Eiji
22 Capítulo Dezessete
Eu tentei colocar os meus pensamentos em ordem antes de chegar aquela semana; tentei focar no que teria que fazer para economizar tempo enquanto deixava Eiji em segurança; também pensei em como suprimir toda a ansiedade e negatividade que me tomava cada vez mais, porém, quando a segunda-feira finalmente chegou, nada estava no devido lugar em meu interior.
A reunião que tive com meu clã havia acontecido há duas semanas, e as faces desconfortáveis da maioria dos membros me preocupava. Eles jamais nos trairiam, era uma certeza que me deixava menos aflito, porém, eu não gostava da sensação dos olhares às minhas costas.
— Este é o único caminho que nos restou — afirmei a eles, assim que o meu irmão explicou o que pretendia oferecer a Madara.
Eles cochicharam entre si, e nos deram aqueles olhares. Foi a primeira vez que senti que não confiavam em minha palavra ou na de Hashirama, e isso me trouxe um leve tremor na carne. Eu não estava acostumado a ser desacreditado por meu próprio clã, e dei um passo à frente, a fim de colocar para fora tudo o que guardava em minha mente; a respeito da guerra e eles próprios. Mas os meus movimentos foram impedidos por Hashirama, que em minha direção, de maneira discreta, balançou a cabeça de um lado para o outro.
Apesar do claro desconforto em seus olhares, nenhum membro se opôs ao que Hashirama disse.
— Quando tudo estiver feito, tivermos a nossa aliança com os Uchiha e um lugar melhor para viver, irão ver que estamos certos — disse Hashirama, mais tarde naquele dia. — O mais importante é que estão dispostos a nos dar o benefício da dúvida. Se estivessem certos que daria errado, não acha que teriam se oposto?
Eu apenas assenti para ele. Já havia falado demais durante o dia inteiro, e como todos do clã, já não aguentava mais falar e ouvir, queria ver algo acontecer. E o prometido foi que teríamos muito para ver, duas semanas depois, no coração da floresta Jofuku.
A reunião havia sido marcada para acontecer na tarde da terça-feira, e por isso a segunda-feira foi passada com extrema ansiedade. Pela manhã, eu não consegui me manter parado, e muito menos Izuna. Havíamos combinado não discutir sobre o assunto mais uma vez. As decisões estavam tomadas e não havia coisas novas para adicionar, e concordamos que nos aprofundar no assunto só nos faria ainda mais nervosos e ansiosos. Esse era o plano, porém, não havia dado muito certo. O nervosismo estava entre nós e, de minha parte, era difícil não me pegar pensando no que iria acontecer no dia seguinte.
A fim de nos distrair, decidimos limpar a casa por completo, o que tomou a manhã inteira e no fim, nos trouxe suspiros aliviados seguidos de outros frustrados. O barulho que ouvimos no quarto ao lado nos alertava que a organização dos brinquedos de Eiji mais uma vez havia servido para nada.
O pequeno me mostrou um sorriso travesso quando deixei Izuna arrumando as roupas em nosso quarto e fui observar todos os brinquedos espalhados no cômodo ao lado. Ele rebateu as minhas reclamações, mas bastou um olhar sério e prometeu que guardaria no fim do dia, o que duvidei muito, mas o deixei como estava. No dia seguinte sabia que o veria triste por ter que se separar de nós, e quis adiar olhar em seus olhos chorosos.
Eu estava com grandes preocupações com cada detalhe que viria no outro dia, não conseguia parar de pensar em tudo, porém, quando voltei para o quarto ao lado, um pouco da minha seriedade se foi e minha mente foi tomada por graça. Izuna estava em frente ao espelho, se admirando como costumava fazer com certa frequência — apesar de jamais admitir que gastava bons minutos naquele costume — mas a diferença que me fez rir em tom baixo enquanto me aproximava, foi ver seu pescoço coberto com o pelo branco que eu usava para prender parte de minha armadura.
