Efeito Dominó
35 Oneirataxia
Notas iniciais
Respirando fundo, ele entrou no escritório. As janelas de madeira pareciam mais escuras que o normal, o clima muito mais denso do que geralmente costumava ser, e o costumeiro era bastante denso. Annalise estava sentada em sua cadeira, as costas para ele. Fechou a porta atrás de si, ouvindo o murmúrio irritante dos estudantes dela no saguão. Bonnie não estava em lugar algum.
“Você me chamou, Annalise?”
Ela não se virou. Era só o que lhe faltava para acrescentar à aquela semana absurdamente desafiadora em sua vida. Tudo estava fora dos trilhos; dinheiro estava escorrendo para fora do seu patrimônio como um corte profundo em uma artéria. Sangue espesso e vivo escorrendo lenta e profundamente, anunciando uma morte lenta e penosa. Um desentendimento com Annalise não lhe traria nenhum bem. Ele torcia para ela estar apenas em seu costumeiro mal humor. Talvez seu pupilo tivesse lhe trazido outra bomba.
Mas assim que ela virou em sua cadeira, ele captou os olhos e entendeu que estava perdido. Algo estava muito, muito errado. Os olhos escuros pareciam duros e rígidos, o rosto marcado por uma expressão ilegível, ele poderia jurar ter visto raiva, mas tão breve e tão bem mascarada que era difícil ter certeza. “Sente-se.” O tom de voz dela não dava espaço para contestação; assim ele o fez. Assistiu quando ela pegou um copo que estava próximo a ela e bebeu um longo gole.
“O que houve?”
Ela continuou encarando-o por algum tempo, e ele começou a sentir-se ligeiramente desconfortável. Minutos depois, ela alcançou um envelope ao seu lado e estendeu a ele. Frank pegou o mesmo, esticando o braço revestido pelo terno caro em azul marinho. As abotoaduras de ouro brilhavam, assim como o relógio em seu pulso. Ela soltou o mesmo assim que as mãos dele alcançaram o pacote, e o movimento não lhe passou desapercebido.
Abriu o envelope lentamente, convencido de que este não portava boas novas. Puxou o conteúdo, e então, sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Seus olhos o alertaram imediatamente de que ele havia sido exposto. Fotos, escutas telefônicas transcritas, impressões contendo mensagens, mapas, exames médicos. Ergueu a cabeça imediatamente, o rosto pálido, os olhos esbugalhados. “Anne”
“Não me chame assim. Nunca mais.” Sibilou ela, a voz ganhando um tom sombrio.
“Eu posso explicar.”
“Pode explicar.” Repetiu ela, rindo. Mas seu riso veio carregado de malícia e rancor. “Você não ouse tentar explicar o que está bem óbvio. Você me traiu, Frank.”
“Eu não tive escolha, eu precisava...”
“Precisava o que? Ganhar seu dinheiro? Ganhar posição? Criar uma reputação ou uma base para casar-se com a filha rica de uma família renomada e se tornar esse cafetão de quinta categoria que você é hoje?” As palavras escorriam dos lábios dela como veneno. “Eu... Eu lhe dei tudo quando você não tinha nada, seu moleque. E foi assim que você me retribuiu. Você matou meu filho, você quase me matou. Por dinheiro.”
“Eles não me deixaram escolha.”
“Eles obrigaram você a acertar meu carro naquele dia?”
“Anne, eu”
“Eu já disse para não me chamar assim!” Gritou ela, e o silêncio se espalhou pela casa. Na certa, os estudantes perceberam que uma discussão ocorria portas adentro e permaneceram quietos, uma tentativa desesperada de infiltrar-se em algo novo. “Não existe mais Anne para você. Annalise Keating, é assim que deve me chamar.”
Desespero começou a crepitar em suas veias. Ele perdera a confiança dela. Sua mentora, sua guia, a fonte da maioria de seus contatos; o sistema nervoso de sua organização de seu próprio império havia sido construído sobre a base proporcionada pela Keating Associados. Ele estava prestes a perder tudo. “Tudo que eu fiz foi para proteger você. Eu juro, por tudo que há de mais sagrado. Tudo foi por você. Para compensar você. Eu sabia que havia sido um erro, eu tentei devolver o dinheiro, eu tentei...”
“Mas não teve coragem de olhar nos meus olhos e dizer a verdade.”
Ele suspirou, passando as mãos pelo cabelo de maneira nervosa. “Você nunca acreditaria. Você é Annalise Keating, porra. Você riria da minha cara e diria à Bonnie para me dar um tiro na cabeça quando eu estivesse distraído. São assim que as coisas acontecem por aqui.”
“Eu deveria pedir a ela para dar um tiro na sua cabeça agora.”
“Annalise, por favor. Me deixe explicar. Me deixe compensar isso. Eu faço qualquer coisa. Por favor.”
