Eiji

23 Capítulo Dezoito


Estávamos prontos. As armaduras perfeitamente encaixadas, as armas afiadas — mesmo sem termos intenção de usá-las — e os símbolos de nossos clãs expostos nas vestes. Eiji estava com seus sapatos calçados e nos esperando na porta de entrada. Estávamos prontos... ou quase. Ainda faltava uma coisa, e era o que eu havia me esquecido por todo aquele tempo. Dois anos havia se passado, e só então me peguei pensando no objeto que estava guardado no baú que mantinha fechado na sala. Ele antes costumava ficar em outra sala, em baixo da janela da casa de meu irmão, que um dia também fora minha. Eiji costumava subir nele, para poder olhar pela janela enquanto esperava que Izuna aparecesse. Eu não costumava pensar naquele baú com frequência, com total intenção de não me atentar a ele. As lembranças de Eiji sobre ele eram tristes, mas não tanto quanto os objetos que eram guardados ali.

Eu me ajoelhei em frente ao baú, e sem tempo de me preparar, o abri. A primeira coisa que vi fora uma espada, e infelizmente não era a que eu buscava. Aquela havia pertencido a Kawarama, assim como a metade das armas e acessórios que estavam guardados ali. A outra metade, pertenceu a Itama, e segurar a kunai protegida com um laço amarelo fez com que minha garganta doesse. Eu não abria aquele baú há dois anos, e o motivo se mostrou óbvio quando precisei segurar a arma com um pouco mais de firmeza para controlar a tremedeira em minha mão.

Eu odiava aquele baú, mas, ainda assim, não conseguia me livrar dele.

Hashirama nunca havia tocado nele, até o dia em que me mudei para a cabana. Eu estava pronto para ir quando o vi levantar o baú do chão.

— Você pode ficar com ele? — Perguntou meu irmão, abaixando o triste olhar para a madeira escura. — Ainda não consigo jogá-lo fora, mas também não aguento mais olhar para ele.

Eu não consegui responder de imediato. Meu olhar também se prendeu na madeira, e por longos minutos permanecemos de tal maneira.

— Me desculpe, Tobirama — Hashirama foi o primeiro a levantar o olhar, sendo seguido pelo meu. — Eu não deveria te pedir isso. Irei guardá-lo onde não podemos ver, ou finalmente...

— Não — o interrompi rapidamente, pegando o baú de seus braços na mesma velocidade. Eu também não gostava de olhar para ele, mas pensar em nos livrarmos do baú me causava ainda mais tristeza do que as lembranças de nossos irmãos ajoelhados em volta dele, escolhendo as armas quais testemunhariam suas mortes.

Eu o levei para a cabana e o deixei em um canto do antigo quarto, e mesmo quando o cômodo se transformou em uma sala, não o movi dali nem ao menos para limpar o chão. Antes disso, eu havia tocado nele apenas uma vez, para guardar mais uma arma, que não pertencia a meus irmãos ou outro Senju, mas, ainda assim, era da família. Eu não pensei de tal maneira na época. Eu apenas havia guardado a espada ali porque também a odiava.

— Tobirama?

O chamado de Izuna me despertou das lembranças, e rapidamente reagi, mas de maneira impensada, em vez de guardar a kunai, eu a guardei em meu bolso, e antes de fechar o baú, peguei a espada de cabo negro.

— Aqui — eu abaixei o olhar ao oferecer a espada para Izuna. Por algum motivo, não consegui encará-lo de imediato.

— Isso...

— Você deixou na pousada naquele dia — o lembrei, enfim levantando o olhar para ver sua expressão surpresa enquanto segurava o cabo da espada. — Eu a guardei, mas acabei me esquecendo completamente.

— Era do meu pai — revelou Izuna, admirando a espada. — Pensei que a houvesse perdido para sempre. Obrigado.

Ele abaixou a espada quando agradeceu em tom baixo, e quando seu olhar se dirigiu a mim, o vi vacilar ao tentar reprimir a tristeza. Meus pés se moveram automaticamente e abracei seus ombros com um dos braços. O ouvi suspirar de maneira trêmula e achei que veria lágrimas quando o soltei para tocar-lhe o rosto, mas Izuna as manteve acumuladas em seus olhos, e as espantou com outro suspiro.

Após um rápido beijo em sua testa, eu tentei me afastar, mas a mão de Izuna segurou meu braço com força. Esperei por suas palavras, porém elas não vieram, mas não precisei delas para entendê-lo. O olhar preocupado foi para o baú e então para mim novamente, provavelmente tentando analisar minha expressão.

