E Se Fosse Verdade? 3 - A Batalha do Labirinto
17 Empurramos um Verdugo para a morte
Notas iniciais
— Cuidado! — gritou Percy.
O cão preto gigante investiu contra mim, abrindo a sua boca imensa, pronto para me devorar. Mas eu começava a me sentir irritado com tudo aquilo. Começava a querer que tudo acabasse. Não suportava mais ficar desesperado ao ponto de não conseguir avançar contra aquele monstro.
Então, com um grito, brandi minha espada para ele, tentando parecer valente.
— Vem! — gritei. — Quero ver você tentar me morder.
Como se impulsionado pelas minhas palavras, o cão gigante arremessou-se para frente rapidamente, abrindo a boca, mostrando os seus dentes tão afiados como punhais. Tive que saltar para trás por que, se não o fizesse, com certeza teria virado comida de cachorro. A sua boca fechou-se a centímetros do meu corpo. Tentei acertá-lo com a lâmina bem no focinho, no entanto ele se lançou contra mim com tudo, fazendo-me cair de costas no chão, a sua pata imensa sobre o meu peito, apertando-o.
Ele rosnou perto do meu rosto.
— Aaaahhh! — gritava.
Foi quando de repente o cão emitiu um ganido e se dissolveu em pelos. Alguns caíram sobre o meu rosto, fazendo-me espirrar.
— Como...? — tentei perguntar.
— De nada. — resmungou Percy, me levantando do chão. — Eu o atingi no traseiro com a espada. Não faço a mínima ideia do por que ele sumiu em meio a um monte de pelos, mas temos que procurar Minho. Ele deve estar em perigo.
Era verdade. Já havia me esquecido.
Juntos, nós voltamos a correr pelos corredores do sombrio Labirinto. Mal havíamos começado, quando dobramos uma esquina e demos de cara com três Verdugos.
— AH! — gritamos.
Eles estavam parados, como se estivessem esperando pela gente. Os corpos bulbosos pulsando para dentro e para fora, os ferrões para fora da carne, pronto para fatiar-nos.
Poderíamos ter lutado contra eles com nossas espadas (só que não.), no entanto, lembrei-me quando Percy atingiu um deles com a lâmina e não causou nenhum dano.
Demos meia volta e voltamos a correr, agora com os três seres nojentos nos perseguindo. Me perguntava até quando iria aguentar viver naquele pesadelo. Quando as Portas iriam se abrir? Cada milímetro do meu corpo doía. A respiração falhava em alguns momentos.
Dobramos outra curva e esbarramos em alguém.
— Ai! — era Minho. — Seus mértilas, onde estavam?
— Lutando contra um cachorro gigante! — exclamei. — Para onde a gente vai? Tem três Verdugos...
— Onde conseguiram essas espadas? — perguntou ele. Mas depois revirou os olhos e murmurou. — Depois falamos disso. Me sigam! — e saiu correndo. Nós obedecemos.
Minho corria à nossa frente, dando voltas e mais voltas. Parecia saber exatamente a onde estava indo. Sequer hesitava quando chegava a uma curva. Isso para mim era ótimo. Sabia que os Verdugos ainda estavam na nossa cola, seguindo nosso rastro. Os sons metálicos ainda ecoavam as nossas costas.
Quando dobramos mais uma curva, vi algo a minha frente que parecia... estranho.
O corredor não terminava em outro muro de pedra ou em uma curva.
Ele terminava na escuridão.
Á medida que me aproximava do fim do corredor, tentava compreender o que estava vendo. Os dois muros de hera em ambos os lados pareciam terminar em um vazio escuro. E eu pude ver estrelas. Sim, estrelas.
— O que... é... aquilo? — sussurrou Percy, as sobrancelhas franzidas.
Quando nos aproximamos mais, pude entender que era uma abertura. O Labirinto havia terminado ali.
Mas... como? Me perguntava. Descobrimos a saída assim tão fácil? Depois de dois anos de procura, achamos realmente uma saída?
— Não fique tão empolgado, Fedelho. — murmurou Minho, ofegando.
Alguns metros antes de chegarmos ao fim do corredor, Minho fez sinal para paramos. Percy e eu mal conseguíamos ficar em pé. O corpo explodia de fraqueza e exaustão. Se não estivesse tão curioso quanto aquela abertura, teria caído ali mesmo.
— Isso é... uma saída? — perguntou Percy. — Achamos...
— Não! — disse Minho. — Não pense... que vocês tiveram a sorte... de achar a saída... por acaso.
Caminhei até onde o Labirinto terminava e se abria para o céu.
Tudo o que podia ver em todas direções, abaixo, acima, do lado e do outro, era o ar vazio, simplesmente o nada. Estrelas brilhavam no céu e desapareciam ao longe. Aquilo era uma visão confusa e inquietante. Parecia que eu estava na beira do universo, vendo tudo de cima. Isso me deu tontura.
O amanhecer começava a despontar no horizonte, deixando o céu um pouco claro, como se a luz tivesse surgido no último minuto. Como aquilo era possível? O Labirinto estava flutuando no meio do nada? Meu cérebro não aguentou tamanha confusão de pensamentos e começou a travar. Decidi pensar naquilo depois.
— Pelos deuses. — Percy estava boquiaberto, enquanto olhava ao redor também. — Onde estamos? — ele tentou ir mais para frente, mas Minho o segurou pelo o ombro.
