Efeito Borboleta

32 Uma Bela Distração


"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."


(Maria Julia Paes de Silva)

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HALLOWEEN de 2021


Havia chegado, enfim, o Halloween e Raccoon City já estava toda cheia de decorações com abóboras, crianças e adultos desfilando pelas ruas com suas fantasias mais populares e inusitadas. Porém, esse ano a festa teve que terminar mais cedo, afinal, havia um assassino a solta. Como uma medida de segurança, agora a cidade tinha toque de recolher, portanto ninguém poderia ficar vagando pelas ruas durante a noite. Mesmo assim, Leon não conseguiu impedir que Sheva Alomar e Chris trouxessem um pouco da festa para dentro da sua casa. Claro que a festa em questão era algo mais simbólico, com os seus parceiros de equipe trazendo algumas fantasias e máscaras que não envolvesse serial killer.


Ada, ao contrário de Leon, estava se divertindo com a ideia, decidindo se fantasiar de bruxa com um vestido vermelho de veludo e um chapéu da mesma cor, Alomar também entrou na onda e resolveu usar uma fantasia de vampira com presas falsas. Depois ambas as mulheres decidiram maquiar Chris o transformando num zumbi.

— Isso ficou muito legal. — Chris diz se olhando no espelho e depois incorporando o personagem grunhindo e tentando morder o pescoço de Sheva e fazendo Ada soltar uma gargalhada muito engraçada.

Apesar de Leon estar um pouco frustrado com a invasão de seus amigos, teve que admitir que ver Ada se divertindo era bom e uma ótima distração dos problemas.

— Pensei que você ia passar o dia com a sua filha. — Assim que Leon cita a sua filha na conversa, o semblante de Chris muda.

— Eu passei a tarde com ela e... com a Jill. E foi divertido. Até que a coisa azedou entre mim e Jill. — Reclamou parecendo bastante frustrado.

— Ah Chris, não fica chateado! — Sheva se aproxima dele e dá um tapinha camarada em seu ombro para tentar animá-lo. — Vamos nos divertir também. Que tal a gente pegar umas cervejas e uma pizza?

— Acrescenta aí mais doces. — Ada diz entusiasmada como se fosse uma criança. Por alguns minutos, Redfield e Alomar saem deixando Kennedy e a professora sozinha.

— Droga! Isso não é uma boa ideia. E eles não deveriam beber. — Resmunga Leon mal-humorado.

— Já passou do expediente. Deixa eles curtirem a noite hoje. — Ada muda a sua atenção para Leon que faz uma cara nada animada. — Agora é a sua vez!

— Ah, não! Me deixe fora disso! — Leon não curtia essas festas. No Halloween a única coisa que ele ainda fazia era decorar abóboras como fazia com a mãe.

— Ah qual é? Coloca só uma máscara e vem se divertir um pouco. — Ela faz uma carinha travessa, com aqueles olhos amendoados e aqueles lábios pintados de vermelho carmesim. — Tem algumas opções bem interessantes aqui: Palhaço, Alienígena, Pirata, Fantasma. E tem alguma coisa de herói aqui também... — A Professora diz espalhando as máscaras e outras indumentárias pelo chão da sala. — Que tal Homem-Aranha, ou Batman? Eu acho que o Batman é mais a tua cara. — Ada pega a máscara e vem na direção dele que está parado encostado na parede. — Eu posso? — Indaga parando bem na frente de Leon que hesita, mas acaba cedendo.

Ada que agora estava fantasiada de bruxa, fica na ponta dos pés para conseguir alcançar a sua face e colocar a máscara em seu rosto.

— Não é que você fica bem de morcegão. Um Batman de lindos olhos azuis. — As mãos femininas continuam lhe tocando de uma forma muito íntima e, ao mesmo tempo, suave. Seus azuis não conseguem fugir daquelas íris de cor âmbar, parecem hipnotizados por ela. Por instinto, Leon arqueia o seu corpo mais para perto dela, fazendo os seus lábios se roçarem, fugazmente.

— Olha quem eu encontrei por aqui! — Entretanto, a voz grossa de Chris, faz quebrar aquele momento entre os dois que se afastam, abruptamente. Em seguida, Leon olha na direção de seu parceiro e, inesperadamente, se depara com a presença de Claire.

— Uau, parece que interrompemos alguma coisa! — A voz da ruiva é cheia de insinuações. Leon pisca, nervosamente, se sentindo chateado ao confrontar o olhar fuzilante da jornalista.

— Claire. — Sua voz falha um pouco e ele engole em seco se sentindo, completamente, desconfortável.