— O que está fazendo?
Izuna se assustou ao me ouvir, mas rapidamente disfarçou seu estado e, com um sorriso exatamente igual ao que eu havia recebido de Eiji, se virou em minha direção.
— Eu sou Tobirama Senju, e esmagarei a todos com o meu grande cérebro — Izuna fez uma careta séria ao engrossar a voz de maneira exagerada e encostar os punhos na cintura. — E claro, — ele girou nos calcanhares, e com o sorriso de volta, piscou com um dos olhos e segurou os pelos brancos com ambas as mãos — também com roupas estilosas.
Eu segurei a alta risada que queria sair de mim, e devagar me aproximei um pouco mais.
— Não parece nem um pouco comigo — afirmei, chegando à sua frente. Minhas mãos tentaram agarrar o que era meu, mas Izuna desviou rapidamente e mais uma vez soltou uma frase ridícula que foi feita com tom de voz ainda mais. — Qual é, eu não falo desse jeito!
— Fala sim — ele riu ao afirmar e mais uma vez desviou de minhas mãos.
Antes que eu pudesse dizer algo mais, ouvi os barulhos de pequenos pés descalços correndo sobre a madeira. Eu me virei para ver Eiji correr pelo quarto e com um largo sorriso estender as mãos na direção de Izuna.
— Me dê! Me dê! — Pediu Eiji com euforia. Izuna rapidamente retirou a peça de seu pescoço e colocou em volta do pequeno, que foi quase coberto por completo. Eiji sorriu ainda mais ao segurar os pelos brancos e seus olhos fecharam quando pendeu a cabeça para o lado, sentindo o toque na bochecha. — É tão quentinho.
Meu peito se aqueceu ao ver tal cena, e um bobo sorriso cresceu em meus lábios.
— Essa é a coisa mais fofa que já vi em toda a minha vida — senti o toque de Izuna em minha cintura enquanto este falava, assim que se colocou por trás de mim. — Parece com você.
Meu sorriso se tornou ainda mais abobalhado ao ouvir a baixa risada do pequeno enquanto aproveitava a sensação que disse ter e quando senti o leve beijo em meu ombro. Eu me senti calmo pela primeira vez em semanas, e desejei permanecer de tal maneira até o fim daquele dia, porém, o que vi e ouvi em seguida me fez juntar as sobrancelhas.
— Parece um tapete — Eiji riu divertido ao tirar a peça de seu pescoço, e ainda mais animado a jogou sobre o chão e pulou em cima.
Imediatamente fui até ele, e tirei seus pés dali.
— Me dê isso, menino!
Ouvi a baixa risada de Izuna em algum lugar do quarto, o que fez a minha irritação se elevar um pouco mais.
— Eu posso ter um? — A pergunta inocente de Eiji me fez hesitar por um momento, mas ao ouvir outra risada, revirei os olhos.
— Para o que vai querer um tapete? — Perguntei com nervosismo, e vi a expressão animada do pequeno esmorecer.
— Vai discutir com uma criança, Tobirama? — O tom risonho ainda estava ali, e lancei um rápido olhar por cima de meu ombro.
— Calado! — O repreendi, porém, só consegui arrancar-lhe outra risada.
Mais uma vez revirei os olhos, e suspirei fundo. Ele tinha razão e eu estava nervoso por pouca coisa, mas, ainda assim, era difícil admitir. Porém, não foi tão ruim quanto ver os olhinhos tristes me encarando com mágoa.
Outro suspiro, dessa vez, por derrota.
— Depois farei um para você — prometi ao me abaixar e acariciar os cabelos de Eiji, que imediatamente voltou a sorrir.
O pequeno soltou um grito de vitória ao levantar os braços para cima, e em segundos, sem aviso algum, correu de nosso quarto para o dele. Em seguida ouvi mais uma risada, e ao me levantar, olhei emburrado para Izuna, que soltou outro som bem-humorado. Ele se aproximou enquanto tentava imitar a minha expressão, e com ainda mais graça pegou a peça felpuda de minhas mãos e a colocou sobre os meus ombros. As mãos foram mantidas entre os pelos, e com um sorriso sem o deboche de antes, disse:
— Você fica elegante com este tapete.
