaria ainda naquele dia, e com boas notícias. Minhas palavras o deixaram mais curioso do que já era, e o caminho em que corri até o núcleo do clã foi feito cheio de perguntas, das quais me recusei a responder.

Hashirama me olhou com suspeita quando pedi para ficar com o pequeno por algumas horas, mas não dei chances para ser questionado também por ele. Parti ainda mais rápido depois que deixei Eiji em segurança, e com um sorriso tolo corri sem parar até além da cabana. Era ainda mais longe do que o meu clã, mas não me senti incomodado por isso, pois sabia que no fim teria não só uma recompensa, mas sim duas.

Havia sugerido a Izuna que andasse o máximo que pudesse de seu clã até a floresta mais próxima, a qual ele me revelou qual era sem me questionar ou desconfiar. Ele parecia ansioso por sua letra ser escrita com rapidez, e aceitou que eu o ajudasse a andar até a cabana. Eu finalmente o veria naquele dia, e no fim, poderia ver Eiji completo novamente. Estava extremamente ansioso.

Eu parei no momento em que cheguei na floresta indicada por Izuna. Esperei a minha respiração se normalizar e então procurei pelo chacra dele, que senti fraco e um pouco distante de onde estava. Voltei a correr na direção onde o localizei, e abri um largo sorriso ao finalmente me aproximar. Meus olhos se encheram assim que pude finalmente vê-lo ali, encostado em uma árvore enquanto me esperava. Eu corri até ele, ansioso pela saudade de ouvir sua voz, que passou por meus ouvidos como uma das mais belas melodias. Ele me cumprimentou um pouco sem jeito, e as bochechas levemente coradas fizeram com que meus braços tremessem pela vontade de abraçá-lo com força e enfim novamente poder sentir aquele cheiro que já havia saído de meu travesseiro.

Naquele momento, pensei que enlouqueceria se tivesse ficado mais tempo sem vê-lo, e mesmo sem demonstrar muito do meu contentamento, não senti aquele peso de sempre reprimir os meus sentimentos em sua presença. O sorriso sem jeito que me deu ao aceitar o apoio de meus ombros foi o suficiente para mim naquele momento, e fiquei agradecido por ele estar conseguindo se recuperar tão bem.

Nós andamos devagar, obviamente pela condição dele, e por algum tempo em silêncio. Após a minha euforia passar, passei a me sentir um pouco constrangido com a situação. Ele tinha o braço em meus ombros, mas, ainda assim, precisou de mais apoio e tive que segurá-lo pela cintura. Aquela aproximação me deixou um pouco quente demais, principalmente quando sentia sua mão me apertar quando perdia um pouco do equilíbrio. Estava envergonhado, mas era comigo mesmo, que em uma situação como aquela pensava em coisas nada puras. Seu cheiro parecia estar mais intenso, como se eu estivesse com o rosto afundado em seu pescoço como em minha imaginação, e aquilo aumentava a minha vontade de deslizar a mão em sua cintura por baixo de sua roupa e sentir a pele com o meu toque.

Eu definitivamente estava perdendo o juízo no meio daquela floresta, e precisei respirar fundo e fechar os olhos por um momento, para tentar me acalmar.

— O que disse para o seu irmão? — Perguntei de repente, pensando que se falássemos um pouco, talvez aquela vontade que me queimava passasse aos poucos.

— Que estou melhor, e ia visitar Eiji por alguns dias — Izuna disse um pouco ofegante, e interpretei isso como se sua condição tivesse deixando-o mais fraco. Perguntei se ele queria descansar por um momento, mas a ideia foi recusada rapidamente, e com isso, continuei com o assunto que me despertou a curiosidade que há muito tempo tinha, mas estava adormecida.

— Então ele sabe?

— Não — Izuna balançou a cabeça de um lado para o outro. — Meu irmão acha que consegui achar a verdadeira família de Eiji naquela época em que ele voltou para você — ele me olhou um pouco sem jeito. — Eu disse que ele estava perdido.

Eu assenti, mostrando que havia entendido. Era claro que Madara não sabia, ou ele teria ido atrás de mim no mesmo momento. Provavelmente teria tentado me matar.

— Eu não acredito que ele aceitou essas suas desculpas, ainda mais sobre você estar melhor.

— Nem eu acredito — Izuna riu sem humor. — Ele entendeu a minha necessidade de ver Eiji, mas, ainda se sente um pouco desconfiado. Mandou me seguirem algumas vezes, no início — o olhei surpreso ao ouvir tal coisa, mas Izuna pareceu não ligar e soltou um suspiro cansado. — Me sinto horrível por mentir para ele dessa forma.

Entendia o que ele queria dizer. Eu também não gostava da época em que escondia aquelas coisas de Hashirama, me fazia sentir culpado. Mas não foi apenas a sua resposta que me chamou a atenção, foi também a respiração que parecia cada vez mais arrastada.