Izuna sabia tudo sobre mim, o que obviamente incluía aquele baú.

— Estou bem — afirmei em tom baixo, em seguida beijei sua testa outra vez.

Izuna me deixou sozinho após me ouvir e ter certeza de que estava sendo sincero, e não demorei a segui-lo. Ainda era cedo para a sair, mas isso apenas se não tivéssemos outros assuntos.

A despedida de Eiji e Izuna fora ainda mais difícil que as anteriores, quando não morávamos os três no mesmo local. O pequeno não quis soltar as pernas de seu outro pai por longos minutos, e o choro só cessou quando enfim consegui convencê-lo a vir para o meu colo e Izuna ainda se manteve ali, conversando e fazendo promessas de que iria buscá-lo pessoalmente.

A nossa própria despedida foi breve, com poucas palavras, sabendo que nos veríamos em poucas horas. Recebi uma leve caricia em meu rosto e retribuí com um fraco sorriso antes de nos afastarmos, e me arrependi de não tê-lo tocado, o mínimo que fosse, assim que olhei para trás e não pude vê-lo. Um pesado sentimento quis me tomar, mas o espantei ao me atentar aos novos soluços de Eiji. Nós não tivemos tempo de conversar por conta da corrida até o Norte, mas quando suas malas já estavam com Aika e o pequeno mostrava indícios de um novo choro, eu me ajoelhei à sua frente.

— Papa — sua voz saiu trêmula enquanto as mãozinhas seguraram a peça felpuda de minha roupa. — Por que não posso ir com você?

— É uma reunião para adultos, não vai ser divertido — toquei seu rosto enquanto explicava. — É melhor que fique aqui brincando, sim?

O pequeno hesitou para me responder.

— Não estava com saudades dos seus amigos?

Ele então desviou o olhar para Aika, que sorriu de maneira encorajadora, e ainda hesitante, o pequeno assentiu ao voltar-se para mim.

Eu não gostava da ideia de deixá-lo sem mim ou Izuna, mas segurei os meus sentimentos. Após um demorado beijo em sua testa, eu me preparei para levantar e enfim ir ao encontro de Hashirama, mas as mãozinhas em minha roupa não quiseram me soltar, e meu joelho voltou a encostar no chão.

— Eu não me sinto bem — avisou Eiji, assim que voltei a olhá-lo.

— O que está sentindo? — Perguntei com preocupação, sem pensar que talvez aquilo poderia ser uma maneira de me manter ali. — Dói em algum lugar?

— Aqui — sussurrou Eiji, colocando a mãozinha sobre o peito.

Eu parei para pensar com cautela naquele momento. Ele não estava tentando me enganar ou procurando desculpas como sempre fazia. A expressão em seu rosto era real, e aquela dor em seu peito, eu entendia completamente.

— Irá passar, eu garanto — tentei tranquilizá-lo ao dizer, e toquei sua mão sobre o peito. — E antes de perceber, estarei de volta. Vamos voltar para casa, e pedir para o papai preparar bolinhos de arroz, o que acha?

Ele se mostrou mais animado com a minha sugestão, e o vi assentir rapidamente.

Eu havia me arrependido por não ter dado um abraço em Izuna, antes de ir até ali, mas não deixei que o mesmo acontecesse em relação a Eiji. O envolvi em meus braços, e fui retribuído com as mãozinhas se agarrando a mim com força.

— Eu te amo, meu pequeno — sussurrei para ele, em seguida dando mais um beijo em sua testa.

Aquela foi a minha vez de hesitar em soltá-lo. Foi difícil me levantar e soltar suas mãos, deixando-o para trás. Mesmo com Aika afirmando que iria distraí-lo, não consegui me sentir bem com aquilo. Me lembrar do jeito com que o pequeno me alertara de sua preocupação fez o meu peito também doer, e a sensação ruim de antes voltou de uma maneira impossível de afastá-la novamente.

Mais tarde, me encontrei com Hashirama. Ele estava confiante, e contagiou os outros membros do clã com seu bom humor. Eu tentei agir como eles, mas, não importava o quanto havia mudado nos últimos anos; agir de maneira tão positiva ainda era difícil para mim. Porém, ao observá-los no caminho, acabei vendo-os como Eiji e Izuna, e me forcei a sorrir quando algum assunto vinha até mim.