Eu não consegui manter a expressão séria e acabei rindo em tom baixo, balançando a cabeça de um lado para o outro enquanto dava um passo à frente, para poder pousar minhas mãos em sua cintura.
— Eu sei que o meu tapete te excita — brinquei, com o meu bom humor recuperado.
O sorriso de Izuna se tornou sedutor quando me senti ser puxado para frente, e mais uma vez ouvi sua baixa risada.
— Pode apostar que sim.
O beijo que seguiu suas palavras foi acompanhado de risadas abafadas por nossas bocas, que se separaram por um breve momento quando desci minhas mãos para as coxas de Izuna e o trouxe para cima. Izuna soltou um som surpreso e rapidamente se segurou em meus ombros com as mãos, enquanto as pernas rodearam minha cintura com firmeza. Ele não gostava quando eu o segurava daquela maneira, sempre temia que eu o derrubasse, mesmo comigo afirmando que era forte o suficiente. Me preparei para ouvir reclamações vindo dele, porém, o sorriso de Izuna não desapareceu, e nossas bocas rapidamente voltaram a se juntar. Mas no fundo, ele estava certo, eu não aguentava tanto peso por mais que alguns minutos, e senti meus braços tremerem levemente. Para não interromper o beijo, dei poucos passos para a frente e encostei suas costas na parede, aliviando um pouco o peso.
O meu orgulho sempre falava mais alto em momentos como aquele, e não querendo dizer que Izuna estava certo e com o meu corpo se animando com a situação, o mantive onde estava, pronto para tomar seus lábios novamente, porém, ele me parou ao encostar a cabeça na parede. Eu sabia o que aquele olhar queria dizer, e tratei de esfriar o meu corpo, rindo em tom baixo quando o vi soltar uma das mãos de meu ombro e mostrar a palma, descendo cada dedo em uma muda contagem regressiva.
Três, dois... um:
— Por que está pegando o papai no colo?
Eu ri um pouco mais alto, e fui imitado por Izuna. Era claro que ele iria aparecer em um momento como aquele.
— Oh, isto? — Segurei o corpo de Izuna com mais força enquanto perguntava, e o ouvi soltar outro grito surpreso quando o soltei repentinamente, para então pegá-lo novamente. Izuna tentou se livrar de meus braços e descer, mas o ignorei ao segurar suas pernas e lateral do corpo contra o meu peito. — É porque agora ele é o meu pequeno.
Eiji fez uma expressão surpresa seguida de uma indignada. Só então notei que ele segurava uma folha em mãos, mas que foi completamente ignorada ao ser jogada sobre o chão com fúria. Por um momento pensei que havia exagerado e estava prestes a ouvi-lo chorar pelo o que havia dito a ele, porém, Eiji manteve a mesma expressão enquanto corria até nós.
— Não! — Exclamou ele, enquanto tentava escalar as minhas pernas. — Eu é que sou!
— Tobirama! — Izuna finalmente abriu a boca, soando seu tom repreendedor de sempre, mas que não combinava em nada com a expressão envergonhada.
Eu ri divertido.
— Pegue ele.
Abaixei um pouco o corpo de Izuna, que hesitante trouxe o pequeno para o seu colo. Eu me arrependi de ter dado aquela ideia no mesmo momento, pois meus braços que antes tremiam pareciam que se separariam de meu corpo. Mas os aguentei por mais tempo, e sorri quando Eiji se acomodou sobre Izuna e também se apoiou em meu pescoço.
— É brincadeira, ok? — Garanti a ele. — Vocês dois são os meus pequenos — eu me aproximei de seu rosto ao dizer. — Mas você é o meu favorito — sussurrei para ele, que riu de maneira travessa e assentiu animado.