Ela encarou-o com desprezo. Começava a perguntar-se por quê, por quê confiara nesse homem? Por quê dera tudo a ele? Por quê o adotara como um pupilo e lhe ensinara tudo, e lhe dera fama, privilégios, poderes? Um desperdício de investimento. Um desperdício e um fracasso. “Eu deveria matar você, Delfino. Mas em respeito por tudo o que fez por mim, por seus anos servindo fielmente, eu vou deixar você ir embora vivo. Mas esqueça que eu existo. Eu não quero nunca mais ver seu rosto. Eu não quero ouvir falar seu nome. Vou agir como se eu jamais tivesse sequer lhe conhecido e recomendo que faça o mesmo. Você está por sua conta e risco agora. Se aparecer aqui de novo, o trato estará quebrado e nem a polícia vai ser capaz de identificar o seu corpo.”
“Annalise, por favor. Me deixa consertar isso, eu imploro.”
Ela riu. “Você não aprendeu nada, não é? Eu não gosto de pessoas que imploram, Frank. Nunca gostei. Perdem meu respeito. Tanto tempo ao meu lado, e você só aprendeu a mentir. Eu estou diante de um fracasso.”
“Eu não sei o que fazer sem o seu aconselhamento.”
“Você vai descobrir. Saia da minha casa agora, e não volte. Nunca mais.”
O coração dele batia aceleradamente. Desespero corria por suas veias, e ele estava prestes a ter um acesso de ira. Entretanto, ele sabia; sabia que se fizesse algo ali, ela teria todos os motivos a seu favor para fazê-lo desaparecer e ela era capaz de fazer isso. Já o fizera antes, poderia facilmente refazer. Levantou-se, sentindo desnorteado. Sua vista estava um pouco embaçada, e ele colocou o conteúdo do envelope sobre a mesa. “Quem foi? Quem te entregou isso?”
Annalise observou-o por algum tempo, decidindo se ele merecia essa informação. “Uma mulher chamada Victoria Grayson. Ela disse que fazia questão de que você soubesse que fora ela.”
Ele engoliu em seco. Victoria estava viva, e estava atrás de vingança.
“Você deve ter feito algo ruim para essa mulher.”
Mas ele não respondeu. Cambaleante, ele seguiu seu rumo para fora da casa. Estava perdido. Seu mundo estava virando como um barco lutando contra as ondas esmagadoras de um tsunami. Ele precisava de algo forte, e esperava, com sorte, que uma overdose o matasse logo de uma vez.
***
Regina encarou o endereço enviado ao seu celular por Mellie. Seria aquele o lugar? A fachada externa do prédio era muito simples. Tijolos estruturais formavam uma parede larga, esquadrias de ferro coloridas de branco, pouquíssima informação. Era quase uma fortaleza. Uma pequena escada dava acesso à única porta existente. Stuart entrou na frente, empurrando a mesma e ajudando-a.
Cruzaram um corredor bem simples, e Regina começou a se perguntar que brincadeira era essa. Não estava vestida para um lugar como aquele. Ao sair de casa, colocara roupas que condiziam com o programa – um brunch com uma senadora eleita, e não um trabalho voluntário em downtown. Estava com um vestido azul justo e peles de fuhr envoltas ao redor dos ombros, além de saltos altíssimos. Sentiu-se uma personagem exagerada de uma comédia romântica.
Foi quando Stuart parou. Regina não estava esperando, e tropeçou nele; segurou-se no homem para não perder o equilíbrio. “Stuart, que porcaria é essa?”
Ele virou-se para ela, os olhos sérios, o semblante bastante preocupado. “Regina, eu... Bem, nos próximos segundos ou você vai me demitir ou você vai ter que confiar em mim. Eu espero que confie. Eu espero que entenda porquê tive que fazer isso. Eu espero que me dê um voto de confiança.”
Regina bufou. Ele estava enrolando e dizendo nada com nada. “Saia da frente, Grant.”
Ele afastou-se lentamente, e então seus olhos registraram as letras garrafais em cor branca, estampadas elegantemente no vidro da porta. Seu corpo tencionou imediatamente enquanto ela virava-se para encarar seu segurança. “Você me trouxe a um grupo de apoio?”
“Regina...”
“Oh, eu deveria mesmo demitir você. Quem você pensa que é, menino?”
“Alguém que se importa e se preocupa com você.” Respondeu ele, olhando em seus olhos castanhos azuis de maneira séria. “Alguém que não quer mais ver seu rosto marcado por hematomas.”
Oh.
A resposta acertou-a tão intimamente que lágrimas ousaram preencher a borda de seus olhos. Porque ela não esperava algo tão sincero e direto, nem em um milhão de anos. Ele a enganara para leva-la até ali, sabendo de todos os riscos. “Eu não vou me sentir confortável. Elas devem ter problemas muito mais sérios do que eu, uma milionária que sofre confortavelmente pelo marido.”
