Eddie e Seus Peugeots: Roads of Paradise

11 Maués Rumble Rally - Tamo Aí na Atividade


Escritório do Eddie, Residência Família Peugeot, Rua Agrepino Aleluia, Santa Luzia, 10 de outubro de 2016, 12:00

Eddie está sentado em sua cadeira, vestindo-se apenas com a calça preta jeans, e está utilizando o seu notebook modelo MacBook Pro. De repente, o seu irmão Freddy, vestindo uma camisa branca com jaqueta marrom, calça jeans e tênis azuis, aparece em seu escritório.

— Mano?

— Diga, Freddy.

— Er... – Freddy coça a cabeça – eu vou almoçar com a Joanna lá no Kayo’s Lanches na praça.

— Tá bom – responde Eddie – mas você vai de táxi ou ela vem pra cá para te buscar? Porque o Opala está em análise com os gêmeos.

— Ela vem me buscar, mano, não se preocupe.

— Ok.

— Ok como, mano? Parece que você não parece tão legal...

— Eu estou bem, Freddy, não houve nada do que aconteceu comigo.

— Ah, tá... Tchau, mano – se despede.

— Tchau – complementa.

Freddy deixa a mansão e se depara com a presença do Ford Escort XR3 preto da Joanna, vestindo uma calça short jeans, camiseta marrom, meia-calça preta, sapatos pretos e com batom vermelho, no qual a dona do carro abre a porta de passageiro e o Freddy entra. Logo depois, os dois deixam o local rumo ao Kayo’s Lanches na praça no Centro.

De volta para o escritório, Eddie recebe uma ligação do seu celular e nota o nome do corresponte.

— Alô?

— (Eddie Peugeot.)

— Detetive Renan – disse, ao reconhecer a voz – O que você quer agora?

— (Sua amiga foi sabotada na corrida de sábado, era só isso que eu queria informar.)

— Meu irmão, Freddy, me contou, Renan, falaram que houve um falso fiscal que furou o cárter de óleo do motor, vazou total, pifou totalmente o carro da Jeyci.

— (O seu irmão nos deu as informações em nome dela. Mas até agora, nem eu, nem a Kerol, conseguimos encontrá-lo.)

— Cara... – Eddie observa em seu notebook o perfil de Elina Battaglia pelo Facebook, observa as fotos e também o carro que ela guia, um Chevrolet Corsa Wind 1995 de cor verde-azul, além de fotos com outro carro só que com o fundo da cidade de Manaus, e ainda fica impressionado com uma publicação de que ela desabafa de uma situação dramática.

— (O que foi, Eddie?) – pergunta Renan, na linha.

Eddie sequer responde a pergunta do detetive, ainda impressionado com a postagem da sua concorrente da segunda fase.

— Nada não – disse Eddie, disfarçando a tamanha surpresa ao ler a postagem.

— (Tem alguma coisa que você queira falar?)

— Não, detetive... – tenta aliviar, porém, decide revelar – Tá bom... Elina Battaglia.

— (Quem?) – pergunta Renan, sem entender o porquê do nome que o Eddie citou.

— Elina Battaglia, detetive – revela – ela é a minha próxima oponente na segunda fase.

— (O que você quer sobre ela?)

— Nada... porque eu irei ter uma janta com ela hoje à noite.

— (Você à convidou?)

— Não... ela me convidou via Whatsapp, sem ter perguntado como ela conseguiu o meu número para esse papo. Eu não sei o porquê por ela ter me convidado para isso. Posso encerrar a ligação?

— (Pode, eu só vim apenas te ligar para informar de que sua amiga foi sabotada.) – conclui – (Tchau.) – desliga.

— Tchau – desliga o celular.

Após a ligação, Eddie resolve capturar a postagem da Elina pelo Facebook e salvar em seu computador e também pelo seu celular.

— Ela precisa me explicar o porquê dessa mensagem.

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Kayo’s Lanches, Largo Marechal Deodoro, Centro

Enquanto isso, Freddy e Joanna estão almoçando na lanchonete, no qual o loiro está comendo bife e saladas com arroz, enquanto a moça de cabelos vermelhos está almoçando frango, saladas e feijão com arroz.

— Frederico – disse a moça.

— Sim, Joanna?

— Como está o ‘Eddinho’?

— Ele está bem, mana – justifica – ele estava meio estranho... tipo... parecia nem tão legal antes da gente vir pra cá.

— Frederico, ele deve estar concentrado para a segunda fase neste fim de semana. É normal para quem se classificou para a segunda fase. É muita concentração... se fosse eu, estaria concentrada para brigar pela próxima fase.

— A Elina Battaglia...

— Elina foi uma amiga minha desde o tempo daqui do Colegial Primário Centro de Maués, passando também no Colegial Secundário no segundo grau, cê deve se lembrar, mano. Foi ‘minha diaba’ desde então assim como outra amiga minha.

— Por que ela entrou nesse universo de corridas de rua, cê sabe, mana?

— Ao mesmo tempo em que ganhei meu primeiro carro, ela entrou no universo de corridas de rua lá em Manaus. Eu com o meu Escort – aponta ao próprio carro – ela ganhou um Uno para entrar nas rachas. A Elina ganhou boas corridas, bons trocados, porém, foi presa quando foi perseguida pela polícia durante uma das rachas em que ela corria por lá.

— E então, mana?

— Antes dessa fatídica corrida, ela tinha um relacionamento com um dos corredores de lá...

— De qual bairro ela viveu até essa fatídica corrida?

— Ela morava em Jorge Teixeira... berço de melhores corredores de rua de Manaus... Eu fiz parte desse berço, mas com uma boa grana de dinheiro que ganhei nessas corridas, eu decidi voltar para Maués e levei o meu Escort junto.

— E a Elina, sabe o que aconteceu com ela?

— Elina foi presa, como eu falei, em numa dessas corridas que ela disputou, mas a polícia interviu, e foi presa por quebra de conduta de trânsito. O carro dela foi confiscada e entregue para o Detran. Ficou presa por quinze meses até ser liberada em agosto deste ano, mas passou por um perrengue materno.

— Como assim ‘perrengue materno’, Joanna?

— Ela ficou prenha, pariu ainda na cadeia, e perdeu o bebê para a adoção por não ter o conhecimento do pai e nem da família na cidade – revela.

— Mana... o mano deveria saber dessa história dela!

— Ela me pediu o número dele, e mandei, para que eles pudessem conversar hoje à noite, aqui no Kayo’s. Ele vai entender mais ainda porque ela vai contar bem detalhadamente. Apesar de que eles irão se cruzar no torneio, pra mim, esse papo vai refletir muito no torneio para ele.

— O mano acordou do coma em setembro e ela estava correndo...

— Eu visitei o ‘Eddinho’ nesse tempo quando ele estava em coma... – aproxima-se do Freddy – e ele dorme como um neném.