— Cuidado — disse ele. — Você não seria o primeiro trolho a cair do Penhasco. — ele fez um sinal com a cabeça. — Precisamos dar um jeito de escapar dos Verdugos.
Rapidamente, me veio à mente que eu já tinha ouvido falar de um Penhasco antes. Alby vivia falando que iria me atirar do Penhasco caso eu não me comportasse direito. Será que ele estava se referindo aquele lugar onde estávamos?
Um rangido afiado ecoou atrás da gente, me tirando dos pensamentos. Três Verdugos se aproximavam rolando, em fila indiana, com os ferrões e pontas alongando-se. Os braços mecânicos dobrando-se para todos os lados. Um entorpecimento encheu minhas pernas. Não estava com a mínima vontade de encarar aquelas coisas horrorosas de novo.
— Tenho uma ideia. — disse Minho. — Assim que eles se aproximarem...
— Tudo bem. — interrompeu Percy. — Eu sei o que você quer fazer. Vamos agir em sincronia.
Ele olhou para mim, querendo ter a certeza de que eu também havia entendido. Não havia, mas assenti com um sorriso forçado no rosto.
— Vocês podem cortar esses braços mecânicos com as espadas. — sugeriu Minho.
— Não dá. — disse Percy. — Tentei fazer isso, mas a lâmina não causou nenhum dano. Não sei por que.
— O quê? — resmungou ele. — Para variar.
Nos posicionamos.
Ficamos um do lado do outro, de frente para os Verdugos, que se aproximavam a cada segundo com grande sede de sangue. Pensei que aquilo era impossível. Como lutaríamos contra três bichos daqueles? Olhei para trás. O vazio estava a poucos centímetros da gente. E se caíssemos ali?
— Quando eu der o sinal. — disse Minho.
Os Verdugos se aproximavam. Dez metros. Cinco. Com certeza iriam trombar com a gente e estraçalhar nossos corpos. As nossas espadas não adiantariam de nada. O medo intenso fazia-me ter náuseas.
— Já! — gritou Minho.
Assim que o primeiro braço mecânico veio em nossa direção, pulamos para o lado em sentidos opostos.
Pensei que o primeiro Verdugo iria parar, mas a julgar pelo o barulho de derrapagem, ele não conseguiu deter a energia do seu impulso, por que voou pela a borda do Penhasco com um grunhido. Estranhamente, o grunhido do monstro, em vez de ir desaparecendo à medida que caía no imenso abismo a frente, apagou-se de uma vez, como se tivesse sido engolido por algo, ou simplesmente houvesse evaporado no ar.
O segundo monstro também não foi capaz de frear, e também caiu nas profundezas. O terceiro tentou agarrar-se a ao chão com os seus ferrões, o que produziu um agoniante som metálico e agudo, mas o seu peso fez com que caísse também. De novo, o som do Verdugo grunhindo enquanto caía apagou-se abruptamente.
Eu, juntamente com Percy, estávamos encolhidos no canto da parede, observando tudo horrorizado.
Um silêncio se instalou no ambiente.
Não sei de onde tirei a coragem, mas arrastei-me até a beira do Penhasco, apenas para descobrir se dava para ver as três criaturas caindo. Mas não vi nada. Apenas uma escuridão ameaçadora.
— Cara... — Minho se aproximou de mim, engatinhando, e olhou para baixo também. — Que doideira.
Ficamos ali, parados, sem falar nada, apenas olhando o vazio a frente. Eu tremia de desespero.
Foi quando ouvi um estalo atrás da gente.
Virei-me abruptamente. E percebi que o nosso pesadelo infernal não havia acabado.
— Cuidado! — berrei.
Saltei sobre Minho, o empurrando para o lado e caindo por cima dele, enquanto um braço mecânico de um Verdugo que sobrara fincava-se no piso onde um segundo antes eu estava.
— Aaaahhh! — Percy gritou, correndo até nós.
Uma agulha comprida e pontuda tentou espetar Percy, mas ele a chutou em um ato de desespero, o que a fez se recolher de volta ao corpo do Verdugo.
— Pensei que todos tivessem caído no Penhasco! — gritei.
— Eu também! — bradou Minho.
Não sei como isso deu certo, mas conseguimos nos colocar atrás do Verdugo sem ser despedaçado e espetado. Agora, era ele quem estava na borda do Penhasco.
Foi quando tive uma ideia louca.
— Empurra!
Coloquei as mãos no corpo bulboso e gosmento do monstro e comecei a empurrar. Minho estava apavorado, mas ajudou-me, empurrando-o para o vazio. Percy também.
Antes de a criatura cair, um braço mecânico com três garras no fim arranhou minhas costas, o que me fez berrar de dor, mas a adrenalina impediu-me de sair correndo.
Finalmente, com um último impulso, empurramos com toda a força, e o Verdugo caiu.
Depois de alguns minutos em silêncio, a realidade me tomou, e uma exaustão me acometeu, e foi tão grande que desabei no chão. Minhas costas estava ardendo tanto que não aguentei, e as lágrimas inundaram meus olhos. Encolhi-me no chão e comecei a chorar. Sentia o sangue escorrendo ao longo do corpo. Não me importei com o fato de Minho me ver chorar. As emoções começaram a desabar sobre mim.
Minho fungou e disse:
— Que tal voltarmos para a Clareira? Nunca pensei que iria dizer isso, mas estou com uma enorme vontade de comer uma das gororoba do Caçarola.
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