“Elas estão aqui para se ajudar, Regina. Ninguém vai perguntar da sua conta bancária. Abusos existem em todas as camadas da sociedade.”
Seu coração acelerou. Ela estava com medo. Com vergonha também, mas ao mesmo tempo, uma parte de si sabia que ela precisava encarar isso. Ela precisava parar de fugir. Precisava, urgentemente, parar de fingir que estava tudo bem. Não estava. Nunca esteve, se ela fosse dolorosamente sincera. Ela ergueu a cabeça e encarou o jovem à sua frente. Os olhos azuis não a julgavam; havia preocupação neles, mas também uma porção generosa de carinho e respeito. Stuart Grant se preocupava com ela, não somente como seu segurança, mas como seu amigo.
“Você entra comigo?”
“Eu não sei se elas vão gostar e eu...”
“Stuart.” Suspirou ela, a voz saindo frágil e delicada como um sussurro. “Por favor. Eu não posso fazer isso sozinha. Me ajude.”
Ele observou-a por alguns segundos, e então colocou a mão sobre a dela, segurando-a. Calor emanou daquele contato, e ela precisou suprimir as lágrimas que vinham com força. “Vamos.” Sugeriu ele, empurrando a porta e dando o primeiro passo.
***
Sentados à esquerda do círculo, eles observavam outras mulheres contando suas histórias. Regina finalmente estava relaxando, apesar de que em nenhum momento ela soltara a mão dele. Seus olhos registravam avidamente a movimentação, a atenção vidrada em cada caso que era contado, e muitos casos eram contados. Duas psicólogas acompanhavam o grupo, orientando-as somente no que era necessário. Elas não haviam se importado com a presença dele – entendiam que Regina precisava daquilo, precisava de uma garantia, de uma segurança; aparentemente isso era comum nas primeiras vezes.
“Quando eu conheci meu ex-marido, ele era um príncipe. Um homem lindo, educado, super querido por todos que conhecíamos.” Começou uma das mulheres. Ela tinha cabelos loiros, não parecia ser muito velha, deveria ter em torno de vinte e seis anos, talvez? Regina alinhou suas costas, debruçando-se para ouvir melhor. “Eu sabia que ele contava algumas mentirinhas, mas bem, homens. Eles sempre contam alguma e eu achava tudo bem. Afinal, ele me tratava como uma princesa.” Ela deslizou as mãos pelo jeans batido antes de continuar. “Eu costumava morar com algumas amigas, pois morava longe, e era mais barato dividir as despesas, mas ele me convenceu de que eu merecia mais. Eu era uma rainha, eu merecia o melhor que ele poderia oferecer; então me convidou para morar com ele e eu fui.” Os olhos verdes vasculhavam lentamente a sala, olhando as outras mulheres aos poucos. “Não vou negar para vocês, foram meses da mais profunda felicidade. Até que um dia, vi uma mensagem dele dizendo aos amigos que havia transado comigo na balada e isso nunca tinha acontecido. Achei o comportamento estranho, e terminei. Ele passou a madrugada toda chamando desesperadamente no meu condomínio, e então me convenceu de que havia escrito aquilo quando estava bêbado, e que não fizera por mal. Eu estava apaixonada por ele. Não foi difícil acreditar e então voltamos.”
Ela respirou fundo, e uma das mulheres, uma loira mais velha que parecia muito com ela e que eles acreditavam ser a mãe dela acariciou suas costas, incentivando-a a continuar. “Mas aos poucos, ele foi me mostrando que minhas amigas eram todas vadias. Que ninguém da minha família se importava verdadeiramente comigo, então por que visitá-los? Comecei a acreditar nas atrocidades que ele falava sobre as pessoas que eu amava. Algum tempo depois, eu obviamente me senti sozinha. Eu só tinha ele.”
Regina engoliu em seco. Sentia-se tão familiarizada com aquela sensação. Apertou as mãos ao redor da mão de Stuart e ele apertou em resposta, confortando-a. “E quando ele percebeu que havia conseguido me isolar, foi quando ele mostrou sua verdadeira face.” Continuou a loira. “Se tivesse que dormir fora de casa, ele me ligava de madrugada e me obrigava a dizer o que estava passando na televisão. Fiscalizava minha mala, censurava roupas que ele achava provocativa demais. Se eu rebatesse, ou discutisse, ele me trancava e saía. Depois, voltava com rosas, presentes, chorava, jurava que nunca mais iria se repetir. Quando gritava comigo e eu tinha forças para fazer minhas malas para ir embora, ele se ajoelhava e jurava pela mãe que jamais aconteceria outra vez. Chegou ao ponto de ameaçar se matar, dizendo que preferia não viver do que viver sem mim. Talvez eu não devesse ter acreditado. Mas eu era apaixonada por ele, e estava sozinha. Era fácil cair nas armadilhas.” Ela respirou fundo novamente. “Até quando eu não estava disposta a fazer sexo, ele me dizia que era minha obrigação de esposa. Se eu não fizesse, ele teria que procurar na rua, e eu obviamente tinha muito medo de perder o homem da minha vida. Então eu cedia.”