— Já ouvi esse papo com a Lindinez há muito tempo, mana – pega um copo com suco de laranja e bebe em seguida – a gente nasce, a gente mama, a gente cresce, a gente envelhece e depois a gente morre...

— E você, Frederico? O que tu pensa em ti depois de viver como uma galinha namorando duas garotas?

— Quem são, mana?

— Tchoco, mano, tu não se lembra? Rafaela e Karolyina, mano! Só sei que você ficou com essa última porque ela havia terminado o namoro com o ‘Eddinho’ até quando eu apareci de novo na sua vida.

— Karolyina é fogo, mana – disse o loiro – se fora de casa é uma donzela plus-size de Itaquera, imagina ela na cama... meu irmão já conviveu com ela e sabe como ela é.

— A única coisa que eu sei sobre ela é porque torce pelo mesmo time que nós, mano... – Freddy sorri, ao referir sobre o seu time de coração, Corinthians.

— É nós, mana.

— E o seu Opala, mano? – pergunta Joanna – ainda está em revisão para evitar falhas durante a corrida?

— Está – confirma – e olha que semana passada instalamos novas peças para o motor para melhorar o desempenho e a durabilidade do carro. Lembre-se que o prêmio desse torneio é um Camaro antigão bem personalizado.

— Os seus amigos gêmeos Yuri e Chelinka, como eles estão?

— Estão bem, com otimismo na mente sobre a situação do Eddie no torneio. Ah, e eles são bons em personalização, por isso que o meu Opala tem alguns detalhes personalizados como a roda e o interior.

— Meu Escort também foi personalizado por eles, melhor ainda que fizeram um bonito acabamento no interior, como aqueles bancos de couro que você gostou.

— E a Lindinez, mana? Como ela está?

— Chiuf – suspira – ela não pode nem vir para assistir e nem disputar a competição, mano. Tu sabe que o seu irmão está envolvido nessa segunda fase, se ela estiver no pátio, ela pode atrapalhar mentalmente o Eddie no duelo contra Elina e no decorrer do campeonato. Ela pediu a desistência e esse pedido foi aceito pelas organizadoras.

— Como assim?

— No dia em que o teu irmão foi testar o seu Opala no aeroporto, a Lindinez viu um caminhão-reboque passando próximo à nossa casa carregando o seu Opala para esse teste. Ela pegou o dinheiro da carteira da Jeyci, pegou um moto-táxi e foi seguir o caminhão até lá...

— Ao mesmo tempo em que nós estávamos na praia naquele dia.

— É isso mesmo, e aí que a Lindi ligou para mim naquela ocasião, desesperada e chorando. Depois que te deixei para sua casa e voltei para a minha, tivemos um papo com a mana com a Jeyci e ela disse que não tem coragem de disputar o torneio devido à possibilidade de que ela pudesse enfrentar o ‘Eddinho’ no decorrer da competição. Aí que o coração dela falou mais alto.

— Ah – suspira o loiro – esse passado passional dos dois... nunca vi o mano pensar tanto na Lindinez que passaram tantos anos que nunca se viram por todo esse tempo...

— Frederico.

— Diga, Joanna?

— Eu estive no quarto dela e conferi algumas cartas que ela recebia do Eddie nesses anos... ele é muito romântico quando ele descreve algumas palavras para a Lindi... você podia ter feito isso comigo nesse tempo!

— Eu? – duvida o loiro – escrevendo cartas para você? Isso eu nunca tinha pensado nisso naquela época... eu só via o mano escrevendo essas cartinhas de amor para a Lindinez ao mesmo tempo em que ele estudava no quarto... naquela época nem a gente se falava pela internet, bate-papo online, e-mail, MSN, Orkut, Facebook, Twitter, Whatsapp... era só cartinhas mesmo.

— Mas nem precisava escrever cartinhas para mim quando tu esteve morando com a gente, mano. Dividimos a cama no nosso quarto... – Freddy começa a ficar vermelho de timidez – tu dormindo ao meu lado...

— Tchoco, mana, mas eu já caí da tua cama quando eu me enrolava

— Tu caía, mas eu beijava o teu dodói e você parava de sentir a dor rapidinho do que uma Mertiolate... mas esse ardia pra caralho quando a mana Jeyci dava para sarar a ferida.

Os dois ri.

— Joanna...

— Diga, Frederico...

— Que tal... – Freddy arrasta o braço na mesa e encosta a mão com a mão da Joanna – a gente passear esta noite?

— Eu aceito, Frederico – concorda.

— Sabe quantos anos a gente não passeava juntos pelas ruas de Maués?

— Você sabe? Pra mim eu não sei, mano.

— Praticamente o mesmo período em que o mano ficou longe da Lindinez: vinte anos.

— Nossa, vinte anos... muita coisa se mudou nesse período... nós três na faculdade... vocês dois nas pistas... seu irmão virou uma verdadeira máquina como piloto.

— Vocês estudaram em que faculdades?

— Eu estudei artes. A Jeyci estudou jornalismo, e a Lindi estudou informática com programação e análise de sistemas. A mana Lindi esteve trabalhando em Campinas justamente nessa área em que ela estudou, enquanto a mana Jeyci estagiou numa emissora de TV em Manaus e ganhou um prêmio para a reportagem que ela fez sobre o guaraná de Maués e sua cultura e influências para a concorrência.

— Nossa, a Jeyci é pura poliglota jornalista...

— Tão poliglota que ela estudou a língua italiana, mano... porque a nossa avó era italiana.

— Nosso tataravô era francês, por isso o nosso sobrenome vem da França, mesmo que nós nascemos em Portugal, mas não falamos em francês.

— Lá é o berço da arte, mano... e eu sonho um dia expor a minha coletânea de arte e também algumas pinturas e desenhos sobre a sua família lá em Paris, especialmente no Museu do Louvre.

— Museu do Louvre... lá seria uma tremenda recepção dessa sua exposição.

— Quem diria que eu pudesse ser uma artista rica nesta Idade Contemporânea e neste século depois de Da Vinci, Michelangelo...

— Joanna...

— Frederico... — os dois começam a se olhar de um para o outro, e depois se levantam porque já haviam almoçado, deixando os pratos vazios, mas sujos na mesa.

— Quem paga o almoço? – pergunta a moça.

— Mas você não iria pagar porque você ganhou um cupom da Jeyci?

— Claro que não, leso, você que paga porque tu agendou este almoço pra nós!

— Ah, tá bom, mana – Freddy vai à bancada da caixa para pagar o almoço.

“Esse Frederico ainda está se amadurecendo depois de tantos anos que esteve longe de mim... mas eu ainda gosto dele, apesar de ele ser tímido...”— pensa Joanna.

No final, os dois retornam ao Escort preto da Joanna e deixam o local.

