Eiji
21 Capítulo Dezesseis
A conversa séria sobre os acontecimentos do aniversário de Eiji só aconteceu na manhã seguinte. A casa ainda estava silenciosa quando abri os meus olhos, mas podia sentir a presença de Izuna ativa e animada no andar de baixo. Ainda era cedo, mas sabia que faltava pouco para Eiji despertar — a cada mês que passava, mais cedo o pequeno acordava. Madara e Hashirama ainda estavam no quarto e a quietude me trazia a ideia de que também dormiam, então, aproveitei aquele momento para fazer o que havia adiado na noite anterior.
Meus passos foram rápidos e silenciosos sobre o piso de madeira, e por pouco não surpreendi Izuna, que preparava o café da manhã de forma distraída. Faltava poucos centímetros para alcançá-lo quando notei sua postura se tornar diferente, e mesmo derrotado acabei rindo em tom baixo e o abracei por trás.
— Ouvi sua respiração quando ainda estava na escada — disse ele entre risos enquanto se virava para me olhar. — Está perdendo suas habilidades, Tobirama Senju?
As palavras debochadas me fizeram revirar os olhos, e o ouvi rir mais uma vez.
— Eu apenas não estava sério quanto a isso — soltei sua cintura ao dizer com o mesmo humor que o dele, e com um suspiro, trouxe um pouco de seriedade entre nós. — Porque tenho pressa, e preciso de um momento sozinho com você, antes que todos acordem.
O olhar desconfiado que pensei que veria em Izuna não veio, e a conversa que seguiu minhas palavras fluiu como deveria ter sido na noite anterior. Izuna me contou com detalhes a reação de seu irmão sobre estarmos juntos, e não foi surpresa saber que eu havia sido ameaçado, e que talvez ainda naquele ele dia tentaria separar minha cabeça do corpo. Madara era tão dramático quanto Hashirama, e recebi as palavras ditas com cautela e temor com mais naturalidade do que realmente deveria.
— Não é brincadeira, Tobirama! — Exclamou Izuna quando me ouviu rir de uma das ameaças de Madara.
— Eu sei. Eu sei — o respondi enquanto tentava controlar o meu humor, e com um passo à frente voltei a tocar sua cintura. — Acha que ele realmente pode tentar fazer tudo isso?
— Eu não sei; talvez. Meu irmão é imprevisível às vezes.
A expressão preocupada à minha frente me fez perder um pouco do bom-humor e me tornei sério outra vez. Minha mão subiu até o rosto de Izuna e o acariciei devagar.
— Eu não irei me preocupar com isso — eu afirmei a ele. — E você também não deveria. Eu prometi que não deixaria que algo de ruim acontecesse conosco. Se lembra?
Izuna assentiu rapidamente e tocou a minha mão com a sua.
— Eu não permitirei que ele toque em você.
Foi impossível não voltar a sorrir naquele momento. No olhar de Izuna eu via que ele falava sério, e estava disposto a enfrentar seu irmão, que respeitava grandemente, por mim. Ele também estava disposto a lutar por nós e pensar nisso me deixou cheio de coragem, mas que logo foi tomada por certo receio que fez o meu sorriso morrer aos poucos.
Antes que Izuna percebesse o meu estado, eu me aproximei um pouco mais, beijei sua testa e em seguida o prendi em um apertado abraço. Não queria que Izuna pensasse que eu não pensava como ele, quando o compreendia como ninguém naquele momento. Eu estava mais do que disposto a enfrentar tudo e todos por ele e Eiji, e era exatamente este o problema. Duvidava que Madara escutasse seu irmão em um momento de fúria, e só conseguia imaginar que, de alguma maneira, terminaríamos nos enfrentando. E eu não tinha planos em hesitar. Eu revidaria com tudo o que tinha e protegeria a união de minha família, mas era difícil imaginar que isso pudesse acontecer quando, mesmo não querendo admitir, Madara era parte dela. Izuna ficaria furioso com qualquer um de nós se machucássemos um ao outro, e não gostava de imaginar sua reação se a possível luta terminasse com um de nós sem vida.
