E Se Fosse Verdade? 3 - A Batalha do Labirinto
24 O Banimento
Notas iniciais
Naquela noite, Newt reuniu todos os Clareanos em frente a Porta Leste, meia hora antes dela se fechar, os primeiros sinais do anoitecer aparecendo no céu. Os Corredores já haviam voltado e entrado na Casa dos Mapas. Newt disse-lhes para se apressarem nos seus afazeres, pois os queriam de volta em 20 minutos.
Em frente a Porta, todos estavam cochichando e murmurando uns para os outros. Eu estava atrás de um grupo de Clareanos, com Percy, Thomas e Royce ao meu lado. A tensão pairava no ar como uma neblina espessa. Eu não sabia como Ben ainda podia estar vivo depois que aquela flecha lhe atravessou a cabeça. Era impossível. E estava bastante atemorizado de que, se ele visse a mim e o Percy, pudesse começar a gritar coisas sem sentido sobre nós.
Lembrei-me do que Royce nos dissera, que Ben iria ser banido. Não sabia bem o que era ser banido, mas com certeza não devia ser coisa boa. Por que precisavam que todos estivessem em frente a Porta? O que iriam fazer com Ben? Será que iriam expulsá-lo da Clareira?
Após alguns minutos, os Corredores finalmente saíram do prédio de concreto e se encaminharam até a Porta. Minho havia saído primeiro, o que me fez pensar se ele era o Encarregado dos Corredores.
— Tragam-no aqui! — gritou Newt, dando-me um pequeno susto.
Cabeças se viraram na direção de três garotos grandes e corpulentos arrastando Ben do fundo da Sede. Um arrepio percorreu meus braços. Pelo modo como ele se debatia e resistia, acho que já deveria saber o que lhe iria acontecer. Seu corpo estava totalmente pálido e doentio. As roupas em farrapos penduradas sobre o corpo esquelético. Um curativo enorme cobria metade de seu rosto sanguinolento. Os três garotos mais velhos o arrastavam com força enquanto Ben se recusava a pôr os pés no chão. Seus olhos estavam repletos de terror.
Ao meu lado, ouvi Percy tomar fôlego. Ele se virou para Royce, os olhos cheios de preocupação.
— O que vai acontecer com ele?
Alguns segundos se passaram antes de Royce responder.
— Veja por si mesmo. — disse ele com uma estranha empolgação na voz.
Alguém tocou no meu ombro por trás, o que me deu um susto. Virei-me, e vi Thomas. Ele sussurrou:
— Será que vão manda-lo para fora daqui? Junto com os Verdugos?
A menção dos Verdugos fez um calafrio percorrer meu corpo.
— Parem de tagarelar e assistam. — disse Royce, como se aquilo fosse um grande espetáculo que precisasse ser apreciado.
Newt, que estava a poucos metros de nós, disse algo para um garoto perto dele. O garoto balançou a cabeça em concordância e saiu apressadamente em direção a um barracão de ferramentas usadas pelos jardineiros. O suspense estava prestes a me consumir.
Logo depois, ele voltou com uma estranha haste de metal comprida, a qual, na extremidade, havia algo como uma boca que se abria e fechava quando se apertava na base da haste. Entendi perfeitamente o que iria acontecer, e um calafrio me percorreu. O garoto aproximou-se dos rapazes que seguravam Ben, e apertou a base da haste de metal, e na ponta, a sua boca se abriu. Encostaram-na atrás do pescoço de Ben. A boca da haste se fechou, agora prendendo o seu pescoço. Parecia que Ben estava usando uma coleira de metal.
— Você mesmo pediu por isso Ben! — gritou Newt.
Lágrimas começaram a escorrer dos olhos de Ben. Os olhos tremiam. Fios de muco saiam de seu nariz. Seus olhos baixaram. Só agora pareceu notar que havia uma coleira de metal ao redor de seu pescoço. Foi quando começou a se debater, soltando grunhidos em forma de protestos.