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Oficina Twingarage, Santa Luzia

Lá na oficina, Yuri e Chelinka estão analisando agora o Clio de Jeycianne, que acabou de ser rebocado. Enquanto o Yuri analisa todo o desgaste e danos que o motor sofreu graças ao superaquecimento, Chelinka resolve conferir o interior do carro.

— Ô Yuri – disse a loira – você precisa conferir este interior do carro! É tudo bonitinho, bem arrumadinho...

— Agora não, Chelinka – disse o rapaz, ainda conferindo o motor – estou muito ocupado com a análise de todo esse estrago desse superaquecimento que causou no motor.

— Ok, Yuri – responde a loira – pelo menos este interior lembra bem de outros nossos serviços de decoração no interior do carro como os bancos, painéis...

Chelinka acidentalmente abre o porta-luvas do carro e ela confere alguns itens e documentos pessoais guardados, porém, o que surpreende a loira é o principal documento do carro: a carteira de habilitação.

— Yuri... venha aqui, rápido!

O rapaz, que ainda estava analisando o motor, decide ouvir o pedido da irmã e também confere o documento que está sendo segurado pela Chelinka.

— O que é isso?

— É a carteira de habilitação do carro... mas olha este nome que está escrito no documento!

— Cara...

— Eu não sei se este carro é emprestado ou roubado...

— Devemos avisar ao Eddie sobre esse caso!

O mecânico tira do seu bolso o seu celular e em seguida, liga para o Eddie.

— Alô, Eddie? Sou eu, Yuri. Você pode vir por aqui na oficina? Primeiramente, o Opala já está OK, tudo certo, mas venha aqui que nós temos que mostrar uma coisa para você.

Minutos depois, Eddie chega à oficina de pé, trajando de camisa laranja, calça preta jeans e tênis preto da marca Mizuno. Raramente nunca veste a sua tradicional jaqueta preta quando sai de casa para passeios, encontros e etc.

Lá, encontra os gêmeos Yuri e Chelinka ao lado do Opala SS do Freddy, ainda observando os documentos e as fotos tiradas do porta-luvas do Clio de Jeycianne.

— O que estão vendo aí?

— Eddie – disse a loira – achei esses documentos logo quando eu abri o porta-luvas do carro, e este aqui é o documento de habilitação do carro, só que o nome não é da Jeycianne – Eddie observa o documento, mas tira imediatamente das mãos da loira para observar mais com atenção – Ei!

— “Nome do proprietário(a): Vanylsa Ramalho Cardoso”... – lê – “Renault Clio Authentique 2003”... “Manaus-AM”...

— Você conhece essa pessoa, Eddie? – pergunta o mecânico.

— Nunca ouvi falar dessa tal de “Vanylsa Ramalho Cardoso”... – responde Eddie – eu nem a conheço...

— Vai que deve ser uma conhecida da Jeycianne – disse a mecânica.

— Eu não conheço muito da vida pessoal da Jeyci, gêmeos. Fiquei muito tempo sem ter visto tanto a Lindinez quanto as irmãs Jeyci e Joanna.

— Coisas de família – disse o mecânico.

— É, coisas de família – concorda a mecânica.

— Não são coisas de família, gêmeos – discorda Eddie – é o tempo. Elas foram para Manaus para estudar, e eu viajei longe para o mundo em busca de sucesso quando herdei do meu pai a carreira de piloto.

— O que você pretende fazer com esse documento, Eddie? – pergunta a mecânica – entregar pessoalmente para ela?

— Para Jeyci ou para Vanylsa? Tanto faz, eu vou guardar secretamente para mim pra que elas não saibam.

— Tenho aqui uma foto que estava junto com o documento, Eddie – disse o mecânico, no qual ele entrega para o Eddie uma foto, que mostra a Jeycianne, sorridente e vestida de camiseta preta e calça short jeans azul, e a moça de cabelos encaracolados ao seu lado, também sorridente e vestindo com a camisa do Corinthians de cor predominante branca com listras verticais pretas e calça jeans azul.

— Elas se parecem mais como irmãs – analisa Eddie ao observar a foto e o comportamento das duas pessoas que aparecem na foto.

— Eddie, o que você pretende fazer quando você encontra Jeycianne em algum lugar e... – disse a mecânica, porém, é interrompida pelo Eddie.

— Ela vai estar neste fim de semana lá no pátio do Maués Rumble Rally para acompanhar a minha corrida, esqueceram?

— Ah, esqueci – lamenta Chelinka – mas o que você irá fazer quando você for encontra-la antes da corrida?

— Eu não sei... Mas eu vou manter isso em segredo.

— Cuidado, Eddie – alerta o mecânico.

— Obrigado, tchau, gêmeos.

— Tchau – se despede os gêmeos, simultaneamente.

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Kayo’s Lanches, Largo Marechal Deodoro, Centro, 19:30

Agora de noite, Eddie Peugeot, trajando de suas mesmas roupas como esteve horas antes – de jaqueta preta, camisa laranja, calça preta e tênis preto Mizuno – acaba de chegar à lanchonete no Centro exatamente na hora marcada, às 19:30 da noite, vindo de uma carona do seu irmão Freddy, que está dirigindo de forma emprestada o Ford Escort XR3 preto que pertence à Joanna.

— Mano, quando tu terminar de papear a Elina, me liga, ok?

— Mas você não estará dirigindo? Usar celular enquanto dirige pode resultar num acidente, além de infringir as leis de transito.

— Mano – disse o loiro – nós corredores de rachas não respeitamos as leis... eu sou um fora da lei feroz na velocidade! Não se preocupe!

— Mas este carro não é da Joanna? A multa vai para conta dela!

— Fique tranquilo, mano – o loiro pede calma, gesticulando – ela adora velocidade, ela me conhece muito bem, e tu sabe que nós temos o sangue de corrida.

— Tome cuidado – Eddie se aproxima do irmão – cuidado com esses playboys rachadores, você não imagina que aquele Gael me espancou depois de que ele perdeu a corrida por mim. Tem playboys que são talaricos, tem playboys que só querem atenção... cuidado com a Joanna e com este brinquedinho de diversão que tu estás guiando.

— Eu sei, “Eddinho” – disse uma voz feminina que está ao lado do Freddy, no banco do motorista, revelando-se ser a Joanna, vestida com jaqueta preta (semelhante a do Eddie, de couro), camiseta preta short, saia preta, meias-calças pretas e sapatos pretos, além de um batom preto, praticamente meio estilo gótico, apesar dos cabelos vermelhos tingidos – eu sei como me lidar disso, porque o Frederico é tão fofinho – acaricia o rosto do loiro, deixando-o envergonhado, já o irmão mais velho ri com a timidez do caçula.

Logo depois, o casal, ao bordo do Escort preto, deixa o local, enquanto Eddie acaba encontrando uma certa moça que à espera sentada em num dos lugares da lanchonete. Era a Elina Battaglia – loira, vestida de camisa roxa, calça jeans clara e sapatos marrons, além de um batom vermelho.