Quando acordei naquela manhã, eu sabia que não tinha fortes motivos para me sentir tão mal, que tudo apontava para o sucesso naquele dia, mas quando enfim chegamos na floresta Jofuku, senti o clima dos que nos esperavam tão pesado quanto o sentimento em meu peito.

Avistei Izuna rapidamente. Estava ao lado de Madara, sentado em uma grande pedra, afiando a espada que eu havia entregado a ele naquela manhã. Seus movimentos pararam no mesmo momento em que nos aproximamos, e Izuna se levantou, assim como Madara.

A seriedade tomou conta do bom humor de Hashirama, assim que encarou o irmão de Izuna. Eu não conhecia Madara tão bem, e não entendi seu olhar em nossa direção, mas seu irmão e o meu próprio sim, e fiquei alerta com seus olhares e silêncio.

Havia algo de errado.

Aparentemente, todos os shinobi Uchiha e seus aliados estavam ali, assim como o nosso clã e companheiros. Ninguém se pronunciou enquanto Madara e Hashirama conversavam, e permaneceram da mesma maneira quando a proposta do acordo foi dita em voz alta. Era justo, apesar de ainda achar arriscado colocar tanto nas mãos dos Uchiha. Madara e Hashirama teriam o mesmo poder de voz, assim como o resto dos clãs, de acordo com cada cargo. Eles deveriam ter aceito imediatamente.

Eu olhei para o rosto de Izuna à minha frente. Ele parecia exatamente quando o vi na sacada na noite anterior.

Era uma boa proposta e estavam cientes do poder de meu irmão, apesar de confiarem que Madara era forte o suficiente. Eles deveriam ter aceito.

Mas não aceitaram.

A reunião não foi nada do que esperávamos. No fim, nós lutamos. Mas não pude deixar meu irmão ou Izuna foi capaz de deixar o dele. Nós nos amávamos e tínhamos Eiji, mas fomos tolos ao pensar que poderíamos dar as costas para as nossas famílias. Nós também os amávamos, e não podíamos deixá-los morrer diante de nossos olhos.

Então lutamos. Por um dia e uma noite.

Eu perdi muito naquele dia. Duzentos e cinquenta e seis Senju. Nós contamos todos com cautela, e mais tarde tivemos que avisar suas famílias da morte honrada que tiveram, mas internamente, eu e meu irmão sabíamos que na verdade fora por algo sem sentido. Duzentos e cinquenta e seis vidas. Sangue Senju desperdiçado porque os membros do clã Hagoromo não concordavam com o acordo. Eles começaram, e nós terminamos.

Cada morte de meus companheiros foi sentida por mim. Eu não me lembrava do nome de todos, mas seus rostos estavam gravados em minha mente. Eles lutaram ao meu lado, os defendi e fui defendido por eles por todos aqueles anos. Alguns deles foram treinados por mim, outros foram responsáveis por meus treinamentos. Doía vê-los caídos enquanto eu, permanecia em pé. Eles eram minha família, e perdi mais deles para aquela guerra. Doía, e ainda era estranho olhar para o outro lado e sentir o mesmo pelo inimigo.

Madara, que fora obrigado a lutar ao lado de seus aliados, estava sendo encurralado, mas eu não sentia alegria com tal fato. Ele também não queria lutar, meu irmão não queria, e ainda assim, foi o que aconteceu. O mundo shinobi era podre. E a falta de leis e ordem nos destruía progressivamente. E o pior de tudo foi finalmente entender que eu não podia escapar daquilo. Eu era um deles, não importava para onde fosse ou o que dissesse.

Eu fechei os meus olhos enquanto lutava, derrubando os que não deveriam mais ser meus inimigos em uma hora como aquela com rapidez, mas sem o vigor que há algum tempo tinha ao fazer tal coisa. Tentei não pensar mais enquanto protegia as costas de meu irmão, mas quando meus olhos se abriram, foi difícil deixar tudo o que eu havia passado até aquele momento.

Vi as costas de Izuna à minha frente, enfrentando um aliado de meu clã. O barulho da batalha não fora nada se comparasse com as batidas de meu coração, as únicas que eu pude ouvir por lentos segundos. Meus reflexos me desviaram para o lado, para bloquear um Uchiha que levantou a espada em minha direção. O lado não era favorecido para mim, que tinha a espada em uma posição contraria, então me lembrei da kunai em meu bolso, e a peguei rapidamente, bloqueando o shinobi. Girei em meus calcanhares, e mesmo podendo usar a espada, escolhi cortar a garganta do homem que me enfrentava com a kunai.

