E aí, cê topa?
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Parque Avenue — 20h
— Alô?!
— Amélia, sou eu, Brad. Estou falando de um telefone público.
— O que? Por que?
— Precaução. Olha, só liguei pra dizer que o presente já está com a Stella.
— Isso significa...
— Que agora não tem mais volta.
— Quando você fará?
— Hoje.
***
Stella mantinha seus olhos sobre o brilho de todas aquelas estrelas. De alguma forma, aquele simples ato a acalmou, pelo menos um pouco.
— Pegamos algumas latas de refri. Realmente não quero causar um acidente hoje dando bebida pra vocês. — disse Don voltando para o terraço com Mac.
— E eu peguei o melhor pavê que essa cidade já viu. Sério, eu experimentei, está uma delícia.
— Espera, experimentou o pavê? Isso é contra as regras.
— Ah, então você pode experimentar as sobremesas e eu não?
— Isso aconteceu há quase um ano. Você tem que superar, linda.
Enquanto a pequena discussão sobre sobremesas acontecia, Mac aproximou-se de Stella que ainda estava distraída e não havia falado uma única palavra.
— Está distraída.. São só as estrelas ou há algo a mais? — Stella desviou seu olhar relutantemente das estrelas, indo de encontro aos de Mac. Ela viu tudo que mais amava naqueles oceanos, e aquilo só fez sua raiva crescer. Ela o amava e o odiava ao mesmo tempo.
Ignorando sua pergunta completamente, Stella irrompeu a discussão entre Don e Jamie com uma voz doce, que carregava mais raiva do que qualquer um ali poderia imaginar.
— Don, será que pode me emprestar seu quarto um minuto?
— Claro.. Fique a vontade. — Stella somente olhou para Mac, com um olhar que ele conhecia muito bem, e se afastou dos amigos sendo seguida por ele.
Don e Jamie observaram a cena sabendo que alguma coisa naquele meio tempo havia tirado a grega do eixo.
***
— Por que estamos aqui? O que aconteceu? — indagou Mac fechando a porta atrás de si.
— Eu disse que o que mais me importava nisso tudo era sua felicidade. E se você admitisse pra mim que sentia algo pela Aubrey, eu ia entender. — disse calmamente. — Mas a Quinn, Mac? É sério? Logo a Quinn? — seu tom de voz aumentava conforme sua raiva ia subindo.
— Stell, do que você está falando? — Mac tentou se aproximar, mas Stella afastou-se bruscamente, fazendo-o a olhar assustado, sem entender sua reação.
— Não sabe mesmo do que eu estou falando?
Mac negou.
— Deixe-me refrescar sua memória.
Stella pegou o celular do bolso do casaco e pôs o recado novamente. Ao ouví-lo, Mac fechou os olhos brevemente.
— Stella, eu..
— Você o que? Pode explicar? — ironizou com raiva.
— Não é nada disso que você está pensando. Por favor, deixa eu te contar o que aconteceu.
— Eu não quero saber o que você e a Shelby fizeram ou deixaram de fazer. Na verdade eu não quero ouvir mais nada agora.
Stella passou por Mac, mas ele a impediu de ir até a porta segurando seu braço.
— Espera!
— Mac, por favor, eu não quero.. — antes que Stella completasse, Mac a puxou, colando seu corpo no dela.
— A Quinn disse que estava na cidade e me chamou pra conversar. Eu fui porque acreditei que se tratava de algo sério, mas no meio da conversa ela começou a falar sobre nós dois, e quando eu a cortei ela tentou me beijar. Eu prometo que não aconteceu absolutamente nada entre nós.
Stella tentava se manter firme. Ela não queria sentir nada além de raiva naquele momento. Mas aquela proximidade de Mac a estava desestabilizando.
—...Se não quiser conversar, tudo bem. Eu não vou te pressionar. Mas antes, olha nos meus olhos. Você me conhece melhor que ninguém, e sabe que eu não sei mentir quando te olho assim. — seus olhos não desgrudaram dos dela um segundo sequer. Enquanto ele falava, suas mãos seguravam a cintura dela firmemente. Seus polegares faziam movimentos repetitivos, indo para cima e para baixo num ato de carinho.