— Oi – disse Eddie.

— Oi – retribui Elina, enquanto o Eddie senta na cadeira em sua frente no outro lado da mesa.

— Como vai... nesses últimos dias?

— Foi pura concentração para a corrida no sábado e na próxima corrida para este fim de semana. Eu lamento muito o que aconteceu com a minha oponente.

— A Jeycianne é uma amiga minha, eu a conheço por muitos anos, inclusive as duas irmãs dela, no qual uma delas é muito especial para mim e a outra é mais próxima do meu irmão e ela é caidinha por ele. Pelo o que eu ouvi naquela causa foi sabotagem de um falso fiscal que furou a caixa de óleo do motor.

— Isso eu nunca tinha pensado nisso. Quando estava passando na frente da escola, eu a vi parada e pensei em falha técnica.

— Agora...

— Agora?

— O que você quer falar comigo?

— Ah... Eddie, eu tenho uma coisa que preciso te contar pessoalmente...

— Conta.

— Anos atrás, eu participava de um grupo de corredores no bairro de Jorge Teixeira em Manaus. Era um grupo muito popular tanto que era destaque nas redes sociais graças aos vídeos que o grupo postava com corridas, carros personalizados, era uma graça que gerava tanta repercussão. E eu...

— O que você fazia no grupo, também corria com eles?

— Sim. E o meu carro não era o Corsa como você já deve ter visto na corrida no sábado e semanas atrás quando a gente se viu pela última vez lá naquela corrida classificatória para o torneio. Era um Uno, que eu ganhei do pessoal do grupo para as pessoas que estavam entrando como eu. E eu participei de tantas corridas, venci algumas vezes e cheguei no pódio em outras oportunidades.

— Quando eu me acidentei e fiquei em coma por quinze meses, o carro em que eu dirigia naquela ocasião era um Uno, não sei se você sabe dessa notícia.

— Continuando, eu morava lá no Jorge Teixeira, de noite eu pegava o meu carro e ia para as ruas para disputar os rachas em busca de dinheiro, porque eu morava sozinha lá e...

— E? – Eddie fica intrigado.

— Deixe pra lá... – Elina suspira e esconde o seu descontentamento – você conhece a Joanna, não é?

— Sim, ela é irmã da Jeycianne e amiga do Freddy.

— Ela morou comigo no bairro Jorge Teixeira justamente quando ela entrou no grupo de corredores. Foi por pouco tempo quando ela disputou várias corridas e ganhou algumas vezes. Porém, ela preferiu abdicar a participação dela para que ela pudesse retornar para Maués e levou o carro junto.

— Então o Escort que ela possui também veio como recompensa de ter inscrito nesse grupo?

— Sim, assim como eu.

“Essa informação eu não sabia, já que eu achei que a Joanna ganhou o carro por esforço dela mesma junto com a irmã...”— pensa Eddie.

— E o que aconteceu com você depois?

— Eu... eu continuei minha participação e morando sozinha lá em casa – responde, com medo de fazer uma revelação, mas essa resposta não agrada Eddie.

— Não, eu perguntei o que aconteceu com você depois, durante a participação desse grupo lá em Jorge Teixeira e por quê você está em Maués?

A Elina baixa a cabeça, bufa e, dessa vez, precisa fazer a revelação.

— Eu fui presa pela polícia durante uma das rachas organizadas pelo grupo. Antes disso, eu tive um relacionamento com um dos organizadores – Elina passa a mão na cabeça – que eu nem lembro o nome dele, me acharam que eu seria a favorita de ganhar aquela corrida por conta de ter um caso com ele – baixa a cabeça e começa a chorar.

— O que aconteceu depois quando foi presa? Continua! – disse Eddie, apreensivo e curioso.

— Lá na cadeia... eu... eu... sentia um enjoo na cela... e os médicos confirmaram que eu estava grávida – Eddie fica surpreso – e meses depois, nasceu o bebê e... – chora.

— O que aconteceu com o bebê? Diga!

— Foi levado para a adoção! – exclama, completamente transtornada, chamando a atenção dos presentes na lanchonete ao redor – porque eu nem sabia o nome do pai e da família dele!

— Você deu o nome para o bebê antes de ser levado para a adoção?

— Não... – chora, desesperadamente.

— Elina...

Residência Família Peugeot, Rua Agrepino Aleluia, Santa Luzia, 10 de maio de 2014

— Alô?

— (Eddie?)

— Diga, Victor.

— (Péssimas notícias, mano.)

— O que foi?

— (A sua ex-esposa, Brena Dortmund, fez o pedido pela guarda do seu filho, e o juiz da Vara da Família acabou acatando. Eddie, é melhor a gente preparar a defesa porque já está agendado o julgamento porque você pode perder o menino para ela.)

De volta ao dia presente

“Eu perdi o meu filho para a Brena porque ela achou que eu não tinha condições de cuidá-lo. E agora eu vi e ouvi esse relato da Elina de ter perdido o filho para a adoção! O que eu vou fazer? Ela vai ser a minha oponente na corrida de sábado!”— pensa Eddie.

— Elina... tem condições para continuar contando depois?

— Tenho – disse, ainda lagrimejando diante de ter contado o seu drama para o Eddie, mesmo assim, limpa as lágrimas – meses depois, eu saí da cadeia.

— Saiu da cadeia há quanto tempo?

— Desde agosto – revela Elina, limpando ainda as lágrimas no rosto e assoando o nariz ao pegar um guardanapo na mesa – e eu acabei ganhando uma passagem para Maués e quando eu cheguei, ganhei um carro de uma pessoa misteriosa – Eddie fica intrigado – justamente o Corsa que eu estou dirigindo.

— Uma pessoa misteriosa? Foi a Joanna?

— Não, não foi a Joanna, foi uma pessoa misteriosa, mas o problema é que eu nem sei quem é essa pessoa por trás disso.

“Pessoa misteriosa... isso está me cheirando mal...” – pensa.

— Elina... eu te conheço há um tempo, desde o colegial há mais de vinte anos. Conheço a Joanna, Jeycianne, Victor, Lindinez, Tricks, Hedust, e demais pessoas que eu conheci em toda a minha vida. Mas pessoa misteriosa, como diz a palavra, é misteriosamente desconhecida, nunca e jamais conheci pessoas misteriosas. Isso está me intrigando esse lance de pessoa misteriosa.

— E o que você pretende fazer?

— Eu não pretendo fazer nesse exato momento, porque o nosso foco ainda é a corrida neste fim-de-semana. E você sabe porque você está participando do torneio?

— A gente sabe que o prêmio é uma maleta de dinheiro e aquele Camaro personalizado, certo? – Eddie acena a cabeça, concordando – e eu preciso mais é de dinheiro porque eu quero arrumar um detetive que consiga encontrar o meu bebê lá na adoção em Manaus.