Não queria preocupá-lo com coisas que ainda viriam, e tentando seguir o que eu mesmo havia dito a ele, deixei minhas preocupações de lado e as escondi.
— E agora, qual é o próximo passo? — Perguntei quando o soltei, me mostrando mais relaxado do que estava minutos antes.
— Você é o gênio aqui — ele colocou as mãos na cintura e sorriu de um jeito charmoso — e eu que devo dizer o que fazer?
— É o seu plano — o lembrei enquanto tentava segurar o meu sorriso que queria retornar.
Ele riu em tom baixo e deu de ombros. Seu corpo voltou a se virar e as mãos a cortar o pão que havia sido abandonado quando roubei sua atenção ao chegar.
— Eu irei conversar com o meu irmão sobre Hashirama — Izuna disse em tom extremamente baixo, o que não me soou estranho, visto que podia sentir agitação no andar de cima e que logo teríamos companhia. — Acho que deveria fazer o mesmo.
Eu estava pronto para ajudá-lo com o preparo da refeição, mas quando ouvi suas últimas palavras, travei onde estava. Não havia sido muito, mas já havia deixado com que minha língua perdesse o controle e falado com o meu irmão sobre tal assunto. Izuna ainda não sabia, e pretendia deixar assim, pois sabia que mais tarde ouviria por horas que havia quase estragado seus planos.
Eu fui tolo em achar que precisaria dizer algo para que Izuna me desmascarasse. Enquanto pensava em como reagir de alguma maneira que não levantasse suspeitas, ele já havia se virado em minha direção e me encarou com os olhos semicerrados.
— Você já conversou com ele?
— É claro que não — o respondi rapidamente, e me xinguei internamente por ter gaguejado logo no começo da frase. — Conversarei com ele mais tarde — dei as costas ao afirmar, e soltei um suspiro aliviado por ver Eiji descendo as escadas. Mais alguns segundos sozinhos e Izuna me pararia e não teria para onde fugir.
O pequeno já estava animado como sempre, e ficou ainda mais por ver seus tios se juntarem a ele minutos depois. Izuna e eu nos olhamos rapidamente assim que avistamos os nossos irmãos descendo as escadas. Eles não pareciam diferentes em um primeiro momento. Ainda não se olhavam, e permaneceu assim durante toda a refeição daquela manhã, o que me fez pensar se estávamos querendo forçar algo que não tinha jeito. Mas no fim, notei algo em meu irmão. Ele não parecia tenso ou com raiva. Seu olhar baixo e tom de voz me pareceram tímidos, e mais tarde soube que Izuna notou o mesmo em seu irmão.
— Eu acho que algo aconteceu durante a madrugada — disse Izuna no fim do dia, com um sorriso alegre e com fundo malicioso. Eu adorava vê-lo sorrir, mas daquela vez, sua expressão fez o meu estomago embrulhar. Não queria imaginar o que poderia ter acontecido, e por isso deixei o assunto sem continuidade, e não por discordar. Eu também achava que algo havia acontecido; na verdade, tinha certeza, porque ainda naquele dia, Hashirama voltou a mostrar transparência como costumava ser no passado.
Eu não sabia se apenas os olhares de ambos que fizeram Izuna pensar de tal maneira, pois, o momento que teve com Madara durante o dia não foi acompanhado por mim. Eiji os arrastou para o lado de fora, cobrando o jutsu do dragão de fogo, e eu, aproveitei aquele momento para dar atenção a Hashirama. Mas ele não parecia muito disposto a conversar. Eu me senti um pouco incomodado por fazer aquilo, não queria me intrometer mais do que já havia me intrometido, mas mentiria se dissesse que no fundo não me senti bem por encurralá-lo assim como havia feito comigo na noite anterior.
— Como passou a noite? — Tentei ser natural ao perguntar a ele, porém, não era de meu feitio interpretar. Hashirama me olhou com uma expressão estranha na face, e achei que fosse por meu jeito de falar, mas seu rosto levemente corado, assim como me mostrou estar errado, também denunciou o que eu não queria saber.
