Efeito Dominó
34 Shape of you
A primeira coisa que ela estranhou foram os caminhões de mudança. Uma equipe uniformizada descia com caixas e caixas, mas bem, pessoas ricas mudavam-se todo o tempo. Entrou no elevador, pousando a echarpe vermelha por cima do ombro esquerdo; a porta fechou-se e ela checou seu visual no espelho. Um vestido tubinho, vermelho escarlate, delineava a silhueta por baixo do casaco de fuhr branco. Pérolas tilintavam em seus pulsos quando ela movimentava a bolsa de cor creme da Prada.
Cora Mills estava de volta. A porta se abriu no décimo quarto andar e ela saiu, os saltos altos anunciando sua chegada. Porém, mais uma novidade a esperava. Zelena nunca havia sido fã de seguranças; na verdade menosprezava a segurança excessiva de sua irmã como se fosse uma grande piada. Mas pelo jeito isso também havia mudado.
“Posso ajudá-la?”
“Vim para falar com Zelena.”
“E a senhora, quem é?”
Cora sorriu, olhando-o de baixo para cima. Se ele soubesse quem ela era, saberia também o quão ofensiva tal questão era. “A mãe dela. Cora Mills.”
Mas ele pareceu pouco impressionado. Pediu-lhe um instante e anunciou sua presença, e alguns minutos se passaram até que a porta se abriu e outro segurança saiu. “Por aqui, Senhora Mills. Irei acompanhá-la até a sala de estar.”
Cora o seguiu, percebendo que era Zelena quem estava se mudando. Alguns membros da equipe de mudança estavam ali dentro, e todo o apartamento estava quase vazio. Ele afastou-se assim que chegaram à grande sala, deixando-as à sós. Zelena estava de costas para ela, encarando a grande vidraça; os cabelos ruivos caíam encaracolados até sua cintura, mais vivos e brilhantes do que nunca. Usava um vestido branco, o que destacava ainda mais a cor de suas madeixas.
“O que está fazendo aqui?” Questionou ela, sem paciência para rodeios.
“Olhe nos meus olhos quando falar comigo. Foi essa a educação que lhe dei.”
Zelena deu meia volta, sorrindo amargamente. Percebeu como os olhos de Cora viajaram imediatamente para a protuberância em seu abdômen. “O que é isso?”
“É bastante óbvio, mãe.” Rebateu ela, a última palavra pronunciada lentamente, para enfatizar a ironia de seu uso.
“Não achei que tivesse planos de constituir uma família. Não faz o seu perfil.”
“Você não sabe nada sobre o meu perfil.”
Cora sorriu. “Ah, eu sei sim.” Caminhou até a vidraça, percebendo o afastamento quase involuntário de sua filha. A vista era esplêndida dali. “Eu sei o que você fez. O que você obrigou Arthur a fazer, o que…”
“Se veio aqui defender seu namoradinho…”
“Eu não terminei. Eu vou falar e você vai ouvir, garota!” Sibilou Cora, sua voz aumentando em volume e Zelena simplesmente engoliu em seco, seu corpo crepitando de ansiedade e irritação. “Violet é apenas uma criança, Zelena. Ela poderia ter morrido. Você poderia ter tirado a única filha de um viúvo. Não percebe o quanto é doentio? E se fosse essa coisinha aí dentro de você? Como você iria se sentir?”
“Ele podia ter evitado. Ele deveria ter…”
“Me seduzido e entregado um vídeo a você?” Rebateu Cora, encarando-a com os olhos fulminando de raiva. “E pelo que, Zelena? Para conseguir o cargo da sua irmã? Para tirar dela a direção de uma empresa para a qual você está pouco se lixando? Você a odeia tanto assim?”
“Eu não odeio Regina.”
“Então é inveja.”
“Se é esse seu propósito aqui, volte por onde entrou. Eu não quero você aqui, Cora.”
Entretanto, isso só trouxe um sorriso aos lábios da mais velha. “Então é inveja. Inveja porque ela sempre foi melhor do que você. Porque ela tinha um potencial que você nunca teve. Porque ela sempre consegue tudo por mérito e porque…”
Zelena gargalhou alto, a palma da mão aberta posicionada sobre sua barriga, protegendo-a delicadamente. “Sim, Regina é sensacional. Mas mérito? Por favor, Cora. Mérito seu, eu diria. Mérito de quem a pressionou a vida toda e não a deixou decidir a própria vida. Por isso ela é tão infeliz. Você escolheu como ela deveria viver, que carreira seguir, onde trabalhar, com quem casar. Então não me venha com mérito. Ela simplesmente não teve culhões para dizer não a você.”
“Isso é absurdo, Regina nunca…”
“Regina é uma covarde. Encare os fatos.”
“Você jamais será sequer metade da mulher que sua irmã é.” Condenou-a, dando mais um passo e ficando frente a frente com ela.
“Me alegra saber que você também não.”
“Mostre algum respeito por mim. Eu sou sua mãe.”
Zelena sorriu. “O mesmo respeito que você mostrou pelo meu pai? Não pense que ninguém sabia o que você aprontava com ele. Transando com o instrutor de piano de Regina, o parceiro dele no clube de golfe, o…”
“Minha infidelidade não invalidava o que eu sentia por Henry.”
