E Se Fosse Verdade? 3 - A Batalha do Labirinto
16 Ganhamos um cachorrinho
Notas iniciais
Dobramos uma curva a esquerda e continuamos a correr sem olhar para trás. Apesar do clamor de exaustão do meu corpo, não tinha dúvidas de que precisava continuar correndo até estar o mais longe que puder daquele monstro horrível.
Os sons metálicos dos ferrões do Verdugo não diminuíam nem um pouco enquanto corríamos, mas pelo menos não estávamos perto dele.
O barulho dos nossos pés sobre o chão de pedra se misturava ao zumbidos e ruídos de nosso perseguidor. A medida que eu corria ao lado de Percy, sabia que precisávamos decorar o caminho se quiséssemos retornar à Porta da Clareira.
Dobramos um corredor a direita. Depois a esquerda. Em frente. Direita. Mais uma esquerda. Os sons das nossas respirações ofegantes enchiam o local. Meu coração parecia que ia explodir. Minhas pernas alfinetavam de dor cada vez que batiam no chão.
Em um momento, Percy caiu no chão, exausto.
Parei abruptamente, me curvando enquanto inspirava uma enorme quantidade de ar. Me aproximei dele.
— Vamos — minha voz estava carregada de cansaço. — Temos... que... prosseguir. Você sabe que o Verdugo... ainda está nos... perseguindo.
Percy arfava, o peito subindo e descendo rapidamente.
— Eu sei. — ele se levantou, ficando de joelhos, e conseguiu dar um leve sorriso. — Só parei... para tirar um cochilo.
— Esse ia ser o seu último cochilo — murmurei. Meus cabelos pregavam na testa. Ajudei-o a ficar de pé. Foi quando vi as luzes do Verdugo se aproximando.
— Isso é uma droga. — Percy começou a correr novamente. Eu o segui, mesmo estando terrivelmente dolorido e morto de cansado.
Dobramos uma esquina em um corredor longo, o qual no fim se separava em dois, indo para lados opostos. Era parecido com a letra T. Quando estávamos chegando na metade do caminho, uma sombra negra gigante passou correndo no fim do corredor, saindo do lado esquerdo para o direito. Estava tão aterrorizado que dei um grito e recuei, caindo sentado.
Percy parou abruptamente.
— Meus deuses! — gritou ele, recuando. — Essa... sombra preta de novo. V-você viu?
Não consegui responder. Estava em estado de choque. Todo o meu corpo estava tomado de desespero. O estômago revirava, os braços e mãos tremiam, o coração parecia que ia arrombar o meu peito e sair correndo. Todo o Labirinto era de um tom obscuro e sombrio.
Percy enfiou a mão no bolso e puxou sua caneta. Destampou-a, e em um segundo uma espada reluzente estava em suas mãos. Aquilo me trouxe um minúsculo alívio. Havia me esquecido disso. Tínhamos armas para lutar.
Peguei meu mini celular e puxei a antena. A minha espada apareceu.
— Ah... — consegui dar um pequeno sorriso diante daquilo. — Pelo menos isso.
Pus-me de pé, cambaleando, e fiquei ao lado de Percy.
— O que... era aquilo? — perguntei.
— Não faço ideia. Mas enquanto corríamos por esses corredores, veio uma lembrança a minha mente. Eu, dentro de um túnel subterrâneo embaixo da terra. Não sei como, mas sabia que se tratava de um Labirinto também. Mas o estranho era que estavam comigo outras pessoas, só que não conseguia vê-las.
Eu fiquei atônito diante daquilo. Era exatamente o que eu vinha sonhando e lembrando nesses dias.
Eu abri a boca para começar a fazer perguntas, quando o Verdugo apareceu atrás da gente, rolando. Ele emitiu um grunhido horripilante.
— aaahhhh!
Gritamos, e voltamos a correr.
— Corre, corre! — Percy gritava.
Dobramos para a direita, e poucos segundos depois o Verdugo dobrou também. Estava na nossa cola.
Eu corria como nunca, colocando força nas minhas pernas e nos braços, no entanto estava começando a fraquejar. Não conseguia ar suficiente para os pulmões. A cabeça começou a latejar. A desesperança e o sofrimento me consumiam. Era só uma questão de tempo antes que mais Verdugos se juntassem aquela perseguição.
Esquerda. Correr. Direita. Correr.
Por fim, não aguentei mais. Havia atingido o limite do meu corpo. Sabia que se continuasse correndo, provavelmente morreria de cansaço.
Desabei no chão, rolando e arquejando, sentindo uma exaustão extrema. As forças haviam se esgotado. A energia se esvaíra por completo. Meu rosto e meu corpo estavam empapados de suor. A minha espada caiu ao meu lado.
Percy caiu também, a espada deslizando no chão, e ficou respirando e gemendo, enquanto colocava as mãos no peito. Seu rosto estava pingando de suor também. A blusa suja e com restos de hera. O som do Verdugo se aproximava.
— É o fim. — ofegou Percy, a voz quase num sussurro. — É... o... fim.
Cada vez que respirava, a dor subia por meu peito. Estava vendo tudo girando. Não conseguiria mais correr. Não conseguiria mais. O nosso fim era ali.
O Verdugo chegou ao local em que estávamos. Seus ferrões se projetaram para fora, os braços mecânicos ganharam vida. Um tinha uma serra elétrica no fim.
