Achei que não tinha ouvido direito. Ele acabara de chamar aquele lugar de clareira? Por quê?

Olhei em volta, observando tudo, e vi que eu me encontrava em um vasto pátio, muito maior do que um campo de futebol. Como já havia dito antes, muros enormes de pedra cercavam o lugar, e estavam cobertos por uma hera espessa e desigual. Em cada lado dos muros, exatamente no meio, havia uma abertura tão alta que fiquei tonto só de olhar. Parecia ter mais de noventa metros de altura. E cada uma dessas passagens levava a becos e corredores sombrios. Me perguntei o que haveria para dentro de lá. Mais adiante, havia um pátio cujo chão estava cheios de blocos de pedras rachados, com gramas e ervas daninhas saindo de dentro e entrelaçando-se. Perto dali havia uma estranha construção de madeira, parecendo uma grande casa, cercada por algumas arvores com raízes se espalhando pelo o chão como teias. Em outro canto via-se um espaço onde, provavelmente, servia para plantações, pois reconheci algumas como tomateiros, pés de milhos, e arvores frutíferas como mangueiras, macieiras e outras.

Do outro lado do pátio, currais de madeira alinhavam-se, e serviam para guardar animais como vacas, cabras, porcos e ovelhas. No ultimo canto, um bosque amplo tomava conta de tudo, com arvores de todos os jeitos. Aquilo tudo só serviu para me deixar ainda mais confuso e desnorteado. A multidão de garotos que estava a minha frente cochichava e murmurava a meu respeito.

— O que ele vai ser? Um retalhador? — perguntou um.

— Parece um plong de camiseta. — riu outro.

— Não tem saída daqui, trolho.

— Logo, logo irá se plongar nas calças quando ver os Verdugos.

Alby olhou para eles e gritou:

— Calem a boca, seus mértilas!

Ele parecia ser o líder daqueles garotos. Eu segurava o cabo da espada com tanta força que o nó dos meus dedos ficaram brancos. Começava a me irritar com tanto barulho. Queria ficar sozinho. Queria sair daquele lugar terrível. Uma sensação de desamparo e solidão me acometeu. Por que eu tinha de estar ali?

Alby olhou para mim, e vi que ele na verdade não sabia o que fazer comigo.

— Fedelho, mantenha a calma. Vou dizer a verdade, você está em um lugar nada bom. Seus dias de folga acabaram. Enviaram você para cá, então agora é um de nós. Precisa aprender a viver aqui. Daqui a alguns dias você já vai estar acostumado. Amanhã, no Passeio, vou explicar tudo a você.

— Se ele sobreviver até amanhã. — riu um garoto com uma voz fanhosa. — Só pela a cara desse trolho, já deu para ver que é um maricas.

— Cale essa boca, Gally! — rugiu Alby. — Se não coloco você para tomar conta desse novato.

Risadas encheram o ar. Eu não estava entendendo nada do que diziam, e estava completamente envergonhado. Mal chegara ali e já estava sendo zoado. Perguntas e mais perguntas lotavam minha mente, fazendo-me querer gritar pedindo respostas. O garoto da voz fanhosa voltou a falar do meio da multidão:

— Devia perguntar a onde ele arranjou esse taco, cabeção.

— Talvez o tenham mandado para nos divertir um pouco, jogando Baseball. — disse alguém.

— Ou para nos bater com esse taco.

— Se ele vier para cima de mim...

Alby fez um gesto com a mão para pedir silêncio, depois olhou para mim e apontou para minha espada.

— Onde arranjou isso?

Vários olhares me encaravam, me deixando impossibilitado de falar normalmente.

— Hã... eu... eu não sei. — falei, quase num sussurro. — Não sei. Não me lembro de nada. Achei isso dentro do meu bolso.

Mais murmúrios voltaram.

— Dentro do bolso. — eles me olhavam como se eu fosse um louco.

Alby coçou a orelha, parecendo impaciente.

— Olha, novato, sei que está assustado. Todos nós já passamos por isso no primeiro dia. Todos nós. Agora tente falar pelo menos algo que faça sentido.

Nesse momento, outro garoto saiu de dentro da multidão. Era um pouco mais baixo que Alby, com uma cabeleira grande e loura, braços fortes e aparência um pouco mais simpática.

— Está conseguindo dar as boas-vindas, Alby? — murmurou ele.

— Cale a boca! — disse ele. — Estou tentando saber por qual motivo ele trouxe um taco para cá.

Fiquei irritado essa hora. Aquelas pessoas eram doentes mentais ou o quê? Ficavam falando de taco quando na verdade era uma espada. O que eles tinham na cabeça?

— Olha, cara. — tentei falar normalmente. — Eu não sei do que estão falando, nem sei onde estou, e não sei qual é a doença de vocês, mas... — eu levantei a espada. — Isso daqui não é um taco de baseball, e sim, uma espada. Certo? Já viram uma espada antes? Conseguem pelo menos soletrar a palavra espada?

Alby de repente me pegou pela a gola da camisa e me puxou para frente, deixando-me cara a cara com ele. Sua respiração pesada atingia minha face. O medo voltou de repente, inundando meu ser por completo.