A noite toda me ocupei com Izuna em meus braços. Longos beijos e bobas palavras, e nada de infundir chacra ou ficar atento ao que poderia estar acontecendo no fim do corredor. O meu maior medo passou a ser notar qualquer coisa que poderia estar acontecendo naquele quarto durante as horas que ambos passaram juntos, mas ficou claro que algo de fato havia acontecido quando, ao ver minha expressão contida de surpresa, meu irmão corou ainda mais e se levantou do sofá com agitação.
Ele era transparente demais, e não precisei de palavra alguma para notar sua mudança repentina. Eu não queria ouvir, então pensei em não questioná-lo, mas a face de Izuna apareceu em minha mente, e derrotado, imaginei o quanto ouviria se nem ao menos tentasse tirar algo concreto de Hashirama. Mas, ainda assim, eu pensei em deixá-lo quieto, sabendo que, seja o que fosse que tivesse acontecido, estava fresco demais para se aprofundar em uma conversa, porém, o jeito agitado de meu irmão me deixou preocupado.
— Eu preciso voltar para casa — disse ele, cada vez mais agitado e sem me olhar nos olhos. — Estou aqui desde anteontem.
Ele tentou se afastar após dar sua desculpa para ir embora, porém, me levantei rapidamente e o segurei pelo braço. Hashirama enfim me olhou nos olhos, e quando perguntei se estava tudo bem, fui respondido com um tom baixo e menos tímido. Ele realmente não parecia mal. Suas bochechas ainda rosadas mostravam que estava tudo bem, ao menos para ele.
Hashirama enfim se afastou quando o soltei, e saiu pela porta em que Izuna havia saído com Eiji e Madara minutos antes. Eu os ouvi de dentro da cabana. Meu irmão se despediu de Izuna, mas não o ouvi fazendo o mesmo com Madara, pois logo a voz de Eiji tomou conta de tudo. O pequeno ameaçou chorar quando soube da ida de Hashirama, mas se segurou com algo que foi dito em tom baixo e que não consegui ouvir. Com a despedida, meu irmão logo voltou para o interior da cabana, e quando ficou pronto para ir, eu o acompanhei até a outra porta.
Ele ainda estava quieto demais quando nos despedimos, e não esperei muito com aquele breve momento que tivemos, porém, meu irmão tinha o dom de me surpreender, e foi o que fez quando se virou para mim após se afastar alguns metros. Seu rosto corado estava de volta, e o ouvi suspirar fundo.
— Eu pensarei sobre o que me disse — ele gaguejou a frase de maneira envergonhada e abaixou o olhar antes de dar as costas novamente.
Meu irmão me deixou para trás com uma expressão surpresa e ao mesmo tempo completamente perdida. Era aquilo que Izuna queria, que um deles desse o primeiro passo ou ao menos pensasse em tal coisa. Eu deveria me sentir alegre por ter dado certo em tão pouco tempo, porém, ainda havia aquele pequeno Tobirama em meu ombro, que sussurrava em meu ouvido o quanto aquilo era desagradável. Mas, por sorte, não havia apenas um Tobirama, mas dois, e o que ficava do outro lado me dizia que eu realmente seria hipócrita se mantivesse tais pensamentos. Se eu dissesse que vê-los juntos era tão desagradável, o que eu poderia dizer se um dia Madara me confrontasse e me jogasse as mesmas palavras sobre Izuna estar comigo? Eu sabia que não ia gostar de ouvir aqueles tipos de coisas quando de meu ponto de vista, Izuna e eu éramos perfeitos um para o outro. Eu era feliz ao lado dele, e ao pensar nisso, enfim abracei a ideia que já havia saído por minha boca antes, mas não de maneira tão sincera quanto senti naquele momento.
— Eu já nem sei mais quando terminam os Uchiha e começam os Senju — suspirei após falar comigo mesmo, e no fim, dei de ombros. Eu só queria que meu irmão fosse feliz, como havia dito a Izuna, e sem saberem, nossos clãs já estavam envolvidos demais para continuarmos daquela maneira. Não importava o que eu achava da relação de meu irmão com Madara, contanto que a paz viesse até nós o mais rápido possível.