“Ele decidiu depois de algum tempo que queria ter um filho, mesmo eu não querendo. Passou a me impedir de tomar anticoncepcionais. Eu os comprava escondido, de qualquer forma, mas ele passou a jogá-los fora. Eu não podia nem pensar em tomar perto dele. Como era de se esperar, acabei engravidando.” A mulher ao lado dela apertou sua coxa lentamente, gesticulando seu apoio. “Mas ele não queria mais. Disse que achava que demoraria mais, e que naquele momento, queria trocar de carro e não queria ter despesas com crianças. Sugeriu que fossemos a uma clínica clandestina, tentou de todas as formas me convencer de tomar um abortivo. Peguei minhas malas e voltei para a casa da minha mãe e ele ainda assim tentou reatar, mas pouco tempo depois, descobri que ele já estava com outra. E que eu era a vagabunda que havia lhe dado um golpe de barriga.” Ela sorriu. “Ele depois traiu essa garota também, e ela veio me pedir desculpas. Não tenho nada contra ela. Ele quem me devia o mínimo de respeito. Às vezes estamos tão enterradas em machismo e nos ciúmes causados pelo abusador que usamos toda a nossa energia odiando a pessoa errada. Ele adorava me causar ciúmes, mas eu mirava meus sentimentos nas mulheres e não nele. E isso estava errado. Ele jamais procurou saber nada sobre o filho, alegando que se eu quis o filho, eu que sou responsável por ele. Meu filho tem cinco anos agora.” Ela sorriu, encarando Regina por alguns segundos. “Hoje eu tenho um relacionamento saudável. Hoje eu sei o que é realmente ser tratada como uma princesa. Meu marido não me diz o que devo vestir, não me diz que não posso fazer isso ou aquilo. Ele não me afasta das pessoas, pelo contrário, ele foi uma das pessoas que mais me incentivaram a estar aqui hoje. Ele acredita que eu preciso compartilhar essa história com outras mulheres, para que elas saibam que não estão sozinhas. Que elas saibam que não são loucas, não são vagabundas, e que não tem culpa de terem se apaixonado pelo homem errado. Sempre há tempo para fazer a escolha certa.”
Regina estava respirando pesadamente quando as palmas preencheram a sala, e ela as acompanhou. “Obrigada, Pietra.” Concluiu a psicóloga, uma mulher de trinta e poucos anos; cabelos cacheados espalhavam-se por sua cabeça, um lenço verde amarrado em torno de seu pescoço lhe dava vivacidade. Ela vasculhou a sala, até que uma mão tímida estendida lhe chamou a atenção.
“Eu gostaria de compartilhar uma experiência também.” Disse a garota de cabelos pretos e camisa xadrez.
“Você pode, minha querida. Sinta-se à vontade.”
“Eu... Eu sempre tive dificuldade de aceitar o quão abusivo era meu relacionamento. Ele não me batia.” Começou ela, sem saber para onde olhar. Estava acanhada e Regina a entendia. Assumir aquilo era doloroso; ela estava sentada ali, e mesmo sem falar nada, sentia-se dolorosamente exposta. Seus sentimentos estavam borbulhando dentro dela. “Eu tinha essa ideia absurda de que, bem, se ele não me agride, não pode ser tão ruim assim. Era coisa da minha cabeça. Eu chorava muito. Chorava porque ele me ignorava o tempo, e as migalhas de atenção e carinho eram tão poucas e escassas que eu me tornei uma dependente delas. Chorava porque eu o amava, e queria estar com ele, e ele reclamava dizendo que eu era grudenta demais, eu era exigente demais, eu o sufocava. E eu acreditava. Ele me fazia acreditar que eu era difícil de ser amada, que eu era louca, e que ele era o único louco o suficiente para me aguentar.” Ela respirou fundo, limpando uma lágrima silenciosa. “Eu tinha ataques de pânico o tempo todo. Ele estava dormindo ao meu lado, e eu ficava hiperventilando, me perguntando por que eu não pegava um taxi e ia para casa, mas eu não sabia a resposta. Tudo que eu sabia era que depois dessas noites na tormenta, eu acordava com o outro lado dele, o carinhoso que me abraçava, e eu me convencia de que a culpa era minha. Ele não era assim. Ele era um cara legal e bacana, e eu o estava deixando irritado. Eu fazia perguntas demais, e ele ficava irritado, então a culpa era minha.”
“A culpa nunca será sua, meu amor.” Rebateu uma das mulheres, e ela a olhou com carinho, sorrindo.