Eddie fica indeciso, pois Elina é a sua concorrente na segunda fase e, para alcançar o seu objetivo, ela precisa eliminá-lo e chegar até a final e ganhar o torneio, assim, ganhando as referidas premiações.

— Sabe aquele Opala que eu estou dirigindo? – pergunta Eddie.

— Aham – responde Elina – é do seu irmão?

— É, e ele me emprestou justamente para essa competição, porque eu estou em numa missão meio que complicada para fazer depois do torneio.

— E qual é essa sua missão?

— Encontrar o corredor misterioso que apostou uma corrida comigo há 16 meses, e no meio de toda a corrida, parecendo fácil porque o meu carro era bem veloz naquela ocasião, perco o controle e bato forte na árvore, me deixando inconsciente e quase morto.

— Caramba! – Elina fica surpresa com a revelação – Tu não estava de cinto de segurança? Tu podia ter sido arremessado na árvore e morrer na hora!

— Eu estava sim, mas o airbag não foi acionado e bati a minha cabeça no volante, segundo os médicos que me contaram no dia em que obtive alta médica. Tive traumatismo craniano e consegui resistir durante o período em que eu fiquei em coma.

— Falando nesse corredor misterioso, você conseguiu um detetive que possa descobri-lo? O que você faria se estiver cara a cara com ele, apanharia ou levaria para a justiça?

Eddie sequer fala para responder esta última pergunta da Elina, apenas pensando.

— Nem apanhar e nem levar para justiça... tô pensando em numa revanche sem trapaças e televisionado como se fosse o duelo entre João de Santo Cristo e Jeremias* em versão corrida.

— Respondendo a tua primeira pergunta – complementa Eddie – sim, eu consegui os detetives e eles estão investigando e procurando os rastros desse misterioso corredor.

— Tomara que encontrem...

Praça da Matriz, Centro

Na orla – próxima à escadaria – Freddy e Joanna estão se deliciando com um copo de “turbinado” – uma mistura de xarope de guaraná, abacate, leite e amendoim, geralmente essa mistura é chamado de guaraná sapó – enquanto o casal observa o horizonte escuro da Ilha da Conversa, por conta de estar no horário da noite.

— Frederico...

— Diga, Joanna.

— Aparentemente você já perdeu o seu medo.

— Que medo? – Freddy sente a mão sendo segurada pela mão da Joanna e começa a tremer levemente.

— Poxa, Frederico, achei que você estivesse calmo e ter perdido esse medo de amar!

— Eu até tento, mana, mas...

— Pelo menos o teu rostinho de bebê punk ameniza esse seu problema – ironiza, devido a presença de piercings no rosto do Freddy, um no lábio inferior, outro no supercílio, além de ter cabelos laterais cortados.

— Poxa, Joanna!

— Bora voltar ao carro, mano, para a gente passear pelas ruas de Maués, enquanto o “Eddinho” está papeando com a Elina.

— Tá bom, mas você vai terminar de tomar todo o “turbinado”?

— Eu vou tomar o restante, ok? Pagamos 5 reais para tomar um copão desse com dois canudinhos?

No momento em que os dois estão entrando no Escort da Joanna, de repente, um Volkswagen Golf verde aparece ao lado.

— E aí, Joanna? – disse uma voz masculina, vindo do Golf verde, chamando a atenção do casal do Escort preto.

— Que porra é essa? – disse o loiro – quem é você, afinal, seu playboy paquerador?

Quando o vidro lateral da porta do motorista abaixa, é revelada a dupla que está ao bordo do Golf verde: no banco do passageiro, estava um rapaz de cabelos pretos, pele caucásia e vestindo uma camisa polo cinza e calça jeans. O outro, o motorista, de cabelos morenos, também de pele caucásia e vestindo uma jaqueta preta com camisa branca e calça jeans, um estilo meio ‘Grease, nos tempos da brilhantina’.

— Cê não se lembra de mim? – disse o motorista do Golf verde.

— Tu conhece ele, Joanna? – pergunta Freddy à moça.

— Eu... não, Frederico.

— Quem são vocês, afinal? – pergunta Freddy à dupla do Golf verde.

— Eu sou o Leonardo Mori-Neiva – introduz-se o motorista – e esse é o Luís Cardoso – introduz o companheiro do banco de passageiro.

Freddy não acredita, só de ouvir o sobrenome “Mori-Neiva” traz à tona a forte inimizade entre as famílias Peugeot e Mori-Neiva, uma rivalidade histórica entre as duas famílias graças a categoria de automobilismo que o pai, João Peugeot, criou, mas acabou chamando a atenção do seu rival Tony Mori-Neiva e do irmão Losger Mori-Neiva, que quebraram a hegemonia da família Peugeot na categoria. Nos últimos anos, a própria família Mori-Neiva acumulou muitos fracassos de reconquistar o título na categoria, justamente perdendo para a família Peugeot.

A própria família Mori-Neiva ‘aproveitou’ o êxodo da principal família Peugeot – composta pela Maria Neiva Peugeot, mãe, já viúva; Tony Peugeot, tio; Eddie e Freddy Peugeot, os filhos – para Maués na década de 1980 e acabou gerando diversos parentes fora de Portugal, de onde as duas famílias vieram. Dentre esses parentes, uma já é conhecida pelos irmãos Eddie e Freddy: Kerol Mori-Neiva, a detetive – que está investigando ao lado do amado Renan Hamilton-Button o mistério do piloto desconhecido que desafiou Eddie na fatídica corrida de 16 meses atrás – é nascida em Campinas, e filha de uma integrante da família Mori-Neiva.

— Eu conheci a Joanna em num evento que ela expôs os quadros sobre o Grande Prêmio do Brasil em Maués – completa o motorista.

— Ele era apenas um espectador que disse “que bonito os seus quadros”, “você desenha e pinta bem”, e por aí vai, só apenas elogios – defende-se a moça, porém, seu semblante já mostra a sua preocupação.

— Eu sou o fã de carteirinha da arte da Joanna desde quando eu vi a exposição na festa do aniversário da cidade em 2013 e ela sempre está lá com a sua beleza... – continua o motorista.

“Agora ele já vai encher a paciência do Frederico! Vai dar merda e muito!” – pensa a moça, preocupadíssima.

— ...e cheguei até dar um beijinho no rosto dela! – completa o motorista.

— Cê não tem ideia de que está fazendo aqui? – questiona a moça.

— Que ideia? Ideia é que você é a mais bela de toda a população da cidade! A eterna Rainha do Guaraná...