Tomado pela adrenalina do momento, reagi a outra presença às minhas costas e me virei. Senti o meu corpo estremecer com intensidade quando a kunai de Itama se chocou contra a espada do pai de Izuna. Os olhos arregalados à minha frente me fizeram agir da mesma maneira, e confuso, dei passos para trás. Izuna não avançou ou sequer se moveu enquanto mantinha a expressão assustada. Meus olhos se voltaram para a kunai de meu falecido irmão, banhada com o sangue Uchiha, e retornaram para o que levava o mesmo nome. Em momento algum acreditei que ele pudesse ter me atacado pelas costas, e escolhi imaginar que havia agido por reflexo, assim como tinha sido para o meu lado.

Eu confiava em Izuna.

Dei poucos passos para poder me aproximar dele, e antes que fôssemos atacados por mais dos shinobi que se aproximavam, levantei sua mão que estava livre, e nela, pousei a arma de Itama.

Eu era um deles. Não poderia dar as costas, mas, jamais voltaria a tocar em Izuna de uma forma que não fosse carinhosa ou desejosa. Se fosse de qualquer outra maneira, eu preferia nunca mais tocá-lo.

Muito do que havia decidido desde que tive a ideia de criar Eiji não aconteceu. Não criei uma arma, não consegui afastar o pequeno de Izuna, e muito menos eu consegui me afastar. Eu criei um filho, que amava e idolatrava Izuna, assim como eu. Eu pensei que conseguiria me afastar da guerra e deixar Hashirama com sua função sozinho, mas ali estava Tobirama, o segundo filho de Butsuma Senju, lutando em uma batalha, como havia sido criado para fazer. Eu não pude manter muito de minha palavra, e isso me corroía por dentro, mas havia coisas que jamais abriria mão. E aquela, era uma decisão que eu tinha total certeza de que não conseguiria voltar atrás.

— Eu te amo — sussurrei para ele, mesmo sabendo que não seria escutado em meio ao barulho da batalha. Mas Izuna pareceu me entender, e seus olhos, que antes estavam surpresos, brilharam com lágrimas.

Eu não podia machucá-lo. De maneira alguma. E sabia que ele pensava o mesmo sobre mim, por isso não me surpreendi quando vi sua espada ir ao chão, assim como a kunai de Itama. Tive a impressão de que ele ia dizer algo quando olhou em meus olhos, mas não pude ter a chance de ouvi-lo. No mesmo momento, Madara caiu, e todos pararam de se movimentar, observando boquiabertos a derrota do líder dos Uchiha.

Izuna me deixou sozinho em segundos, e correu até seu irmão. Eu pensei em fazer o mesmo por Hashirama, mas não consegui me mover dali.

— Tobirama-sama!

O chamado desesperado tirou a minha atenção no que acontecia ali. Imediatamente olhei para trás, e na mesma velocidade corri para me ajoelhar ao lado de Tsubaru. A perna do garoto estava sangrando muito, e sua consciência parecia estar indo aos poucos. Levantei o meu olhar, para ver a expressão amedrontada e preocupada do que havia me chamado — o irmão mais velho de Tsubaru. Eu o entendia. Aquela expressão em seu rosto, já tinha visto em Hashirama, e eu mesmo havia me rendido a desespero semelhante. Por meus irmãos, por Eiji... e o que passou por minha mente com mais impacto foi Izuna.

Era irônico ver a cena à minha frente, pois, o mesmo havia acontecido comigo e Izuna algum tempo antes de tudo aquilo, e por causa daquele garoto deitado no chão. O ferimento na perna, o desespero... eu entendia o irmão de Tsubaru, e por isso não o deixei sozinho nem mesmo para tomar uma providência quanto ao que acontecia. O estado do garoto parecia mais grave que o de Izuna, mas a semelhança na situação me fez pensar pela primeira vez em como tudo poderia dar certo no fim. Ao menos para o garoto.

Eu gritei por médicos, e para a minha surpresa, o que se aproximou mais rápido fora um Uchiha. Ele me olhou amedrontado, mas em seguida se ocupou com a perna de Tsubaru. No momento eu não entendi o motivo de ele estar nos ajudando. Pensei que talvez por medo, pela queda de Madara... mas enquanto apertava a mão de Tsubaru e observava o Uchiha trabalhar, vi que nenhum dos meus pensamentos estavam completamente certos. Ele de fato parecia amedrontado com a minha presença, mas o que ouvi dele não foi o esperado.

