E Se Fosse Verdade? 3 - A Batalha do Labirinto
19 Tudo vai mudar!
Uma garota?
Fiquei pensando naquilo ansiosamente. De acordo com o que Alby dissera, a cada mês um garoto chegava na Clareira sendo entregue pela a Caixa. Nos últimos dias, no entanto, isso não estava acontecendo. Percy havia chegado dois dias depois de mim, e no dia seguinte, mais um garoto chegara, por nome de Thomas. Ainda não o conhecia, mas sabia que mais cedo ou mais tarde iria acabar conhecendo-o.
Agora Chuck me contara que uma garota havia chegado. Por que iriam entregar uma garota agora? E qual o motivo disso? Será que a partir de agora iriam ser somente meninas chegando?
Saí da cama um pouco tonto, sentindo o corpo (que estava coberto de curativos) ainda extremamente fraco e dolorido. Apesar disso, não havia esquecido o sonho perturbador que havia tido. Quem era o homem que havia falado comigo? E o que significava aquilo tudo que havia dito? Sentia algo estranho dentro de mim com relação a ele, mas não sabia o que era.
— A garota chegou quando vocês estavam dormindo. — contou Chuck, vindo até mim. — Quando Newt e o restante abriram as portas da Caixa, ela estava desmaiada, com um papel na mão, mas além disso...
— Hã? — falei. — O quê? Desmaiada? Papel na mão?
— Sim! — A voz dele ficou estridente, cheia de ansiedade. — Ela estava desmaiada no chão da Caixa. Não sei por que. E tinha um papel na mão direita. Quando Newt abriu a mão dela e leu o papel, ficou muito confuso.
— Por que?
— Acho que por causa do que estava escrito no papel.
— E o que era que estava escrito? — perguntei, impaciente. — Por favor, conte logo tudo.
Chuck deu um sorriso torto e enfiou a mão no bolso, tirando de lá um pedaço de papel amassado.
— Eu trouxe para você ver com os seus próprios olhos.
Ele me entregou.
Desamassei o papel e tentei ler o que estava escrito, mas as palavras começaram a se mexer de repente, como se tivessem criado vida. Algumas delas pareciam que estavam dançando balé. Contraí os olhos, achando aquilo totalmente estranho. Só conseguia saber que as palavras no papel estavam em negrito.
Fiz força para ler.
ELA NÃO ESTÁ AQUI.
— Hã? — virei-me para Chuck. — O que isso quer dizer?
— Você não entendeu? — perguntou ele, admirado.
— Não. Uma garota chega desmaiada com um papel na mão dizendo: Ela não está aqui?
— O quê? — Chuck pegou o papel de mim e leu. — Você está com plong na cabeça, Fedelho? Aqui não diz isso.
— É claro que diz. — retruquei. — Se eu li.
— Leia de novo. Você deve estar muito doidão ainda por causa do Labirinto.
Peguei o papel e li de novo. Chuck estava certo. Eu havia lido errado. Não sabia o porquê. Pois ali, no papel, estava escrito outra coisa.
ELA É A ULTIMA.
***
Saí do quarto com Chuck atrás de mim, tagarelando sem parar.
— Não sei por que enviaram uma garota. Deve haver algo de estranho você não acha? Durante dois anos somente garotos chegaram. Agora de repente chega uma garota, isso é muito louco. E o que quer dizer: Ela é a última? Será que não vão mandar mais calouros para cá? E ela é muita bonita. Não que eu esteja apaixonado por ela. Mas ela tem cabelos loiros e...
— Chuck! — falei, olhando para ele. — Dá para calar a boca por um segundo?
— Okay, foi mal.
Olhei ao redor. Só agora que havia percebido que estava dentro da Sede, em um dos quartos. Á minha frente havia um corredor com outros quartos, mas estes estavam com as portas fechadas. Isso me fez lembrar de meu sonho, em um corredor sombrio e monstruoso.
Fui em frente, pensando em falar com Newt sobre o caso. Quando passei pelas duas primeiras portas fechadas, vi que a terceira estava entreaberta. Vi pessoas se mexendo lá dentro.
Virei-me para Chuck.
— Quem está aí dentro? — sussurrei.
Ele deu de ombros.
— Sei lá.
Aproximei-me da porta cautelosamente. Estava curioso para saber quem estava ali.
Abri a porta e dei uma espiada para dentro.
Newt estava em pé, com os braços cruzados, olhando para alguém deitado na cama. Sabia que se abrisse a porta mais um pouco, ele iria perceber. No entanto, não dei importância. Enfiei a cabeça para dentro, e vi uma garota deitada na cama. Parecia estar desacordada. Um garoto estava com um prato na mão ao lado da cama, provavelmente dando de comer a menina desmaiada.
— O que está fazendo aqui? — exclamou Newt, com o olhar em chamas.
Antes que ele pudesse me pôr para fora, vi que ela tinha mesmo cabelos loiros. A pele era bronzeada, como se tivesse estado na praia antes de vir para cá. Mas o pior não foi isso. Ela estava com uma camisa laranja sobre o corpo e calças jeans.
Foi quando a menina sentou-se abruptamente na cama. Meu coração deu um salto. O cara que estava com o prato na mão caiu para trás assustado. Newt recuou. Os olhos dela se abriram, arregalados. Eram impressionantemente cinzentos, como nuvens de tempestades. Sua respiração estava agitada, mas mesmo assim ela tomou fôlego e disse:
— Tudo vai mudar.
Após dizer isso, caiu na cama novamente e fechou os olhos, parecendo ter desmaiado de novo.
Newt me empurrou com uma mão para fora e com a outra fechou a porta atrás de si.
— Quem lhe deu permissão para enfiar essa sua maldita cabeça de mértila ali?