Freddy não se conforma com as palavras que o Leonardo está citando para a sua amiga, pois ele e Joanna são muito amigos desde a infância, quando Freddy conheceu-a pela primeira vez quando Joanna visitou o seu colégio para a apresentação de uma peça teatral em grupo representando a sua turma do outro colégio. Um flashback passa na cabeça do loiro relembra exatamente o primeiro encontro com a Joanna Ferruccio.

Colégio Primário de Maués, Avenida Dr. Pereira Barreto, Maresia, 22 de agosto de 1994, 11:15

— Oi, com licença? – disse um jovem loiro de 14 anos recém-completados, vestindo a farda da escola em que estuda.

— Oi – retribui uma jovem moça de 13 anos, de cabelos castanhos, vestida com a farda de outra escola em que ela estuda.

— Tudo bem?

— Tudo, e você?

— Também, afinal, eu gostei da sua apresentação, você dança muito bem.

— Obrigada – agradece.

— Você está linda, tanto na apresentação quando fora, como eu estou te vendo agora.

— Obrigada – agradece de novo – afinal, qual é o seu nome?

— Frederico, Frederico Peugeot, mas pode me chamar de Freddy, se quiser. E você?

— Joanna, Joanna Ferruccio – se introduz – eu sou da oitava série lá no Centro.

— Eu também sou da oitava série, só que daqui.

— O que você pretende ir para qual escola depois da oitava série?

— Eu? Eu pretendo ir para o Colégio Secundário daqui uns quarteirões na Maresia.

— Eu também, Frederico, pretendo fazer o segundo grau por lá.

— Que bom, eu espero que você esteja na minha turma ano que vem! Meu irmão está estudando por lá.

— Minhas duas irmãs também estão estudando por lá. A mais velha está estudando na terceira série enquanto a do meio está na segunda série.

— Vocês são três irmãs?

— Somos, e eu sou a caçula. As minhas duas irmãs também estudaram na escola em que eu estou estudando.

— Meu irmão estudou nesta escola, mas nós dois originalmente iriamos estudar por lá no Centro.

— Ah...

— E o meu pai foi um mecânico e um grande corredor, aliás, ele foi o organizador da Fórmula Peugeot e do Grande Prêmio do Brasil em Maués.

— E a sua mãe?

— Ela trabalha como costureira em casa. A gente mora lá no bairro Coronel Negreiros, só que eu moro com o meu irmão e com a minha mãe.

— O que aconteceu com o seu pai, eles se divorciaram?

— Não... ele morreu anos atrás.

— Nossa, que triste...

— Até hoje, ele é sempre lembrado pelos organizadores do Grande Prêmio do Brasil porque, como eu disse, ele organizou o evento e a categoria.

— Ah... então obrigada, Frederico.

— Também te agradeço por vir, Joanna... afinal... seus olhos são lindos e sempre brilham quando eu te vejo – disse o loiro, deixando a moça tímida e que cai na risada.

— Ah, Frederico...

De volta para o dia presente

— ...Eu cheguei beijar a Joanna enquanto você estava fora! – exclama o motorista, enquanto o loiro, completamente inconformado, coloca a mão direita no câmbio e pisa no acelerador, iniciando-se a “fritagem” de pneus, o chamado burnout.

— Quer apostar? – exclama Freddy ao Leonardo, encarando para um duelo de corrida.

— Eu aceito! – responde Leonardo, que começa a queimar os pneus do seu Golf verde.

— Frederico, o que você está fazendo? – questiona a moça, espantada com a atitude do loiro.

— Você sabe o que eu vou fazer – responde o loiro, quando volta a focar para o Golf verde – aí, o caminho é o seguinte, é na avenida direto para a Avenida Antártica, depois para aquela rua que liga até a estrada, depois para o sentido contrário para o centro, depois vira para direita próximo à praça de alimentação e termina seguindo direto na rua João Verçosa até o cruzamento na Rua Boa Vista com Rua Miranda Leão – detalha o loiro, contando todo o trajeto da corrida.

— E quem vai sinalizar o início da corrida? – pergunta Luís ao Freddy.

— Agora! – responde Freddy, largando de imediato para a corrida, surpreendendo a dupla do Golf verde.

— Ei! Assim não vale! – reclama Leonardo, que larga em seguida para a corrida atrás do Freddy.

Começa a corrida de forma inesperada. Freddy e Leonardo estão duelando devido à essa rixa que ambos carregam justamente pela rivalidade das famílias e agora se deve aos ciúmes do Freddy com o Leonardo por causa da Joanna enquanto o loiro esteve no período longe da cidade. Na avenida Dr. Pereira Barreto, os dois carros estão em alta velocidade, inclusive, como estão fora do período do torneio, atrapalham o trânsito presente na avenida, como motos e carros.

Joanna fica sem entender o porquê que o Freddy quis correr contra o Leonardo e Luís. A moça nunca viu o seu amigo tão ciumento na vida desde que os dois começaram a conviver juntos como colegas de sala e depois em sua casa.

— Frederico, por que você fez isso? Vai acabar com o meu carro, mano!

— Joanna, o que eu não quero acabar é o meu sentimento por você. Esses playboys lesos tentaram é te conquistar enquanto eu estive ausente.

— Eu consegui resistir dessas tentações dos caras, mas aquele me deu um beijo na bochecha e fiquei envergonhada, mano!

— Se eu tivesse um anel de castidade, eu daria pra você para ficar longe de todos os playboys e só você ficaria apenas comigo.

— Tchoco, nem pense em anel de castidade, mano, eu só quero ficar muito ao seu lado.

— Joanna – grita uma voz pelo fundo, ouvida pelo casal.

— Esse Leonardo já te paquerou várias vezes?

— Várias, mas eu resisti aquelas ‘cantadas’ escrotas do Léo.

— Por favor, Joanna... fique longe desses playboys porque eles pensam mais de querer paquerar e gastar dinheiro só para elas ficarem com ele. Graças à Deus que o meu irmão se tornou rico como piloto, e nem precisou de dinheiro para conquistar a Lindinez, basta uma amizade séria e íntima para que os dois ficassem juntos anos atrás.

— Naquele dia, a sua mãe dirigia um Uno para deixar vocês dois no colégio.

— E o que vocês tinham naquela época, Joanna?

— Cê esqueceu, né maninho? A gente tinha um Gol GTi e que a minha mãe nos deixava em cada escola por onde a gente estudava. Depois a Jeyci tomou o volante quando os nossos pais viajaram para Manaus.

— Por isso que ela já aprendeu a dirigir o carro e depois, segundo uma conversa que eu ouvi da própria Jeyci com o mano, aprendeu com o próprio Eddie assistindo a Fórmula Peugeot! – ironiza o loiro sobre a irmã primogênita da amiga.

— Nós três torcíamos pro seu irmão, mano – disse a moça – outra coisa que você acabou de esquecer é que você torceu por ele junto com a gente em casa.

— Cara, parece que eu tô tendo um esquecimento desses tempos...