— É apenas um garoto — disse o shinobi Uchiha, em tom baixo de início, mas acabou elevando o tom de voz. — Eu lutei tanto nesta guerra, mas foi para proteger a minha família, não matar crianças. Para o inferno os Hagoromo!

Ouvi um rosnar acima de nós. Era um membro dos Hagoromo, ameaçando se aproximar após ouvir as palavras do shinobi, mas ele se acovardou, quando levantei o meu olhar em sua direção, e deu um passo para trás. Eu estava pronto para assumir as palavras do Uchiha, mesmo sabendo que acarretaria em uma confusão maior. Estava nervoso demais para pensar com clareza. Mas a minha irritação foi interrompida rapidamente, assim que senti a mão de Tsubaru soltar a minha. Meu olhar desceu, para vê-la cair sobre o chão, e lentamente senti o meu peito começar a queimar.

“Ele é só uma criança”, repeti as palavras do Uchiha em minha mente.

Outra vez olhei para seu irmão mais velho, que agora derramava lágrimas sem se importar com orgulho ou vergonha.

— Ele está indo — ouvi o Uchiha dizer. — Eu sinto muito.

A raiva quis voltar a me tomar no mesmo momento, meus pensamentos não foram nada bons, mas senti cada um deles serem arrancados de minha mente quando, em um piscar, Hashirama tomou o lugar do Uchiha. Eu olhei para o meu irmão, que tocava a perna ensanguentada de Tsubaru, e vi esperança.

— Eu treino este garoto desde que aprendeu a andar, — disse Hashirama, sério, mas confiante como sempre — me recuso a enterrá-lo.

O brilho diferente no olhar de meu irmão enquanto se concentrava em salvar Tsubaru fez com que o meu corpo estremecesse com intensidade. Eu já havia visto seu poder de cura, até mesmo tinha sido salvo por ele algumas vezes, mas, me senti diferente. Observar Hashirama daquela forma me fez sentir exatamente como os outros. À minha frente, não estava a pessoa sentimental e birrenta, que chorava com facilidade, não era o meu bobo irmão mais velho. Era como se estivesse vendo um milagre; um deus.

— Ele ficará bem — garantiu o meu irmão, assim que tirou as mãos que estavam sobre o garoto. Seu sorriso típico se abriu, e se virou em direção ao Uchiha. — Se não tivesse o segurado até aqui, teria sido tarde. Obrigado.

De onde estava eu pude ver o corpo do shinobi do clã de Izuna tremer ao receber atenção de meu irmão, e antes que pudesse ler sua expressão, ele abaixou a cabeça de uma maneira respeitosa que jamais vi um Uchiha tratar Hashirama ou qualquer outro Senju.

Todos à nossa volta pareciam surpresos e emocionados, ainda mais quando ouviram o choro do irmão de Tsubaru se tornar ainda mais intenso enquanto agradecia a Hashirama e o shinobi que nem ao menos sabíamos o nome, mas havia nos ajudado. Não era segredo que Hashirama podia se curar em uma velocidade incrível, mas para os que lutaram contra nós minutos antes, era uma grande revelação saber que podia fazer o mesmo com outros.

Hashirama ignorou os olhares sobre si, e desviou sua atenção para mim, perguntando sobre meu estado. Satisfeito com a minha rápida resposta, ele se levantou, fazendo com que todos em volta dessem um passo para trás. Não consegui identificar se agiam por medo ou respeito. Eu tentei, mas minha mente não estava funcionando tão bem no momento. Quando me levantei como meu irmão, com a súbita calmaria, consegui observar os que haviam perdido suas vidas, jogados no chão, como se fossem nada além de carnes e ossos. O sentimento pesado em meu peito retornou, e piorou quando segui os passos de meu irmão.

Madara estava sendo ajudado por Izuna, que se afastou por conta de algo que Hashirama disse a ele. Nossos olhares se encontraram no mesmo momento em que Izuna se levantou, e senti os meus lábios tremerem.

Eu queria ir até ele. Se não pudesse abraçá-lo ou sentir seu toque de qualquer maneira, ao menos teria sua voz para acalmar o meu coração. Eu sabia, queria, mas não consegui mover os meus pés por bastante tempo.

Eu estava com medo.

