Ecos do Acaso - Vol. I

8 A Aldeia que Não Consta em Lado Nenhum


A sensação de escape tinha sido substituída por outra, mais subtil e mais pesada: a de adiamento. Como se cada coordenada não fosse um erro isolado, mas parte de um processo contínuo que ainda não tinha terminado comigo.

A aplicação permaneceu silenciosa durante vários dias. Tempo suficiente para me convencer de que talvez tivesse sido apenas uma sucessão de coincidências mal digeridas. Foi então que o telemóvel voltou a aquecer na minha mão, sem aviso sonoro.

Nova coordenada disponível.

O ponto localizava-se na costa do Mar do Japão, numa zona rural afastada das rotas turísticas. O nome da aldeia não aparecia. Apenas um marcador cinzento, sem qualquer informação adicional. Tentei pesquisar antes de partir. Nada. Nenhuma referência em mapas, censos ou arquivos regionais.

Ainda assim, os transportes levaram-me até lá.

Desci do autocarro numa estrada estreita, ladeada por vegetação alta e postes eléctricos antigos. O motorista não disse nada. As portas fecharam-se e o veículo afastou-se sem esperar confirmação. Fiquei sozinho.

A aldeia ficava a poucos minutos a pé. Um conjunto pequeno de casas de madeira, alinhadas ao longo da costa, voltadas para um mar cinzento e imóvel. Não havia barcos. Não havia redes. Não havia gaivotas.

Mas havia pessoas.

Os habitantes moviam-se lentamente, cumprindo tarefas simples: varrer varandas, carregar baldes de água, observar o horizonte. Todos me olharam quando entrei. Nenhum mostrou surpresa. Nenhum sorriu.

A aplicação vibrou.

“Zona activa de permanência.”

Caminhei pela rua principal. Notei algo estranho de imediato: não vi crianças. Nem idosos. Todos pareciam ter aproximadamente a mesma idade adulta indefinida, como se o tempo tivesse parado num ponto específico.

Numa parede, reparei num quadro afixado com papéis amarelados. Aproximando-me, percebi que eram listas. Nomes escritos à mão, organizados por datas. As datas avançavam normalmente… mas os nomes repetiam-se.

O meu estômago contraiu-se quando vi o último registo.

Estava em branco.

Uma mulher aproximou-se de mim. Usava roupas simples, tradicionais, mas gastas pelo sal do ar marítimo.

— É novo — disse ela, sem entoação interrogativa.

Assenti.

— Ainda não foi registado. — acrescentou.

A aplicação abriu-se sozinha.

Relato associado encontrado.

“A aldeia não cresce nem diminui. Apenas substitui.”

A mulher conduziu-me até ao edifício central. Parecia uma antiga casa comunal. Lá dentro, o cheiro a madeira húmida era intenso. Uma mesa comprida ocupava o centro da sala. Em cima, havia um livro grande, de capa dura.

— É só uma formalidade. — disse ela, abrindo o livro.

As páginas estavam cheias de nomes escritos com a mesma caligrafia, apesar de datas muito diferentes. Alguns nomes estavam riscados. Outros tinham pequenas marcas ao lado.

— O que significam as marcas? — perguntei.

A mulher fechou o livro com cuidado.

— São os que já não se lembram de ter chegado.

Senti um arrepio percorrer-me a espinha. Olhei em redor. Outros habitantes tinham-se aproximado da porta. Observavam em silêncio, com a mesma expressão neutra.

— E os riscados?

Ela demorou a responder.

— São os que tentaram ir embora.

A aplicação vibrou com força.

“Integração recomendada.”

Fui levado até uma casa vazia. No interior, tudo estava preparado: roupa dobrada, utensílios, um quarto simples com vista para o mar imóvel. Na mesa, um documento aguardava-me.

O meu nome estava escrito no topo.

— Pode ficar o tempo que precisar — disse a mulher à porta. — Aqui ninguém tem pressa.

Quando saí para a varanda, reparei num detalhe perturbador. No reflexo do vidro, a aldeia parecia maior do que realmente era. Mais casas. Mais pessoas.

E, entre elas, tive a impressão de ver alguém muito parecido comigo, mas com um olhar mais vazio.

A aplicação mostrou uma última mensagem:

“Registo pendente.”

O mar continuava imóvel. As ondas não quebravam.

Ao longe, ouvi o som de um sino, não de templo, mas de chamada.

E, naquele momento, percebi que naquela aldeia não se morria.

Apenas se ficava tempo suficiente para deixar de sentir falta de sair.