“Talvez você só quisesse mesmo o dinheiro dele. Talvez vovó estivesse certa sobre você ser uma interesseira barata e oportunista que”
A palma de Cora estralou contra o rosto dela, o som ecoando pelo cômodo vazio. “Eu amava o seu pai!”
“Tire suas mãos dela.” Avisou uma voz masculina. Cora observou quando um homem alto e forte se posicionou ao lado de Zelena. No primeiro momento, ele checou-a, acariciando seu rosto com os olhos azuis brilhando em preocupação. Ele era bonito. Tinha uma estrutura corporal equilibrada, postura alinhada, vestido socialmente, a camisa social contornando a linha de seus bíceps. Mas não parecia feliz em conhecê-la quando seus olhos finalmente se encontraram.
“Você nunca aprendeu a não agredir uma mulher grávida?”
Cora deveria responder, mas palavras lhe desapareceram da mente. Ela nunca conhecia ninguém da vida de Zelena. Nenhum relacionamento. E ali estava ela, presenciando a base de sua família. “Eu não vou mais deixar você sozinha com ninguém, nem mesmo da sua família, está entendido?” Disse ele à Zelena. “Não é seguro para você.”
Zelena assentiu, voltando a encarar Cora. “Saia da minha casa. Você não é bem-vinda.”
“Quem é esse homem?”
David estava prestes a dizer alguma coisa, mas Zelena puxou-o para trás, impedindo. “Não é da sua conta. Vá embora antes que eu peça para tirarem você a força.”
Cora observou pela maneira com que ele a protegia, as mãos sobre a barriga dela e os olhos irritados que ele possivelmente era o pai daquela criança. Por mais que odiasse as ações de Zelena, por mais que quisesse vê-la lidando com as consequências de seus atos errôneos, por mais irritada que estivesse — Zelena era sua filha e Cora era incapaz de odiá-la. Desejava que de alguma forma, ela encontrasse felicidade.
Sem dizer nada, ela deu meia volta e caminhou na direção da saída sem nunca olhar para trás.
***
Sentados ao redor da mesa redonda, sob o sol da vasta varanda, eles pareciam um casal de recém-casados. Regina ainda estava em seu robe de cetim lilás, os cabelos úmidos do banho que haviam tomado juntos. Ela estava passando geleia em uma torrada de maneira lenta e suave, como se soubesse que ele acompanhava seus movimentos. Levou um dos dedos à boca, chupando uma gotinha da geleia e ele não pode evitar pensar em diferentes modos que ela havia utilizado a boca na noite passada.
“Pare.” Pediu ela e Frank riu. “Seus pensamentos estão escritos no seu rosto.”
“A culpa não é minha. Você é gostosa demais e…”
“Frank!” Chamou ela, e ele riu, balançando a cabeça. Sua camiseta branca delineava o dorso e os músculos, o cabelo ainda bagunçado, a barba bem aparada rente ao rosto. Puxou uma tira de bacon e levou à boca, saboreando-a enquanto admirava Regina. Ela era mesmo absurdamente linda.
Linda demais para você.
Balançou a cabeça tentando afastar seus costumeiros dilemas. Pensou em dizer a ela sobre Zelena, mas ela parecia feliz. Parecia calma, o rosto relaxado e ele não teve coragem de infringir lhe uma dor desnecessária. “Deveríamos viajar.” Comentou ele, chamando sua atenção.
“Para onde?”
“Paris.”
Regina riu. “Você odeia Paris.”
“Mas você ama, e eu acho que você merece.”
Ela o observou em silêncio por algum tempo. “É uma ótima ideia, babe.”
“Vou cotar alguns valores para a melhor data.” Respondeu ele, percebendo que Donovan se aproximava rapidamente. Gostava do garoto, mas sentia falta da presença marcante de Lockhood. O rosto dele parecia vermelho e ele parecia ansioso quando pediu licença para se aproximar.
“Fale, garoto.”
“É uma emergência, chefe. Você poderia me acompanhar até o escritório?”
Deveria ser mesmo uma emergência para um segurança tirá-lo da mesa do café. “Muito urgente?” Questionou.
“Sim senhor.”
Frank suspirou, levantando e debruçando-se sobre ela, beijando-a com gosto e sentindo o doce sabor da geleia de framboesa em sua língua. Regina sorriu, observando-o se afastar ao lado do segurança mais novo. Quando eles desapareceram para dentro da casa, o sorriso se desfez. Ela voltou a encarar a mesa, pensativa. Frank não lhe dissera como ele havia quebrado o braço; e a maneira brusca com que ele mudara de assunto a fez imaginar que a história por trás daquilo devia ser pior do que o imaginado. Mas tudo ao seu tempo. Naquele momento, seu papel era representar uma esposa feliz.
***
“O que foi que você disse?”
“Um desfalque de cento e vinte e oito milhões.”
Frank enfiou a mão livre por entre os cabelos, puxando-os em um estado de raiva e suave desespero.
“Todas as propriedades no nome da senhora Regina foram vendidas.”
“Filha da puta!” Gritou ele, jogando um dos abajures contra a parede. Pedaços da lâmpada se espalharam pelo chão, assim como detalhes metálicos da estrutura. “Que horas foram feitas as transações?”
