E eu te quis
1 Garotinhas não devem andar sozinhas
Notas iniciais
Anelise
Eu e Isabel saímos da faculdade por volta das onze da noite. Eu cursava direito e ela enfermagem, não temos muitos gostos parecidos mas nossa amizade é algo tão forte que não sei explicar. Senti o cansaço do longo dia tomar meu corpo mas decidi que ia junto com ela tomar um café pois a noite estava bem fria, e era perigoso deixar minha descuidada amiga andar por aí tão tarde sozinha.
Fomos a pé, era perto de onde nós estávamos então não compensava pegar o carro. Entramos, nos sentamos e pedimos nossos cafés, não era um lugar muito frequentado pelas pessoas que eu conhecia, mas a simplicidade é algo lindo e eu adorava a tal cafeteria por um outro detalhe também: os donos. Eles eram um casal relativamente jovem, a mulher baixa e loira no caixa deixava transparecer o amor que sentia por seu marido garçom, e em meio aos meus devaneios, as bebidas chegaram. Mas notei um jovem sentado no balcão, usava uma jaqueta de couro mas era notável que sentia frio, ele estava ensopado.
– Ane ? — a voz de Isa me alertou e eu a encarei. Ela percebeu que eu estava encarando o cara do balcão e me deu um sorriso. — Estou falando sozinha mas agora vejo que é por um bom motivo, aquele é um bad boy de primeira. — senti minhas bochechas corarem e ela riu baixo.
– Isa, foco, vamos tomar o café e voltar para a faculdade, se eu não for embora logo,acho que desmaio de sono — bebi meu café morno e olhei novamente o jovem e ele me encarou, tinha cabelo bem escuro e usava alargadores. Ele me olhou mais um curto período de tempo e bebeu um gole de sua caneca, deixou dinheiro sobre o balcão e saiu. Não pude deixar de sentir uma pontinha de tristeza. Conversei mais sobre coisas aleatórias com a Isa, ela me fez esquecer, olhei as horas e já se passava da meia noite. Já não chovia como antes mas ainda sim enfiei meu cabelo claro dentro do moletom, um contraste perfeito. Pagamos e percebi que esqueci meu celular na mesa quando já estávamos bem perto da faculdade. Suspirei e dei meia volta, disse para Isabel que ela podia ir embora que logo logo eu também iria. Voltei, falei com a senhora do caixa e ela entregou meu celular, agradeci e saí.
Engraçado como as coisas são, não ? Eu estava saindo da lanchonete e guardando meu celular quando alguém se aproximou de mim. Eu fui pega de surpresa e sua mão cobriu minha boca abafando meu grito, eu tentei me virar mas escorreguei em uma poça d'água e eu finalmente pude ver com clareza e aqueles olhos azuis, eles congelaram minha alma e sua mão em minha cintura era a unica coisa que me impedia de desabar em sua frente. Eu estava com medo. Era o jovem que eu vira há pouco tempo no balcão e meu coração batia furiosamente. Fui colocada em pé contra a parede e ele pressionou seu corpo contra o meu, e senti algo gelado em minha garganta, o pavor tomou conta de mim e ele sorriu, deve ter percebido.
– Nunca foi avisada que é um lugar perigoso para garotinhas andarem sozinhas ? Olhe, loirinha, quero apenas esse colar que brilha em seu pescoço, seu anel e o telefone. Rápido e se gritar ou correr será bem pior.
Sempre me ensinaram que não devemos reagir aos assaltos então tirei minhas jóias e as entreguei e relutantemente entreguei meu celular também. Ele sorriu novamente, satisfeito e eu quis chorar, não era justo, coisas ruins acontecem a pessoas boas Anelise, isso vai ser resolvido,ouvi a voz de meu pai e procurei manter a voz firme para falar com meu assaltante.
– Satisfeito ? — ele me encarou e deixou de sorrir, seus olhos azuis ficaram pretos, desejei não ter dito nada.
Ele se aproximou e eu realmente desejei ter ficado quieta, ele enfiou minhas jóias e meu celular em um bolso da jaqueta e manteve a faca em minha garganta mas fez menção de falar algo quando ouvimos o som de uma sirene de polícia, ele xingou baixo e correu. Desapareceu em algum lugar.
Fui para a delegacia.
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