E aí, cê topa?
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Já eram quase 01h30 quando o carro seguiu por uma estrada com pouquíssima iluminação. Para a sorte de ambos, o belo céu estrelado e a enorme lua cheia iluminavam bem o caminho.
Stella sentia suas pálpebras mais pesadas a cada minuto, assim como na metade do filme em diante. Sua cabeça encostada na janela batia levemente conforme o carro se movimentava. Naquele momento, por incrível que pareça, o que ocupava sua mente não eram os últimos acontecimentos, mas sim algo que havia acontecido ainda quando estavam no bar.
Quando ela estava prestes a se entregar ao sono, um buraco a fez despertar completamente.
— Droga! — murmurou Mac.
— Não sei porque insiste em passar por aqui. Essa estrada é cheia de buracos. — completou olhando para ele.
— A essa hora essa é a menos perigosa.
— Isso não vai importar muito se não tivermos um carro. — reclamou baixinho. Mac somente suspirou.
— Essa não.. — sussurrou após alguns segundos.
— O que foi?
Como resposta, a velocidade do carro começou a reduzir rapidamente. Mac conseguiu jogá-lo para o acostamento, e então ele desligou.
— Ótimo.. — sussurrou Stella.
Mac girou a chave algumas vezes, numa tentativa frustrada de religá-lo. Vendo que não havia mais jeito, ele afastou suas mãos do volante e da ignição, respirando fundo.
— Já pode dizer "eu te avisei". — murmurou com a voz baixa encarando a rua à sua frente.
— Não, vou esperar mais um pouco. — provocou-o com um sorriso.
Mac a olhou e sorriu levemente.
— Acha que da pra fazer alguma coisa? — perguntou já desconfiada da resposta.
— Vou dar uma olhada. Prometo te recompensar com um encontro melhor da próxima vez. — disse com um sorriso antes de sair do carro.
— Vai ter que se esforçar. — respondeu rindo.
Stella recostou sua cabeça de volta no banco, permitindo-se fechar os olhos por breves segundos. O ar puro e gelado da noite entrava pela janela, fazendo-a se encolher mais no seu canto.
Os pensamentos que antes inundavam sua mente deram lugar pela primeira vez naquela noite aos beijos. Só nesse momento o peso de tudo que havia acontecido caiu sobre ela. Não era qualquer beijo, e sim o beijo do seu chefe e melhor amigo, que, por sinal, foi o melhor beijo que já dera em toda a sua vida.
E com esse último pensamento, ela sorriu.
A porta do carro novamente se abriu, e com ela os olhos de Stella.
— Não consigo encontrar o problema, e também está muito escuro. — suspirou. — vamos ter que deixá-lo aqui e amanhã cedo chamar o reboque. Daqui até seu apartamento deve dar 1km ou 1,5 km.. O que acha?
Stella suspirou.
— Sabe que sempre teremos a opção de dormir no carro. — Mac riu.
— Acho que essa é uma das poucas aventuras que ainda não vivemos.
— Essa e viajarmos até a Suécia para fazermos aquela trilha na Lapônia.
— Essa com certeza está no topo da lista. — disse com entusiasmo, fazendo Stella rir.
Mac jogou sua cabeça para trás e respirou fundo, observando o imenso céu através da janela aberta.
— A lua está linda. — Stella desviou seu olhar brevemente antes de voltá-lo para Mac.
Ele estava distraído, com seus olhos brilhando enquanto admirava a lua. Somente a voz suave dela o tirou de seu breve transe.
— Hoje no bar quando eu estava voltando pra mesa, Brad veio conversar comigo. — sussurrou.
Mac permaneceu na mesma posição, mas dessa vez seus olhos foram de encontro aos dela.
— O que ele disse?
— Que se não me dissesse como estava se sentindo, iria se arrepender. — suspirou. — Ele falou que quando saiu de Nova York todos aqueles sentimentos adormeceram, mas que quando me viu de novo.. Tudo voltou.
— Nem um pouco clichê. — zombou.
— Também disse que se por acaso eu me arrepender de ter ficado com você, ele estará me esperando por mais essa semana. — Stella mordeu o lábio na intenção de reprimir uma risada.
