Ecos do Acaso - Vol. I
7 O Hospital que Nunca Deu Alta
Comecei a sentir o corpo antes de compreender a mente. Um cansaço estranho, profundo, que não desaparecia com o sono. Como se algo tivesse ficado desalinhado depois da floresta, copiando-me por dentro. Foi talvez por isso que a aplicação escolheu o próximo lugar com uma precisão quase irónica.
A coordenada apareceu ao início da manhã.
Nova coordenada disponível.
O local era um hospital desactivado nos arredores de Yokohama. O nome oficial já não constava nos registos recentes, mas encontrei referências antigas: encerrado após uma série de incidentes nunca totalmente explicados. Pacientes que não respondiam a estímulos, funcionários que abandonavam turnos a meio da noite, alas inteiras seladas sem justificação pública.
Cheguei pouco depois do pôr-do-sol. O edifício erguia-se isolado, um bloco cinzento de vários andares, com janelas escuras e cortinas ainda penduradas. O parque de estacionamento estava vazio, mas as luzes exteriores permaneciam acesas, projectando sombras longas e deformadas.
A porta principal estava aberta.
No interior, o ar cheirava a desinfectante antigo e humidade. O átrio principal estava intacto: balcão de recepção, cadeiras de espera, cartazes informativos amarelados pelo tempo. Um relógio de parede marcava sempre a mesma hora.
21:17.
A aplicação vibrou.
“Sistema em funcionamento parcial.”
Avancei pelos corredores. As luzes fluorescentes acendiam-se à minha passagem, mas apagavam-se lentamente atrás de mim, como se o edifício estivesse a poupar energia. Portas fechadas exibiam placas gastas: Internamento, Observação, Recuperação.
Num dos corredores laterais, ouvi um carrinho metálico a ser empurrado. O som aproximava-se, ritmado, profissional. Afastei-me para junto da parede.
Uma enfermeira surgiu ao fundo do corredor.
Usava um uniforme antigo, demasiado branco, demasiado limpo. O rosto estava parcialmente coberto por uma máscara cirúrgica amarelada. Os olhos, porém, estavam bem visíveis, atentos, cansados, mas vazios de surpresa ao ver-me.
— Está atrasado — disse ela, com um tom neutro.
Antes que pudesse responder, passou por mim, empurrando o carrinho. Sobre ele, vi pranchetas com nomes. Muitos nomes. Reconheci alguns.
E reconheci o meu.
A aplicação abriu-se sozinha.
Relato associado encontrado.
“O hospital não trata doenças. Trata estados. Quem entra é avaliado até deixar de variar.”
Segui a enfermeira à distância. Ela entrou numa ala com a placa Internamento Prolongado. Lá dentro, os quartos estavam ocupados. Pessoas deitadas nas camas, imóveis, olhos abertos, ligados a máquinas desligadas. Não havia sons vitais. Ainda assim, todos pareciam… presentes.
Num dos quartos, um paciente mexeu ligeiramente a cabeça quando passei. Os olhos seguiram-me.
No final do corredor, a enfermeira parou junto a uma porta de metal.
— Ainda não está pronto — disse, sem se virar. — Mas está estável.
A porta abriu-se sozinha.
Lá dentro, o quarto estava vazio, excepto por uma cama preparada. Lençóis esticados, pulseira de identificação pousada em cima.
O meu nome.
Senti uma pressão estranha no peito, semelhante à da estação. A aplicação vibrou violentamente.
“Admissão recomendada.”
Atrás de mim, ouvi passos. Outros funcionários surgiam nos corredores, todos com o mesmo uniforme antigo, movendo-se com eficiência silenciosa. Nenhum parecia questionar a minha presença.
— Se entrar agora — disse a enfermeira — o processo será mais rápido.
— Processo de quê? — perguntei, a voz a sair mais fraca do que esperava.
Ela inclinou ligeiramente a cabeça.
— De estabilização.
As luzes começaram a falhar. O relógio ao fundo do corredor marcava ainda 21:17. Nunca avançava.
A aplicação mostrou uma última mensagem:
“Alta não registada neste local.”
Dei um passo atrás. Depois outro.
O corredor pareceu alongar-se. As camas começaram a ranger suavemente, como se os pacientes estivessem a ajustar posições inexistentes.
A enfermeira avançou um passo.
— Não resista — disse. — Todos acabam por descansar.
O quarto atrás de mim parecia mais próximo agora. A cama aguardava.
Não sei se foi medo ou instinto, mas virei-me e corri. As luzes apagaram-se em sequência. O som do carrinho metálico voltou a ecoar atrás de mim, agora mais rápido.
Quando alcancei a saída, a porta estava fechada.
O telemóvel aqueceu na minha mão.
A aplicação abriu-se uma última vez naquela noite.
“Estado instável detectado. Reencaminhamento possível.”
A porta destrancou-se lentamente.
Saí para a noite fria, ofegante.
Atrás de mim, o hospital manteve as luzes acesas.
E, enquanto me afastava, tive a certeza inquietante de que uma cama permanecia reservada, não para quem eu era agora, mas para quem eu me estava a tornar.
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