“Durante a madrugada. Foi feita através da deep web, os valores pagos por bitcoins. Usaram lojas online para lavar o dinheiro, não é possível rastrear o destino.” Donovan ergueu a cabeça, encarando o homem à beira de um colapso nervoso à sua frente. “O senhor acha que a senhora Delfino…”
Frank sorriu. “Ela esteve ocupada a noite toda, garoto. Posso garantir.” E ela esteve. Ele conseguia lembrar detalhadamente a sensação de tê-la montada nele, as pernas douradas ao redor de sua cintura, os seios fartos balançando sobre ele enquanto ela o fodia, o quadril subindo e descendo enquanto ela o deixava ir cada vez mais fundo. Ou a maneira que ela arranhava suas costas quando ele se enterrou nela, empurrando-a cada vez mais contra o colchão macio Ou como ela o derretera na banheira, chupando a alma dele para fora do corpo através do… “Além do mais, Regina não sabe sobre a existência desses hotéis. Ela nunca viu sequer uma escritura, nunca assinou nada. Ela era minha laranja.”
“Então…”
“Chame Lockhood. Diga que preciso dele agora.”
“Sim senhor.”
Frank observou o balancete de seu patrimônio, sentando-se na cadeira à frente do computador. Seus olhos vasculhavam o monitor, sua atenção firme aos detalhes, aos números que entravam e saíam. Ninguém tocava no seu dinheiro. Ninguém tocava em nada que era seu, e saía impune. Quem quer que fosse o responsável por aquilo, ele ia matar com as próprias mãos e depois entregar para Lockhood descartar no meio de um aterro sanitário para ser comido por corvos.
***
Quarenta minutos depois, Robin encontrou seu chefe na entrada da garagem. Eles caminharam apressadamente na direção das portas traseiras da Range Rover, entrando no veículo em seguida e o motorista arrancou apressadamente. “Donovan o informou sobre o que aconteceu?”
“Não, senhor. Ele apenas me disse para chegar o mais rápido possível.”
“Você demorou quarenta minutos.”
“Senhor, eu estava me”
“Não me interessa.” Cortou Frank. “Alguém está mexendo no meu patrimônio. Transações de compra e venda foram realizadas e cento e vinte e oito milhões de dólares desapareceram.”
“Algum suspeito?”
“Ainda não. Talvez Bishop, mas se ela tivesse esse acesso já teria feito isso antes, em vez de fazer algo tão banal quanto sequestrar Laurel.”
“Qual o plano a seguir?”
“Vamos até o Legalité Bank. Vou retirar todas as minhas escrituras físicas e deixar no cofre da mansão. É mais seguro.”
Robin assentiu, pensativo. Era isso o que ele achava; mas Regina estava prestes a mostrar que não. Estava distraído, e não percebeu quando Frank se aproximou, puxando a aba de sua jaqueta e descobrindo um leve arroxeado na base de seu pescoço.
“Noites tórridas com a babá, Hood?” Zombou ele, rindo. “Finalmente… Me diga, como ela é na cama?”
“Eu prefiro não compartilhar certos detalhes, senhor.”
“Você não é divertido, Lockhood.” Brincou ele. “Não tem problema conversar sobre isso. São mulheres. Elas também conversam sobre isso entre elas.”
Robin assentiu em silêncio. Ele torcia para que não. Se Megan falava de sua vida sexual para Ruby, então Stuart Grant sabia muito mais do que ele gostaria. O pensamento o deixou inquieto.
“Por exemplo, entre Regina e Laurel eu sempre escolheria Regina. Ela tem... stamina. Ela tem um fogo e uma coisa que é viciante e desesperadora, e Laurel é maravilhosa, mas ela quer tanto um namorado que isso mata o tesão.”
Robin ergueu as sobrancelhas. Ele ainda se encontrava com Laurel. Regina provavelmente não sabia disso, e o pensamento deixou-o ligeiramente triste por ela. Por mais que ela desejasse mudar seu marido, por mais que achasse que dar a ele tudo o que ele queria fosse deixá-lo satisfeito, ou ao menos, fiel, ela estava enganada. Não se pode mudar a natureza de um homem. Mesmo com a melhor das intenções, ou das ofertas.
“Você deve pegar leve com ela. Afinal, você é gigante e a menina toda pequeninha...”
“Nosso relacionamento não se limita à cama.” Rebateu Robin, irritado. Esse homem poderia ser mais insuportável?
“Se as coisas não vão bem na cama, Lockhood, sinto dizer que em pouco tempo você ganha um par de chifres. Ou você coloca chifres nela. A natureza humana é assim.”
Robin finalmente virou-se para ele. “É muito mais fácil conversar com a pessoa com quem se está relacionando. Resolver o que há de errado.”
Frank riu, balançando a cabeça. “Está mentindo para quem, Hood? Você não é nenhum romântico, meu caro. Você é uma fortaleza. Suas defesas são tão altas que quase não vemos você atrás delas, e não que eu me importo, eu não me importo mesmo. É melhor ter um braço direito sem coração do que um babaquinha romântico. Eu prefiro você assim.” Frank encarou-o. “Acha que eu não sei que você não ama aquela garota? Eu sei disso. Mas as vezes, é melhor fingir.”