Mac respirou fundo, tentando controlar a raiva que começava a crescer.
— Esse Brad não passa de um playboyzinho mimado. Ele tentou fazer alguma coisa?
— Não. Depois que ele disse essas coisas eu falei que não poderia oferecer nada além de amizade à ele, e que eu te amo e sou muito feliz ao seu lado.
Apesar da raiva, Mac sentiu seus lábios contraírem-se num sorriso. Um ato espontâneo que fugiu do seu controle. No fundo ele sabia que tudo aquilo não passava de um teatro, mas acostumar-se com a idéia de tê-la como sua namorada era algo simples e, no mínimo, fascinante.
— Você sabe que eu não gosto de bancar o protetor, mas você é minha amiga e eu me preocupo.. — sorriu sem graça. — Pode ser que todas essas minhas desconfianças em relação ao Brad sejam coisas da minha cabeça, mas eu realmente não quero pagar pra ver.. — suspirou. — Só toma cuidado, por favor.
Stella sorriu levemente e pôs sua mão sobre a de Mac.
— Eu prometo tomar cuidado.
— Aproveita que vai tomar cuidado, e toma com aquele Brandon também. — disse com desdém, fazendo Stella gargalhar.
— Ainda não entendo por que o odeia tanto! — exclamou.
— Eu não o odeio, na verdade nem tenho nada contra ele..
— Mas também não tem a favor. — completou com uma risadinha.
— Com certeza não.. — sussurrou com um sorriso. — Só não quero que sofra..
Stella apertou gentilmente a mão de Mac, sorrindo novamente.
— Bom, acho que meu namorado não vai me fazer sofrer, certo?
— Nunca! — exclamou.
Mac levou a mão de Stella nos lábios, plantando um carinhoso beijo.
— E então, o que acha da nossa pequena aventura ficar para um dia menos congelante? — perguntou Mac.
— Claro! Se eu ficar mais um minuto aqui, acho que congelo... Mas não sei se ir a pé é uma boa.
Mac olhou em volta e reparou em um carro vindo do início da estrada.
— Tem um carro vindo. — ele abriu a porta, mas permaneceu dentro do carro. — Fica com a sua arma em posição, só por garantia. — Stella consentiu, vendo-o sair do carro.
Mac puxou mais seu casaco para si, numa tentativa de afastar o frio daquela noite. Ele estendeu sua mão brevemente para que quem estivesse no volante pudesse vê-lo claramente.
O carro reduziu a velocidade ao se aproximar, parando em frente à eles.
— Boa noite! Meu carro quebrou e minha namorada mora a mais ou menos 1,5 km daqui. Será que poderia nos dar uma carona?
O homem de meia idade olhou desconfiado para Mac, que ao perceber pegou seu distintivo.
— Nós somos detetives. Trabalhamos no laboratório criminal. — Stella saiu do carro e se aproximou, com sua mão apoiada disfarçadamente sobre o coldre. — Eu sou o detetive Taylor e essa é a detetive Bonasera.
O homem passou a analisá-los com os olhos semicerrados, por fim se dando por convencido.
— Claro, entrem. — Mac pressionou o pequeno botão em sua chave, trancando o carro. E com um suspiro de alívio, ambos entraram no carro.
***
Phill, o gentil homem de meia idade que concordou em dar carona, contou uma de suas várias histórias de vida dentro daquele quilômetro, incluindo que fora soldado a alguns anos atrás.
Enquanto ele e Mac compartilhavam suas experiências, Stella sentia novamente o peso em suas pálpebras, controlando-se ao máximo para não dormir.
Para a sua sorte, a curta viagem chegou ao fim, e Phill seguiu seu caminho.
***
— Sinto que poderia dormir em pé facilmente. — murmurou Stella entrando em seu apartamento.
— Está com fome? — perguntou Mac jogando o casaco no cabideiro.
— Não muito, mas comeria algo leve.
— Vou ver o que posso fazer.
Um leve sorriso foi desenhado nos lábios de Stella antes de seguir para o quarto. Mac checou a hora em seu relógio, suspirando profundamente ao ver que já eram quase 2h. Ele seguiu seu caminho até a cozinha, procurando na geladeira qualquer coisa que pelo menos enganasse seus estômagos.