Não demorou mais que duas horas para Madara também passar pela porta em que meu irmão havia saído. Izuna tentou me obrigar a acompanhá-los, mas eu passei tal ideia da maneira mais discreta que consegui. Apesar de tudo, ainda não conseguia me sentir confortável na presença de Madara, e tinha certeza de que o mesmo valia para ele. O jeito com que me olhava ainda era insistente e me irritava, porém, como o meu irmão, ele resolveu me surpreender naquele dia. Madara não falou ou se aproximou, mas acenou com a cabeça em minha direção. Ele ainda estava extremamente sério, mas foi estranho não ver tanta raiva em seu olhar, como era costume.
“Izuna teve tempo de dizer alguma coisa? ”, meus pensamentos me fizeram encará-lo como um idiota, e só consegui retribuir o gesto quando Izuna ficou ao meu lado e bateu levemente em meu ombro. Eu também acenei com a cabeça, e em seguida, mais uma vez fui deixado para trás e completamente perdido.
Eiji ficou algum tempo ao meu lado, enquanto Izuna conversava com Madara no lado de fora. Ele permaneceu quieto enquanto vez ou outra tentava espiar ambos quando se encostava no batente da porta. E quando tentei repreendê-lo, foi tarde, e Izuna chamou por seu nome, assustando-o tanto que resultou em um pulo para trás. Ele me olhou nervoso pela minha risada, mas logo seu sorriso se abriu ao ouvir Madara chamá-lo, mas se desfez quando soube que era para enfim se despedir.
O pequeno chorou por boa parte daquela tarde. Assim que se viu sem os seus tios, Eiji chorou como quando tinha que ficar sem Izuna ou a mim. Ele se apegava fácil, mas precisava de muito para deixá-lo de tal maneira. Apesar de sua seriedade e a falta de jeito com crianças, de alguma maneira Madara havia deixado uma boa impressão em seu sobrinho.
Izuna e eu tivemos que dedicar o resto do dia ao pequeno. Não era uma novidade que ele tivesse a nossa total atenção em vários momentos, mas naquele dia em especial, Eiji precisou ser mimado a todo instante, até enfim se conformar que demoraria algum tempo para poder rever seus tios, principalmente Madara.
***
— Acha que algo grave pode ter acontecido? — Pergunto Izuna, claramente aflito e impaciente.
Há mais de duas semanas não tínhamos notícias de Hashirama. Na semana que seguiu o aniversário de Eiji, ele havia mandado um recado, dizendo que em breve se tornaria mais ocupado e que cessaria suas visitas por tempo indeterminado. Eu fiquei preocupado com a porcentagem de chances de o motivo ser pela guerra ser grande demais, e piorou quando o contato que prometeu manter através de seu gavião não voltou a acontecer depois daquele. Eu tentei pensar que meu irmão estava ocupado demais com seus afazeres e havia simplesmente esquecido ou ficado sem tempo, mas a preocupação que os dias traziam só aumentava.
Izuna entrou em contato com Madara, perguntando se estava bem e me apressei para escrever um recado parecido para o meu irmão. Nós seguramos a vontade de perguntar como iam as coisas entre os clãs, e foi muito difícil ignorar os nossos lados que, no fundo, queriam estar com nossos irmãos em um momento como aquele. A segurança de Eiji e Izuna era o que me mantinha com a mente no lugar, senão, na primeira semana eu já estaria de volta.
A mensagem de Izuna foi enviada pela manhã, enquanto eu ainda escrevia a minha. Eu escrevi e reescrevi as minhas palavras mais de três vezes antes de dobrar o papel e chamar por meu gavião, que se tornou desnecessário no mesmo momento em que pousou em meu braço. Acima pude ver o bater de outras asas, as que conhecia tão bem quanto aquelas próximas a mim. Era o gavião de Hashirama, finalmente.
— Tio Hashi! — Eiji gritou animado quando saiu de dentro da cabana e apontou para o céu.
