Quando todos já haviam se recolhido para dormir, não conseguia parar de pensar em Ben e no seu sofrimento ao qual ele foi entregue. Todas as vezes que fechava os olhos, imagens assombrosas do rosto de Ben, aterrorizado e desesperado, enchiam minha mente. Queria poder esquecer aquilo. Queria poder pelo menos ter uma noite tranquila para variar, sem sonhos esquisitos ou pesadelos de monstros horríveis tentando me matar.

Ali, em meu saco de dormir, senti novamente a sensação de que minha vida estava ligada com essas coisas estranhas de monstros e com o tal Acampamento Meio-Sangue. Se queria realmente saber quem eu havia sido de verdade, deveria começar por esse Acampamento.

Mal terminei esse pensamento, e senti um dedo me cutucando nas costas. Imaginei que seria Chuck querendo conversar. Por isso disse baixinho:

— Chuck, se não se importar, eu estou tentando dormir.

— Não é o Chuck. — falou alguém.

Virei-me, e dei de cara com Percy, ajoelhado ao meu lado. Seu rosto dava a impressão de ter visto um fantasma.

De início fiquei me perguntando o que ele queria comigo. Depois me perguntei por que ele estava acordado a essa hora. Depois fiquei curioso por ele estar ali me incomodando.

Enfim, perguntei:

— O que está fazendo aqui?

Silêncio. Por um momento, ele não disse nada. Ficou olhando distraidamente para outros lugares, até que me encarou e disse:

— Eu tive um sonho.

Eu esperei, pensando que ele fosse começar a contar. Mas ele apenas continuava me encarando.

Eu dei um sorriso irônico.

— Então... o que você está esperando para começar a contar?

— Eu não sei. — sussurrou ele, sério. — Sonhei que eu estava em uma espécie de guerra.

— Guerra? — indaguei.

— Sim. Mas não uma guerra normal. Era, tipo, aquelas batalhas da antiguidade. Todos com armaduras, capacetes, escudos e espadas.

Fiz uma careta, dando a entender que não estava entendendo nada.

Ele revirou os olhos.

— Você nunca assistiu aqueles filmes de batalhas medievais?

Me perguntei como ele conseguia se lembrar de coisas como Filmes já Vistos.

Balancei a cabeça, assentindo. Ele continuou.

— Foi bem parecido. — coçou a cabeça, parecendo confuso. — Olha, não sei explicar muito bem, mas eu me via em uma dessas batalhas, dentro de uma floresta, usando uma armadura completa, capacete, espada e escudo. Não foi um sonho nítido, era mais como flashes, imagens que passavam rapidamente pela minha mente.

Eu ainda não conseguia entender qual o sentido daquilo. Estava preocupado com os meus próprios problemas. Mas se queria saber sobre o meu passado, deveria dar atenção ao que ele estava dizendo.

Virei-me e me sentei.

— Okay. Você se lembra de algo mais?

— Não... acho que não. — disse ele, pensativo. — Mas eu me sentia como se estivesse em casa. Como se aquilo fosse apenas... uma brincadeira.

Eu pensei no sonho e sobre o tal acampamento. E se Percy tivesse se lembrado de algo sobre esse lugar? Decidi perguntar.

— Você se lembra de alguma coisa sobre o tal Acampamento Meio-Sangue?

De repente, pensamentos sobre a garota que chegara invadiram a minha mente. Senti vontade de vê-la novamente. Senti vontade de falar com ela. Mais que isso, senti que... a conhecia.

Impossível, pensei. Eu não sei quem é ela. Nunca a vi.

Mas algo dizia que poderia não ser verdade. E seu a conhecesse de algum lugar? E se...

— Sim. — respondeu Percy, o que fez eu para de pensar e voltasse a minha atenção para ele.

— Sim o quê? — perguntei.

— Sim... eu tive imagens sobre esse acampamento. Memórias rápidas, mas consegui vê-las.

Uma linha gelada de ansiedade subiu por meu peito.

— E o que você viu?

— Coisas bizarras. Não foi muito nítido, mas ontem, enquanto dormia, vi um sujeito estranho. Ele tinha a parte inferior de seu corpo... de um cavalo.

Eu dei uma risada nervosa.

— Como é?

Alguém atrás da gente, provavelmente um garoto dormindo, resmungou furiosamente:

— Se não calarem a boca, seus mértilas, vou até aí e faço isso eu mesmo.

Silêncio.

Percy e eu nos entreolhamos, perplexos. Cheguei mais perto dele e sussurrei o mais baixo que pude.

— O que mais você viu?

Ele suspirou.

— Não consigo lembrar. Mas... eu sinto que esse acampamento é a resposta para as minhas perguntas.

Eu olhei para ele atentamente.

— Eu digo o mesmo.

Um sentimento de ansiedade estava tomando conta de mim. Toda vez que falava desse acampamento, não conseguia impedir que as palavras "Meio-Sangue" e "Semideus" viessem a minha mente.

Havia algo maior ali. Havia algo que, se eu não estivesse com perda de memória, teria sabido. Algo mais... estranho e poderoso.

— Precisamos achar uma saída desse lugar. — disse Percy. — Não quero ficar aqui para sempre.

— Eu sei. — falei. — Amanhã, Newt disse que íamos participar de um Conclave.

— Com o quê?

— Conclave. É tipo, uma reunião para debaterem sobre o que fazer com nós dois.

Uma pausa.

— E o que vão fazer? — perguntou Percy.

— Amanhã vamos descobrir.