“Mas era o que eu acreditava. Eu achava que eu tinha que mudar. Se eu parasse de acusa-lo, ele seria mais gentil. Eu precisava ignorar todos os vestígios e tudo ficaria bem. Era só fingir que não sabia sobre as outras mulheres, sobre as mensagens trocadas, os encontros marcados. Aprendi a não estragar mais as nossas noites tocando nesse assunto; assim, ele não me expulsaria da cama ao pedir satisfações, não gritaria comigo, eu não precisaria ser resgatada por minhas amigas, que eu tinha certeza que já estavam fartas de me socorrer. Mas bem, ele nunca tinha me batido, então tudo bem.” Ela engoliu em seco, a voz ligeiramente trêmula. “Terminamos tantas vezes e mesmo assim, eu voltava, porque eu era uma dependente. Eu estava viciada na atenção pobre e rala que ele me dava. Em como ele me fazia sentir bem e especial nas raríssimas ocasiões em que estava de bom humor. Eu tinha medo de contar a verdade para as pessoas. Eu tinha vergonha de assumir que uma mulher inteligente e forte como eu estava presa em um relacionamento tóxico, então eu o defendia. Justifiquei suas ações, e pior ainda, continuei alimentando expectativas de que as coisas iam mudar. De que as coisas iriam ficar melhores. Ele tirou dos meus olhos o conceito do que eram coisas normais. Eu só conseguia ver o mundo sob a ótica dele; passei a acreditar em tudo que ele disse sobre mim, deixei que ditasse minha realidade e me fizesse acreditar que sim, eu estava sozinha e eu não tinha forças para enfrentar nada sem ele. Eu me sentia muito errada, como se eu fosse incapaz de ser amada, como se eu não soubesse ter um relacionamento saudável. Eu era defeituosa e ele estava fazendo um favor de estar comigo.”
“Respire, querida.” Pediu a psicóloga, notando as lágrimas que lavavam o rosto da jovem.
“Ele... Era mais fácil me isolar do que ter que contar isso às pessoas. Eu tinha muita vergonha de assumir o quão fodida as coisas haviam se tornado; porque se as pessoas soubessem, elas me tirariam à força e eu acreditava que precisava daquela relação. Ele nunca me bateu, ele me ama. Era isso que eu me convencia. Eu criei um limite, dizendo a mim mesma que o dia que ele me batesse, tudo estaria acabado. Eu teria forças para seguir adiante. Mas no fundo eu sabia que eu não faria isso. Se ele me batesse, eu acreditaria que era porque ele me amava demais, tanto que não conseguia controlar seus impulsos de cometer uma loucura. Que era um sinal do quanto ele se importava comigo a ponto de perder o controle.” Ela respirou fundo. “As pessoas não entendem que uma relação tóxica não é só ruim, e que é isso que nos faz de refém. Perdê-lo foi a minha tábua de salvação, mas também foi um luto. Foi perder um companheiro, uma companhia, alguém que me conhecia, em quem eu confiava, com quem eu compartilhava momentos de calmaria e paz. Não é fácil desvincular essas coisas. Não é fácil convencer a si mesmo que as coisas eram sim bastante ruins. O nosso coração nos trai, nos faz questionar se era assim tão sério. Mas era. Eu não me arrependo, quer dizer, me arrependo de ter esperado até ser hospitalizada para cair em mim sobre o quanto essa relação era abusiva, mas não me arrependo de ter colocado um fim a ela. E eu sinto muito por todas as mulheres no mundo que ainda estão presas a relações assim, pois eu sei o que pensam. Sei que acham que estão sozinhas e que ninguém entende o que estão sentindo. Eu me sentia assim também. Por isso esse grupo é tão importante. Toda vez que eu volto aqui, e escuto novas histórias, isso me dá forças. Elas me salvam e salvam todas as mulheres aqui. Elas nos lembram de que merecemos mais, de que merecemos ser felizes. Ouvir os relatos de cada uma aqui nos ajuda a nos perdoar; nos ajuda a entender que novas fronteiras podem ser traçadas. O primeiro passo para se libertar é aceitar que somos vítimas de abusos. Eu jamais vou ser capaz de agradecer todas por terem me libertado disso.”
Ela sorriu, e diversas mulheres se levantaram, caminhando até ela e abraçando-a. Regina observava de longe, e Stuart percebeu quando ela levou uma das mãos aos olhos, limpando uma lágrima solitária no canto de seus olhos.
“Está tudo bem?” Sussurrou ele.
Ela virou-se para ele, encarando seus olhos azuis enquanto sorria timidamente. “Está tudo bem, Grant.”
***
Sentada na sala de reuniões, Zelena estava prestes a explodir. As linhas telefônicas da Apple’s Queen estavam congestionadas. As ações caíam vertiginosamente na bolsa de valores, como se estivessem despencando sobre um desfiladeiro. Ela ia perder a fortuna da família.
