Notas iniciais
volteeeeeeiiii!! Demorou, mas estou aquiii!! hehehe

Minutos se passaram.

Nenhum de nós se mexeu. Ficamos ali parados, olhando para o vazio, enquanto refletíamos sobre tudo o que havia acontecido.

Eu estava tentando parar de chorar, mas havia perdido o autocontrole. Além disso, minhas costas estavam seriamente arranhadas e sangrando. Todas as partes do meu corpo doíam e tremiam de cansaço. Não conseguia me mexer um centímetro sem sentir picadas de dor. Apesar da minha falta de memória, tinha certeza de que essa tinha sido a noite mais traumática, mais horrorosa da minha vida.

Com um gemido, virei-me para o lado do Penhasco, onde o Labirinto terminava. O céu estava começando a clarear aos poucos. Os raios do sol deixando partes dele com uma cor alaranjada.

Enxuguei as lágrimas com a mão e, tomado por curiosidade, fui engatinhando ver novamente a imensidão vazia. Quando cheguei a beirada, olhei para baixo de novo, tentando saber se com a claridade do sol dava para enxergar alguma coisa. Mas não vi nada. Apenas o muro de pedra do Labirinto que se estendia verticalmente rumo ao vazio abaixo. Era como se estivesse mesmo flutuando no ar, ou então estivesse incrustrado sobre algo a quilômetros do chão.

Isso não pode ser real. Pensei. Deve ser alguma ilusão ou magia. Alguma coisa desse tipo.

Voltei-me para Minho e Percy que estavam caídos no chão, junto ao muro. E de repente me veio à mente o que Newt ou Alby havia me dito, que ninguém havia sobrevivido uma noite no Labirinto.

Dei um suspiro.

— Não acredito que estamos vivos.

— Nem eu. — murmurou Minho.

— Nem eu. — disse Percy.

Alguns minutos de silêncio.

— Cara, não consigo acreditar mesmo. — disse Minho, massageando os ombros. — Passamos uma noite no Labirinto com os Verdugos e... sério... ninguém nunca conseguiu.

— Que ótimo. — Percy tentou se levantar, mas tombou de lado. — Fomos os primeiros a inaugurar o Labirinto de noite. O que vamos receber por isso? Algum prêmio?

— Quem dera, Fedelho.

— Será que matamos todos os Verdugos? — perguntei. — Ou ainda tem mais?

— Não sei. Tomara que não tenha mais.

— Vocês viram? — indagou Percy. — O grito dos Verdugos quando caíram... se apagou de uma vez.

— É, isso foi muito doido. — Minho se levantou com um gemido. Ele olhou para a minha espada que estava no chão, e a pegou. — Onde você arranjou essa espada mesmo?

Balancei a cabeça.

— Não faço ideia. Já disse. Eu vim com ela em meu bolso quando estava no elevador. Vira um celular pequeno quando aperta esse botão na base dela.

Minho apertou o botão, e a lâmina encolheu-se imediatamente, voltando a transformar-se em um celular.

— Uau! — exclamou, com um sorriso. — Isso é muito louco.

— Percy também tem uma espada. — falei. Levantei-me, gemendo e tentando não cair. — Só que a dele é uma caneta.

Minho virou-se para Percy.

— É, eu já vi. Isso é muito estranho. Vocês dois são estranhos. — ele contraiu os olhos, e nos olhou como se fôssemos ladrões disfarçados. — Como aquele cachorro gigante apareceu no Labirinto?

Percy encolheu os ombros.

— É a mesma coisa que me perguntar por que estou usando essa blusa laranja que tem um cavalo com asas desenhado. Simplesmente não faço a menor ideia.

— Será que os Verdugos são criaturas mágicas? — ponderei. — Por que quando Percy acertou um deles com a espada, a lâmina passou por ele inofensivamente. Agora, quando caem nesse imenso buraco, parece que somem de uma vez.

— Certo... Okay. — Minho me entregou o celular e murmurou. — Estou com a cabeça cheia demais para pensar nisso. Vamos, temos que voltar.

Foi quando lembrei-me de Alby.

Arquejei.

— Precisamos mesmo voltar. — dei alguns passos, mancando por causa da dor na perna. — Alby está preso nos ramos de hera. Precisamos soltá-lo.

Minho ficou com uma expressão confusa no rosto. Percy explicou a ele como havíamos feito para tentar salvar Alby.

— É impossível que esteja vivo. — disse Minho, baixando os olhos.