Sem perguntar daquela vez, eu o segurei com um pouco mais de força e o coloquei sobre uma grande pedra lisa que estava próxima a nós. Izuna tentou protestar, mas não dei ouvidos e o fiz sentar e descansar por alguns minutos. Ele ainda não estava bem, apesar de todos os cuidados, e não queria arriscar deixá-lo voltar a uma situação ruim.

— Você não mentiu por completo — voltei para o assunto de antes enquanto lhe oferecia água. — Nós realmente somos a família dele.

Ele ficou em silêncio quando afirmei tal coisa, mas o fraco sorriso de canto que pude ver foi o suficiente para mim.

— Izuna — o chamei após vê-lo beber um pouco da água. — Por que o devolveu para mim naquela época?

Aquela pergunta era uma das mais antigas que guardava para mim. Nunca achei que um dia conversaríamos tão calmamente daquela maneira ou que falaríamos um com o outro sem insultos ou mentiras, por isso tentei não pensar tanto em ter respostas, mas do jeito em que estávamos naquele momento, sentia como se pudesse dizer o que quisesse e Izuna me responderia com sinceridade.

Ele sorriu mais uma vez e me devolveu a água.

— Por que deixou que eu o visse depois de tudo?

Izuna rebateu com uma pergunta, mas que respondia muito do que eu queria saber. Eu havia deixado que ele se encontrasse com Eiji porque o pequeno o amava, e não conseguia ficar longe. Por mais orgulhoso que eu fosse, não havia como esconder ou ceder àquilo. Era por isso que permiti aqueles encontros, e por aquele mesmo motivo que entendia os seus sentimentos, e no fim, os de Eiji também. Não havia como querer distância do pequeno, nem mesmo de Izuna.

Nós continuamos a caminhada mais rápido do que eu queria. Izuna insistiu que estava bem, e sua ansiedade para chegar logo na cabana o fez apertar o passo e me obrigar a fazer o mesmo enquanto me atentava a sua condição. Quando chegamos enfim, o sol já havia se posto, e Izuna se mostrou chateado por isso, mas logo me olhou surpreso ao me ver pronto para sair novamente, assim que o acomodei na cama de Eiji.

— Você irá buscá-lo agora? — Ele perguntou, incrédulo e temeroso. — É perigoso, Tobirama!

— Eu já fiz isso mais vezes do que pode imaginar — confessei, já esperando uma bronca, mas ele ficou completamente calado. Era óbvio que estava preocupado, mas a saudade o fez ceder e confiar em minhas palavras.

Antes de sair novamente, Izuna me fez prometer que era seguro, e risonho, fiz o que ele queria. Realmente não havia com o que se preocupar com o trajeto ou o horário, eu só teria que ter mais cuidado para enxergar o caminho, nada mais que isso. Mas cedendo a teimosia de Izuna, tive que levar uma tocha comigo e mesmo sem admitir, ela acabou me ajudando bastante e me fez andar mais rápido do que andaria durante a noite e com uma criança no colo.

O retorno com Eiji foi animado. O pequeno estava enérgico até aquele horário por conta do que havia dito a ele antes de deixá-lo com o meu irmão, que daquela vez não perdeu tempo em me questionar, e mesmo contra a minha vontade, tive que contar a ele o que havia feito. Hashirama não pareceu bravo, mas levei uma bronca mesmo assim, por ter arriscado abrir o ferimento de Izuna mais uma vez. Era engraçado vê-lo preocupado com um Uchiha que não fosse Madara, mas não o importunei com tal assunto e apenas o agradeci antes de partir.

Algum tempo depois, finalmente nos aproximamos da cabana. O dia havia sido cheio, mas não me sentia cansado como deveria estar, só conseguia me sentir feliz ao finalmente estar em casa e com todos que deveriam estar ali.

Subitamente parei antes de abrir a porta da cabana, e Eiji me olhou com curiosidade quando me viu sorrir largamente.

— Eu tenho uma surpresa para você — ele se agitou em meu colo ao ouvir tal coisa e também abriu um largo sorriso. — Feche os olhos — pedi tão animado quanto ele, e fui obedecido no mesmo momento.

Quando enfim passei pela porta, senti meu corpo se aquecer por conta da lareira acesa. Passei pela cozinha rapidamente, e meu sorriso automaticamente se alargou ao ver Izuna sentado sobre a cama e claramente tão ansioso que se esforçava para não chamar pelo pequeno, que ria divertido enquanto ainda mantinha os olhos fechados.

— Não os abra ainda — disse quando cobri seus olhos com uma das mãos. Eiji sorriu ainda mais e bateu as mãozinhas, ansioso pela surpresa que eu sabia que o deixaria extasiado.

Izuna não resistiu ao encanto que era ver Eiji daquela maneira e acabou soltando um baixo riso. O pequeno ficou estático no mesmo momento e sem mais opções, me aproximei dos pés da cama e retirei a mão que tampava sua visão. Ele soltou um grito tão alto naquele momento, que fiquei surdo por alguns segundos. Izuna gargalhou de minha expressão, e Eiji nem ao menos ligou para mim, só quis descer de meu colo para ir até o outro com rapidez.