Apesar de toda raiva que estava sentindo, Stella podia ver a sinceridade em suas palavras e em seus olhos. Mas, ainda que acreditasse nele, a raiva falou mais alto.
Depois de um longo suspiro e de quebrar o contato com seus olhos, ela se afastou.
— Eu não posso fazer isso agora. Não quero ser injusta com você e ainda tô com muita raiva. — disse sem olhá-lo.
— Posso ao menos levá-la para casa? Está tarde e...
— Não, eu preciso ficar longe de você um pouco. — completou, enfim saindo do quarto.
Dizer que aquelas palavras não doeram seria a mentira do século. Mac havia, pela segunda vez no dia e por motivos similares, andado numa corda bamba, quase perdendo-a. Por mais difícil que fosse admitir para si mesmo, o seu maior receio havia se concretizado: apaixonar-se por Stella Bonasera.
***
Do lado de fora do quarto, Don e Jamie escutavam tudo enquanto comiam pavê em pé na cozinha. Não exatamente porque eles queriam escutar, mas porque no imenso silêncio que havia naquela casa, a discussão deles era a única coisa que o quebrava.
— Acha que acabaram? — indagou Lovato após o silêncio voltar ao seu lugar.
Antes que Don respondesse, Stella saiu do quarto à passos longos, sendo encarada pelos dois.
— Por favor, não o incentive a me procurar. — pediu a Don, que simplesmente assentiu.
— Vá com cuidado. Amanhã nos falamos. — disse gentilmente.
— Ah, separei pavê pra você.. — Jamie pegou o pote com pavê que havia separado e caminhou até Stella, que a olhou com um sorriso de canto. — Quando sua raiva passar, você vai querer isso. Acredite!
Com uma leve risada, Stella pegou o pote.
— Obrigada. Vejo vocês amanhã. — após um último aceno, eles a viram sair do apartamento.
— Para apenas dois amigos até que eles são bem convincentes como namorados. — comentou Lovato com um breve suspiro.
— Tem razão. — concordou Don. — Vou descobrir em qual roubada ele se meteu dessa vez. — Jamie sorriu e deu mais uma colherada em seu pavê. — Ah, a propósito.. Obrigado por não ter comentado nada. Se eles souberem que te contei sobre o combinado deles, provavelmente serei um policial morto.
— Tudo bem, mas o que te levou a marcar esse jantar, afinal? — Don sorriu e aproximou-se novamente de Jamie.
— Eles só fingem assim tão bem porque no fundo é exatamente como eles queriam estar. Eu soube disso no momento em que Mac me disse que só aceitou esse acordo porque Stella é sua amiga e parceira. Fala sério, Mac não faria isso nem se fosse apaixonado pela garota. — disse, dando de ombros.
— Mas.. — começou Jamie confusa, mas Don logo a interrompeu.
— Stella é diferente. Ela sempre foi, e ele sempre soube disso. — completou com um sorriso de canto. — Por ela, ele é capaz de fazer qualquer coisa, até se submeter à um acordo como esses. Por isso, seja lá o que estiver acontecendo, ele tem que dar um jeito e rápido.
— Vai incentivá-lo a ir atrás dela? Sabe que se o fizer, ela vai ficar chateada.
Don refletiu por alguns longos segundos. Realmente incentivar Mac a ir atrás de Stella não seria a melhor das alternativas. Ela estava chateada e merecia um espaço.
— Não, não vou fazer isso. Acho que dessa vez bancar o cupido não é o ideal. Mac só precisa de um amigo, assim como Stella pode precisar de uma amiga.. — disse olhando em seus olhos como se quisesse que aquele simples olhar passasse exatamente o que estava em sua cabeça.
— Não sei se sou a pessoa certa pra esse papel. Talvez devêssemos pedir a Lindsay, elas são próximas.
— Lindsay teve que viajar de última hora pra Montana. E o melhor amigo dela meio que não está disponível no momento. — ironizou.