***/ /***


— Afinal, o que você veio fazer por aqui? — Sheva surge para quebrar aquele clima chato e mudar um pouco o foco enquanto eles estão na cozinha comendo pizza e bebendo.

— Eu vim fazer uma visita para o nosso avô. Ele mora aqui perto. E me disse que nos últimos dias, viu um movimento estranho na casa dos Kennedy. — Ela para e dá um olhar indiscreto para Leon que está sentado na sua frente e ao lado de Ada. — Então, é aqui que vocês estavam se escondendo? — Claire pega mais uma lata de cerveja sem se importar se estava ficando meio alterada.

— É só... temporariamente. Esperamos que, logo, pegaremos o assassino. — Leon diz sem nenhum ânimo.

— Então, todos retornarão a suas vidas normais e você poderá parar de bancar o guarda-costas. E enfim se livrar dela. — Ela diz arrogante provocando um olhar de raiva de Ada. Para tornar toda aquela situação ainda mais estranha, ambas estavam usando fantasia de Bruxa. Até a cor de seus vestidos eram de tom vermelho, só mudava o modelo. De Claire era um vestido de tecido leve que ia até os joelhos e tinha um decote mais discreto, já de Ada era um vestido de veludo curto, decotado e ela estava usando um par de meias finas pretas.

— Ei, vai com calma! — Leon tenta impedir Ada de encher mais uma taça de vinho.

— Para de querer bancar o meu pai! — Ela diz entredentes, enchendo a taça e depois tomando o vinho num gole só. No geral, todo mundo já estava parecendo meio bêbado, com exceção de Leon que sempre se mantinha sóbrio.

— Tive uma ideia. — Chris salta da cadeira parecendo muito entusiasmado. — Que tal brincar de karaokê.

— Karaokê? É sério, Chris? — Sheva franze o nariz meio descrente.

— Por acaso você tem medo de Karaokê, vampirinha?

— Eu não tenho medo de nada, Redfield!

— Então, eu te desafio numa competição de Karaokê.

— Isso. Vamos ver quem é mais desafinado. — Claire grita sarcástica enquanto Ada apenas ri.

Eles acabam indo parar na sala, com o microfone se revezando entre duplas. A primeira dupla a se arriscar foi Chris e Sheva que acabaram cantando Uptown Funk de Bruno Mars. Depois foi a vez de Claire e Ada que até pareciam amigas bêbadas, cantando ao som de Lady Gaga e seu Poker Face.

Houve mais alguns passos desajeitados de dança e mais algumas desafinações terríveis. Pelo menos o clima era de total descontração. Até que o microfone foi parar nas mãos de Leon.

— Eu não vou cantar! — Leon estava de cara amarrada por debaixo daquela máscara do Batman.

— Canta, canta, canta, canta! — Os outros gritavam em uníssono o incitando. Claire e Ada, praticamente, o empurraram para a frente da TV enquanto a próxima música já começava:

"Fique comigo

Me proteja, me abrace carinhosamente

Se deite ao meu lado, sim

E me envolva em seus braços

E seu coração encostado em meu peito

Seus lábios pressionados no meu pescoço

Estou me apaixonando pelos seus olhos, mas eles ainda não me conhecem

E com um pressentimento de que esquecerei, agora estou apaixonado"


Quando ele começa a cantar, quatro pares de olhos se tornam chocados e muito silenciosos. De repente, Leon havia roubado toda a cena para si numa performance que ninguém esperava.


"Fique comigo

E eu serei seu guardião, você será minha dama

Eu fui feito para manter seu corpo aquecido

Mas eu sou tão gelado quanto o vento que sopra

Então me envolva em seus braços"


Seus azuis ficam presos nos castanhos de Ada enquanto sua voz, surpreendentemente, melodiosa e afinada continua a cantar Kiss Me. Era como se a letra da música combinasse tão perfeitamente com os seus próprios sentimentos por ela.


"Beije-me como se quisesse ser amada

Quisesse ser amada, quisesse ser amada

É como se eu estivesse me apaixonando

Me apaixonando, nós estamos nos apaixonando"


A música termina e a sua pequena plateia o aplaude e assobiam, animadamente, mas no momento ele só tem olhos para Ada que lhe retribui com um sorriso bonito.

***/ /***


Mais tarde quando a bagunça cessou e o pessoal resolveu ir dormir espalhados por ali mesmo, Leon resolveu dar uma última checada em Ada, a encontrando na sacada do quarto dela.

— Ela tá tão linda! — Ela está olhando fascinada para enorme lua cheia que enfeitava o céu. Aliás, a lua cheia era a única coisa que iluminava a escuridão lá fora.