— Don me enviou uma mensagem nos convidando pra jantar com ele e a Jamie amanhã. — comentou Stella indo em direção a cozinha com o celular em mãos. — O que acha?
— Claro! Vai ser bom. — respondeu sem tirar o foco da geladeira. — Tem uns pastéis prontos.
— Oh, eu fiz ontem a noite mas não fritei tudo. — disse dando a volta no balcão e recostando nele. — Por mim pode ser. Não é exatamente leve, mas tá valendo. — sorriu.
— Nada é mais saudável do que comer pastéis às 2h da manhã. — brincou Mac retirando o pote da geladeira e pondo-o em cima da pia.
Ao se virar para olhá-la, seus lábios logo se contraíram, e um sorriso espontâneo surgiu.
— Por que tá sorrindo? — perguntou rindo.
Em resposta, ele se aproximou dela e levou uma de suas mãos até seu cabelo, pondo alguns cachos rebeldes de volta no lugar.
— Estava bagunçado. — comentou limitando-se a sorrir.
Ao invés de falar alguma coisa, Stella permaneceu parada sentindo seus olhos serem completamente atraídos pelos dele. Ela não sabia ao certo se as palavras haviam ficado presas em sua garganta, mas de qualquer forma, falar não parecia ser importante naquele momento.
Seu cabelo já estava tão arrumado quanto quando chegou, mas os dedos de Mac continuavam enroscados em seus cachos, num processo repetitivo de enrolá-los e depois puxá-los delicadamente.
No apartamento silencioso, o único som que se ouvia eram os corações batendo, e por isso, foi fácil perceber que um deles estava mais rápido que o normal.
Com o cenho levemente franzido, Stella levou sua mão ao peito de Mac, acariciando com o polegar.
— Você está bem? Seu coração tá acelerado..
Mac olhou para a mão de Stella em seu peito e sorriu sem graça.
— Tá tudo bem, é só que.. — ele voltou a olhá-la, e então a mesma sensação que antecedeu o primeiro beijo naquela noite, o tomou. Era aquela sensação que o fazia se esquecer de tudo a sua volta, como se nada mais importasse. Mas, ao invés de simplesmente se entregar ao momento como antes, ele questionou se era certo. — Acha que vamos conseguir voltar ao normal depois dessa semana? Voltar a ser como éramos a dois dias atrás.. — questionou-a em um tom baixo, sem deixar de brincar com seus cachos.
Stella olhou para sua mão no peito de Mac, e soube exatamente do que ele estava falando. Ela queria responder que sim, que tudo aquilo fazia apenas parte do acordo e que quando Brad fosse embora, tudo voltaria ao normal. Mas naquele momento, nada além de mais confusão saiu de sua boca.
— Eu não sei..
— Nós estamos mais próximos... — disse olhando para sua mão nos cachos dela. — E eu sei que parte disso é por causa do nosso plano, mas..
— A maior parte não é. — completou com um suspiro. — Acha que estamos confundindo as coisas?
— Você está fazendo meu coração acelerar, Bonasera. — respondeu em um tom divertido, fazendo-a sorrir. — Talvez estejamos.. Eu não sei. Talvez eu esteja.
Stella olhou novamente para a sua mão, dessa vez tirando-a da onde estava para pousar sobre a de Mac em seu cabelo, afastando-a também.
— Se continuarmos vai ser ainda mais difícil.. — suspirou. — Melhor darmos um tempo. — disse com seriedade, reprimindo uma risada.
— Vai me dizer que o problema é você, e não eu? — indagou com uma risada.
— O quê? Não! O problema não sou eu, Taylor. — disse de forma convencida.
— Sempre tão delicada. — zombou, recebendo um tapa de leve no braço. — Mas você tem razão. Talvez seja melhor nos afastarmos um pouco.. — Stella havia pensado nisso, mas ouvir aquelas palavras dele doeu mais do que ela queria admitir pra si mesma.
— Então na frente dos outros continuamos como namorados, mas quando estivermos juntos..
— Vamos ser nós mesmos, mas mantendo uma distância segura. — respondeu com um sorriso de canto.
