E agora?

4 Sejam bem-vindas!


Alexia

Estava cansada de esperar por alguma notícia de Maurício, depois de tanto tempo, ele não tem coragem para olhar nos meus olhos. Será que eu teria coragem de olhar nos dele? Não tinha mais esperança, nem deveria ter, depois de tudo que aconteceu entre nós. Naquele momento, eu só precisava de um banho para despertar, pois ainda usava com a mesma roupa do dia anterior.

Levantei-me da cama e fui para o banheiro, sobre a bancada, ainda estavam o perfume dele, o creme de barbear, mas a sua escova de dentes não se encontrar junto a minha. Não esqueci de levar o meu telefone comigo. Esperança ou hábito?

Por longos minutos, deixei a água morna cair sobre o meu corpo, desejando relaxar, encostei a testa no azulejo frio e fiquei ali esquecida de mim. Não queria pensar, no entanto, mas não conseguia evitar, não sabia como a minha vida seria dali em diante. Absorvida nos meus pensamentos, eu me assustei quando o telefone tocou, estava em dúvida se deveria atender ou não, esperei e a ligação caiu, porém, a pessoa do outro lado era insistente e tentou outra vez. Assim, eu me dei por vencida, desliguei o chuveiro e fui ao seu encontro. Olhei para tela, era minha irmã Laura, novamente. Pensei em recusar, não estava a fim de ouvir sobre toda aquela baboseira de pai desconhecido, era algo que nunca soube, consequentemente, nunca me afetou, ainda mais, nesse momento, em que minha vida estava uma bagunça. Porém, Laura tentou de novo, considerei a possibilidade de desligar o telefone, contudo, Maurício poderia me procurar. Dei um longo suspiro e atendi.

— Alexia, você demorou a atender, estava quase desistindo!

— Desculpe, mas estava no banho e não ouvi o telefone – menti.

— Pois é, estava ansiosa para contar, que descobri o tal lugar que nossa mãe ia quando jovem e onde tirou as fotos com o tal de Tim. Você acredita que ele ainda existe?

— Acredito. E daí?

— E daí, estava pensando em aproveitar o feriado e ir até lá, fazer uma pesquisa – ela concluiu de modo falsamente casual, e eu não podia acreditar.

— Você está pensando em ir até lá?!

— Sim, eu pensei se você e Maurício poderiam ir comigo.

— Eu e Maurício? Como assim? Você nem sabe se tem vaga ou não, nesse feriado.

— Você nem imagina a sorte, porque eu liguei para lá, houve uma desistência de última hora, por isso, eles têm um único quarto vago.

— Muito providencial – disse com sarcasmo, mas Laura ignorou.

— Havia até uma fila de espera, mas, então eu contei que nossa mãe morreu há pouco tempo, e ela costumava passar as férias lá, fiz um pequeno drama, então, o responsável se comoveu e disse que o quarto era nosso, mas teremos que confirmar a reserva agora. Se é que vocês não se incomodarem de dividir o quarto comigo?

— Você enlouqueceu, Laura?! Como podemos fazer algo assim, tão de repente?!

— Por que não? Podemos aproveitar o feriado e não sairá tão caro, se dividido entre nós duas.

Por um breve minuto, fiquei em silêncio e refleti, olhei em volta para o meu apartamento vazio, seria uma boa oportunidade para sumir dali, esquecer o que ocorreu, ao invés de ficar o feriado inteiro trancada naquele lugar, remoendo minha dor e pensando em meu marido desaparecido, respirei fundo e soltei o ar com força.

— Tudo bem, Laura. Mas, infelizmente, Maurício não poderá ir conosco, já que ele tem compromissos inadiáveis para esse feriado.

— Ele não ficará aborrecido de ficar longe de você, durante esses dias.

— Não. Confirme a reserva, enquanto isso, vou arrumar uma mala e pego você aí no seu apartamento, daqui uma hora.

— Eu não acredito que você concordou! Eu estarei esperando! – Laura exclamou em um misto de incredulidade e animação.

Laura

Eu desliguei o telefone, ainda sem acreditar que Alexia aceitou com tanta facilidade a minha proposta, achei que ela esbravejaria e bateria o pé, antes de concordar, só não contei que já havia confirmado a reserva e começado a arrumar uma mala para a viagem. Uma hora depois, Alexia estacionou o carro em frente ao meu edifício.

— Espero que não estejamos entrando em nenhuma roubada, Laura – Alexia disse, colocando o endereço no GPS e dando partida no carro.

Era muito esquisito, pois, apesar de sermos irmãs, já fazia muito tempo que não ficávamos assim juntas, sozinhas, em um lugar restrito, sem ter o que fazer. Comecei a buscar algum assunto que poderia ser de interesse de nós duas, que não fosse nossos pais, mas não encontrei nenhum.

— Maurício não ficou muito chateado por ficar sozinho, no feriado? – Lembrei-me do meu cunhado.

— Não, ele ficará bem. Laura, por que exatamente estamos indo para esse lugar? Pode não haver nada lá para nós, nenhuma reposta ou lembranças da nossa mãe, nem desse tal de Tim.

— Mas, é a única pista que nós temos sobre toda essa história, Alexia.

— Por que essa história é tão importante para você, Laura?

— Não sei, mas, às vezes, eu me acho tão inadequada, perdida mesmo, como se faltasse algo na minha vida, que não sei o que é.

— E você pensa que descobrir esse possível pai possa ser a resposta, que procura para a sua vida? Lembrando que esse pai pode ser o meu – Alexia me olhou com uma expressão irônica.

— Pode ser – Não sabia como responder aquela pergunta. – Mas, você é tão forte e determinada quanto o nosso pai, enquanto eu...

— Você? Você se parece com a nossa mãe, romântica e sonhadora.

O resto da viagem ficamos quase o tempo todo caladas, ouvindo músicas e as instruções da voz mecânica que indicavam o nosso caminho. Até que cerca de três horas depois, chegamos ao nosso destino, por uma estradinha de terra cercada por pastos verdes e, ao longe, montanhas verdejantes.

— Isso não parece um hotel, parece mais uma fazenda – Alexia observou quando paramos diante de uma porteira.

— Bem... É uma fazenda, só que também é um hotel, onde os hospedes aproveitam a vida no campo.

— Como assim? – Alexia arregalou os olhos, surpreendida com a notícia.

— Tipo uma imersão na vida rural. A proposta é buscar uma vida mais rústica e natural, tipo cuidar do gado, comer o que se produz ou algo parecido.

— Laura, eu sou uma executiva, não sei tirar leite de vaca – Alexia tentava transparecer calma, mesmo não conseguindo.

— Pense que será algo diferente! Uma nova experiência na sua vida! – Dei-lhe um sorriso de fingido entusiasmo, e ela me fuzilava com os olhos.

Foi quando um homem pequeno de meia-idade apareceu do meio do nada, saiu pela porteira e veio até o carro, tirou o chapéu de palha, antes de se curvar na janela do motorista.

— Boa tarde, moças. Vocês têm reserva.

— Boa tarde. Sim, nós temos reserva – Adiantei-me em responder

— Sejam bem-vindas! – Ele abriu a porteira para deixar nosso carro entrar. – Podem estacionar em frente da casa principal.