— É. Tá linda mesmo. — Ele diz se virando para olhar para Ada e apreciando como ela ficou uma graça de bruxinha.

— Uma vez durante uma aula, sua mãe nos fez escrever sobre para onde gostaríamos de ir se pudéssemos viajar no tempo. — Ela parecia tão presa em seus devaneios. — Naquela época, eu tive uma pequena memória... Era de uma casa grande e aconchegante, onde eu deveria ter morado com meus pais biológicos.

— Então, se você pudesse viajar no tempo, você iria visitar seus pais biológicos? — Ele se apoia no parapeito e fica contemplando cada palavra dela.

— Sim. Mas, sabe o que é mais curioso... — A mulher já estava bastante grogue, ainda assim continuava tagarelando. — É que aqui... essa casa me traz uma sensação de familiaridade e aconchego... que nunca... nunca consegui sentir em nenhum outro lugar. Acho que é por isso que gostei daqui.

Nesses dias que tem passado aqui nesta casa, ela pode admitir que tem gostado desse lugar e também estava gostando de conviver com o detetive. Porém, isso também a confundia, porque essa relação entre eles poderia se tornar um pouco complicada.

— Sério? — Leon também ficou refletindo sobre isso, chegando a conclusão que se pudesse viajar no tempo, era para esta casa que ele gostaria de voltar para rever a mãe.

— Por isso vou adicionar essa casa a minha lista. — Ela ri de novo e meio que cambaleia para frente, porém os braços de Leon já estavam ali para segura-la e impedi-la de se machucar. — Então, quando eu viajar no tempo... — Ada para ao perceber o quão perto eles estão. — Eu vou voltar para te ver. — Seus castanhos se fixam nos azuis dele enquanto suas mãos brincam com o botão aberto da camisa dele, fazendo-o sentir um certo arrepio quando os dedos frios dela tocam sua pele.

— E eu vou te esperar até você retornar. — Ele dá um passo mais perto dela, até que seus rostos se aproximam e seus lábios se encontram num beijo que começa tão suave, porém aos poucos vai se aprofundando, se tornando um beijo mais ousado, molhado e viciante. Suas línguas vão degustando o gosto um do outro, com sabor de vinho e menta.

"Sim, eu tenho sentindo de tudo


Do ódio ao amor, do amor à luxúria, da luxúria à verdade


E acho que foi assim que eu te conheci


Então eu te abraço apertado para te ajudar a se entregar"


Quando o beijo termina, ela ainda lhe dá um último sorriso, antes de desmaiar de vez nos braços do detetive. Depois de pegá-la em seus braços derrubando o chapéu de bruxa no chão, ele cuidadosamente leva-a de volta para dentro do quarto. Lá fora estava ficando muito frio, então, Leon a deita na cama, retira seus sapatos e puxa um edredom sobre seu corpo tentando aquecê-la.

— Boa noite, bruxinha! — Amanhã quando Ada estiver sóbria, ele decide que vai provocá-la sobre esse momento.

— Leon... — No entanto, ela de repente o chama. — Fica comigo! — Aqueles pequenos olhos estavam abertos lhe encarando aflitos. — Não quero ficar sozinha.

— Ada, eu... não posso. — Ele engole em seco, no fundo não queria rejeitá-la, porém...

— Por causa da... Claire? — Eles se encaram, por um instante, em silêncio.

Kennedy pensa em Claire que está dormindo em seu quarto com a Sheva enquanto Chris dormia na sala. Ada e Leon não estavam sozinhos naquela casa, portanto, seria complicado os dois ficarem juntos. Isso só iria complicar as coisas e seria antiético da parte dele. Afinal, a Professora de Física era a vítima e testemunha que ele precisava proteger.

— Eu vou deixar a luz acessa. Qualquer coisa é só você... — Leon para ao ver Ada se deitar de costas para ele e depois puxar o edredom sobre a cabeça.

Ele abre a porta para sair, todavia, não consegue. Leon não consegue sair daquele quarto, ou se afastar daquela mulher. Em seguida, Ada sente o colchão afundar ao seu lado e um braço e uma mão agarrarem a sua cintura.

— Shhhh... Esse vai ser o nosso segredo. — Leon murmura puxando o corpo dela para mais perto, assim encostando seu peito nas costas de Ada.

Aos poucos Ada relaxa ao sentir o corpo dele lhe aquecendo do frio e lhe fazendo se sentir segura e confortável. Alguns minutos depois, ela adormece no calor dos braços de Leon e, dessa vez, não tem pesadelo.