Eu dei atenção para Izuna no momento seguinte, e mais uma vez senti aquela mesma calmaria de antes, mas que novamente não durou muito tempo. O sorriso de Izuna morreu quando meus braços voltaram a tremer, e seus olhos me encararam com seriedade.
— Se você nos derrubar, eu te mato.
— Eu não vou — afirmei, confiante demais para quem havia parado de sentir que tinha braços.
Não querendo brincar com a minha sorte, eu me esforcei um pouco mais e andei até a cama, deixando Izuna e Eiji seguros sobre o colchão, enquanto voltava a sentir os meus braços, que pareciam queimar por conta do teimoso esforço.
— Papa é tão forte! — Ouvi Eiji dizer, e com um sorriso vitorioso olhei para Izuna, que revirou os olhos. — Como um dragão!
O jeito com que o pequeno ficou em pé na cama enquanto falava e levantou as mãozinhas como se imitasse garras foi demais para mim, e senti meu peito se aquecer novamente. Ele era mais que adorável.
— Um dragão que cospe água.
Olhei para expressão debochada de Izuna assim que o ouvi, e tive tempo de vê-lo cobrir os lábios com a mão, para ocultar seu riso.
— Como se houvesse um padrão para isso — tratei de me defender, com mais calma do que antigamente faria. Meu joelho tocou o colchão quando me dirigi a Izuna. — Dragões nem ao menos... — o olhar arregalado à minha frente me fez cortar a minha fala, e em seguida olhei para a expressão curiosa ao nosso lado, percebendo a besteira que quase fiz — são...
Eu me enrolei enquanto encarava Eiji, hesitando em estragar uma das crenças que mais o alegrava.
— Não são criaturas exclusivamente do fogo — Izuna se adiantou para me ajudar, e Eiji o olhou com confusão. — Eles podem cuspir várias coisas.
O pequeno colocou o dedo indicador sobre os lábios, e em segundos a expressão pensativa se tornou extremamente animada.
— Como suco de uva?
Minhas sobrancelhas se levantaram ao ouvir a pergunta, e juntaram-se assim que ouvi a resposta de Izuna:
— Como suco de uva.
— Uau... — O pequeno estava deslumbrado. — Eu preciso desenhar isso!
De uma maneira perigosa, o pequeno se jogou da cama, e antes que fosse ao encontro do chão, o segurei em meus braços, ouvindo-o reclamar enquanto se debatia. Eu o soltei quando pousei seus pés na madeira, e sem palavras para repreendê-lo, o observei correr dali mais uma vez.
— Olhe o que você fez — disse a Izuna enquanto andava até o papel que Eiji havia esquecido no chão.
— O quê? — Ele me olhou com falsa inocência, me observando voltar para a cama. — Eu gosto que ele tenha um pouco de fantasia. A realidade só nos estraga.
Eu já havia escutado tais palavras. Izuna sempre encorajava a imaginação de Eiji, enquanto eu, não sabia se era certo deixá-lo se iludir com tanto. Meu pai nunca havia nos deixado acreditar em coisas do tipo, alegando que iria nos distrair e atrapalhar nossos objetivos, mesmo quando éramos tão pequenos quanto Eiji e nem ao menos sabíamos o que tal palavra significava. Ele havia nos criado bem, e eu queria fazer o mesmo por Eiji. Izuna dizia que seu pai agia como o meu quando era vivo, e era exatamente por isso que gostava de encorajar as fantasias de Eiji. “Ele nos criou bem, mas não como crianças. E não quero isso para Eiji”, ele ganhou a nossa discussão com tal frase. Eu não era grande fã de ilusões, mas crianças adoravam exercitar a mente de tal forma, e como Izuna, tudo o que queria era que Eiji crescesse como todas as outras.
Eu concordei em manter segredo sobre a não-existência de dragões, mas, mesmo aceitando as palavras de Izuna, ainda não gostava que Eiji se aprofundasse ainda mais naquilo. A decepção seria grande demais quando soubesse da verdade, e nós teríamos que lidar com aquilo.