— Por que? — indaguei.

— Por que ninguém nunca... — ele se interrompeu. Depois continuou em um suspiro. — Quando nós os encontrávamos, já estavam mortos.

— Hã... certo. Mas Alby foi apenas picado por aquelas agulhas, não?

— Não sei não. Poucos trolhos foram picados durante o dia. E esses foram os que receberam o Soro e passaram pela Transformação. Os que passaram a noite no Labirinto nunca foram encontrados, e quando foram, estavam mortos de um jeito que você não iria querer saber.

— Depois do que eu passei aqui, posso ter uma bela ideia. — murmurou Percy.

Começamos a caminhar de volta para a Clareira. Cada um de nós andando lentamente e gemendo.

Eu fiquei surpreso quando percebi que estava familiarizado com o caminho de volta. Dobramos uma esquina e continuamos a andar.

— E esse Soro? — perguntei. — O que é isso afinal?

— É exatamente um Soro, Fedelho. — respondeu Minho. — O Soro da Dor.

— Ah! Uau! — aplaudi. — Que explicação fascinante. E por que o chamam assim? E por que chamam os Verdugos de Verdugos? E por que usam essas linguagens estranhas, de “Mértila” e “Trolho”?

— Fedelho, cale essa boca! Pare de fazer perguntas.

— Se eu faço perguntas, é por que eu não sei de nada sobre esse lugar idiota em que estou vivendo.

— Concordo com você. — sorriu Percy.

— Não sei de onde tiramos esses nomes, mas o Soro vem dos Criadores... que é o nome dado as pessoas que nos colocaram aqui. O Soro vem junto com os suprimentos na caixa toda a semana, sempre veio. Não sei bem o que é. Talvez um medicamento ou um antídoto, que já vem pronto para o uso dentro de uma seringa. Então você aplica esse negócio dentro do braço de alguém que foi picado, e ele irá começar a passar pela Transformação. Isso é horrível, mas salva a vida do cara.

Dobramos em uma curva e continuamos a andar pelos corredores intermináveis. Eu ficava pensando sobre todas essas informações que obtivera. Precisava saber mais sobre esse negócio de Transformação.

— Será que Alby ainda está pendurado no muro? — perguntou Percy para mim.

Balancei a cabeça.

— Não sei. Mas é bom que esteja.

Quando dobramos mais uma curva, vi que as Portas da Clareira já estavam abertas, agigantando-se a nossa frente. E fora dela, um grupo de Clareanos que pareciam estar procurando algo. Tínhamos conseguido voltar. Entre os garotos estava Newt, que quando nos viu, seu queixo caiu e os olhos quase saltaram para fora.

— Vocês!? — exclamou ele, incrédulo.

— Hã... nós. — disse Percy.

Ele se aproximou mancando, nos olhando de cima a baixo.

— O que aconteceu? — havia um pouco de irritação em sua voz. — Como vocês...? — ele balançou a cabeça. — Vão logo para dentro e deem um jeito nessas caras e roupas imundas. Quero saber de tudo depois, tudo.

— Calma aí. — disse eu. — Obrigado pelas boas vindas calorosas, mas temos que salvar Alby primeiro.

— Salvar Alby...? — Newt me olhou fixamente. — Do que está falando?

Comecei a olhar para a hera dos muros e a procurar onde Percy e eu havíamos deixado o corpo de Alby. Depois de alguns minutos, apontei para cima.

— Ali.

Todos ergueram as cabeças e olharam.

O corpo de Alby estava pendurado a oito metros do chão, amarrado nas trepadeiras pelos braços e as pernas.

— Ele ainda está vivo? — perguntou Newt.

Tomara que sim, pensei.

— Não sei. — não estava com a mínima vontade de ficar ali parado. Queria simplesmente tomar um banho e dormir. — Quando Percy e eu o deixamos ali, ele ainda estava respirando.

— Quando vocês...? — Newt ergueu as mãos, impaciente. — Okay. Chega! Tratem de ir para dentro. Passem por um exame com os Socorristas, e depois descansem.

— Adoro essa ordem. — murmurou Percy.

Não discutimos. Apenas atravessamos o grupo de Clareanos que nos olhavam como se fôssemos apenas uma ilusão. Aquilo me deixou desconfortável, no entanto segui em frente com Minho e Percy.