“Mais um grupo de investidores na costa oeste pulou fora.”
Ela não estava preparada para uma catástrofe dessas. Sequer sabia o que fazer. Não tinha a mínima ideia do que ia fazer agora. A única opção à sua frente era observar a morte cruel e sangrenta de um império, observando-o ser despedaçado aos poucos. Pousou a mão sobre seu abdômen, pensando em seu bebê. O que restaria a ele? Deveria ligar para Regina. Ela saberia o que fazer.
Estava prestes a sair da sala quando sua nova secretaria a abordou. “O que é Abigail?”
“Há uma senhora procurando por você. Ela disse que é um assunto de seu interesse.”
Zelena encarou-a como se fosse esmagar a traqueia dela. “Você pensou em dizer a ela que não temos tempo para isso? Que estamos no meio de uma porcaria de um terremoto empresarial e que estou tentando garantir que todo mundo ainda tenha um emprego amanhã, Abigail?”
“Ela disse que pode conter o sangramento.”
“O que ela quis dizer com isso?”
“Ela não explicou.”
Zelena afastou a mulher, caminhando até a recepção. Uma mulher loira de cabelos cacheados a esperava. “Zelena Mills, eu suponho.” Começou ela, o sotaque britânico lhe denunciando. Usava um vestido preto elegante, saltos altos Manolo Blahnik. A bolsa cara da Balenciaga também deveria ser parte do pacote ostentação, escolhido minuciosamente para enfatizar seu poderio econômico.
“E você é...”
“Margot Bishop. Temos negócios a tratar.”
“Eu não me lembro de ter marcado alguma reunião, Sra. Bishop. Como deve saber, estamos em uma situação complicada agora.”
“Eu sei disso, dearie. E é exatamente por isto que estou aqui. Você tem dois minutos para decidir se escuta o que eu tenho a dizer, sai por cima dessa crise com o mínimo dos danos ou se você vai afundar lealmente junto com este titanic moderno. Tic tac, darling.”
Zelena engoliu em seco. O que ela tinha a perder? Muito, uma voz interna lhe respondeu. A começar pelo dinheiro que valia a Apple’s Queen. A falência declarada. Todos os processos trabalhistas causados pelos funcionários demitidos. A abertura de auditorias que poderiam escancarar as manobras ilegais que ela executara por muitos anos. Se os clientes começassem a juntar os números, se começassem a analisar seus contratos, ela estaria muito fodida. Com sorte, responderia em liberdade. Com muita, muita sorte.
“Você tem minha atenção.”
Mas Margot não se moveu. Ela estendeu a mão, pedindo um segundo. “Falta a outra parte da reunião.”
“O que?”
As portas do elevador principal se abriram, e Zelena assistiu quando sua mãe saiu do elevador apressadamente. “O que faz aqui, mãe?”
“Você convocou uma reunião.”
“Eu não convoquei nada.”
“Eu precisava das duas aqui.” Rebateu Margot. “Agora, onde fica aquela sala de reunião? Eu tenho outros assuntos a tratar depois daqui, precisamos ser rápidas.”
Zelena arqueou as sobrancelhas e as guiou para a direita, entrando na sala de videoconferência. Uma mesa larga e branca ocupava o centro, e cadeiras brancas com estofados azuis completavam o jogo. As janelas abertas proporcionavam uma vista ensolarada da cidade, apesar do vento frio que balançava a copa das árvores lá fora.
“Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui?” Pediu Cora, irritada. “Quem é essa mulher?” Questionou, olhando Margot de cima a baixo com os lábios torcidos em reprovação.
“Eu ainda não sei.”
“Como eu disse, eu tenho pressa. Afinal, as finanças de vocês estão uma bagunça e terei pouco tempo para resolver. Eu estou aqui em nome de Regina. Ela tem uma proposta para vocês.”
Zelena engoliu em seco, encarando a britânica. “Você está dizendo que ela causou isso?”
“Eu não estou dizendo nada. Só estou passando as recomendações dadas por ela.” Margot abriu a bolsa, retirando dois contratos e estendendo a elas. Tirou duas canetas e cedeu a elas, observando curiosamente enquanto elas passavam os olhos pelo contrato. A assinatura de Regina estava lá, junto com os carimbos e os selos de reconhecimento de firma. Uma declaração imediata de transferência de títulos.
“Regina só pode estar louca. O excesso de academia deve ter causado um desnível em seus hormônios. Eu não vou ceder meus direitos a ela. Eu sou a dona dessa porcaria de empresa.” Sibilou Cora. “Volte para sua dona e diga que recuso.”
Margot sorriu. “Essa é sua opinião, Zelena?”