— Izu! — Ele gritou quando colocou os pés no colchão e fez menção em correr até ele. Eu sabia o que viria a seguir, então o segurei rapidamente.

— Opa! — Exclamei ao levantá-lo alguns centímetros. — Não tão rápido, pequeno. Izuna está machucado, então não pode pular nele por enquanto, certo?

Ele normalmente reclamaria por tê-lo impedido, mas as minhas palavras o fizeram me olhar assustado e em seguida para Izuna.

— Machucado? — Perguntou choroso assim que o coloquei sobre a cama novamente.

— Estou bem — Izuna sorriu tranquilo e bateu no lugar vago ao deu lado. — Vem aqui.

Eiji me olhou novamente, a procura de permissão e no mesmo momento em que assenti, ele foi na direção de Izuna.

— Devagar — o lembrei quando o vi voltar a acelerar o passo. E o ouvi reclamar em tom baixo antes de enfim chegar a seu destino e dar um apertado abraço no outro.

Naquela noite Eiji não conseguiu dormir cedo como normalmente fazia. Ele se tornou ainda mais falante e enérgico enquanto contava as novidades para Izuna. Contou sobre Aika e os amigos que havia feito e nos pediu para poder voltar no Norte algum dia. Izuna não soube o que responder naquele momento, mas o incentivei a dizer que o levaríamos algum dia. Eu realmente esperava que em alguma época de nossa vida, nós pudéssemos sair dali a hora que quiséssemos e juntos. Era óbvio que não era o suficiente para Izuna apenas ver Eiji na cabana. Ele queria sair com seu filho, mostrar para os outros e se sentir orgulhoso, assim como eu podia fazer. E eu queria aquilo para ele também.

Quando o pequeno finalmente adormeceu, eu o peguei e deitei em minha cama. Izuna protestou, dizendo que podia dividir a cama, mas não deixei aquilo acontecer. Às vezes Eiji se mexia bastante, e não queria nem imaginar como seria se acertasse a perna dele sem querer, seria terrivelmente doloroso, e ao explicar tal coisa, Izuna concordou com a minha decisão sem mais reclamar, o que me arrancou uma baixa risada.

Izuna dormiu com facilidade naquela noite por conta dos remédios que estava tomando, e ainda que estivesse cansado pela correria, me mantive acordado por algum tempo, velando por seu sono e o de Eiji. Eles pareciam tão calmos daquela maneira, e igualmente bonitos. Eu sorria como bobo ao observá-los, e mesmo depois de apagar todas as chamas que nos iluminavam, não consegui tirar o sorriso de meus lábios.

***

No dia seguinte, Eiji passou o tempo todo em cima de Izuna, como era o esperado, e eu, me contentei a observá-los interagir, como sempre. O barulho em casa havia aumentado outra vez, e por isso conseguia me sentir tranquilo novamente. Eu realmente adorava a bagunça que eles faziam em minha vida.

Durante a noite, o pequeno por um milagre se aquietou com seus desenhos e Izuna pôde finalmente tomar um banho. Me preocupei por ele ter que fazer aquilo sozinho, mas nada saiu por minha boca pelo óbvio atrevimento que seria se me oferecesse para ajudá-lo, apesar de me sentir tentado a isso. Mas ele pareceu se virar muito bem quando retornou para a cama sem um arranhão sequer, apesar de ainda estar andando devagar e mancando algumas vezes.

Ele se sentou com um pouco de dificuldade sobre o colchão, e em seguida o observei pentear os cabelos molhados com tanto cuidado que poderiam pensar que aqueles fios eram feitos de ouro. Foi então que descobri o segredo para sempre estarem tão perfeitos. Izuna cuidava deles como se fosse um filho. Ri sozinho ao pensar nesse tipo de coisa e quando terminei os meus afazeres, me aproximei. Ele estava com uma pequena bolsa ao lado, e imaginei o que era.

— Trouxe as coisas para refazer o curativo? — Izuna assentiu ao me olhar e indicar a bolsa. — Deixe-me ver — estendi a mão em sua direção e ele imediatamente escondeu a bolsa atrás das costas.

— Mas nem pensar — disse ele, claramente assustado. — Da última vez quase arrancou a minha perna fora de tanto que apertou!

Ri divertido por vê-lo daquela maneira, e me aproximei ainda mais. Consegui roubar a bolsa para mim com facilidade por causa de sua condição, e Izuna me olhou nervoso ao ver o meu sorriso vitorioso.

— Não seja dramático — disse enquanto ainda ria. — E aquilo era preciso para parar o sangramento — dei de ombros e me sentei à sua frente. — Vamos, tire a calça.

Ele corou no mesmo instante em que me ouviu, e como um tolo, notei as segundas intenções que aquela frase poderia ter um pouco tarde demais.