Depois de tudo o que dissemos um para o outro, prometemos e sonhamos... aquele dia, aquele momento, podia ter mudado tudo entre nós. Madara, apesar de derrotado, estava vivo, mas e os outros? Os Uchiha que estavam mortos por minha espada, caídos ao lado dos Senju que pereceram pelas mãos de Izuna, pesavam em minhas costas, e acreditava que o mesmo acontecia com ele.

Eu não o culpava de forma alguma, mas o que aconteceu ali havia sido tão grande que seria ingênuo pensar que não nos afetaria de alguma forma. Mesmo com o intuito de proteger, eu sujei minhas mãos com o sangue da família do homem que jurei não machucar; o mesmo sangue que corria nas veias de meu filho. Indiretamente sujei as mãos com o sangue de minha família.

Eu o amava, e exatamente por isso tinha medo. Não saber o que seria de nós, não ter ideia do que dizer, não saber qual seria o caminho que seguiríamos, e se o tomaríamos juntos como vinha sendo até ali... não saber o que fazer me assustava. Pensar em perder Izuna me apavorava.

Queria ter preparado ao menos uma frase antes de encará-lo de perto outra vez, porém, Izuna não me deu chances para pensar. Eu o observei se aproximar, e com isso, todos se afastaram rapidamente. Desta vez consegui interpretar as expressões, e os olhos temerosos foram de Izuna para mim. Eu não vi outra opção além de também me mover. Apesar de tudo o que esmagava a minha mente naquele momento, ainda havia o desejo de ficar perto dele.

E então, me aproximei.

— Está machucado? — Foi a primeira coisa que ouvi sair por seus lábios. O olhar carregado de preocupação me fez relaxar os ombros por um momento, e neguei com um sinal com a cabeça.

— E você? — Sussurrei a pergunta, incapaz de agir como eu mesmo por conta do tremor em minha pele, causado pelo som de sua voz.

Izuna imitou os meus movimentos para responder à pergunta, e um breve momento silencioso nos abraçou.

“Eu deveria ter lhe pegado e ido embora, mas agora é tarde demais, não é? ”, era o que estava em minha mente enquanto encarava os olhos negros, mas o que saiu por meus lábios foi diferente:

— Algum dia, será capaz de me perdoar por isso?

Eu observei a destruição ao nosso redor enquanto falava. Não era uma bela vista, não como a que tínhamos em nosso lar. Lembrar na cabana fez o meu peito pesar, e não consegui evitar pensar em Eiji. Ele ficaria triste se não pudesse nos ver ao mesmo tempo e todos os dias, mas por um instante pensei que aquela seria a solução para o momento. Eu não queria machucá-lo, de maneira alguma, e pensei que talvez, me ver seria doloroso.

Quando retornei a olhar para o rosto de Izuna, o vi formar uma careta.

— Você não teve escolha, assim como eu — afirmou ele, dando um passo para ficar mais próximo a mim. Seus olhos brilharam como quando coloquei a kunai de Itama em suas mãos, e o ouvi suspirar trêmulo. — Eu perdi para você, de todas as formas possíveis — ele abaixou o rosto quando admitiu, mas logo retornou a levantá-lo. — Mas só consigo lamentar pelas vidas perdidas. Eu perdi muito, mas, também ganhei coisas que jamais imaginei que um dia teria. Eu acho que... — a voz de Izuna tornou-se trêmula, e nem mesmo a breve pausa em suas palavras o fez voltar ao tom normal — perder para você pode ter sido a melhor coisa que aconteceu em minha vida. Então, não...

Ele ia chorar, eu tinha certeza, tanta quanto a que eu tive que admitir naquele momento; a certeza de que jamais iria conseguir realmente me afastar dele. Izuna também havia me derrotado, anos atrás, e a prova disso foi não conseguir ver sua expressão daquela forma, e eliminar a curta distância para abraçá-lo, mesmo com tantas pessoas como testemunhas.

Eu pude ouvir os sons espantados e os cochichos à nossa volta, mas, ainda assim, não o soltei. Os braços de Izuna apertaram minhas costas com força, e o deixei se livrar de suas lágrimas silenciosas sobre minha armadura. Eu não deixei que o vissem de tal maneira, e só o soltei quando o vi limpar o rosto de maneira discreta na peça felpuda de minha roupa. Só então levantei meu rosto, e vi as expressões espantadas e confusas nos que ainda insistiam em nos observar.

Tentei imaginar o que pensavam naquele momento, e mesmo sem saber se estava certo sobre eles, tive certeza de que não faziam ideia do que aquele gesto realmente significava para nós.

