E agora?

5 Isso, realmente, estava ficando bom


Alexia

Estacionei o carro, próximo a casa principal de arquitetura do século XIX, imponente e bela, com telhas vermelhas, paredes brancas arrematadas com azulejos desenhados e porta e janelas azuis. Subimos uma escada que dava para a varanda que circundava todo o andar superior, para entrarmos na sala principal, que em nada se assemelhava uma recepção de hotel, com seu chão e teto forrados de madeira, paredes brancas, guarnecidas de quadros e móveis antigos escuros e bem cuidados, que remetiam ao passado. Ficamos as duas paradas ali no meio, sem saber o que fazer até que um homem alto, de cabelos castanhos escuros e um sorriso brilhante, saiu de uma das muitas portas, que circundavam o ambiente.

— Boa tarde, sou Nathan, gerente do hotel.

Nós duas estendemos as mãos para cumprimentá-lo.

— Vamos fazer o seu check-in e, depois, poderão levar a bagagem direto para o seu bangalô – comunicou, entrando por uma das portas, olhei para Laura e reconheci aquela expressão abobalhada no rosto dela. Aquele cara realmente a havia impressionado.

— Vamos, Laura! – Dei-lhe um leve empurrão para que saísse do lugar e entramos logo atrás dele, em um escritório.

— Vocês podem perceber que esse é um hotel diferente, um refúgio para a vida corrida do mundo moderno – ele falava, enquanto nos oferecia cadeiras diante de uma mesa de aparência antiga e pesada e se sentava do lado oposto. – Ficamos muito comovidos com a história de vocês e o pedido especial da mãe das senhoritas, no seu leito de morte – ele prosseguiu, nos dando as fichas de entrada para preencher.

— Pedido especial da nossa mãe? – Fitei a minha irmã, desconfiada, imaginando que tipo de mentira ela inventou.

— Sim – Laura confirmou. – Antes de morrer, nossa mãe nos pediu para que visitássemos esse lugar, para revivermos os momentos felizes que passou aqui – mentiu, com dissimulada singeleza e uma expressão de pesar, eu precisei me segurar para não rir.

— Felizmente, nosso hotel mudou muito desde que sua mãe esteve aqui. Depois da troca de direção, esse lugar se tornou muito melhor – Nathan não escondia a seu orgulho.

— Isso é ótimo! – Pensei que, pelo menos, poderia aproveitar o feriado para relaxar e descansar um pouco.

— Foi muita gentileza a sua de nos ceder essa vaga, sabendo que havia uma lista de espera – Laura extremamente amável, e continuou — Nas fotos da minha mãe, havia um rapaz com ela, chamado Tim, e parece que eram amigos na época. Sei que é muito difícil, mas, por acaso, você sabe algo sobre ele?

Nathan dá um sorriso vitorioso.

— Claro que eu sei quem é Tim – ele afirma e nós duas prendemos a respiração à espera da conclusão. – O senhor Timóteo é o dono desse lugar. Comprou a fazenda, há muitos anos, e a reformou transformando o que ela é hoje.

Laura

Não podia acreditar no que acabemos de ouvir, olhei para minha irmã, que está tão abismada quanto eu.

— E ele está aqui, agora? Gostaríamos de conhecê-lo – indaguei, sem esconder a minha ansiedade.

— Infelizmente, não – Nathan informou, eu desabei na cadeira, esperando pela pior resposta. – Ele está viajando a negócios e deverá regressar em um ou dois dias.

— Jura?! – Quase grito de alegria, Nathan assente com a cabeça.

— Agora, vocês poderão almoçar com os outros hospedes, antes de deixar suas bagagens. Seu bangalô é o seis, fica subindo a estrada de terra, ali adiante, ele nos entregou uma chave dessas antigas.

Alexia me interrogou com o olhar. Já imagino o que minha irmã pensou. Se não havia serviço de carregador? Eu só não contei a ela que aqui, nesse lugar, não tem nenhuma mordomia, então, seriamos nós que levaríamos as nossas bagagens até o local onde ficaríamos hospedadas.

— O refeitório fica aqui, na casa principal, no térreo, há uma entrada lá por baixo. O café deverá ser servido antes das seis, para que possamos sair bem cedo para tratarmos os animais e cuidar da horta – Nathan explicava e os olhos da minha irmã ficava cada vez maiores, por fim sua boca escancarou.

— Como assim antes da seis?! – Alexia questionou com um ar indignado. Nathan lhe devolveu um sorriso divertido, que o deixou ainda mais lindo.

— Acho que a senhorita não entendeu a proposta do nosso hotel. As pessoas veem para aqui, fazer uma imersão na vida campestre, que inclui acordar cedo e todos juntos tomamos o café da manhã. A cada dia, um grupo cuida dos animais, enquanto o outro cuida da horta, no dia seguinte, reversarmos. Depois, todos juntos, almoçam na cozinha como uma grande família. É claro, que temos uma excelente cozinheira, que coordena o preparo das refeições e os empregados da fazenda explicam como cada tarefa deve ser realizada – Nathan falava e Alexia parecia estar em completo estado de choque.