Ao ouvir a animação do pequeno, em segundos Izuna já estava ao meu lado. Ele procurou ao redor com agitação e em seguida seguiu para onde Eiji apontava. Nós nos encaramos no instante seguinte, e com o coração acelerado recebi o papel que continha a letra de meu irmão.
A mensagem era grande demais para quem aparentemente só queria mostrar que estava vivo e bem, e foi com ainda mais seriedade e agitação que entrei na cabana, e juntamente com Izuna, li cada frase com extrema atenção.
“Irmão, primeiramente devo lhe pedir desculpas por não ter dado notícias nas últimas semanas e, principalmente, pelo o que irá ler neste papel.
Esses dias longe de vocês me fizeram pensar muito, e por isso tive bastante trabalho. Sei que não quer saber mais desta guerra e que quer manter Eiji e Izuna a salvo, e não tenho outra palavra para descrever o que sinto por suas últimas atitudes além de ‘orgulho’, porém, você precisa saber o que realmente está acontecendo, e por isso que peço desculpas, por não respeitar o seu desejo.
Após Eiji ter melhorado de sua doença, vocês voltaram para casa, mas acabou esquecendo algo em seu quarto. Eu não sabia se o papel pertencia a você ou Izuna, mas, o guardei em meu escritório, e sozinho verifiquei a localização que estava nele. Eu fiquei surpreso quando cheguei no local, e pior ainda quando vi Madara ao longe. E foi quando percebi onde estava, que descobri que aquele papel era seu. Não faria sentido Izuna guardar o endereço de seu próprio lar, certo?
Eu me desesperei, Tobirama, e fui embora. Tantas coisas passaram por minha mente. Fiquei a me perguntar se Izuna havia dado aquilo para você, ou se estava ali porque descobriu o local do núcleo dos Uchiha e queria me contar. Mas depois de muito pensar e observá-lo, vi que o meu último pensamento estava errado. Eu me senti traído, e por isso não suportei quando, não muito tempo depois, me disse que estava deixando a guerra para trás.
Demorei demais para perceber que não deveria me sentir de tal maneira, mas entendi que aquele papel não queria dizer que havia sido traído. E só me alertou o quão errado estava em desconfiar de Izuna, que se mostrou confiável como você alegou tantas vezes ser. Por isso, também devo desculpas a ele, e igualmente agradecer, por cuidar tão bem de meu irmão e sobrinho.
Vocês não irão gostar de saber, mas, decidi que contaria tudo, e é o que farei.
A minha hesitação em ver Madara no aniversário de Eiji era por causa daquele papel. Eu escrevi um plano e marquei uma reunião com o clã, para avisar que iriamos atacar Madara no próximo mês. Eu estava decidido, mas quando a reunião veio, não consegui dizer a eles tudo o que sabia. Eu olhei para a nossa família e tudo o que consegui ver foi o rosto de Eiji e o quanto ele parecia feliz por ver Madara.
Eu amo você e Eiji mais do que pode imaginar, Tobirama, e tudo o que quero é que fiquem a salvo. Mas se eu continuar com o que venho fazendo, sei que não vou conseguir protegê-los, ao menos não os seus corações. Eu sempre soube que você amava Izuna, mesmo antes de me dizer, e via o mesmo em Eiji. Se eu continuar com isso, irei machucar a todos, não somente a mim, e é por isso que me desculpo mais uma vez, pois, não posso mais aguentar, Tobirama. Eu amo vocês, e sabe como me sinto em relação a Madara, não? Eu não posso machucá-lo como querem. Mas também não posso ceder. O clã Senju precisa de mim, e Tobirama, sinto dizer, mas também precisamos de você.
Você quer manter Eiji e Izuna a salvo e entendo completamente, mas confesso que estou surpreso por não ter pensado que, para que possam continuar vivos e bem, a guerra precisa ter um fim. Talvez você tenha pensado, mas não me dito. É por isso que queria que eu conversasse com Madara? Eu gostaria de saber.