Ele começou a emitir barulhos e estalos.
Zuuuiiirrrr
Clique-clique
Zuuuuiiirrr
Clique-clique
Ele foi se aproximando, não rolando, mas sim lentamente, arrastando-se. Parecia saber que estávamos sem saída, que estávamos acabados. O corpo bulboso e gosmento pulsava.
Eu fechei os olhos, sentindo uma forte tristeza me invadir. Menos de uma semana na Clareira, e já estava morto. Meu corpo seria mais um no cemitério da Floresta. Seria mais um dos amigos dilacerados cujo o corpo não fora achado.
No entanto, Percy fez algo que fiquei com vários pontos de interrogação na cabeça. Ele pegou a sua espada do chão, levantou-se, olhando para o Verdugo, deu um grito e arremessou a espada em direção a criatura, na tentativa de causar algum dano. Mas a lâmina apenas deslizou no chão com um barulho agudo até chegar perto dele.
O Verdugo ficou imóvel, seu corpo pulsando como uma geleia grande e nojenta. Os ferrões se direcionaram a espada e ficaram pairando sobre ela. Ele parecia tentar entender o que era aquilo.
— Vamos... correr... agora. — sussurrou Percy, os olhos fixos na criatura.
Eu sabia que ele tinha razão. Era a nossa única chance ante ao momento de dúvida da criatura.
Peguei a minha espada. Percy ajudou-me a levantar, e quando nos viramos para correr, demos de cara com outra criatura horrenda.
Era um cachorro preto gigante.
— Pelos... deuses. — sussurrou Percy, boquiaberto.
Era de fato um cachorro preto em tamanho gigante. Os seus olhos brilhavam como carvão de churrasco, incandescente, e estavam cravados na gente. As patas longas com garras afiadíssimas. Os dentes igualmente afiados. Ele era tão preto que se misturava ao ambiente escuro e sombrio do Labirinto, quase como se se camuflasse. O bicho emitia um rosnado no fundo da garganta, enquanto se agachava, pronto para saltar e atacar.
Atrás de nós, os zumbidos do Verdugo recomeçaram.
Tive a ousadia de virar a cabeça e olhar. Percebi que a espada de Percy não estava mais no chão. Ela havia sumido. O Verdugo se transformou em uma bola, pronto para rolar e começar a fatiar tudo.
Era isso. Estávamos no meio de duas aberrações, sem poder nos defender. Sem chances de sobreviver. Era de fato o fim das nossas vidas.
Não, pensei. Não vou morrer como um fracote. Vou tentar lutar.
Ergui a minha lâmina para o imenso cachorro preto. Incrivelmente, ele pareceu hesitar. Tive a impressão de que ele havia ficado com um certo receio.
Percy tateou o seu bolso, e ficou surpreso quando viu que a sua caneta-espada estava de volta. Estranho.
Ele olhou para trás, e arquejou.
— O que vamos fazer?
O medo era tão intenso que não conseguia falar. Mas decidi pôr um fim naquela noite de pesadelos.
— Cada um fica com um monstro. — falei, a voz trêmula. — Eu fico com esse cachorrão.
Percy se virou para enfrentar o Verdugo. Destampou a caneta e ficou em posição. Eu olhei para o cachorro tamanho GG, tentando parecer valente.
— Vem... — disse eu.
O bicho rosnou e avançou.
Pelos rangidos e estalidos do Verdugo, diria que ele estava avançando contra Percy também. Queria ajuda-lo, mas no momento teria que se concentrar em minha própria luta.
O cachorro se aproximou, os olhos cheios de ódio. No momento em que foi me despedaçar com as garras, saltei para o lado. Novamente, os instintos me tomaram. Meus sentidos ficaram mais aguçados. Brandi a lâmina na esperança de ele se afastar, no entanto, o monstro parecia não se importar mais. Tentou me abocanhar, mas eu pulava para longe. Saltava em minha direção, mas conseguia me desviar.
Olhei para a luta de Percy contra o Verdugo. Os ferrões se projetaram para fora e tentaram espeta-lo, mas Percy se abaixou e rolou. Um braço mecânico com garra de três dedos tentou atingi-lo no rosto. Percy tentou golpeá-lo com a espada, só que a lâmina não o feriu, nem causou dano algum.
— Essa espada não atinge ele! — gritava Percy.
Eu fiquei tão surpreso por a espada não ter causado nada, que o cachorro veio em minha direção e me golpeou com uma pata, fazendo-me voar para perto do Verdugo. Uma serra elétrica tentou me partir em dois, e com um grito consegui sair de perto.
Foi quando um grito interrompeu a luta.
— Ei! Vocês! Estou aqui!
O Verdugo parou e ficou imóvel. O cachorro gigante olhou para alguém atrás de nós. Olhei também, e uma onda de alívio me encheu.
Era Minho. Ele deu um assovio agudo.
— Olhe para cá, sua bola gosmenta!
O Verdugo se virou, rangendo e zunindo. Minho agitou os braços tentando atrai-lo. E realmente funcionou. O Verdugo se encolheu, tornando-se uma bola, e rolou em direção a Minho que saíra correndo.
— Bem... — sussurrou Percy. — Ficamos com o cachorro.
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