Enquanto devolvia os olhares, acabei avistando o meu irmão. Hashirama nos olhou com uma expressão dolorosa, e desviou a atenção para Madara, que tentava se levantar. Ele rapidamente o ajudou, mesmo com os protestos do irmão de Izuna, e o segurou pela cintura enquanto colocava o braço de Madara sobre seus ombros.

Observei o peito de meu irmão inflar, já sabendo o que viria a seguir. Todos os olhares sobre Izuna e eu rapidamente foram para Hashirama e seu longo discurso. Ele estava com raiva, e não era preciso conhecê-lo para notar. A maneira que repreendia a todos já era o suficiente.

— Este homem — ele apontou em minha direção no meio de suas palavras, aparentando menos nervoso —, é minha família.

Hashirama se movimentou para segurar Madara com firmeza enquanto todos voltavam a me olhar, em seguida voltando para ele.

— Assim como ele — continuou o meu irmão, desta vez apontando o indicador para Izuna, que recebeu a atenção com surpresa. — E ele... — o olhar de Hashirama e de todos nós foi para Madara. — Você — meu irmão se dirigiu a um de nossos shinobi, em seguida apontou para outro, e mais um. — Todos vocês. Nós deveríamos ser uma família shinobi. E olhe para nós — usando a mão livre, fez um sinal para o cenário caótico. — Estão felizes? O que ganharam, hm? Corpos para remover, famílias desfeitas de uma maneira irremediável. Tudo porque simplesmente não querem dividir — ele riu sem humor algum. — Que tipo de homens somos?

Hashirama fez uma longa pausa, olhando seriamente para todos, que aos poucos se mostravam afetados por suas palavras — eu só esperava que fosse de forma positiva.

— Eu tenho um sobrinho. De três anos. — Hashirama ganhou a minha atenção outra vez quando sua voz eliminou o silêncio. — Ele fez um desenho e o deu para mim. Senju e Uchiha, brincando com ele em um lago — o sorriso costumeiro de meu irmão se mostrou para todos. — Eiji disse que o sonho dele era que isso pudesse acontecer todos os dias. Que havia desejado isso em seu aniversário.

O olhar de Hashirama se prendeu em direção a mim e Izuna enquanto falava sobre o nosso filho. Ele não parecia estar mentindo, e mesmo que parecesse, duvidaria que estaria. Eiji não havia nos contado sobre o seu desejo ao apagar as velas em seu bolo, mas eu sabia, nós sabíamos o quanto ter os dois lados de sua família o animava. O pequeno lotava o quarto com desenhos em que estava conosco, destacando a importância de seus tios em seus rabiscos, nos enchia de perguntas sobre quando veria “tio Mada” e “ tio Hashi” outra vez. Inocentemente ele não sabia que a dificuldade de repetir aquele encontro de maneira pacifica era muito maior que a nossa vontade.

— É apenas uma criança com um sonho inocente — continuou meu irmão —, mas me peguei pensando sobre o que ouvi, e no belo desenho que passei a carregar comigo todos os dias. É apenas o sonho de uma criança, mas, por que não? É inocente e puro, sem nem um pingo da maldade que nos cerca por anos; a maldade dos homens, dos shinobi. Ele não se importaria em dividir, contanto que todos estivessem juntos. Pensar sobre isso foi o que me fez perguntar: Que tipo de homens somos? Que não conseguem fazer nem mesmo o que uma criança como Eiji conseguiria?

A pergunta fez todos se agitarem, incomodados, mas Hashirama não pareceu se arrepender por suas palavras. Ele apenas parou por um momento, quando Madara deixou seus braços para ficar em pé ao seu lado.

Os murmúrios aumentaram aos poucos, e pude ouvir um dos shinobi sussurrar o quanto aquilo era vergonhoso, enquanto outro discordava, dizendo ser absurdo. Meu irmão os comparou com uma criança de três anos, que conseguia pensar melhor que todos ali. Eu entendia que tudo o que ouvíamos naquele momento era de certa forma, humilhante, mas também era real. Nosso orgulho fez com que a inocência de uma criança nos superasse.

— Nós poderíamos... achar um lugar — Hashirama continuou após receber um sinal positivo de Madara —, uma terra para começarmos juntos. Nós podemos dividir essa terra; trabalhar juntos. Tudo o que somos agora, é consequência do que passamos — ele deu um passo à frente e tocou o ombro de um Hagoromo. — Não podemos esquecer tudo o que perdemos, certo? Mas também não podemos esquecer que um dia, todos fomos como Eiji, ou no fundo, ainda somos — Hashirama voltou a sorrir ao olhar para todos. — Sem malicia ou ódio, apenas querendo continuar seguro e ao lado das pessoas que ama, independente se essas pessoas pertencem aos Sarutobi ou Hagoromo; Senju ou Uchiha.