Izuna desviou o olhar por um momento e o vi corar ainda mais, o que me deixou completamente sem jeito e sem conseguir proferir o que fosse por alguns segundos que pareceram minutos, horas. Quando finalmente juntei coragem para me corrigir, Eiji surgiu do outro lado da cama e se apoiou no ombro de Izuna.

— Vou ajudar. Você vai ficar bonzinho logo, papai!

Aquele foi um outro choque para ele, que olhou para mim e depois para o pequeno e de maneira emocionada. Eiji se assustou um pouco quando Izuna o abraçou subitamente, mas logo retribuiu o carinho na mesma intensidade. Naquele ponto já havia esquecido de meu constrangimento, e não escondi o meu largo sorriso ao ver Izuna limpar uma lágrima assim que soltou o pequeno. Completamente fofo, assim como havia imaginado.

— Está doendo? — Eiji perguntou, preocupado ao ver seu pai daquela maneira.

— Não, bebê — ele riu em tom baixo, mas ainda tomado por emoção. — Estou ótimo.

O pequeno me olhou ainda preocupado, mas ficou mais tranquilo quando me viu fazer um sinal positivo para ele.

Algum tempo de silêncio nos tomou, até Izuna voltar a me olhar e fiz um sinal para a bolsa em minhas mãos. O ouvi suspirar fundo antes de levantar e mais uma vez envergonhado, desabotoou os botões da calça. Ele abaixou o olhar quando começou a deslizar o tecido para baixo, e só então notei que o observava descaradamente.

“Meu Deus, pareço um tarado”, pensei com extrema vergonha ao abaixar a cabeça e focar a minha atenção em procurar faixas e a pomada na bolsa dele. Usei aquele momento para clarear a minha mente, e pensei melhor naquela situação. Da última vez que havia visto o ferimento de Izuna, estava nada bonito, e apesar de ter com certeza melhorado naquele tempo em que não nos vimos, não quis que Eiji o visse daquela maneira. Só o preocuparia ainda mais.

— Seria melhor se não olhasse, pequeno — o meu aviso saiu assim que Izuna rapidamente voltou para cama e se cobriu com o cobertor.

— Por quê? — Eiji perguntou de forma manhosa enquanto se agarrava aos ombros de seu outro pai.

— Porque eu ainda preciso daquele desenho que me prometeu — disse Izuna com um fraco sorriso enquanto arrumava os cabelos do pequeno. — Não vai terminar? Papa pode fazer o curativo. É rápido e nada legal.

Eiji ainda hesitou por um momento, mas depois de um beijo estalado no ombro de Izuna, saiu dali sorridente e pronto para terminar o desenho. Izuna sorriu vitorioso para mim e revirei os olhos, fazendo-o rir de mim.

— É só porque ele sentiu a sua falta — disse orgulhoso enquanto me aproximava um pouco mais e esperava que me mostrasse o ferimento.

— Eu não vou estragar a sua fantasia — ele rebateu as minhas palavras enquanto ainda ria, mas o som logo morreu quando teve que tirar o cobertor que o cobria. Izuna abaixou o olhar e em seguida fiz o mesmo.

Tentei não pensar muito no que estava prestes a fazer, e me focar em terminar rápido o bastante para não causar desconforto para ele. Mas quando as minhas mãos tocaram sua pele, me senti estremecer por completo, e não pude ignorar o meu coração que batia como louco enquanto passava a pomada na ferida na parte de cima da coxa. Minhas mãos tremeram um pouco quando tive que fazer o mesmo com o outro lado do corte, e minha voz saiu baixa e estranhamente rouca quando pedi que ele abrisse um pouco as pernas. Naquele momento achei que fosse enlouquecer e pularia em cima dele sem controle algum, mas me mantive firme, e mesmo com o meu corpo claramente em chamas, me senti orgulhoso por no fim ter passado por aquela etapa fazendo nada tão vergonhoso.

Eu não consegui olhar para ele enquanto fazia aquilo, e muito menos quando chegou o momento de enfaixá-lo novamente. Izuna disse nada, então interpretei aquilo como uma permissão para que eu continuasse, e teimoso e confiante demais que o pior já havia passado, comecei com o meu trabalho.

Não havia necessidade de apertá-lo como antes, então meus movimentos foram calmos enquanto dava a primeira volta, cobrindo o primeiro corte. Meus dedos tocaram a pele sem querer daquela vez, mas na próxima volta, os esbarrei nele novamente, mas na total intenção de senti-lo um pouco mais. E cada vez que fazia aquele movimento, tocava-o outra e mais uma vez, doido para poder deslizar a palma de minha mão por suas coxas, beijá-las e sentir o gosto de sua pele. E mais uma vez meu corpo ficou em um estado como se estivesse pegando fogo, piorando quando o corte na parte interna da coxa precisou de atenção novamente.