Zelena suspirou, debruçando-se sobre a mesa e assinando o papel. O gesto fez com que os olhos de Cora abrissem em incredulidade. “O que está fazendo, sua covarde? Não se abandona o barco assim! É exatamente o que Regina quer que você faça! Por que acha que ela orquestrou esse ataque à empresa? Por que acha que ela está jogando nosso nome na lama? Ela sabia que era você que estava na chefia e”
“Se ela quer a empresa que ela mesmo derrubou, que fique com ela. Eu nunca quis essa porcaria de verdade.” Respondeu ela, encarando a mãe com os olhos verdes inundados de raiva. “Se você se importasse tanto, teria feito alguma coisa antes.”
“Eu não vou assinar essa merda.”
“As opções são suas, Sra. Mills.” Margot pegou o contrato de Zelena e o guardou cuidadosamente. “O vídeo que estava em posse da sua filha está conosco. Não pretendemos vazá-lo. Entretanto, temos também todas as informações sobre o seu contrato com a Wonderland – sim, a empresa que alavancou o seu império através de lavagem de dinheiro. Você pode ter achado que apagou todas as evidências, mas veja bem, nós não somos amadores. Encontraremos quaisquer esqueletos que quisermos. E se você tiver outros, nós os encontraremos também. Recomendo que pense bem, pois assim que eu sair por aquela porta, o contrato está anulado.”
“Eu posso sair agora?” Questionou Zelena.
“Sim. Sua parte está vendida. O dinheiro cairá na sua conta assim que eu sair deste prédio.”
Zelena suspirou. “O que acontecerá com os funcionários? Eles estarão desempregados amanhã? Preciso mandá-los embora?”
“Não se preocupe. Assim que tivermos o controle novamente somos responsáveis por eles. Daremos todo o amparo que necessitarem, e se assim for o caso, novos empregos.”
“Novos empregos? O que isso quer dizer?”
“Isso já não lhe cabe mais respeito, com todo o respeito.”
Zelena suspirou. “Tanto faz.”
Em seguida, ela saiu da sala, deixando as mulheres restantes. Cora esperou até que a porta se fechasse atrás delas. “Por que Regina não veio até aqui fazer isso? Por que enviou você?”
“Regina tem outros assuntos para se preocupar; além do mais, eu me ofereci.”
“Por que?”
“Porque eu estava morrendo para ver a cara da temível Cora Mills perdendo tudo para a própria filha.” Riu ela, diabolicamente. “Eu tenho um prazer especial em ver mães controladoras levando rasteira das filhas que elas subestimaram. Nada pessoal, eu juro.” Margot olhou para o relógio em seu pulso. “Bem, eu tenho mais coisas a fazer. Boa sorte explicando seus esquemas antigos ao FBI, Sra. Mills.”
Cora observou-a se afastar em silêncio, mas chamou seu nome antes que Bishop tivesse a chance de alcançar a maçaneta. “Ok, eu me rendo. Eu vou assinar.”
“Muito bem, Sra. Mills. Eu sabia que seria inteligente.”
Cora debruçou-se sobre a mesa, assinando raivosamente o papel. Ao estender o papel, segurou-o até chamar a atenção da loira. “Eu não sei quem você é, mas eu não gosto de você. Nem um pouco.”
“Oh darling, isso não é nenhuma novidade para mim.”
***
Robin estava ao telefone, descansando de um treino quando caminhou até a alça lateral de vidro. “Poderíamos escapar no final de semana.” Flertou Megan do outro lado da linha, fazendo-o sorrir. “O que acha? Ainda tenho os vouchers daqueles chalés. Eles tem dois quartos, o que quer dizer...”
“O que quer dizer que você é insaciável, garota.” Brincou ele. De longe, podia observar Regina e Stuart conversando na beira da piscina sem se preocupar. Eles não conseguiriam vê-lo, de qualquer forma.
“Precisamos conversar sobre os apartamentos, Robin.”
“Eu sei.”
Mas ele não queria tocar naquele assunto, para ser honesto. O relacionamento deles ia muito bem, mas ele ainda não estava pronto para um passo como morar junto. “Você está fugindo do assunto.”
“Não estou, eu só acho... precipitado.”
Ele fechou os olhos ao ouvi-la suspirar. “Eu passo mais noites no seu apartamento do que no meu. Não mudaria muita coisa.”
“Mas mudaria alguma coisa, Meggie. Eu estou feliz com o modo que as coisas estão agora.”
“Tudo bem.” Aceitou ela, evitando que o desentendimento se estendesse. “A professora de Roland disse que ele tem ido muito melhor na escola. Pediu para agradecer a você pelos exercícios extras de tabuada.”
“Eu acho tabuada muito precoce para uma criança tão nova, mas se eles estão sugerindo... Bem, não custa tentar.”
“As crianças hoje em dia já nascem muito mais desenvolvidas. Números são absorvidos facilmente.”