— Ainda bem que o seu volante é seu amigo junto com o seu irmão e que você não faz te esquecer – ironiza, levando o loiro à risadas.

— Joanna...

— Diga, Frederico.

— Eu não quero te deixar na mão desses playboys.

— Eu sei – a moça passa a mão na coxa direita do loiro, porém, ambos levam um pequeno susto, pois o carro acaba de se encontrar com uma lombada no meio da avenida próxima à escola e que acaba saltando o veículo levemente, mas suficiente para levantar o casal um pouquinho alto, mas não bate suas cabeças pois ambos estão com cintos de segurança equipados.

— Porra de lombada, não entendo o porquê eles instalaram a porra desse quebra-molas – questiona Freddy após tomar um susto sobre a lombada que acabaram de saltar ao passar.

— Você e seu irmão sabem, a administração querendo ferrar os corredores até mesmo nos eventos organizados legalmente. Recentemente recusaram a comprar o asfalto para foder os corredores, mas os grupos que organizam eventos de corrida, como a Lisa Stevens Organization, se uniram e compraram sacas de asfalto para tapar muitos buracos sem autorização da prefeitura para beneficiar as rachas.

— Caraca, Joanna... – o loiro fica surpreso, enquanto a moça observa o retrovisor e percebe a aproximação do Golf verde de Leonardo e Luís próxima ao carro do casal.

— Acelera, Frederico!

— Joanna, volta! – grita uma voz por trás do carro.

— A Joanna é minha, cuzões! – retribui o loiro, exaltado – Joanna é o meu verdadeiro amor da minha vida e nada vai tirá-la de mim! – a moça fica surpresa com a declaração do loiro e sorri, apaixonadamente.

Chegando no fim da avenida Dr. Pereira Barreto, os dois carros começam a virar para a Avenida Antártica a esquerda, onde o Escort preto – guiado pelo Freddy com a Joanna – ainda lidera a corrida, seguido pelo Golf verde – guiado pelo Leonardo com o Luís.

Não está sendo fácil para o casal, ainda tendo o Golf verde na cola. Para piorar, constantes cantadas de Leonardo começam a ecoar nos fundos do Escort, com a companhia de violão entoado pelo Luís para compor, e começa a desconcentrar o loiro que está ao volante.

— Frederico, controle-se e pisa fundo.

— Impossível, Joanna. Estou quase no limite do câmbio do carro.

E era mesmo, tanto que o Golf verde acaba de ficar lado a lado do Escort preto.

“Longe de você eu enlouqueço muito mais, eu vivo na espera de poder viver a vida com você” — canta Leonardo, chamando a atenção do casal.

Enquanto o seu rival ainda cantava uma certa música que o casal conhece, Freddy observa no volante do Escort um botão com a descrição “N2O”, e rapidamente reconhece a função: acionar o óxido nitroso, o nitro, para ganhar a velocidade. Como a Joanna não está mais disputando o Maués Rumble Rally – foi eliminada na primeira fase – resta ao Freddy a utilizá-lo. Em seguida, o loiro vira para o seu rival.

— Legal essa cantada, lembra bem uma certa música que nós já ouvimos. Você já ouviu uma certa palavra... Adeus?

— Como assim, adeus? – questiona Leonardo, quando observa o Escort começando a ganhar vantagem em cima da dupla e percebem que o Freddy está usando o nitro para ganhar velocidade. Leonardo observa o volante, encontra e também aciona o botão... porém... não houve efeito para eles – Porra, Luís, você não me disse que havia trocado de garrafa de nitro? – reclama.

Metros depois, Freddy solta o dedo e termina o uso do óxido nitroso, enquanto observa a distância que possui em relação ao seu rival, para o alívio do loiro e também da amiga.

— Agora estamos distantes daqueles lesos, mana – alivia-se Freddy.

— Mano, a gente está numa corrida, uma fuleiragem que você fez com eles – avisa Joanna – cumpra logo essa sua corrida para que eles nos deixem em paz.

— Mas eu fiz como uma aposta para que eles parassem com essa fuleiragem de ficar te malinando com as músicas que a gente gosta de ouvir.

— “Longe de você”, “Ela vai voltar”, porra, é Charlie Brown Jr., mano! Saudades do Chorão e do Champignon...

— Eu ouvia muito essas músicas quando eu estive viajando por todo o mundo, fazia muito de te lembrar... A morte dos dois em seis meses de diferença me entristeceu demais, mana.

— Eu também, mano, chorei quando soube, especialmente da morte do Chorão.

— Quer que a gente mate as saudades? – Freddy liga o celular, abre um aplicativo de streaming de músicas online e seleciona uma das músicas específicas que começa a tocar. Ao mesmo tempo em que a música toca, Joanna começa-se a emocionar.

“Livre pra poder sorrir, sim, livre pra poder buscar o meu lugar ao sol...”

No final, os dois continuam correndo seguindo o trajeto projetado pelo Freddy, liderando a corrida, e passam em alta velocidade na Estrada dos Moraes para chegar ao Centro.

X///////X

De volta à Kayo’s Lanches...

— Sua família tem o sangue de piloto de corrida.

— Nem toda a minha família, Elina – disse o Eddie, depois de beber um copo de suco de maracujá – minha mãe nunca se envolveu no negócio do meu pai e do meu tio. Só se envolveu por causa do testamento do meu pai de que, se eu terminasse o segundo grau, eu me ingressaria numa carreira de piloto. Eu só queria entrar se eu tivesse dezoito anos completados, mas fizeram um verdadeiro lobby de me ingressar na Fórmula Peugeot ainda com dezessete anos.

— Se você estudou a história do Brasil, o Dom Pedro II foi coroado aos quinze anos de idade e foi declarado maior de idade para assumir o Império – disse Elina.

— Eu sei, eu tive a mesma impressão quando o meu tio e minha mãe fizeram isso, mas ela fez porque eu vinha fugindo de um verdadeiro linchamento organizado por aqueles pastores corruptos de uma igreja evangélica que revelaram o meu ateísmo na festa da minha formatura.

— Nossa! – Elina fica surpresa com a revelação – essa eu não sabia!

— Você esteve presente na nossa formatura?

— Não, eu não me formei e nem passei naquele ano. Eu repeti de série no ano seguinte.

— Continuando... aquelas festas de champanhe no pódio em 1997 tiveram que ser alteradas devido a minha idade na época se eu estiver presente no pódio entre os três primeiros colocados. Sabe qual foi a alternativa de substituir os champanhes?

— Não sei...

— Leite, Elina – revela – pegaram uma famosa tradição das 500 milhas de Indianápolis no qual o vencedor da prova receberia uma garrafa de leite para se hidratar na celebração da vitória. E eu gostei – sorri – Pena que no ano seguinte retomaram a tradição da festa com champanhe.