— Mas... – ela tentou retrucou, eu a segurei pelo braço e a levantei.

— Vamos, Alexia! Eu estou com fome – E puxei para fora.

Nathan nos indicou o caminho, para parte de baixo da casa, onde se localizava uma cozinha decorada por belos azulejos antigos azuis e brancos, o chão de cerâmica vermelha, fogão a lenha e, logo adiante, uma comprida mesa de madeira maciça ladeada por bancos inteiriços e, em volta dela, um grupo de pessoas de várias idades, conversavam animadas, servindo-se das travessas recheadas de comida de uma aparência apetitosa.

— Pessoal! – Nathan falou alto, vencendo o som das conversas a nossa volta, os outros pararam para lhe dar atenção. – Essas são as novas hóspedes, Laura e Alexandra.

— Alexia – minha irmã sussurrou ao lado dele.

— Laura e Alexia – reiterou Nathan. – Elas acabaram de chegar – Seguiu-se aplausos e saudações. – Sentem-se onde quiserem, moças – determinou e eu e Alexia procuramos por lugares vazios, nos espremendo entre os outros comensais.

Para minha total e feliz surpresa, Nathan se sentou bem na minha frente.

— Aqui, é você mesmo que se serve – a senhora de cabelos curtos e grisalhos me disse, passando-me uma das travessas. — Sou Luzia e aquele é meu marido Humberto – apontou para o homem alto e calvo ao seu lado.

— Muito prazer!

— Como vocês não ajudaram com o almoço, ficarão na turma de lavagem da louça – uma moça bonita com os cabelos escuros, presos em um rabo de cavalo, declarou. Alexia abriu a boca pronta para protestar, quando a moça deu um sorriso travesso. – Eu estou brincando, não lavamos a louça, mas, não vamos falar alto para não dar essa ideia a eles. Meu nome é Ângela.

Os outros se apresentaram. Alberto e Alexandre queriam se integrar mais com a vida do campo. Marcos e Rita e o filho deles, Tadeu, um adolescente de 15 anos, que só jogava videogame, por isso os pais decidiram por essa viagem. Rafaela era amiga de Ângela e as duas vieram para curtir algo diferente. Um casal novinho, Mariana e Felipe, que estavam mais interessados um no outro.

— Só queremos que, aqui, as pessoas se integrem com a natureza, preparem o que retiram da terra e sentem-se, juntas, para desfrutar o seu trabalho. Esse é o conceito desse lugar. Por isso, temos poucos hóspedes – Nathan interveio, com brilhos nos olhos, e eu não conseguia desviar os meus dele. Aquela viagem poderia ficar muito mais interessante do que eu imaginava.

— Parabéns a todos você, porque comida está excelente – disse a verdade, e tive vários obrigados de resposta.

— Na verdade, quem preparou a comida foi Josefa, a cozinheira, nós apenas picamos e cortamos – Luzia me explicou.

— Mas, está muito bem picado e cortado — brinquei, todos riram, um pequeno desvio e meus olhos se encontraram com os olhos castanhos e intensos de Nathan. Isso, realmente, estava ficando bom.

Depois do almoço, Nathan se ofereceu, delicadamente, para nos levar até a nossa acomodação, assim ele carregava uma mala em cada mão, subindo, sem dificuldade, o pequeno aclive, passando por pequenas casinhas com varandinhas e jardins bem tratados.

— Quando Tim comprou essa fazenda, se propôs a fazer um lugar onde as pessoas possam descobrir a verdadeira vida rural ou, pelo menos, parte dela, esquecendo da tecnologia e da dependência que ela traz – Nathan explicava, olhando pelos cantos dos olhos para Alexia, desesperada, erguendo seu celular tentando conseguir algum sinal. – Não adianta, moça, não tem sinal em lugar nenhum por aqui.

— Como assim, não tem sinal? – Alexia ficou um tanto exaltada.

— Porque essa é a proposta do lugar, sem celular, sem internet.

— Então, voltamos ao começo do século vinte, ou não temos eletricidade também? – Seu tom era desdenhoso.

— Sim, nós temos eletricidade, para o essencial. – Deu um sorriso cínico. – É aqui!

Paramos em frente a uma das casinhas, com uma pequena varanda na frente e o número seis na porta, que ele abriu. Meus olhos se voltaram, lentamente, na direção da minha irmã, com uma expressão de assombro e o olhar vidrado no ambiente espartano, pintado de branco com duas acanhadas camas solteiros, com colchas coloridas sobre elas, e mobiliário de pinho muito simples, somente o essencial. Alexia deu alguns passos para frente em direção ao banheiro minúsculo que mal cabia uma pessoa.

— É essa proposta desse lugar, voltarmos a vida simples, esquecer um pouco da vida moderna e a angústia que isso nos traz – Nathan quebrou o silêncio.