Eu decidi parar por ali, enquanto Izuna não notava o meu estado, mas minhas mãos não deram a mínima para os meus pensamentos, que foram pelos ares ao se atentar a respiração pesada dele. Aquilo me excitou ainda mais, e acabei seguindo o toque da faixa naquele local com a palma de minha mão. Meu corpo se arrepiou por completo e soltei um baixo ofego. Estava perdendo a cabeça aos poucos, e fui alertado por um momento quando o senti tremer em baixo de minhas mãos e um estrangeiro som sair por seus lábios. E então, finalmente levantei o meu olhar para o dele, o que me puxou para a loucura novamente. Ele estava tão lindo daquele jeito. Com os cabelos soltos e molhados, o rosto corado e os lábios semiabertos, como se me chamassem para prová-los. E aqueles olhos... sentia como se estivesse sendo sugado por eles.

Enquanto nos encarávamos, terminei de prender a ponta da faixa justo na parte interior da coxa e o senti estremecer outra vez.

— Está muito apertado? — Perguntei com um sussurro, entorpecido demais para conseguir falar normalmente.

— Está ótimo — voltei a sentir arrepios ao ouvir sua voz no mesmo tom que a minha. — Obrigado.

Eu assenti devagar, e mesmo sabendo que deveria me afastar, continuei onde estava e com a mão sobre a faixa. Sedento por muito mais que aquilo, e vendo que Izuna não parecia inclinado a me parar, subi o toque um pouco mais, podendo sentir sua pele novamente, mas um súbito juízo me fez parar ali, ao me dar conta de onde faltava pouco para chegar.

Pela primeira vez ali pensei como eu mesmo e o claro perigo daquela minha ação, porém, antes que pudesse sequer mover a minha mão para tirá-la dali, senti um toque sobre ela. Meus olhos rapidamente foram até o rosto de Izuna, e meu coração disparou com a expressão extremamente sensual que vi em sua face.

Ele não permitiu que eu me afastasse, e guiou a minha mão para onde eu tanto desejava naquele momento, mas jamais achei que seria permitido. O ouvi ofegar outra vez quando as pontas dos meus dedos entraram por debaixo de sua roupa íntima, e senti uma fisgada em baixo da minha própria. Eu me aproximei um pouco mais quando as pontas de meus dedos acariciaram a virilha e Izuna me guiou ainda mais longe. Senti a minha boca seca e umedeci os lábios com a língua, sedento pelos cheios e provocantes dele. Eu definitivamente estava à beira da loucura naquele momento, mas o que fez o meu coração parar por um momento e em seguida acelerar como nunca, não fora Izuna extremamente tentador como estava, mas um ser pequeno, quem eu havia me esquecido completamente que estava ali, e acredito que Izuna também, pois sua reação assustada foi tão espontânea quanto a minha.

— Já terminaram? — Para a nossa sorte, ele perguntou antes de se aproximar, e tão velozes quanto éramos em campo se batalha, nos afastamos. Izuna se cobriu no mesmo instante em que tirei as minhas mãos dele, e sem coragem até mesmo para encarar Eiji, dei uma desculpa qualquer para sumir e subi imediatamente para o segundo andar.

Eu não parei até alcançar a sacada de um dos quartos que estava quase terminado. Minhas mãos trêmulas agarram a madeira de proteção e fechei os olhos ao respirar fundo. Eu precisava me acalmar. Naquele estado em que estava, era impossível ficar com eles, pois minha excitação estava bem visível e Eiji com certeza me encheria de perguntas, deixando tudo ainda pior do que já estava.

Me sentia mortalmente envergonhado por ter agido daquela maneira, mas o meu coração insistia em bater forte ao me lembrar da reação de Izuna. Ele também me queria, ficou bem claro para mim naquele momento, mas com a cabeça um pouco mais calma, passei a me perguntar se realmente deveríamos. Eu era louco por ele, mas era de tantas formas que me fazia temer saber se para Izuna era apenas por desejo ou comodidade pela situação em que vínhamos vivendo.

Pensar em tais coisas me fez esfriar aos poucos, mas mesmo com meu corpo de volta ao normal, não consegui descer por um bom tempo, e quando tive coragem, não precisei me preocupar com olhares, perguntas ou constrangimentos. Eiji já estava dormindo em minha cama, e Izuna aparentemente fazia o mesmo na outra ao lado. Soltei um suspiro aliviado ao vê-los daquela forma, mas não arrisquei manter o meu olhar em Izuna por muito tempo, ou sabia que as lembranças recentes voltariam para me pôr em uma situação difícil.

A vergonha que senti durante aquela noite inteira me acompanhou no resto da semana. Não consegui manter o olhar sobre Izuna por muito tempo, e nossas conversas foram feitas de uma distância extremamente segura. Ele também parecia envergonhado e não insistia muito em falar ou ter atenção, o que era para deixar tudo mais fácil, mas foi o contrário. Poder tocá-lo daquela maneira descontrolou os meus sentidos, e não havia mais tanta facilidade para ignorar o desejo de voltar a senti-lo. No começo, só conseguia me imaginar indo além daqueles toques, o que fazia eu me afastar dele ainda mais. Era horrível não ter controle de meu corpo daquela maneira, ainda mais por ter uma criança em casa. A maior parte de minha vergonha era por esse motivo. Ter me esquecido do pequeno bem atrás de nós enquanto só pensava em pular em Izuna. Me sentia um péssimo pai e um tarado que não conseguia se controlar, mas nem por isso o meu desejo parou de crescer a cada dia em que o tinha ali.