Meu irmão andou um pouco mais, tocando ombros e apertando as mãos dos que aceitavam o seu gesto, e quando seus pés pararam, olhou para trás, chamando por Madara com um sinal com a mão. O irmão de Izuna hesitou por um momento, mas cedeu mais rápido do que imaginei, e com sua expressão extremamente séria de sempre, andou até Hashirama.

Eu pude ver que o sorriso de meu irmão aumentou quando voltou seu olhar para todos, e Madara ficou ao seu lado.

— Eu tenho orgulho de ser um Senju — afirmou ele, aparentando total segurança. — Vocês também devem se orgulhar de seus clãs, de sua história, mas excluam eles de seus nomes apenas por um instante, agora, e olhem uns para os outros. Fazendo isso, eu vejo apenas grandes homens, — Hashirama tocou o ombro de Izuna ao se aproximar — grandes shinobi, que podem crescer juntamente comigo. E eu quero isso mais do que podem imaginar, desde que era apenas um garoto, desde que era como Eiji — meu irmão outra vez olhou para Madara, que por um momento desviou o olhar. — Eu me esqueci por um momento, mas meu sobrinho me lembrou do quanto tudo pode ser simples, mesmo na situação mais complicada, se eu deixasse o meu ego de lado. Eu não quero que se juntem a mim, o que peço, é que me deixem me juntar a vocês. Eu quero ser um parceiro, não um governante. Quero dividir, não dar-lhes o que sobrar. Eu quero protegê-los...

“Não lutar contra vocês”, era o que ele quis dizer naquele momento, foi o que soube meses depois, porém, meu irmão não teve a chance de terminar seu discurso. Madara ficou ao seu lado novamente, e foi a vez do ombro de Hashirama de sentir o peso de uma mão.

— E nós iremos protegê-lo — ele completou a frase de Hashirama de uma maneira que a maioria não esperava. Madara estendeu a outra mão em direção ao meu irmão, que sorriu como um idiota ao apertá-la. Ele estava feliz, extremamente feliz, eu nem ao menos precisei perguntar para saber.

Ver o meu irmão sorrir como antigamente fez com que parte do peso em meu peito fosse esquecido por um momento, e empolgado com a situação, não hesitei em segurar a mão de Izuna com a minha para entrelaçar nossos dedos.

Nós perdemos muito naquele dia, mas finalmente havia acabado, e não houve como evitar suspirar aliviado ao sentir a mão de Izuna apertar a minha com pouca força. Estávamos vivos e finalmente livres para criar nosso filho como bem entendêssemos.

Quando olhei em seus olhos, me senti tolo, e mais uma vez aliviado. Tolo por ter pensado, mesmo que por poucos minutos, que seria melhor vivermos separados, quando eu nem ao menos conseguia me imaginar soltando sua mão naquele momento, e aliviado por poder sentir seu calor tomando o meu corpo através daquele toque.

— Estamos vivos — disse Izuna em tom baixo, porém claro. Mais uma vez ele pareceu ler os meus pensamentos, e ao notar, senti o calor de antes se intensificar e correr por meu corpo até parar em meu peito.

Nós não falamos por alguns minutos, e não foi preciso. Eu também sabia o que ele estava pesando, e foi engraçado perceber que era o mesmo que eu, como sempre. O Tobirama e Izuna do passado estavam errados novamente, e internamente eu ria de ambos. No fim, nós dois estávamos em pé, e prontos para cuidar de Eiji juntos.

Outra vez ouvi os cochichos à nossa volta, e mesmo com motivos para me sentir incomodado, eu sorri, pensando que enfim agora eles podiam dizer coisas concretas sobre nós. Queríamos o fim daquela guerra para poder cuidar de nosso filho juntos e sem temer e nos esconder, e era o que faríamos. Era uma das escolhas que também não poderia voltar atrás, ainda mais quando nem ao menos queria.

Soltei uma baixa risada ao ver o rosto de Izuna se tornar corado, e mesmo recebendo um olhar cortante por isso, minha mão não foi solta, mas sim segurada com mais firmeza.

— Vamos voltar para casa, — eu disse a ele — para o nosso filho.