Nós conversamos; Madara e eu, naquela noite em sua casa e recentemente. Você realmente sabia muito mais do que eu, não é? Me sinto um tolo, mas, feliz. Achei que nunca iria me sentir assim novamente, mas muitas coisas inesperadas aconteceram nos últimos anos. Quem iria imaginar, Tobirama, que aquilo que você achou que era um erro, que temeu tanto me contar três anos atrás, mudaria tudo dessa forma? Amor cresceu em você, e o meu coração despedaçado foi consertado por causa de uma criança; por Eiji.
Eu pensei muito em você, Izuna e Madara nos últimos dias, e gostaria de dizer que foram os principais motivos para tomar uma decisão, mas na verdade foi Eiji quem decidiu tudo desde o começo.
Eu ainda penso na vila que sempre quis construir com Madara, e imagino Eiji crescendo nela, sendo um ninja forte como você e Izuna são, mas se preocupando mais com que roupa vestir ou qual sabor de bolo comer, do que uma batalha para vencer. Quero que ele acorde de manhã com a certeza de que nada de ruim irá acontecer, que estude e tenha amigos, irmãos, uma casa para retornar, onde você e Izuna estarão esperando.
Você também consegue imaginar essas coisas, Tobirama? E você, Izuna? Eu quero isso para a nossa família, e pretendo ir atrás desse objetivo o mais rápido possível, mas para isso, precisamos de vocês.
Madara e eu decidimos entrar em um acordo. Conversarei com o clã em breve, mas, eles vão querer a sua opinião, Tobirama. Você sempre foi o mais sensato de nós dois, tem a confiança de todos, e seria um grande reforço para as minhas palavras.
A reunião acontecerá na manhã da sexta-feira da próxima semana. Pense nisso, Tobirama, por favor. Vamos pôr um fim nisso juntos, de uma vez por todas.
— Hashirama S.”
Eu estava pronto para reler as palavras de meu irmão mais uma vez — ainda sem saber direito o que sentir — quando ouvimos Eiji gritar alegre novamente. Izuna correu até ele, e minutos depois, retornou com outro papel.
Era a resposta de Madara.
Izuna sentou ao meu lado, me permitindo ler juntamente com ele. Em sua escrita, Madara dizia coisas parecidas com as de meu irmão, ainda que menos sentimental e mais objetivo, mas aquele jeito contido não impediu Izuna de derramar lágrimas quando seu irmão finalmente se desculpou pelo o que disse no dia em que haviam discutido. Ele também pediu que Izuna participasse da reunião dos Uchiha, e que estivesse ao lado dele quando selasse o acordo com Hashirama.
Nós relemos as duas mensagens várias vezes antes de enfim nos encarar. Izuna ainda parecia emocionado, e eu, mesmo não querendo admitir, também estava.
Havia me esquecido daquele papel que Izuna havia me dado, e me surpreendi por meu irmão não ter me confrontado e falado sobre o assunto, ainda mais ao saber que em todo aquele tempo ele guardava um plano tão grande. Hashirama havia guardado todos aqueles pensamentos e sentimentos para si por bastante tempo, e saber de tudo fez o meu peito se apertar, mas no fim foi de uma maneira diferente. O que ele havia escrito sobre Eiji... Hashirama não poderia estar mais certo. O pequeno havia nos mudado de uma maneira irreversível, nos fez abrir os olhos para toda a crueldade que nos seguia. E eu com certeza podia não só imaginar o futuro que o meu irmão descreveu, mas também queria.
Izuna e eu conversamos muito naquele dia. Passamos a noite acordados falando sobre os pedidos de nossos irmãos, e quando pudemos ver o sol nascer, a nossa decisão estava tomada.
Nós sabíamos tudo o que poderia dar de errado, o que não era pouco, mas, ao olhar para o que seria ganho com o acerto, não houve dúvidas quando enviamos as respostas para Hashirama e Madara.
Queríamos estar juntos sem nos esconder, que nossos irmãos fossem felizes, e mais que tudo, que Eiji tivesse um bom futuro. Então, dissemos sim.
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