“Chegamos.” Cortou Robin, aliviado de terem chegado ao destino. A vontade de socar a face de seu chefe queimava por baixo da sua pele.
“Depois continuamos nosso papo.” Provocou Frank, sorrindo. Abotoou o terno cinza, e em seguida caminhou para a escadaria de acesso à entrada frontal do Banco.
***
“Eu senti sua falta.” Sussurrou Regina, fazendo Stuart sorrir. Ele virou-se para ela, guardando os detalhes que a deixavam tão bela. Os cabelos escuros que caíam como ondas suaves e lentas, o rosto muito bem maquiado que a deixava ainda mais bela do que era possível, os lábios marcados em uma tonalidade vinho. O vestido era dourado, cintilante e abraçava o corpo dela em todos os lugares certos, afinando sua cintura e acentuando os quadris. Curvas que faziam todos os homens da festa roubarem um pequeno olhar aqui e ali. Regina era um monumento.
“Eu me ausentei por meio período.”
“Deu para sentir falta.”
A tarde quente começava a deslizar para a entrada da noite, o sol se pondo em um horizonte não tão distante. De onde estavam, um terraço chique que mais parecia um jardim francês decorado com luminárias e flores brancas, oferecia aos convidados uma vista privilegiada do pôr do sol. Um espetáculo de luzes, tons infinitos que nasciam do laranja e do rosa, puxando para nuances cor de ferrugem e salmão. Frank havia bebido demais. Ela podia dizer pela maneira que ele se posicionava para falar com as pessoas, invadindo o espaço pessoal delas com suas piadas ruins e sua opinião absurda. Sabia que muitas das pessoas naquela cocktail party deviam estar rezando aos seus deuses para que ele fosse logo embora e elas pudessem beber em paz.
Arrependera-se de ter saído de casa. Penelope Key era uma cliente e conhecida de longos anos e Regina simplesmente não conseguira lhe dizer não — Frank também não a deixaria ficar em casa, então ela sequer tentara fugir. Porém, a essa altura, ela imaginava que era melhor ter recusado o convite.
“Regina, venha aqui.” Chamou ele e ela suspirou fundo antes de atravessar a distância até ele. Alguns dos homens ao redor dele mantinham o respeito, entretanto alguns deles a olhavam como um pedaço de carne; e o fato de que seu marido estava indiferente a isso lhe incomodava muito. “Não é verdade mesmo que eu tive que pagar pela restauração de um Monet em que esbarrei e que tivemos que voltar sem carro para casa?”
Não, não era verdade. Ela não entendia qual era a graça dessa mentira que ele sempre repetia, mas eles jamais tiveram que pagar por um Monet. Regina esbarrara uma vez em um vaso chinês e eles tiveram que pagar trinta e cinco mil dólares por ele, mas não era um Monet. Ela colocou o braço sobre os ombros dele, sorrindo. “Sim, é verdade. Cheguei em casa com bolhas nos calcanhares depois de andar quilômetros sobre saltos altíssimos.” Bem, outra mentira.
Pediu licença e decidiu que não faria mal tomar algum drinque. Aturar aquela festa seria um desafio, pelo andar da carruagem. Ela esbarrou em alguém, fazendo-o derrubar um pouco de seu drinque. Apenas quando procurou o rosto para se desculpar que ela percebeu ser um rosto muito, muito familiar.
“Daniel?”
“Regina Mills!” Ele a abraçou, de maneira natural e imediata. Regina abriu um largo sorriso, mas esse morreu instantaneamente quando ela captou o olhar de Frank por cima do ombro do homem. “O tempo só lhe fez bem, Gina. Você está deslumbrante. E bem casada, a julgar pelo tamanho do diamante.”
Ela sorriu, observando seu ex-namorado. Os cabelos escuros e lisos estavam cortados de uma maneira tão diferente, tão… adulta. O tempo havia feito bem a ele também. Estava bonito, o rosto largo e definido, traços másculos e maduros. “Você não está mal também.”
“O que tem feito de bom?”
“Estou trabalhando na diretoria da Apple’s Queen.”
Ele sorriu. “Sua mãe conseguiu mesmo enlaçar você.”
“Quando é que Cora Mills não consegue o que quer?” Sorriu ela, admirada por estar revendo-o depois de tantos anos. Daniel havia sido muito importante para ela, embora tivesse sido apenas um casinho entre dois adolescentes apaixonados. “E você, que rumo tomou finalmente?”
“Desembargador do Tribunal de Justiça, Daniel Lucas Colter ao seu dispor.” Respondeu ele.
Ela sorriu genuinamente. “Estou orgulhosa.”
“Você me incentivou a estudar quando me deu um pé na bunda para ir estudar fora. Acho que suas palavras foram ‘Daniel, você está estagnado nessa rotina monótona.’.”
“Me desculpe por aquilo.” Pediu ela, sentindo uma pontada de culpa. Antes que pudesse continuar, sentiu uma palma firme e rígida em sua cintura, apertando-a para mantê-la próxima. “Não vai me apresentar seu amigo, querida?”