— Eu... hã... — tentei inventar alguma coisa, mas estava tão fraco e sem disposição para nada que falei logo a verdade. — Fiquei sabendo sobre a garota. Só queria...
— Não! — exclamou ele. — Você não pode entrar naquele quarto, a não ser que eu o chame, ou que você esteja doente e quase morrendo.
— Ou se você passar a noite no Labirinto lutando contra monstros horríveis. — murmurou Chuck.
— Me desculpe. — disse eu. — Só fiquei curioso a respeito.
Newt deu um suspiro.
— Olha, Raphael, sei que você está bastante confuso e atordoado. Acredite em mim, eu estaria se passasse a noite inteira com aquelas bestas nojentas. Mas tente não se envolver demais no que está acontecendo, okay? Dê uma folga a sua mente.
— Eu vi a blusa laranja que a garota estava usando. — murmurei. — Parece com a do...
Newt fez um gesto de silêncio com a mão.
— Não quero falar sobre isso. Não quero ter de bancar o detetive de coisas estranhas e absurdas agora. E não conte a ninguém o que você viu aqui, ouviu bem?
Ergui as mãos.
— Tudo bem... senhor.
— Vá para baixo e coma alguma coisa. Falo com você depois.
— Alby está mesmo vivo?
O olhar de Newt ficou um pouco tenso.
— Sim, está.
— Então onde ele...
Antes que eu acabasse de falar, um grito horrível saiu de dentro de um dos quartos atrás de mim.
Chuck e eu nos viramos abruptamente.
— Deuses, o que é isso?
— Vão lá para baixo! — gritou Newt, indo em direção a um dos quartos. — Não quero ver vocês aqui quando eu voltar.
O cara que estava dando de comer a garota, no quarto, saiu de lá apressadamente e seguiu Newt.
Fiquei assustado e curioso ao mesmo tempo. Quem estava gritando daquela maneira?
Chuck puxou meu braço e andou, levando-me com ele.
— Vamos. Não quero ter de ficar ouvindo esses gritos de perto.
— Mas quem está gritando desse jeito? — perguntei, confuso.
— É Alby. Ele está passando pela Transformação.
***
Enquanto comíamos o nosso almoço (já que eu dormira a manhã inteira), eu pensava em Alby. Será que teria valido a pena salvar a vida do cara só para depois ele estar sofrendo em dores e agonia? De onde estávamos, na mesa de piquenique perto da cozinha, podíamos ouvir perfeitamente o som dos gritos horríveis de Alby que saiam da Sede. Quer dizer, acho que de todos os lugares dava para se ouvir aqueles gritos.
Eu me sentia péssimo. Não conseguia comer direito. Alby provavelmente preferiria ter morrido ao invés de ter que passar pelas dores dessa tal Transformação.
Foi quando me lembrei de uma coisa. No primeiro dia que havia chegado aqui, havia outro cara que ficava gritando assim também, que passava pela Transformação.
— Chuck, quando cheguei aqui, havia outro cara que estava passando pela Transformação também, não era?
Ele assentiu.
— Sim. Era o Ben. Ele ainda está lá na sede. Acho que já está se recuperando.
A imagem de Ben doente na cama veio a minha mente. Era terrível.
— Espero nunca ter de passar por isso. — murmurei.
— Se ficar quebrando a regras e indo para o Labirinto direto, tem uma bela chance de passar por isso. — disse Chuck, com um sorriso.
Depois do almoço, quis ficar um pouco sozinho. Minha cabeça estava lotada de problemas e perguntas. Então decidi ir ao Campo-santo, ficar lá alguns instantes até que tudo ficasse mais calmo dentro de mim. No caminho, alguns garotos que estavam fazendo suas várias atividades me olhavam de forma estranha. Outros conversavam a respeito da garota.
No Campo-santo encontrei um lugar perfeito para ficar. Um local onde o mato era grosso e fofo, perto do imenso muro coberto de hera. Sentei-me e encostei a cabeça no muro. A exaustão da noite anterior ainda estava em meu corpo, muito embora não com tanta intensidade. Meus músculos estavam totalmente doloridos. Minhas costas ainda alfinetavam de dor.
Ali, comecei a pensar sobre tudo o que estava acontecendo. As imagens dos Verdugos, com os ferrões e o corpo bulboso vinham a minha mente. Percy e eu desesperados para encontrar um lugar seguro para Alby e para nós. O terror absoluto que senti quando o Verdugo começou a escalar a parede vindo em nossa direção. O cão preto gigante que aparecera do nada. A exaustão, a desesperança, o cansaço, a dor, o sofrimento, e um pavor nunca antes sentido por mim.
A realidade me tomou. Aquilo era mesmo verdade. Eu estava dentro de um gigantesco Labirinto indecifrável com monstros saídos de um pesadelo, e ainda por cima, sem lembrar de nada da minha antiga vida, antes de vir para cá. E aqueles sonhos esquisitos, aquela garota, as palavras que ela havia dito e a sensação que eu tive sobre ela... de que por um segundo, eu a conhecia...
CHEGA! Pensei, completamente atordoado e infeliz. Como alguém pode ser feliz numa vida como essa?
Coloquei a cabeça entre os braços e desejei que tudo fosse apenas um sonho. Não queria mais ter de viver naquele lugar. Uma tristeza invadiu-me.
Essa é a minha vida? Para sempre? Vivendo com um bando de aberrações do lado de fora?
Crack!
Um barulho de galhos se partindo veio de algum lugar.
Levantei a cabeça, logo entrando em estado de alerta. Vi a silhueta de uma pessoa andando por entre as arvores, indo em direção ao fundo do Campo-santo, onde ficava o cemitério.
Me levantei e tentei saber quem era aquela pessoa. Mas mesmo de longe eu pude reconhecer.
Era Percy.
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