Um sentimento de pena pelo o garoto me encheu, apesar de ele ter tentado matar Thomas, Percy e eu. Não queria que isso viesse a se tornar público, mas já era tarde. Todos já deviam estar sabendo.
Newt falou em voz alta, para que todos pudessem ouvir.
— Eu não queria estar no lugar de Alby, mas como ele está doente, sobrou para mim. — houve uma longa pausa. — Ben, dos Construtores, você foi sentenciado ao Banimento pela tentativa de assassinato dos Calouros Percy, Raphael e Thomas. Os Encarregados deram o veredicto. E a palavra deles não muda. — Newt olhou em volta e exclamou. — Encarregados, assumam suas posições!
Odiei que meu nome fosse falado naquele momento. Isso traria mais desconfianças ao meu respeito. Observei, e de um por um, os Encarregados começaram a tomar suas posições segurando a grande haste de metal, um atrás do outro, como se fossem brincar de cabo de guerra.
Um silêncio se instalou no ambiente. A tensão era palpável.
Nesse momento, Ben começou a falar, debatendo-se.
— Por favor, Newt. Por favor, não faça isso! Eu juro, não foi minha culpa. Foi o efeito da transformação. Eu vou melhorar! Eu juro!
— Cale a boca! — gritou Newt.
Mas Ben não se aquietava. Debatia-se de um lado para o outro tentando se livrar, enquanto dava gritos torturantes.
— Nãããããoooo! Me ajudem! — saliva respingava de sua boca.
— Se deixássemos pessoas como você se safar dessa — gritou Newt. —, nunca teríamos sobrevivido até aqui.
— Não, não, não! Eu juro que vou melhorar! Eu juro! Nããããã...
O seu grito foi cortado quando os Encarregados empurraram a haste de metal para frente, fazendo a cabeça de Ben pender para trás. O seu corpo foi empurrado forçadamente, enquanto ele resistia como podia.
Foi quando um estrondo de abalar a terra ecoou pelo ambiente, fazendo-me dar um grito. A Porta Leste começava a se fechar, indo da direita para a esquerda, o atrito com a terra fazendo faíscas saltarem.
— Agora! — gritou Newt.
Todos os Encarregados empurraram a haste de metal em direção as portas do Labirinto. Ben gritava e grunhia, apesar de seus gritos soarem abafados devido ao grande barulho das Portas. Os Clareanos se dividiram, fazendo um corredor, para que Ben passasse pelo meio. O garoto olhava para cada clareano e implorava-lhe que lhe ajudasse, mas eles desviavam o olhar.
— Por faaaavooooorrrrr! — um grito gutural saiu da garganta de Ben, enquanto tentava fincar os pés no chão. Os Encarregados o empurravam com força para fora.
Eu estava dominado pelo horror. Presenciar aquilo era terrível demais. Ben iria ser posto para fora da Clareira, para juntos dos Verdugos. Eu olhava aquela cena diante dos meus olhos em um estado de medo e horror completos.
“Ele não merecia isso” pensei. “É muito brutal”
Foi quando notei que Ben já estava fora da Clareira, entrando no labirinto, sendo empurrado pela a haste de metal. As Portas a poucos segundos de se fecharem.
— Aaaaahhhhh!! — berrou o pobre garoto, as veias do pescoço tensas e verdes. — Não façam isso!
— Parem! — ordenou Newt.
Eles pararam. Newt apertou a base da haste, e a coleira ao redor do pescoço de Ben se abriu. As Portas agora estavam a centímetros de se fecharem. Newt puxou a haste para dentro, deixando o garoto entregue a sua condenação.
No último segundo, antes de o muro da direita fechar, Ben soltou o seu último grito, penetrante e selvagem.
— Nããããããããããooooo!!
Tapei os ouvidos. Não aguentava mais aquilo.
A porta se fechou, pondo um fim aos gritos insanos do pobre garoto, e dando início a sua terrível condenação.
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