Um arrepio percorreu a espinha dela quando ouviu a voz de Frank. Havia um resquício de zombaria, mas também de animosidade, uma raiva mascarada que ela há muito aprendera a identificar. Daniel sorriu para o homem à sua frente, sem saber com o que estava lidando. “Você deve ser o homem sortudo que se casou com ela. Prazer, Daniel.”
Regina observou em silêncio o sorriso ordinário no rosto dele quando soltou a cintura dela e ofereceu a mão esquerda para cumprimentá-lo. “Houve um pequeno acidente com a direita.” Riu. “Mas sim, eu sou casado com Regina. Sobre a sorte, há desavenças. Ela pode ser tão incrível quando exaustiva.”
O que ele estava fazendo?
“E vocês? De onde se conhecem?”
“Nós fomos namorados na adolescência. Uma brincadeira, honestamente, que obviamente não durou. Regina estava muito à minha frente em questão de maturidade. Não pertencíamos ao mesmo nível naquela época.”
“Eu diria o mesmo sobre nós atualmente.” Rebateu Frank e os dois riram, alimentando a apreensão dela. Daniel estava tão confortável que fazia com que ela se sentisse mal por ele. “Você é casado, Sr. Colter?”
“Não… Ainda não encontrei a mulher certa.”
“Bom, me deixe esclarecer algo para você. Regina não está disponível.” Rebateu ele, fazendo com que o tom da conversa mudasse drasticamente. Regina sentiu sua garganta secar, e Daniel encarou-o em choque.
“Hey eu nunca… Eu respeito Regina e seu casamento e…”
“Se chegar perto dela de novo irei matar você. Entendido, mauricinho? Ela é casada.”
“Isso é um mal-entendido, em nenhum momento eu...” Mas ele não terminou. Frank bateu a mão na parte inferior de sua taça, fazendo com que o liquido que a preenchia caísse por cima dele, molhando-o na face e no dorso.
“Se eu ver você perto dela novamente, você vai molhar as calças e não vai ser com um drinque. Vai ser de medo.” Ameaçou. Regina estava encarando Daniel com os olhos lacrimejando. Merda, merda, merda.
“Daniel, me desculpe. De verdade.” Sussurrou ela e Frank virou-se para ela imediatamente.
“Pare de pedir desculpas a ele. Nós vamos embora. Agora.”
Ele segurou seu pulso com força, puxando-a pela festa. Não fazia sentido nenhum lutar, mas ele realmente estava lhe machucando. Tentou desvencilhar-se dele uma vez que finalmente chegaram dentro do elevador, e ele a encostou na parede do mesmo com força, ignorando a presença de Robin e Stuart ali. “Está fugindo para que, Regina? Para voltar para aquele babaquinha? Esta se arrependendo de ter casado comigo e repensando como seria sua vida se tivesse se casado com ele?”
“Você estava machucando meu pulso. Só isso.” Respondeu ela, em um sussurro que parecia tê-lo acalmado momentaneamente.
Eles saíram no subsolo, e ela podia sentir seu corpo todo estremecendo. Talvez de raiva, talvez de nervoso. Ou mágoa. Era a primeira vez em anos e anos que ela revia Daniel e agora ela esperava não vê-lo tão cedo. Sequer teria coragem de olhar para ele depois de uma cena tão grotesca. A SUV estava estacionada perto do elevador, felizmente. Robin e Stuart seguiram na frente, caminhando em silêncio e sem se envolver na discussão dos dois. Eles não trocaram nenhuma palavra ao entrar no carro. Frank bateu no vidro, e Robin arrancou. Podia sentir o olhar do segurança sobre ela através do espelho retrovisor, mas escolheu desviar sua atenção.
Frank tirou um pequeno saco plástico do bolso interno, algo transparente com um conteúdo branco. Ao abrir o mesmo com os dentes, ela se deu conta do que era. Talvez por isso ele estivesse tão fora de si. Talvez já estivesse drogado durante a festa. “Você me disse que tinha parado com isso.”
“Limite-se ao que é da sua conta, Regina. Eu sou a porra do marido aqui.”
Derrubou o pó sobre o contorno da empunhadura e o polegar, equilibrando-o e aspirando em seguida. Ela fechou os olhos e virou-se para a sua janela. Ela o odiava. Odiava seu marido com todas as forças. Frank estava rindo, e ela suspirou, forçando os olhos fechados e torcendo para que fosse um pesadelo.
“Você sabia que sua irmã se casou?” Ele riu novamente. “Se casou e está grávida. Grávida. Que piada…”
Regina abriu os olhos. Ela sabia da gravidez. Era claro. Mas casamento? Sua irmã sequer aceitava a ideia de um relacionamento. Isso significava que Frank não era o pai da criança? Pensou nas coisas que dissera a ela e seu estômago começou a dar voltas. O que ela havia feito?
“Até sua mãe foi convidada para a festa e adivinha quem não foi? Você. Quando eu lhe digo que eu sou a única família que lhe resta, estou sendo sincero, baby. Elas não amam você.”
“E como é que você sabe disso?”
“Ela me contou.” Respondeu ele, fungando involuntariamente pela narina anestesiada. “Disse que teria me convidado se não corresse o risco de você aparecer comigo.”