— Escuta aqui, seu pedaço de plong. Acha que está sendo engraçado? Acha que isso é algum tipo de brincadeira? Seu fedelho imundo, se eu lhe contasse tudo o que sei sobre esse lugar, você acabaria chorando e querendo voltar para os braços da mamãe. Banque o engraçado de novo e atiro você do Penhasco eu mesmo.

Eu olhava para ele sem falar nenhuma palavra. O medo me impedia de reagir. O desespero fazia-me querer chorar. Ele me atiraria de um Penhasco? Seria tão cruel a esse ponto?

— Ei, Alby, pega leve. — disse o garoto loiro. — Ele só está assustado.

— Não posso pegar leve com quem banca o engraçadinho, Newt.

O cara, Newt, pousou a mão no ombro de Alby. Ele suspirou, exasperado, e me soltou.

— Não pense que irá fazer o que quer aqui, fedelho. — disse ele, me olhando com severidade. — Existem regras nesse lugar. Amanhã irá saber tudo direito, se for inteligente o bastante para compreender.

Ele virou-se e saiu, abrindo caminho por entre a multidão de garotos, os quais também começavam a sair de um por um, alguns me olhando com expressão de deboche, outros com curiosidade.

Eu funguei, tentando fazer com que as lágrimas não viessem, e me sentei de volta, encostando-me na base da arvore. Coloquei a cabeça entre os joelhos e desejei que o mundo acabasse. Desejei sumir dali. Desaparecer da face do planeta. Enquanto uma forte tristeza invadia-me.

— Não fique assim, novato. — disse o cara que se chamava Newt. — Alby não é tão desagradável como pensa. Mas não digo que ele está errado. Precisa aprender a viver aqui. — ele deu um chute fraquinho em minha perna. — Não vai ser um bebê chorão agora, não é?

Levantei a cabeça, querendo gritar com ele. Queria mais que tudo ficar sozinho. Mas apenas assenti.

— Obrigado pelas palavras de consolo.

Ele deu uma risada estranha.

— Você é engraçado, novato. Vou chamar o Chuck para você. Qual o seu nome?

— Raphael.

Apertamos as mãos.

— Amanhã você irá ficar por dentro de tudo o que rola aqui, sacou? Espero que sobreviva ao primeiro dia.

Ele se foi, e eu fiquei sozinho.

— Graças aos deuses. — murmurei. Franzi a testa de repente. Graças aos deuses?Como assim? O que é isso que sai da minha boca? — deuses? — sussurrei. — Graças aos deuses? O que significa isso? Que deuses?

Me perguntei se isso não era traços do meu linguajar da minha antiga vida, antes de vir para cá. Será que minha família cultuava a deuses?

Nesse momento, um brilho surgiu acima de mim, e algo se mexeu nos galhos da arvore. Olhei para cima, e vi alguma coisa andando pelos galhos secos e retorcidos. Nem havia percebido que a arvore estava encostada na base do muro gigantesco coberto de hera. Observei mais atentamente. Era algum tipo de lagartixa. Levantei-me e fiquei a procura do animal, quando uma voz soou ao meu lado:

— Isso são besouros mecânicos.

Eu me virei.

Havia um garoto me olhando fixamente com as mãos na cintura. Era meio rechonchudo, com a cara gordinha e os cabelos castanhos ondulados. Pela a aparência devia ser o mais jovem de todo o grupo. Talvez uns doze anos de idade.

— Hã? — foi a minha resposta.

— Isso que você está procurando — disse ele apontando para a arvore. — chamamos de besouros mecânicos.

Recuei um pouco para longe. O garoto se aproximou e anunciou:

— Sou Chuck. Qual o seu nome, trolho?

Olhei para ele com uma ligeira irritação.

— Dá para parar de me chamar assim? O que é isso afinal? Algum tipo de praga ou insulto?

Chuck riu.

— Você é engraçado. Gostei de você. Mas ainda não me disse seu nome.

Suspirei.

— Raphael.

— Sou Chuck.

— Não me diga. — murmurei. — Já me disse isso.

— Eu era o novato aqui, até você chegar. — disse ele. — Sei bem como é o primeiro dia aqui na Clareira. Mas acredite, é melhor do que viver em um monte de plong.

Olhei para ele, me perguntando se era o meu guia de hoje. Observei o céu acima, e não vi nenhum sinal do sol. Claro, a luz e a claridade mostrava que ele existia. Talvez estivesse atrás dos muros, pronto para se pôr. Fiquei tão perdido e confuso que virei-me para Chuck e comecei a despejar perguntas.

— Por favor, me diga, o que é este lugar? Por que todo mundo vive preso aqui? Por que não me lembro de nada? E que palavras são essas que vocês usam? Por favor...

Chuck ergueu as mãos e acenou.

— Ei, ei, calma, fedelho. Pare de agir assim ou vai ficar louco antes do tempo.

— Não sou fedelho! — exclamei. — Meu nome é Raphael.

— Tá legal, Raphael. — ele assentiu. — Só não me bata com esse taco.

Gemi de frustração.

— Por que todo mundo fala que isso é um taco? Não está vendo que é uma espada?

Chuck me encarou e soltou uma risada aguda.

— Você ainda está em estado de choque, fede... hã... Raphael. — ele agarrou meu braço. — Venha, vamos procurar o que comer. Acho que o Caçarola irá deixar a gente pegar alguma coisa.