Quando entramos na Clareira, mais garotos vieram nos ver. Parecia que havíamos feito algo milagroso, por que todos nos olhavam com perplexidade. Gally, o sujeito estranho que falava que já havia me visto, me olhou com ódio por um tempo, depois saiu. Aquele cara era muito psicótico.

— Precisamos dormir e receber curativos. — disse Minho.

Os minutos seguintes foram muito confusos para mim. Fomos escoltados pelos Socorristas para dentro da Sede, passamos por exames, e várias outras coisas que não conseguia lembrar de tão cansado que estava. Quando me dei conta, estava deitado na cama em um quarto, sozinho. O travesseiro fofo me dava uma sensação maravilhosa.

Após alguns minutos, adormeci em um sono profundo. E tive sonhos perturbadores.

Estava em um corredor longo e sombrio. Uma leve luz azulada vinha do fim do corredor, deixando o ambiente ainda mais soturno e amedrontador. O piso era preto e branco, como o de um tabuleiro de damas. E em ambos os lados do corredor, haviam várias portas que estavam fechadas. Uma névoa fina pairava sobre o lugar.

Eu estava parado, tremendo, sem me atrever a me mexer para frente. De repente, uma voz ecoou, vinda do final do corredor.

— Raphael!

Eu me empertiguei.

Quem estava me chamando?

— Raphael! — a voz gritava. — Socorro!

A voz continuava a gritar.

Eu respirei fundo e avancei para frente, passando por entre as portas fechadas. Quando cheguei na metade do caminho, uma das portas se abriu atrás de mim com um rangido. Um terror percorreu meu corpo. Olhei para trás, e uma garota estava em pé com os olhos fixos em mim.

— Semideus. — rosnou ela.

Imediatamente, seus cabelos se incendiaram, ficando flamejantes. Seus dentes ficaram pontudos como de um vampiro, e a pele de seu corpo perdeu totalmente a cor, ficando branquíssima. As pernas eram diferentes, mas não consegui saber o porquê.

O pavor me encheu completamente, e então corri para o fim do corredor, para perto do som dos gritos. Outras portas se abriam violentamente, e vários monstros horríveis saiam de dentro e começavam a me perseguir. Eu corria o mais rápido que podia, quando o chão a minha frente desapareceu, e eu caí na escuridão.

O sonho mudou.

Caí em cima de uma duna de areia fofa e saí rolando, a areia invadindo minha boca e minhas roupas. Quando cheguei ao fim da duna, estava coberto de areia. Eu tossia enquanto me levantava, atordoado e confuso. Olhei para cima, e vi um céu azul limpinho, sem nenhuma nuvem. O cheiro de água salgada entrava por minhas narinas. Pude ouvir o som do mar ali perto.

Onde estou? Me perguntei.

Ouvi passos atrás de mim. Virei-me, e me deparei com um homem alto e forte. A pele bronzeada, os olhos verdes, os cabelos e a barba pretos. Ele me olhava fixamente.

— Prepare-se. — disse o homem. — A situação está para ficar ainda mais difícil. Não confie em tudo o que você vê e ouve. Fique atento a situações estranhas e complicadas, por que as vezes não há nada de complicado. Pense bem antes de tomar qualquer decisão. A solução pode estar na frente dos seus olhos.

Franzi a testa.

— O quê?

O homem fez surgir em suas mãos um objeto estranho. Era parecido com um gafo gigante, só que havia apenas três pontas grossas no final. Era com aquilo que ele comia macarrão no almoço?

— Mantenha a fé. E lembre-se: Armas mágicas só funcionarão contra criaturas mágicas.

Dito isso, ele se transformou em água e foi levado pelo o vento.

Acordei com alguém me sacudindo.

— Huummm... — resmunguei, ainda deitado. — Me deixa dormir.

— Ei, trolho, acorda. — era Chuck.

Dei um gemido e abri os olhos. Ele estava ao meu lado, me olhando com empolgação.

— O que você quer? — perguntei, um pouco irritado.

— Você não quer saber?

— Saber o quê?

— Alby... ele está vivo.

Dei um suspiro, aliviado.

— Que ótimo.

— Tem outra coisa.

— O quê?

Os olhos dele se direcionaram para a porta, depois para mim.

— Chegou mais um calouro hoje, enquanto vocês dormiam.

Sentei imediatamente na cama, no entanto, uma tontura me acometeu.

Pus a mão na cabeça.

— Hã... e quem é o garoto dessa vez?

— Na verdade... — sussurrou Chuck, se inclinando em minha direção. — É uma garota.