“Que ela seja feliz.” Rebateu, amargura confirmando cada sílaba que saía de seus lábios.
“Ela vai derrubar você. Em pouco tempo, ela terá todo o Império Mills nas mãos dela.”
Regina não respondeu.
“Sabe o que mais ela disse?”
“Eu não quero saber.”
“Que se você quiser, ela pode ser barriga de aluguel para você. A única exigência dela é fazermos do modo tradicional.” Riu ele.
Robin entrou no pátio e estacionou o carro rapidamente. Estava preocupado com ela; mas Regina simplesmente saltou do veículo e voou para dentro da casa sem olhar para trás, com um Frank cambaleante e drogado ao seu encalço.
***
Mas a discussão não havia parado. Frank a tinha seguido, determinado a tirar sua esposa do sério, levando às provocações cada vez mais longe, até que ela não conseguisse mais ser indiferente.
“Você está brava por nada, baby.”
“Você não deveria ter feito aquilo.” Repreendeu ela, soltando o clipe do vestido.
“Sua irmã falou essas coisas porque quis.”
“Estou falando de Daniel.”
Ela caminhava de um lado para o outro da suíte. Durante todo o caminho, ela mantivera o assunto em pausa. Não queria ter mais uma discussão na frente dos seguranças, por mais íntimos que os dois fossem. Ou com Frank em um estado tão deplorável.
“Ainda está chateada por causa do seu namoradinho.”
“Eu tinha quinze anos, Frank.” Suspirou ela. “Fazem décadas que aquilo aconteceu. Não havia necessidade de tratá-lo daquela maneira.”
“Não interessa. Eu vi como ele olhava para você. Eu sei quando um homem quer a minha mulher.”
“Ah, sabe mesmo?” Ironizou ela, descendo dos saltos.
“O que você quer dizer com isso?”
Ela desfez-se do vestido, e enfiou-se no closet. Ele caminhou até a porta do mesmo, parando entre o batente. “Eu perguntei o que você quis dizer com isso.”
“Aqueles seus amigos estavam me olhando de maneira muito pior e você sequer se importou. Não se trata de nós. Se trata de você me marcando como uma posse sua. Um troféu que só você pode exibir para os outros.”
“Eu não quero você perto daquele cara.”
“Está inseguro?”
Ela saiu do closet vestindo um top e uma calça de malha. “Onde você vai?”
“Posso descer para a academia ou você vai me trancar no quarto?”
“Você é minha. Você é uma posse. Não se iluda pensando o contrário.”
“Não, não sou.”
“Você é.”
“Isso é o que você pensa, Frank.”
Ele riu amargamente. “Você está se achando grande coisa, não é? Você não faz ideia do preço que paguei para ter você. Não sabe o que me custou.”
“Posses são essas mulheres a quem você põe um preço e compra aos montes para encher seus clubes e limusines. Eu sou sua esposa. Você não paga para me ter. Não sou um produto, nem você um comprador.”
“Eu comprei você da sua mãe.” Sibilou ele e ela não conseguiu se controlar. A palma da mão dela voou contra o rosto dele, acertando-o em cheio. A marca de seus dedos ficou visível, um relevo vermelho e ela sentiu o sangue gelar em seu corpo.
“Você me bateu? Quem você pensa que é, vagabunda? Tudo isso por causa daquele mauricinho metido? Ou porque te dói saber que sua mãe viu em você uma mercadoria a ser leiloada para o partido mais rico que aparecesse?” Ele riu como um lunático, e Regina perdeu a calma.
“Eu jamais maltratei as mulheres que você trouxe para a nossa vida. Suas amantes, aquelas que você insistentemente esfregou na minha cara todos esses anos com um sorriso cínico na face. O mínimo que você poderia ter feito é tê-lo tratado com respeito, se é que você sabe o que respeito significa.”
“Ele não era seu amante.”
“Então talvez eu devesse arrumar um.”
Antes que pudesse pensar nas palavras que haviam simplesmente escapado por entre seus lábios, o punho dele acertou-a em cheio, jogando-a no chão. Todo seu crânio pareceu estremecer com a pancada, e uma onda de dor e calor passou a queimar a superfície do seu rosto. Regina encolheu-se no chão, tentando afastar-se dele, as palmas voltadas para o alto em uma forma desajeitada de defender-se.
“Eu vou mostrar a você o que vai lhe acontecer no dia em que decidir me trair, Regina.” Sibilou ele, erguendo o braço para continuar, porém Stuart apareceu, posicionando-se entre eles e esticando o corpo para proteger Regina. “Saia da frente, moleque.”
“Não, senhor. Meu dever aqui é protegê-la. Você não vai bater nela.” Rebateu ele, a voz firme e o rosto resignado, encarando o homem à sua frente com mais coragem que já tivera em toda a sua vida.
“Eu bato em você, então.” Rebateu Frank, acertando a cabeça dele violentamente com o gesso e derrubando-o no chão.
Regina fitou-o e ele encarou-a, parecendo confuso e perdido por segundos. “Olha o que você me fez fazer.” Respirando fundo, ele olhou em volta e então se agachou. Pegou a gola da camisa de Stuart e puxou o rosto dele para perto do seu. “Da próxima vez que você se intrometer em uma briga minha com a minha esposa vai ser a última vez que você vai tomar uma decisão consciente na vida, Grant. Cuidado.” Empurrou-o contra o chão, ouvindo-o grunhir.