— Até quando? — perguntou receosa.
— Acho que vamos saber. — disse. — Eu preciso parar te olhar com essa vontade enorme de te beijar.
— Então quer dizer que você quer me beijar agora? — perguntou calmamente, com um tom levemente divertido.
Mac novamente estendeu sua mão, dessa vez pondo somente uma mecha de cabelo atrás da orelha de Stella, e afastando-a logo em seguida.
— Ainda quer pastel? — perguntou sorrindo.
Stella riu com a forma descarada do amigo em mudar de assunto, ao mesmo tempo tornando toda a situação mais leve.
— Já está tarde. Eu vou só tomar um banho e deitar. Um de nós precisa trabalhar em algumas horas, detetive. — provocou.
Mac suspirou enquanto se afastava para pôr o pote com pastéis de volta na geladeira.
— Se quiser eu adio essa folga pra semana que vem. Sabe que realmente não me importo. — enfatizou.
— Sem chance, Taylor. — riu. — O herói da cidade também precisa descansar de vez em quando, você sabe.
— Tudo bem.. — respondeu contrariado, com um sorrisinho de canto.
Após um último sorriso, o silêncio irrompeu completamente a cozinha. Mas, diferente das outras vezes em que o silêncio era confortável, dessa vez fora o oposto. Stella desviou seu olhar e respirou fundo, forçando um sorriso.
— Então, boa noite! Tenta descansar, tá?
— Boa noite, Bonasera. — sussurrou.
Stella se virou e caminhou à passos curtos até a porta de seu quarto, sentindo um peso enorme cair sobre ela. Talvez fosse pela repentina idéia de se afastar quando tudo entre eles estava indo tão bem. Uma parte dela sabia que aquele era o único jeito de conseguirem voltar a ser como eram antes sem que o clima ficasse estranho. Mas a outra parte só queria arriscar tudo, caso fosse necessário, porque se afastar era a última coisa que ela queria.
Seus pés de repente pararam, e ela se virou. Logo seus olhos encontraram o que mais amavam: os olhos dele.
— Te beijar mexeu comigo, e isso não fazia parte do plano. — disse calmamente, enquanto bricava com seus dedos. — Ter você tão perto me fez sentir algo que eu nunca havia sentido antes, e isso tá me deixando confusa, Mac.
Os lábios de Mac se mexeram, mas nenhuma palavra foi capaz de sair. Ouvir aquilo foi inesperado, e não saber o que iria acontecer a seguir os assustava.
— Eu sei que só estou confundindo as coisas por causa desse plano bobo. — sorriu sem graça. — Mas eu precisava colocar isso pra fora de alguma forma.. — suspirou. — Eu só não quero que as coisas fiquem estranhas entre a gente, e se pra isso é necessário mantermos a distância por um tempo, tudo bem.. Eu só..
Ela respirou fundo, sentindo parte de todo aquele peso ir embora. E então um sorriso, dessa vez genuíno, surgiu em seus lábios.
—... Eu só não quero te perder, McKenna.
Mac sorriu levemente e prendeu seus olhos nos dela como nunca antes, numa tentativa de fazê-la ver tudo que ele estava sentindo e não conseguia expressar com palavras.
— E você não vai, Stella. — sussurrou. — Eu prometo.
Então mais um sorriso apareceu nos lábios de Stella, acompanhado de um brilho diferente nos olhos por causa de algumas lágrimas teimosas que se formavam. E ali ele soube que ela havia visto além do que ele poderia mostrar, e isso fez um alívio percorrer seu corpo.
— Nós vamos passar por isso, não vamos?
— Vamos! — exclamou. — Como sempre fazemos.
Após um último sorriso Stella se virou e foi para o seu quarto. Enquanto isso, Mac permaneceu recostado na pia com seus olhos focados em algum ponto aleatório.
Havia menos de 24 horas que eles estavam fingindo ser um casal, e esse pouco tempo foi o suficiente para mexer com todos os seus sentimentos. O que antes era certo, agora já não é mais. E coisas que ele nunca sequer havia pensado antes, tornaram-se as mais importantes.
— Eu não posso me apaixonar por você... — sussurrou. — Não posso...
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