— Eu não diria isso — insisti, subindo sobre a cama e me deitando ao lado de Izuna, e abrindo um bobo sorriso ao ver o desenho de Eiji usando as minhas vestes no papel que tinha em mãos. — A minha realidade agora é incrível, muito melhor que a existência de um dragão.
As minhas palavras foram sinceras naquele momento, mas só as disse para tentar amolecer um pouco a teimosia de Izuna, e achei que havia conseguido quando ele também se deitou sobre o colchão e vi seu rosto se virar em minha direção. Mas não foi como eu queria. Seu sorriso fraco estava à minha frente para me iludir, e senti as pontas de seus dedos em meu rosto.
— Eu amo você. E o nosso filho também. Mas... é um dragão que cospe suco de uva.
Meus olhos se reviraram ao ouvir sua baixa risada, e aceitando a minha derrota mais rápido que deveria, me virei completamente para ele enquanto segurava sua mão em meu rosto.
— Realmente, não tem como competir com isso.
Eu me entreguei às risadas como ele, e quando me aproximei um pouco mais, mostrando o conteúdo do papel, a calmaria em meu peito voltou para ficar até o fim daquela tarde.
***
— Está pronto para amanhã?
Izuna virou a cabeça em minha direção ao me ouvir. O sorriso fraco me acompanhou até que eu ficasse ao seu lado na sacada, e ouvi um baixo suspirou escapar por seus lábios quando encarei a escuridão à frente. Aquela noite estava ainda mais fria que a anterior, e não era um costume vê-lo do lado de fora em climas como aquele, principalmente sendo ele o que mais reclamava do frio não muito tempo antes daquele momento.
Izuna havia se encarregado de contar a história para que Eiji dormisse, enquanto eu me ocupava de apagar a iluminação do andar de baixo e fechar as portas. Quando retornei para o quarto, vi suas costas curvadas na sacada, e me preocupei por notá-lo ali e sem suas roupas de inverno. Quando pude ver seu rosto voltando para a direção da escuridão, a preocupação aumentou. Eu já havia visto aquela expressão.
Eu sabia que ele estava preocupado e principalmente que havíamos combinado de encerrar aquele assunto, porém, faltava pouco para que tudo finalmente acontecesse, e não teria como nos manter calados enquanto sabíamos que com o dia seguinte viria uma grande mudança em nossas vidas.
— Eu não sei — respondeu Izuna, finalmente. — Estou ansioso, eu acho.
O que disse poderia ser verdade, eu mesmo me sentia de tal forma, mas também podia sentir que havia mais significado naquele olhar que, para mim, parecia desiludido.
— Eles farão o que é certo — afirmei ao imitá-lo, me curvando sobre a proteção de madeira para poder apoiar os braços ali.
Eu realmente achava que meu irmão faria tudo o que pudesse para encerrar aquela guerra da maneira mais pacífica possível, mas... ainda me perguntava: O que realmente era esse “certo” que eu falava? Terminar com tudo aquilo parecia ser. Evitar que muitos continuassem a morrer era certo, não? Mas, os nossos motivos para finalmente fazer algo que não envolvesse violência eram certos? Hashirama dizia que eu não era hipócrita por voltar atrás daquela maneira, mas, eu ainda achava que era. Eu havia mudado, era um fato incontestável. Passei a entender melhor como era desistir do orgulho para o bem de alguém, mas isso não mudava que, não muito tempo antes, tinha total consciência de que todos estavam sofrendo, que passavam por situações parecidas com a que era para mim naquele momento, porém, não queria recuar ou abraçar as ideias de Hashirama de ter uma parceria com Madara. Eu apenas aceitei quando era benéfico para mim, e olhei para todos com real compreensão por estar em uma situação parecida.