Ela observou seu marido sair do quarto, sentindo a cabeça latejando. Seus ouvidos estavam reproduzindo um som longínquo e abafado e após algum tempo ela percebeu que era a voz de Stuart. Ele tinha levantado e estava agachado à sua frente. “Está me ouvindo?” Perguntou ele e ela balançou a cabeça, afirmando.
“Precisamos fazer uma compressa de gelo nisso. Mas vai ficar roxo de qualquer forma.”
“Eu não quero sair assim. Os outros funcionários…”
“Eu vou buscar o gelo e trago aqui.”
Ela consentiu. Observou-o sair do quarto. Sentia-se impotente. Lágrimas lavavam seu rosto, embora ela não soubesse exatamente porque estava chorando. Se era de dor, ou pela humilhação. Se era por tudo o que ele havia lhe dito, se era sobre a acusação feita sobre a sua mãe, sobre Daniel, sobre Zelena. Com esforço, levantou-se do chão e seguiu até sua bolsa. Seu coração batia aceleradamente. Discou alguns números e ouviu o som pulsar na linha até ser atendida.
“Bishop.”
“Sou eu, Regina.”
“A que devo o privilégio dessa ligação?” Flertou ela, e deve ter ouvido algo em sua respiração, pois a próxima questão veio com menos humor. “O que aconteceu?”
“Eu decidi o que fazer com o dinheiro dos imóveis.”
“Diga.”
“Eu quero que você sabote a Apple’s Queen. Compre os investidores e os tire da jogada, um por um. Faça com que eles quebrem a empresa.”
“Regina, você vai jogar a empresa em um buraco que talvez não tenha saída.”
“Eu estou titubeando, Margot? Faça o que eu estou dizendo ou eu acho quem faça.”
“Uau, chefinha. Eu posso fazer isso por você. Você quer mesmo que derrube todos?”
“Tudo o que encontrar. Investidores, provedores, clientes. Não tenha misericórdia de ninguém.”
“Entendido. É um caminho sem volta, Mills. Espero que saiba o que está fazendo.”
“Eu sei.”
***
Quando ele entrou na academia, ela estava sentada no escuro. Silêncio os cercava dentro da academia vazia e iluminada apenas pela luz da lua. Frank o havia dispensado e pelo estado em que estava, Robin sabia que ele ia abusar de qualquer substância química, física ou líquida, até o completo blecaute. Decidira voltar para a mansão para treinar, estava ficando preguiçoso demais. No entanto, ao retornar, percebeu que Stuart estava dormindo no dormitório externo dos seguranças. Algo só poderia ter dado muito errado — ele nunca ficava para passar a noite quando Frank não estava.
Seus passos podiam ser ouvidos por ela, mas Regina não se moveu. Mesmo com a proximidade dele, ela não se mexeu. Continuou sentada na cadeira de apoio, os cabelos presos em um rabo de cavalo, mas a franja grande caía sobre seu rosto devido á posição em que ela estava; sentada, debruçada para a frente, os antebraços apoiados em suas coxas, o olhar fixo no chão. Ele caminhou até estar exatamente na frente dela, de modo que não havia dúvidas que os pés dele estavam em seu campo de visão.
Mas ela não ergueu o rosto.
“Regina?”
“Vá embora, Robin.” Ela havia chorado. Podia perceber as nuances quebradiças em sua voz, implorando para serem libertas. Mas mais do que isso, havia algo errado. Regina sempre encarava direto dentro de seus olhos, desafiando-o com as órbitas cor de chocolate. Porém ela se recusava a estabelecer contato visual.
“Olhe para mim.”
“Não.”
“Regina.” Pediu ele, com um pouco mais de suavidade em sua voz.
Então ela levantou o rosto. Era possível ver, mesmo sob a meia luz da noite, a marca da pancada. O roxo que tomava forma e começava a colorir seus entornos. Robin respirou fundo, prendendo os lábios entre os dentes. Imaginou como ela deveria ter se sentido encurralada e impotente e raiva borbulhou por suas veias.
“Eu sei o que vai dizer; que eu procurei por isso; eu deveria saber no que estava me metendo, bem feito para mim e”
“Eu vou matá-lo.” Concluiu, a voz ecoando firme e decidida enquanto ele ainda segurava a base de seu queixo, um toque delicado, acariciando-a de maneira quase imperceptível, apenas a sombra de seu polegar tocando a pele dela.
“Robin, não” Pediu ela, sentindo-se de repente tão pequena e indefesa.
“Me dê uma boa razão para não o estrangular até a morte.”
Ela segurou em seu braço com as duas mãos. “Eu estou lhe pedindo por favor. Não faça nenhuma besteira agora. Não coloque a si mesmo ou seu filho em perigo. Por mim. Ele vai pagar por isso, eu prometo.”
Robin acariciou o rosto dela, deslizando o polegar sobre a bochecha dela enquanto olhava em seus olhos castanhos chocolate. “Você não pode me pedir para ficar assistindo esse homem fazer isso a você em silêncio.”