— Festa com leite é ótima, porque o leite não é alcóolico como o champanhe devido ao risco de embriaguez ao volante. Eu espero que a festa do campeão do torneio tenha uma garrafa de leite para celebrar o título.

— Eu também, que seja eu festejando o título.

— Veremos, Eddie.

Em seguida, os dois se levantam das cadeiras da mesa, enquanto a moça aproveita para se aproximar do Eddie e deixa um breve sussurro no seu ouvido.

— Não vai ser fácil para você, Eddie – sussurra a moça – Todos querem é ganhar aquele torneio.

— Isso vale para você também – replica Eddie, também sussurrando – eu tenho um sangue de vencedor como o meu pai e meu tio.

— Eu entendo que você é da família Peugeot, uma família vitoriosa no ramo automobilístico, especialmente em correr aqui em Maués.

— Graças à Deus que não sou um Mori-Neiva para jogar sujo nas corridas – brinca.

Em seguida, os dois se abraçam calorosamente e depois se despedem, no qual Elina retorna ao seu Chevrolet Corsa verde-azul, enquanto o Eddie tira do seu bolso o seu celular e disca a ligação para uma conhecida pessoa.

— Freddy?

— (Ah... isso foi o jeito de que eu nunca vou esquecer, Joanna...)

— Freddy?

— (Oi, mano... desculpa, eu estou aqui no porto abandonado no Bairro do Éden e acabei de ganhar uma corridinha de um playboyzinho leso que estava malinando a Joanna na minha frente.)

— Freddy, eu estou precisando de carona para voltar para casa!

— (Ah, mano, tá bom, eu já tô indo para te buscar! Calma, eu não vou demorar.)

— Ok – termina a ligação, no qual Eddie ainda aguarda a vinda do seu irmão para lhe buscá-lo para deixar de volta para a sua residência, quando de repente...

— Alô?

— (Eddie Peugeot.)

— Diga, detetive.

— (Eddie, eu tenho uma coisa para te informar sobre a Lisa Berger.)

— Conta e seja rápido, porque o meu irmão está vindo a me buscar e ele tem uma pessoa que ela não deve saber que estamos conversando com um detetive secreto.

— (Eu tenho informações de uma organização criminosa que está contratando vários organizadores de corridas de rua pelo Brasil e pelo mundo e que estão doando carros para serem distribuídos de graça para os novos corredores. Entre esses organizadores, está o nome da Lisa Berger.)

— E o que eu tenho que fazer? Isso não era uma tarefa do seu agente disfarçado Corey Lanskin?

— (Você tomou a missão dele, Eddie. Você está em uma missão que depende de si mesmo na competição.)

— Como assim, ‘depende de mim mesmo na competição’, detetive?

— (Ganhe o Maués Rumble Rally e conquiste a confiança da Lisa Berger e da Bebe Stevens. A cada confiança conquistada, ela pode te inserir como sócio da organização. Tire todas as informações secretas que ela possui enquanto vocês forem amigos tão íntimos.)

— ‘Tão íntimos’... isso está me cheirando sacanagem que tu estás pensando.

— (Você vai entender, Eddie. Boa noite e boa corrida no sábado.) – desliga em seguida.

— ‘Tão íntimos’... esse detetive Renan deve estar ouvindo besteiras ridículas que a namoradinha dele conta, só pode – ironiza Eddie, completamente indignado com a declaração do detetive na ligação.

Em seguida, aparece o Escort preto da Joanna sendo guiado pelo irmão Freddy, no qual a dona do carro está ao lado do loiro e sai do carro para deixar um espaço para a entrada do Eddie para o banco de trás do carro.

— E aí, mano? – disse o loiro para o irmão – como foi o papo?

— Normal – responde Eddie, entrando no veículo – e como foi a corrida de vocês?

— Pai d’égua – disse tanto o loiro quando a moça, de forma simultânea – vencemos uma dupla de playboys talaricos que queriam conquistar a Joanna na minha frente, mano – complementa o loiro.

— Eu já tinha avisado sobre isso, mas aconteceu uma briga entre vocês com eles?

— Não, mano, só houve cantadas escrotas dos playboys.

— E outra coisa, o Frederico largou rapidamente sem contar de três, para deixá-los mordidos – disse a moça – soltou o nitro para a gente ficar com folga e depois de vencer a corrida formos comemorar lá no porto abandonado.

— Não me digam que houve bebedeira...

— Tchoco – disse Freddy – não teve cerveja não, mano.

— Só houve amassos e beijos, ‘Eddinho’ – conclui a moça.

— Que bom – alivia-se Eddie.

— Ô ‘Eddinho’ – disse a moça – a Elina já te falou sobre o que aconteceu com ela num passado recente?

— Ela me contou sim – disse Eddie, cabisbaixo ao se lembrar exatamente dessa história que ouviu da própria Elina Battaglia – terrível o que houve com ela lá...

— Muito triste, mano – disse a moça – perder o bebê logo após o parto para a adoção... e o pior, ainda presa.

— Ela disse que quer ganhar o torneio para arrumar um detetive que possa encontrar e resgatar o bebê na adoção.

— A premiação em dinheiro – disse o loiro – nem todos querem aquele Camaro laranja, alguns querem o dinheiro por motivos pessoais...

— Se fosse eu – disse a moça – queria apenas comprar um carro novo para dar um rolê contigo lá em Manaus...

Enquanto Freddy e Joanna continuam se discutindo sobre a premiação do Maués Rumble Rally, Eddie continua pensando em alguma coisa que passa na sua cabeça...

“Ganhar o torneio e conquistar a confiança da Lisa Berger? Eu só penso é saber quem foi o filho da puta que correu comigo naquela corrida de onde me acidentei e fiquei 15 meses em coma”— pensa Eddie.

No final, Eddie retorna à sua residência junto com seu irmão Freddy e sua amiga Joanna, convidada pelo loiro para passar uma noite com ele. Já o Eddie... toda a sua concentração e foco está na corrida de sábado contra a Elina Battaglia.

Mas a história dramática da sua oponente pode abalar psicologicamente o Eddie na hora da corrida no sábado?

(CONTINUA)

Notas finais
Termos locais: “Diaba” – melhor amiga. “Pai d’égua” – muito legal. “Tchoco” – ouvi falar nesse termo, mas acabei esquecendo o significado até a conclusão deste capítulo, desculpe. Há uma referência à música (e ao filme) Faroeste Caboclo (de Renato Russo e Legião Urbana), justamente mencionando o duelo entre João de Santo Cristo e Jeremias. “Tamo Aí na Atividade”, “Longe de Você” e “Lugar ao Sol” são músicas da banda Charlie Brown Jr., uma breve homenagem aos dois integrantes originais da banda: o cantor Alexandre Magno Abraão “Chorão” e o baixista Champignon, ambos falecidos em 2013 em março e setembro, respectivamente. Até a próxima.