Depois de um certo tempo, ainda me sentia envergonhado e ansioso, mas o desejo de tocá-lo foi se tornando mais calmo e também saudoso. Eu desejava retornar ao que éramos antes daquele maldito curativo, mas ao mesmo tempo queria arranjar qualquer desculpa para voltar a tocá-lo. Havia uma briga interna entre os meus desejos carnais e os de meu coração, e não conseguia achar um sinal de que algum deles ganharia.

Aos poucos não consegui resistir em voltar a olhá-lo, e mesmo me sentindo estranho, era um sentimento bom poder ver seu sorriso fraco voltar aos poucos enquanto a timidez também diminuía. Nós voltamos a conversar como duas pessoas normais. No mesmo cômodo e olhando um para o outro, e sem notar, já me sentava naquele mesmo lugar que quase me levou à loucura para poder observá-lo de perto enquanto me contava coisas sobre sua infância e seu irmão.

Em pouco tempo Izuna já conseguia andar melhor e não precisava mais de ajuda para se movimentar ou qualquer outra coisa, o que me privou dos simples toques que trocávamos naqueles momentos. Eu havia aprendido a me controlar, mas isso não queria dizer que deixaria oportunidades passarem.

Certa vez, em um dos momentos sagrados em que podia aproveitar o sono de Eiji, reservou oportunidade para pentear os cabelos. O observei colocá-los para frente, a fim de prendê-los de alguma maneira, e em segundos me vi em pé ao lado da cama onde ele estava sentado. Izuna me olhou um pouco tímido como havia virado costume, e aguardou minhas palavras em silêncio.

— Deixe-me ajudá-lo — me sentei na cama ao dizer. Izuna me olhou um pouco hesitante, mas logo soltou os cabelos e assentiu devagar.

Eu estava ciente de que minha atitude era estranha, e aquele momento era muito mais por causa do que havia acontecido dias atrás, mas não me importei. Cada oportunidade que tinha, queria tocá-lo de alguma forma, nem que fosse de maneira simples como aquela.

Meus dedos afundaram nos fios negros e extremamente macios, e ao notar o último fato não consegui segurar um fraco sorriso — Izuna realmente cuidava bem deles. Com facilidade consegui me lembrar como se fazia uma trança, e quando estava na metade do trabalho, desviei o olhar para ele, que também sorria fraco, mas com o toque envergonhado costumeiro.

— Como sabe fazer isso? — Ele perguntou acanhado quando viu a minha atenção sobre si.

— Meu irmão tem cabelos longos — expliquei enquanto voltava a arrumar os seus cabelos. — E é um preguiçoso.

Izuna riu de minhas palavras e acabei o acompanhando. Meu coração voltou a bater rápido, pela incontável vez naquela semana, e senti o meu rosto esquentar ao não conseguir tirar de minha mente o quão lindo ele ficava daquela maneira. Eu definitivamente adorava aquele sorriso.

Sem pensar no que estava fazendo, soltei uma parte da trança e levei minha mão até sua franja que teimava cair sobre as bochechas. Devagar, coloquei aquela mecha atrás de sua orelha, e como resultado acabei esbarrando em sua pele, que se tornou extremamente avermelhada. Meu coração se descontrolou ainda mais ao senti-lo de forma tão rápida, e piorou quando os nossos olhares se encontraram. Senti como se estivesse perdendo o ar aos poucos, e estava sendo sugado por ele novamente.

Izuna me hipnotizou por alguns minutos, e não consegui me mover ou falar qualquer coisa, apenas senti o meu interior se agitar como se fosse explodir a qualquer momento. Foi diferente de quando fiz o curativo em sua perna. Não era sexual ou coisa parecida. Era como se ele pudesse ouvir o que estava pensando e sentir o meu coração bater tão rápido por ele, ou talvez... eu estivesse vendo o que ele estava sentindo naquele momento. Pensar nisso me fez despertar daquele transe, e tentando ignorar qualquer reciprocidade dele, voltei imediatamente a pegar a mecha de cabelo e continuei a trança em silêncio, que logo no início pareceu me sufocar.

Querendo eliminar aquele clima incômodo que criei mais uma vez, me lembrei de tudo o que queria perguntar a ele, mas a vergonha me bloqueou na época, e então voltei a falar:

— Por que não atacou Tsubaru?

— Hm? — Izuna reagiu após algum tempo, como se estivesse distraído antes de me ouvir.

— O garoto que lhe feriu — expliquei ainda sem olhá-lo. — Teve uma grande folga para atacá-lo antes disso acontecer.