Eu não podia mudar o passado, como havia dito a Izuna, e tentava o máximo mostrar a ele que o que importava era o presente e futuro, mas o sentimento de culpa ainda estava lutando para sobreviver em meu interior. Me sentia culpado, e me perguntava se Izuna tinha sentimentos parecidos. Mas, ainda assim, não coloquei os meus pensamentos para fora.
— Se não der certo, o pegarei no colo e fugiremos — eu disse, com seriedade em um primeiro momento, mas ao virar o rosto em sua direção, não aguentei por muito tempo e minha máscara caiu.
Nós rimos feito dois idiotas.
— Se der certo, — Izuna se mostrou mais animado enquanto falava — o beijarei na frente de todos.
Mais risadas vieram, e me movi de onde estava, o abraçando por trás.
— Passaremos vergonha de um jeito ou de outro — brinquei, ainda risonho. — Eu gosto.
Izuna virou em minha direção, e ao abrir um sorriso suave, rodeou minha cintura com os braços.
— Desde que passemos vergonha juntos, também gosto.
Nós encerramos aquelas bobas palavras com um rápido beijo, seguido de um convite feito por mim, para enfim entrarmos. O corpo de Izuna estava gelado, e o apressei para se enfiar debaixo das cobertas, enquanto eu preparava a lareira para se manter acesa por mais algumas horas.
As bobas palavras que havíamos trocado na sacada nos deixou menos tensos como estávamos antes, mas quando me juntei a Izuna debaixo das cobertas, vi que não havia como fugir daquele assunto por muito tempo. Eu tentei desviar da seriedade minutos antes, mas ela voltou juntamente com aquele olhar de Izuna.
— Não vai me contar o que está pensando? — Fui direto ao perguntar, o que trouxe uma expressão surpresa na face à minha frente. Minha mão subiu até o rosto de Izuna, e o acariciei enquanto forçava um fraco sorriso. — Eu conheço essa expressão.
— Estou com medo. Foi fácil demais, Tobirama — para a minha surpresa, ele também foi direto. Izuna soltou um suspiro derrotado, e segurou minha mão em seu rosto. — Não me refiro a nossos irmãos, e não só aos outros membros dos clãs. Não sei como funciona no lado de vocês, mas no nosso, nada é assim tão simples. Ainda temos os outros...
Não havíamos contado um para o outro os detalhes das reuniões de nossos clãs. Não havia sido fácil do meu lado, e imaginava que o mesmo se aplicava aos Uchiha, mas, em teoria, o que importava era o que soubemos através um do outro; que ambos os lados haviam concordado. As palavras de nossos clãs deveriam ter nos deixado menos aflitos, apesar da hesitação nos Senju, mas Izuna tinha razão, ainda tínhamos que convencer os outros.
Hashirama e Madara eram os líderes em cada das duas partes que a guerra se dividia, mas não existia apenas os dois clãs. Nós tínhamos outros clãs aliados que também queriam ver a derrota dos Uchiha, que como nós, tinham bons números que não carregavam seu nome. Eles estavam cientes e compareceriam na reunião do dia seguinte, mas ainda não sabíamos suas opiniões. Do nosso lado, todos confiavam ou temiam Hashirama, talvez fosse por isso que resolveram ao menos escutar a proposta, mas me perguntava se, a ideia de juntar-se aos que haviam feito tanto mal para nós os faria mudar de alguma maneira.
Eu entendia o que Izuna queria dizer e me preocupava igualmente, mas, também havia os outros lados daquela história, e nós dois éramos o exemplo disso.
— Eu costumava pensar que você e eu juntos, não seria fácil — confessei em tom baixo. — Que dizer o que sinto por você não era nada simples...
— É diferente — ele cortou minhas palavras, obviamente por já saber como eu as terminaria.
— Será? — Insisti, rindo internamente. O antigo Tobirama jamais tentaria ver o lado positivo das coisas. — Eles também têm sentimentos, perderam tanto quanto nós e precisam reconstruir suas vidas. Alguns nem ao menos têm algo para reconstruir, pois já nasceram com o mundo desta maneira. Não sabem verdadeiramente o que é viver em completa paz.