Jamie semicerrou seus olhos enquanto encarava Don. Havia algo em todo aquele discurso que não fazia sentido.
— Não marcou esse jantar só por causa deles dois, não é?
Don riu.
— Bem... Talvez não. — respondeu. — Você e a Stella têm tantas coisas em comum que eu pensei que poderiam ser amigas..
— Você é tão fofo. — zombou enquanto levava uma das mãos até o rosto de Don, apertando-o carinhosamente.
— Eu sei. — disse convencido. — Vou lá ver como ele está. Pensa sobre o que eu te falei, por favor.
Jamie o analisou por alguns breves segundos, por fim consentindo. Don esboçou um leve sorriso e afastou-se, deixando-a desfrutando de seu delicioso pavê.
***
Pela segunda vez naquele dia, ele se sentia péssimo. Claro que, comparado à primeira vez, péssimo era apenas um eufemismo para como ele se sentia naquele momento. Sua mente procurava incansavelmente uma forma de consertar as coisas com a mulher que há pouco estava em seus braços.
Como um flexe, o primeiro beijo veio à sua memória. A forma como seus lábios encaixaram-se perfeitamente e os batimentos acelerados que se deram por consequência daquele momento tão esperado, apesar de não saberem.
— Está muito encrencado? — a voz calma de Don ecoou pelo quarto silencioso. Mac simplesmente acenou positivamente com a cabeça, sem olhá-lo.
— Ela tem razão em estar irritada comigo. Além disso tudo eu ainda menti pra ela.. — suspirou pesadamente.
— Sobre..? — indagou aproximando-se e sentando ao lado de Mac na cama.
— No início dessa semana Sinclair nos procurou pra falar sobre uma nova avaliação que teria que ser feita no laboratório. Ela estava marcada para somente daqui a alguns meses, mas teve que ser antecipada até mesmo pelas novas contratações que fizemos nos últimos dois meses e algumas compras de novos equipamentos. — explicou. — Depois que ele saiu da sala, Stella comentou sobre a Quinn. Mas eu estava com tanta raiva do que havia acontecido que eu nem cogitei chamá-la pra essa avaliação. Só que ao invés de explicar a ela o porquê, eu simplesmente disse que não falava com a Quinn desde a última avaliação, que foi há quase 1 ano e meio atrás.
Don arregalou os olhos em sinal de espanto.
— Por que não contou a ela sobre o que rolou na semana passada? Vocês nem estavam com essa idéia de namoro falso ainda.
— Porque se eu contasse isso, teria que contar a parte em que Quinn e eu nos beijamos enquanto eu estava casado. — suspirou.
— Achei que Stella soubesse disso.
— Eu não tive coragem de contar a ela. Sei que não estamos juntos de verdade, mas..
— Tem medo do que ela possa pensar de você. — concluiu. Mac se levantou, passando uma das mãos em seu cabelo de forma irritada.
— Você sabe que eu não estou nem aí para o que as pessoas pensam de mim, mas a Stella.. Eu não quero que ela me ache um canalha. E é exatamente assim que eu tenho agido ultimamente.
— Mac, qual é! Stella não vai te julgar por algo que aconteceu há mais de 10 anos.
— Mas não é só isso. — seu tom de voz passava tristeza e raiva, enquanto suas mãos gesticulavam com intensidade, refletindo o que ele estava sentindo. — É também o fato de eu não ter aberto o jogo com ela em relação a Aubrey logo de cara. É ter mentido sobre a Quinn quando tudo que a Stella faz é me contar a verdade. É ter concordado com essa idéia doida de namoro falso quando eu tinha certeza de que confundiria as coisas. Eu tô com raiva por não ter te escutado, e mais raiva ainda por ter me apaixonado por ela. Don, isso não podia ter acontecido. Eu.. — Mac respirou fundo, tentando afastar um pouco daquele sentimento que o estava consumindo. — Eu não sei o que fazer.
Suas mãos buscaram apoio em seu quadril, enquanto seus olhos passaram a observar o chão. Don o olhava com serenidade. Apesar de não esperar pela repentina confissão de seu amigo sobre seus sentimentos, ele não estava totalmente surpreso.