“Porque você se importa?”
“Regina.” Suspirou ele, respirando fundo e retomando sua calma. “Não é porque eu estou com outra pessoa ou porque não estamos mais envolvidos que eu odeio você. Eu me importo. Eu me preocupo.”
Ela permaneceu sentada. Isso não mudava nada. Eles ainda estariam separados, ela ainda odiaria vê-lo com a babá, lembrando a si mesma de que ela desperdiçara os sentimentos dele. Ela quem o colocara para escanteio com medo de se apaixonar. Robin ficou em silêncio algum tempo, observando-a. Em seguida, ele se afastou, caminhando para dentro do vestiário. Um minuto depois ele retornou, carregando algo consigo e parando na frente dela.
“Me dê sua mão.”
Sem pensar, ela estendeu a mão. Sem interromper o contato visual, ele enrolou uma pequena atadura ao redor da mão dela. Os olhos dela em nenhum momento abandonaram os seus; assim que uma mão estava pronta, ele passou para a outra. Cruzou a fita de bandagem, reforçando a eficiência da amarração. Com as duas mãos enfaixadas, Regina segurou nas mãos dele e deixou que ele a guiasse para o centro da sala de dança, uma sala aberta com piso liso e largos espelhos nas paredes.
“Olhe para mim.” Disse Robin. “Afaste as pernas assim.” Demonstrou ele, colocando as pernas em uma posição simples; não estavam muito longe, nem muito perto. Havia uma linha diagonal entre elas. “Uma perna fica sempre atrás para a mobilidade de seu ataque ou defesa. Movimente-se sempre seguindo essa pose, ela vai garantir seu equilíbrio e mobilidade, além de ser bom para a esquiva.” Ensinou ele, movimentando-se e mostrando a ela o que fazer. “Não esqueça do quadril. Será seu melhor amigo durante uma luta.”
“Robin, eu…”
Ele segurou seus pulsos, encarando-a de maneira séria. Ele estava mais próximo do que antes e ela segurou o ar, impressionada. “Se eu não posso matá-lo, ao menos vou ensinar a você como se defender.”
Ele a soltou, posicionando-se da mesma maneira que havia a orientado. Regina o copiou, posicionando-se do mesmo jeito. “Agora, mantenha sempre uma mão na defesa. Lembre-se, você é a sua própria retaguarda. Defenda-se. Essa mão fica posicionada aqui, na altura do maxilar, pois assim não atrapalha a visão.”
Regina imitou-o, dobrando a mão e posicionando-a ali. “Esse soco que vou ensinar à você é o gancho. A força vem daqui” Robin simulou o golpe, virando o corpo, empunhando a força com o ombro e cruzando até a ponta de seu punho. “Use o ombro como alavanca. Bata forte.”
“Eu não sei se sou capaz disso, Robin.”
Ele encarou-a por alguns segundos. Ignorando a objeção dela, ele continuou. “O próximo golpe é mais simples. Você vai esticar o braço assim” Robin esticou o pulso, um soco reto e direto. “É um golpe rápido e muito forte, pode machucar bastante. Precisa ter atenção.”
“O que quer provar com isso?” Perguntou ela, exasperada.
Ele parou, encarando-a. Depois de algum tempo, que para ela parecia uma eternidade, ele respondeu. “Força, de verdade, não é demonstrar sentir pouca ou nenhuma dor, mas mostrar como você lida com a dor que está sentindo. Então seja você mesma, Regina. Seja humana. Mostre que você também sangra e que também pode fazer sangrar. Eu quero que você se lembre que o mundo é capaz de te machucar sim, mas você também pode machucar o mundo.”
Regina respirou fundo, e voltou à posição ensinada por ele. Ela podia fazer isso. Ela podia defender-se. Ela jamais se sentiria impotente e indefesa novamente. Olhou em seus olhos azuis e respirou fundo antes de responder. “Me ensine a lutar.”
***
Do outro lado da cidade, Cora e Arthur acompanhavam a queda vertiginosa das ações da Apple’s Queen pela tela do notebook. Na página da bolsa de valores, dinheiro ecoava, números diminuindo em uma velocidade apavorante, contratos de provedores sendo cancelados. A cada segundo, a cada atualização, era um passo mais perto de uma fratura empresarial sem precedentes. O império estava morrendo.
“Isso é insano!” Comentou Arthur, parecendo pálido e assustado. “Ninguém em sã consciência faria algo assim, isso é dar um tiro de fuzil no próprio pé. É uma sabotagem, Cora. É impossível todos os provedores e investidores começarem a sair da jogada ao mesmo tempo.”
“Isso é o Efeito Regina.” Rebateu Cora.
“Ela não tem acesso ao código raiz. Acho que nem Zelena tem. Ele é administrado pela equipe de investidores em reuniões programadas.”
“Eu conheço a filha que tenho, Arthur. Eu já vi todos os trabalhos de Regina. Todas as transações comerciais. Todos os sistemas.” Ela olhou para a queda incessantes de números e balançou a cabeça, um sorriso nos lábios. “Eu sei quando uma manobra é dela.”
“Se ela está mesmo por trás disso, o que significa?”
“Que Deus tenha piedade de nós. Porque Regina certamente não terá.”
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