— Como nós.
— Sim — forcei um sorriso ao respondê-lo. — E olhe para tudo o que construímos depois que paramos de guardar o que sentimos — eu me aproximei um pouco mais, encarando-o de perto. — Eu sei que meu clã irá cumprir com o combinado e seguir Hashirama e a mim. E sobre os outros, tenho confiança de que darão uma chance. Não somos apenas eu e meu irmão que não aguentam mais.
Izuna se manteve em silêncio mesmo após me ouvir. Ele me olhou com seriedade antes de desviar sua atenção para baixo, e seu jeito despertou uma pergunta que eu tinha há algum tempo, mas que antes não me deixei pensar por mais que alguns segundos.
— Você confia em seu clã?
Os olhos escuros de Izuna imediatamente voltaram a me encarar, e sua voz saiu sussurrada:
— Sim.
Não pude saber se Izuna estava sendo sincero ou havia respondido de tal maneira para que eu não me preocupasse, mas resolvi acreditar em sua palavra. Naquele momento eu não podia fazer nada além disso.
— Então deve ser o suficiente — eu disse a ele, sentindo seu rosto relaxar em baixo de minha mão. — Era sobre isso que estava pensando lá fora?
Izuna assentiu simplesmente e soltou um baixo suspiro ao se aproximar um pouco mais para tocar minha cintura.
— Fiquei preocupado — confessei, um pouco sem jeito. Em seguida, enfim pude ver Izuna sorrir, o que apagou um pouco da vergonha. — Por um momento me lembrei de Eiji.
Fui olhado por um Izuna completamente confuso, e só então percebi que nunca havia contado a ele sobre aquele assunto.
— Você estava olhando para a floresta como se estivesse esperando algo, mas não parecia com muitas esperanças. Eiji fazia isso quando era mais novo, quando sentia a sua falta — acabei sorrindo fraco enquanto me lembrava do passado, mas o gesto carregava mais tristeza do que saudade. — Todos os dias, olhando pela janela, esperando por você, mesmo sabendo que não viria.
— Você nunca me disse isso — o tom de voz de Izuna saiu magoado ao dizer.
— Não era uma boa época para nós, — dei de ombros, mas internamente me sentindo culpado — e por algum tempo eu não consegui entender por que ele fazia isso, e sempre no mesmo horário.
— Ao pôr do sol?
A pergunta saiu em um tom surpreso, que com certeza combinava com o que eu estava sentindo naquele momento. Eu assenti rapidamente, e vi a expressão de Izuna suavizar enquanto sentia o toque em minha cintura se tornar uma leve caricia.
— Eu cuidava dos treinamentos dos novos shinobi durante a tarde — ele começou a explicar. — E também precisei de um tempo para sustentar a mentira sobre a família de Eiji. Eu fingia procurá-los, porque o meu irmão ordenou — Izuna se mostrou sem jeito ao revelar. — Eiji sempre me esperava chegar, na janela da sala. Ele ficava tão feliz — o sorriso saudoso de Izuna foi claro, mas este esmoreceu rapidamente —, mas não demorava a chorar, na hora de dormir. Sempre chamando por você.
Senti um leve aperto ao imaginar o pequeno daquela maneira; triste e ao mesmo tempo esperançoso. Desde o início ele sempre precisou de nós dois, e o arrependimento por ter demorado certo tempo para enxergar tal coisa sempre batia em meu peito.
Naquele momento, me permiti pensar fora daquela cabana. Após perceber o quanto Eiji se mostrou melhor depois de ter Izuna morando conosco, eu me peguei o imaginando com outras pessoas. Em meu clã, havia muitos que reclamavam da saudade que sentiam de suas famílias. Os filhos, esposas ou esposos que não eram shinobi e se abrigaram no Norte... todos eles tinham alguém para se preocupar e ter saudades, e imaginava que era ainda pior para os que esperavam que voltassem a salvo depois de uma batalha. Nós não éramos os únicos a ter um Eiji esperando por nosso retorno.