— Eu tô feliz que não tenha me escutado. — disse em um tom baixo, após alguns segundos em silêncio.
Mac voltou a olhá-lo, vendo um pequeno sorriso se formar nos lábios de Don.
— Acho que você está apaixonado por ela há muito mais tempo do que realmente acha. Talvez se você tivesse me escutado, não saberia disso agora.
— Eu ainda não tenho certeza se isso é bom ou ruim. Eu só sei que só de pensar na possibilidade de magoá-la, eu me sinto a pior pessoa do mundo.
Don se levantou e caminhou até Mac, pondo uma mão em seu ombro.
— É bom você continuar com esse pensamento, porque se magoá-la.. Já sabe.
Mac soltou uma leve risada.
— É, eu tô sabendo. — sorriu. — Amanhã eu vou chamá-la para conversar e contar tudo.
— Até que está apaixonado? — indagou Don com entusiasmo, se afastando.
— Sim, e pedir desculpas por ter quebrado o acordo de esquecer tudo que aconteceu noite passada. — Don logo arqueou uma sobrancelha ao ouvir aquelas palavras.
— O que rolou noite passada? Vocês...?
— O que? Não! — respondeu rapidamente, sentindo um rubor surgir em suas bochechas como se tivesse voltado a sua adolescência por um instante. — Eu tenho que colocar minhas idéias em ordem. Preciso pensar numa solução pra isso tudo.
— Você quer dizer uma solução que não envolva se declarar?
— Sei que contar a ela pode pôr em risco tudo que construímos nesses anos, mas não vou esconder mais nada dela, nem mesmo que me apaixonei.. — respondeu firme, convicto de que no fim, tudo estaria bem entre eles novamente.
***
Mac saiu da casa de Don por volta de meia noite, horário em que o taxista deixara Stella em frente ao laboratório. Ir na manhã seguinte de táxi ou até mesmo de carona com Mac estava fora de cogitação, então pegar seu carro era a melhor opção, por mais tarde que fosse.
Enquanto o vento gelado e a chuva fina completavam a noite, Stella tentava desesperadamente manter longe de sua cabeça tudo que acontecera há pouco. E apesar de tamanho esforço, a frase que Quinn dissera no recado martelava em sua mente repetidas vezes.
— Droga, Mac! — sussurrou com raiva. — Por que você mentiu pra mim?!
Antes que alguma possível resposta surgisse em sua mente, um carro quebrado no acostamento chamou sua atenção. Havia um homem observando o motor com um semblante confuso. Após um suspiro, Stella decidiu parar para ajudá-lo.
— Droga! — murmurou o homem.
— Quer uma ajuda? — indagou Stella aproximando-se. O homem arqueou os olhos, sorrindo levemente. — Brad?!
— Stella! Que coincidência, e que sorte a minha. — disse sem graça. Stella o olhou com uma expressão desconfiada, mas logo a deixou de lado.
— O que aconteceu?
— Eu não sei bem, na verdade. Ele começou a engasgar e de repente morreu, depois não quis mais ligar.
— Bom, eu posso te dar uma carona.. Se quiser. — disse de forma simpática.
Brad olhou para o carro uma última vez antes de suspirar pesadamente.
— Não há chances de conseguir um reboque agora, não é? — Stella negou. — Certo, eu aceito uma carona. Só vou pegar minhas coisas dentro do carro. — Stella sorriu de canto e entrou no carro, ligando-o.
Ao ver que Stella não estava olhando, Brad pegou o pequeno sensor que havia arrancado do carro, para que o mesmo não funcionasse, e o guardou em seu bolso. Seus lábios contraíram-se num sorriso presunçoso, que logo se desfez ao ir de encontro à Stella.
— E então, em qual hotel você está ficando? — perguntou ao vê-lo entrando em seu carro.
— No Plaza.
— Que sorte! Fica próximo ao meu apartamento.
— Sério? Nossa! — disse com entusiasmo.
Seria mais uma coincidência?!
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