— Eu não sei — disse ele em tom baixo, e rapidamente voltei a olhá-lo e a tempo de vê-lo dar de ombros. Eu o olhei incrédulo, e Izuna suspirou fundo e de maneira derrotada. — Eu acho que... — ele suspirou outra vez — vai me achar um idiota por isso, mas, por um momento vi Eiji naquele garoto — ele cobriu a testa com a mão. — De repente é como se todos os Senju fossem ele.

Por um momento eu nada disse e apenas continuei a trançar seus cabelos.

— Você realmente é um idiota — disse quando estava quase no fim. Izuna me olhou chateado por aquilo, e não vi opções além de ser sincero por um momento. — Mas entendo o que quer dizer.

Não vi sua reação porque estava amarrando a ponta de sua nova trança, mas o ouvi suspirar antes de tocar a minha mão.

— É por isso que me salvou?

Eu já imaginava que cedo ou tarde seria questionado por minha atitude, e pensei seriamente em dizer a verdade para ele naquele momento, mas um pouco do medo de ser rejeitado acabou me freando. Era óbvio que ele também sentia algo por mim, principalmente o desejo tinha certeza que compartilhávamos, mas ainda temia pelo resto.

— Talvez — acabei dizendo quando acariciei sua mão com a minha e a soltei. — Eu realmente não sei.

Querendo encerrar aquela conversa, eu me levantei e com urgência me afastei. Eu o evitei pelo resto daquele dia, como um covarde, e não reparei em como reagiu diante de minha atitude. Me foquei em minhas ideias, que com o tempo foram retornando, e enfim estava conseguindo me focar em meus novos jutsus novamente.

No dia seguinte, me sentia culpado por agir como uma criança amedrontada e nem ao menos tentar escutar melhor os sentimentos dele. Meus olhos não conseguiram largar Izuna desde o momento em que havia acordado. Ele pareceu um pouco bravo durante a manhã e nada disse para mim. Sua atenção foi exclusivamente para Eiji, que brincava e falava animado com qualquer coisa, completamente alheio sobre a estranha situação entre seus pais.

Durante a tarde, tentei me focar em meus papeis, após terminar um dos cômodos do segundo andar. Faltava pouco para deixar tudo pronto, e me sentia ansioso por isso, mas simplesmente não conseguia ter forças para ficar o dia todo naquilo. O meu coração batia rápido com mais frequência naquele ponto e não conseguia me concentrar em nada, nem mesmo nos papeis à minha frente. Eu os larguei na pequena mesa que tinha para os meus estudos, e como era costume, me distraí com os dois, brincando de alguma coisa não muito distante dali. Eiji estava animado como sempre, e o sorriso de Izuna me fez soltar um longo suspiro. Eu achava que havia aprendido a me controlar depois de todo aquele tempo, mas estava apenas enganando a mim mesmo. Era difícil ficar perto dele e não poder me aproximar, sabendo que com certeza passaria dos limites se assim o fizesse.

Enquanto os observava, foi inevitável pensar no que havia acontecido semanas antes. O jeito com que Izuna se feriu por causa de seus sentimentos por Eiji, e como nos sentimos sem ele ao nosso lado. Foi um sentimento terrível, muito pior do que aquele que apertava o meu peito naquele momento, e me perguntava se Izuna pensava naquilo, ou sequer tinha conhecimento do quanto fiquei preocupado.

Sem perceber acabei viajando em minhas lembranças enquanto os olhava, e quando me dei conta, Izuna já estava à minha frente e chamando por meu nome. Eu rapidamente despertei e o olhei colocar a mecha dos cabelos atrás da orelha de maneira envergonhada.

— Estamos fazendo muito barulho? — Ele apontou para os papeis abandonados na mesa ao perguntar.

— Não — balancei a cabeça de um lado para o outro rapidamente. — Está tudo bem.

Izuna não pareceu muito convencido com a minha resposta, e sem vestígios do mau humor daquela manhã, se sentou na lateral da mesa ao me encarar preocupado.

— Está mesmo?

“Não. Não está. Eu o quero desesperadamente, tanto que dói”, era o que estava em minha mente naquele momento, mas tudo o que disse foi um simples:

— Sim.

Ele estava próximo demais novamente, e por motivos óbvios tentei me levantar e me afastar o mais rápido possível, porém, Izuna me segurou pelo braço, me obrigando a ficar onde estava.

— Espere — pediu ele em tom baixo, e passou a mão nos cabelos. — Eu... vou embora amanhã — ele sorriu triste ao dizer. — Já passei tempo demais longe de casa.

— Você pode andar? — Foi a primeira desculpa que achei para tentar convencê-lo a ficar, mas ela foi jogada para o alto quando ele afirmou que sim.

Um longo suspiro saiu por meus lábios naquele momento. Era difícil me manter perto dele, mas era ainda mais quando estava longe, e tudo piorava muito por conta de Eiji. Meus olhos desviaram para o pequeno, que cantarolava enquanto fazia um desenho, e me senti antecipadamente mal por saber que logo ele não estaria daquela maneira.

— Ele não vai ficar muito feliz com isso — eu disse ao voltar a minha atenção para Izuna, que murchou ainda mais ao me ouvir.