— Amanhã, vamos cuidar para que isso nunca mais aconteça, certo? — A voz de Izuna me trouxe de volta para ele, e o vi mais determinado do que em qualquer outro momento daquela semana. — Na nossa família ou em qualquer outra.
Suas palavras fizeram os meus lábios se abrirem em um sorriso genuíno.
Eu assenti antes de encostar minha testa na dele. Era como se Izuna pudesse ler os meus pensamentos, e me senti aliviado por vê-lo ter decidido o mesmo que eu. Sempre protegeríamos e daríamos prioridade para a nossa família, mas já havia passado da hora de olharmos para as outras que confiavam suas vidas a nós.
***
A mala de Eiji estava cheia, fechada e nos esperando sobre o chão. O pequeno estava em pé ao lado, tão quieto que me fez perguntar se estava tudo bem por diversas vezes naquela manhã. Seus olhinhos estavam agitados enquanto acompanhava os passos de Izuna e os meus, e podia imaginar o que estava pensando. Não havíamos dado muitos detalhes sobre o que iríamos fazer naquele dia, e ter que voltar aos cuidados de Aika o dividia entre alegria e preocupação. O jeito com que tive que deixá-lo no Norte na primeira vez, foi agitado e sem tempo para longas despedidas ou explicações. Ele nem ao menos soube quanto tempo ficaria longe de nós, e ainda havia o sumiço de Izuna naquela época.
Convencer o pequeno que estava tudo bem e que não demoraríamos a nos reencontrar foi difícil, e mesmo no fim conseguindo arrancar palavras mais animadas dele, ainda duvidava que havia conseguido. Izuna também se juntou a conversa, mas por seus lábios poucas palavras saíram. Ele se manteve quieto e sério desde o momento em que havia acordado. A nossa conversa na noite anterior serviu para nos encorajar, mas não houve como nos vermos livres de cem por cento da preocupação.
Eu não tentei puxar assunto daquela vez. Me sentia ansioso, assim como imaginava que ele estava, e não consegui animá-lo com algumas palavras, como normalmente fazia. O que viria a seguir era sério demais, e mesmo com grandes chances de tudo dar certo, ainda havia aquela pequena porcentagem de erros que nos amedrontava.
A ideia era seguir os comandos de Hashirama e Madara, mas Izuna e eu também tínhamos os nossos próprios planos. Nós queríamos mudar o mundo shinobi, ficar ao lado de nossos irmãos e cuidar das famílias que havíamos mencionado na noite anterior. Nossos sentimentos eram verdadeiros, mas, a prioridade ainda era outra, era aquele que havia entrado em nosso quarto e sentando sobre a cama enquanto nos observava terminar de nos arrumar para sair.
Se os principais planos para aquele dia não dessem certo, nós não tínhamos outra escolha além de deixar os nossos irmãos de maneira definitiva.
— Eu não gosto dessas marcas — ouvi a voz de Izuna sair em tom baixo, mas o suficiente para desviar a minha atenção do espelho à minha frente. Ele tocou o meu rosto quando me virei em sua direção, e enfim entendi a que se referia.
— Por quê?
— Porque elas me lembram nossas batalhas.
O tom triste que formou a resposta me fez dar um passo à frente. Eu toquei sua cintura com ambas as mãos, e ainda que sentia o mesmo que aquele olhar sobre mim, me forcei para sorrir.
— Talvez devêssemos criar novas memórias com elas — eu abaixei o meu rosto enquanto falava, e no fim dei um beijo barulhento em sua bochecha, seguido de outro e mais um. — O que acha? — Perguntei entre os beijos.
Izuna riu em tom baixo enquanto batia levemente em meu peito. Foi a primeira vez que vi seu sorriso naquele dia, e também a última.
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