Regina estava sorrindo e ele fez esforço para abaixar a cabeça, focando os olhos em seus tênis de corrida e ignorando a sensação quente que aquilo causou em seu peito. “Você está enchendo a bola dele.”
“Ele é uma criança meiga e maravilhosa. Me deixa.”
“Vou conversar com Frank sobre o final de semana. Tudo bem?”
“Insista, okay? Você é o melhor segurança dele, ele tem que ser legal.”
Robin riu. “Ele pode ser muitas coisas, mas legal?”
“Robin, faz um esforcinho. Por mim.”
“Por você.” Ele suspirou. “Vou voltar a correr agora.”
“Corra como se fosse chegar em casa mais cedo, bonitão.” Brincou ela e ele sorriu, desligando a chamada. Mas ele não se moveu. Ele deveria, porém, continuou observando Regina e Stuart conversando. O que será que conversavam por tanto tempo? Eles haviam saído cedo e passaram grande parte do dia fora de contato. Por que ele não conseguia ser indiferente a ela, mesmo depois de tanto tempo?
Ela vinha treinando todas as noites. Às vezes ouvia o som oco de seus socos no saco de pancadas que pendurara dentro do vestiário feminino para ela; não podia sentir-se mais orgulhoso dela. Uma mulher com ela deveria ser ensinada a se defender.
Afastou-se das vidraças e voltou-se para a esteira. Colocou a velocidade mediana. Passos firmes e largos enquanto estreitava seus ombros; esticou a musculatura, e tentou organizar seus pensamentos enquanto aumentava a velocidade até o máximo de sua capacidade. Puxou a camiseta para fora de seu dorso, deixando que caísse no chão. O som de seus tênis tocando a superfície da esteira era o único som externo; os outros eram ruídos em sua mente. Sons de bombas estourando à distância; aviões voando baixo, atirando para todos os lados. Balançou a cabeça. Apenas corra, Robin. Corra.
As bombas ainda estouravam em sua mente. Podia ouvir a voz de Johnnie. “Robin, mate, tem alguma coisa errada. Não estou vendo o resto da equipe daqui. Ninguém.” Continuou correndo, respirando ofegante enquanto forçava seu corpo. Suor começava a nascer, deslizando aos poucos por seu pescoço. Ouvia os gemidos dos corpos moribundos no campo de batalha. “Pobres malditos.” Resmungava seu amigo.
Balançou a cabeça, tentando se desvencilhar daqueles pensamentos. Continuou correndo. As pernas forçadas ao máximo de sua capacidade, o toque de seus pés firme e rápido, a velocidade alta e constante. “Robin, o que você fez? Você não pode simplesmente matar todo mundo.” Ele engoliu em seco com a lembrança da voz de Marian; mas não parou. Os números no contador subiam a cada passada, a cada força extra que ele fazia, correndo incansavelmente como se sua vida dependesse disso.
Não ia parar, não queria parar. Precisava tirar essas coisas do seu sistema e fosse correndo, que seja. Precisava lutar contra esses fantasmas. Continuou correndo, sentindo seus pulmões expandindo desesperadamente em busca de ar. “Robin, nós passamos dos limites. Isso não deveria ter acontecido.” Sua respiração ficou trêmula quando ele se lembrou do tom de voz de Cruella ao dizer aquelas palavras, a situação horrivelmente trágica em que se encontravam. Tanto arrependimento, tanta dor.... Grunhiu, diminuindo a velocidade em apenas um número e continuou correndo, tentando expurgar de si aquelas malditas lembranças.
“Robin!” Gritou alguém, mas ele estava tão envolto em seus delírios que ele mal conseguia ouvir. Imagens passavam por seus olhos, corpos inanimados, gritos de dor, lágrimas, vozes que imploravam por misericórdia. Então ela surgiu em sua mente. Sorrindo; oferecendo a maciez e a doçura dos lábios carnudos e avermelhados, abrindo a janela para os dentes perfeitamente alinhados e brancos como neve; os olhos cor de chocolate sorrindo em harmonia, anestesiados pelos orgasmos proporcionados por ele, brilhando como faróis líquidos e cintilantes. Robin. A voz dela dizendo seu nome era como uma súplica doce em meio a um deserto de sofrimento. Ele adorava aquele som.
“Lockhood, porra!” Gritou uma voz masculina, despertando-o de seu transe e ele bateu no botão emergencial, parando a esteira. Seus olhos finalmente focaram em Stuart que o encarava com as sobrancelhas franzidas. “Cara em que mundo você estava?”
“O que você quer?”
“O chefe está procurando por você. Quer saber dos seus planos para o final de semana. Parece que faremos um bate e volta em Seattle. Não demore, ele está espumando pela boca hoje. Não sei o que aconteceu.”
“Avise que estou a caminho. Cinco minutos. ” Rebateu ele, suspirando. Teria que cancelar os planos com Megan e sabia que ela não ficaria nem um pouco satisfeita com isso.
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