— Eu sei — ele sorriu desanimado. — Mas voltarei em breve. Quero ajudá-lo a terminar a construção. Eiji precisa mesmo de um quarto — Izuna olhou à nossa volta ao falar.

— Com urgência — concordei ao seguir o seu olhar e ver a bagunça que Eiji deixava por todos os cantos. Nós definitivamente precisávamos de um lugar para guardar tudo aquilo.

Era bom poder falar com ele daquela maneira novamente, mas o assunto não me agradou em nada, mesmo ele afirmando que não demoraria a voltar. Izuna também não parecia animado com sua ida, mas apesar de tudo, entendia a necessidade de ir. Não queríamos que Madara ficasse desconfiado como no início, igual Izuna havia me contado, e não houve muito o que protestar quando o dia seguinte finalmente veio.

Eiji já estava sabendo, e ficou emburrado o dia todo. Ele havia gasto boa parte da noite tentando convencer Izuna a ficar, e pelas recusas ele acabou ficando mais nervoso do que triste. Mas isso foi apenas até a hora de Izuna ir realmente chegar. O pequeno se agarrou nele até a saída da cabana, e só o soltou depois de muita insistência de nossa parte.

Eu o entendia. Se pudesse, me agarraria a Izuna e não o deixaria ir. Apesar de todo o constrangimento daquela semana, era acolhedor tê-lo em casa, e mesmo sabendo que o pior já havia passado, ainda não conseguia deixar de lado a preocupação que senti ao vê-lo machucado.

Quando ele se despediu de Eiji — que finalmente aceitou ir para o meu colo — voltei a sentir aquela preocupação com a mesma intensidade de antes. Ele havia dito que retornaria, mas não era garantido que outra vez não fôssemos nos encontrar em um campo de batalha, ou que algo ainda mais grave acontecesse. Eu me senti um pouco sufocado com aquele sentimento, e o impedi de se afastar por um momento.

Nós ainda não havíamos conversado direito sobre o que tinha acontecido, e mesmo com Eiji ali, não quis deixar aquela parte de meus sentimentos no escuro, porque sabia que poderia me arrepender grandemente no futuro.

— Izuna — o chamei com uma urgência desnecessária e o segurei pelo braço. — Eu realmente entendo como se sentiu, mas... — suspirei fundo antes de encontrar a minha coragem — na próxima vez em que estiver em uma situação como aquela, você pode pensar em nós antes?

Izuna ficou parado à minha frente, mesmo depois que o soltei. Ele olhou para mim e depois para Eiji em meu colo, e então finalmente pareceu entender o que eu estava falando. Ele desviou o olhar por um momento, e quando voltou para mim, em tom baixo disse:

— Eu sempre estou pensando em vocês. Mas... tomarei cuidado da próxima vez, não se preocupe.

Eu assenti para ele, tocado demais com o que ouvi para conseguir dizer algo que não saísse vergonhosamente gaguejado.

— Papai... — Eiji o chamou choroso, trazendo a nossa atenção para si.

Izuna sorriu tristemente ao olhar para ele e se aproximou ainda mais. Ele beijou o rosto do pequeno e tentou se afastar, mas Eiji o segurou pela roupa e deitou a cabeça em seu ombro.

— Até logo, meu bebê — a voz de Izuna também saiu chorosa ao abraçá-lo com uma das mãos, e quando os seus olhos, brilhantes pelas lágrimas, vieram em minha direção, fui surpreendido pelo outro braço dele, que tocou a minha cintura e deslizou até as minhas costas.

Foi uma grande surpresa receber um abraço dele, mas não perdi aquela oportunidade e o retribui sem demora. O espaço vazio em seu outro ombro logo foi ocupado por mim, e por um tempo que não quis contar, permanecemos daquela maneira. Os três abraçados e sem nada dizer. Nós simplesmente não precisamos dizer o que estávamos sentindo naquele momento, aquele gesto já gritava por si só o quanto doía termos que nos despedir mais uma vez.

Quando Izuna teve mesmo que ir, ele ainda hesitou um pouco antes de nos soltar, mas teve que fazer o inevitável. Ele tentou sorrir alegre como sempre, mas não houve maneiras de camuflar aquele sentimento pesado que substituiu o nosso abraço.

Izuna deu as costas devagar naquele fim de tarde, e olhou para trás diversas vezes antes de sumir de nossas vistas, mas mesmo antes de isso acontecer, já comecei a ouvir os baixos soluços de Eiji.

— Ele voltará em breve, pequeno — disse para ele enquanto acariciava as suas costas e observava Izuna cada vez mais longe.

— Eu não quero que ele volte — disse Eiji entre o choro. — Quero que ele nunca vá embora.

Meu coração se apertou ao ouvir aquilo, mas naquele momento não consegui dizer qualquer coisa que o deixasse mais confortável. Eu apenas encostei a minha cabeça na dele e suspirei fundo antes de dizer em tom baixo:

— Eu também.