Enquanto seguia Chuck não sei para onde, ficava observando constantemente o novo lugar de pesadelos que parecia obrigado a viver. Sentia-me esgotado e exausto, tanto fisicamente quanto emocionalmente. Minha cabeça latejava. O desejo de encontrar respostas para aquilo tudo era mais forte que tudo. Olhei para as imensas paredes de pedra, e ergui os olhos para cima, querendo ver até onde iria dar. Era incrivelmente alto. Parecia que tocava o céu. Só de ficar olhando para cima me dava tontura.

Chuck me puxou pelo o braço, o que me assustou.

— Venha logo.

Eu estava tão distraído que me deixei ser levado. De repente, um grito horrível cruzou o ar, vindo da construção estranha cercada de arvores. Parecia ser de alguém que estava sentindo muita, mas muita dor. Fiquei arrepiado assim que ouvi.

— O que foi isso? — perguntei, olhando para a construção.

Chuck olhou também, e murmurou:

— É o Benny. Ele ainda está sofrendo.

— Sofrendo? Por que?

— Ele foi picado por eles.

— Picado? Por quem?

Chuck coçou a cabeça.

— Pelos Verdugos.

A cada palavra que ele dizia eu ficava ainda mais confuso.

— Verdugos? O que é isso?

— Olha, cara. — disse Chuck. — Por que você não volta para perto da arvore? Vou buscar alguma coisa para você comer.

Suspirei, irritado por não receber nenhuma resposta.

— Okay. — Virei-me e andei de volta em direção a arvore. Olhei para o lugar novamente, admirando aquilo tudo. Quem havia construído aquilo? E por que colocaram esses garotos aqui? Por que eu estava incluso nisso? — Preciso sair daqui. — murmurei para mim mesmo.

Ergui minha espada, e de repente senti vontade de lutar. Uma vontade grande de lutar contra algo. Comecei a me sentir inquieto. Olhei para o cabo da lâmina, e vi um minúsculo botão. Escrito acima dele havia uma única palavra: Off. Não sabia para que servia, mas apertei. Foi quando a espada que eu segurava se encolheu, e transformou-se novamente em um pequeno celular em questão de segundos.

— Uou! — eu o soltei e recuei. — Ah, meus deuses. O que foi isso?

Outro grito, dessa vez mais longo e agudo, percorreu o ambiente, me deixando paralisado de medo. Vi uma certa agitação dentro da estranha casa.

— Ei! — gritou Chuck atrás de mim. — Eu não mandei você esperar lá na arvore?

Olhei para ele, e vi que estava trazendo dois copos de plásticos, e em cima deles dois pães grandes. Meu estomago gritou de alegria quando viu isso.

— Você... você viu? — perguntei. — A espada se transformou em celular de novo.

Chuck fez cara de entediado.

— Dá para parar de agir como um maluco pelo menos por um minuto?

Eu peguei o celular do chão.

— Viu? Não é mais uma espada. Era uma espada. Só que ai...

— Onde arranjou esse celular?

Bati o pé, impaciente.

— Estou lhe dizendo. Eu apertei um botão que tinha na base da espada, foi aí que ela virou um celular novamente.

O garoto apenas suspirou e passou por mim.

— Venha logo, seu trolho. Acho que a fome está atacando seu cérebro.

Eu me sentia um idiota. É claro que ninguém ali iria acreditar nisso, por mais que eu tentasse explicar. Por que ninguém via as coisas como eu? Respirei fundo, colocando o celular no bolso, e segui Chuck.

— Aqui. — ele me entregou um copo e o pão. — Isso vai deixar você melhor.

Dei uma mordida no pão. Estava uma delícia. Os sabores do queijo e do presunto invadiram minha boca.

— Delicioso. — disse eu, ainda mastigando. — Incrivelmente delicioso.

Chuck sorriu, enquanto comia também. Observei o meio da Clareira, e vi que o fosso da Caixa ainda estava aberto, como um grande buraco bem no meio do lugar. Senti vontade de pular para dentro, mas não sabia o que haveria lá. Ao sul dali, vi um edifício feito de blocos de concreto, com uma única porta de aço. Um círculo de metal, como aqueles de submarino, estava grudado na porta como uma maçaneta. Procurei, mas não vi nenhuma janela. Aquele edifício parecia misterioso e sombrio. O que haveria lá dentro?

Deixei de pensar nisso e reuni coragem para fazer perguntas a Chuck.

— Por que esse tal de Benny estava gritando?

Ele rolou os olhos para o alto.

— Já lhe disse. Ele foi picado.

— Sim, eu sei. Mas... o que está acontecendo com ele?

— A Transformação. — respondeu Chuck.

Fiquei esperando ele me dizer mais coisas, no entanto permaneceu calado.

— E o que é essa transformação?

— Não sei. — disse ele, dando de ombros. — Nunca vi alguém passando por isso. Estou aqui há apenas um mês, está lembrado? Tudo o que sei é que se Ben não receber logo o Soro... ele morre. Simples assim.

Ele deu um risinho. Fiquei surpreso com isso.

— Está rindo disso?

— Acho que sim. — ele sorriu.

Como se tudo não fosse estranho por aqui, pensei. Tenho que achar respostas. Não posso ficar nesse lugar para sempre. Tenho que... achar um modo de escapar daqui.

Após ter terminado de comer, levantei-me e decidi que iria fazer perguntas a Newt, que pelo o visto era mais simpático do que Alby.

— Para onde vai? — perguntou Chuck, levantando-se.

— Não posso ficar aqui feito uma criança de castigo. — murmurei. — Vou conversar com Newt.

— Você não pode. — avisou Chuck. — Ele está dentro da Sede.

— Dentro do quê?

— Da Sede. — apontou para a construção cercada por arvores.

Dei de ombros, indiferente.

— Seja como for. Quero saber por que vim para cá. Não posso estar aqui.

— Você está com plong na cabeça? Alby vai atirar você do Penhasco.

Virei-me para Chuck.

— Que porcaria é plong, afinal de contas?

— Outra palavra para cocô. — disse ele, como se fosse óbvio. — Sabe... o cocô, quando cai no sanitário, faz plong.

Olhei para ele como se fosse um E.T.

— Você é estranho, cara.

— Eu sei. Mas sou seu amigo, certo?

Suspirei, confuso com aquilo tudo, e voltei a andar. Mas agora, o que me atraía a atenção eram as imensas aberturas que haviam no meio da Clareira, e os corredores que seguiam para fora.

— Quem construiu esses muros? — perguntei, à medida que andava em direção a eles.

— Não sei. — respondeu Chuck, como se estivesse cansado. — Todos nós não sabemos de nada. Somos como você, não nos lembramos de nada. Apenas acordamos dentro da Caixa e pronto. Nossa vida não é mais a mesma.

Não ouvia o que ele dizia por que, nesse exato momento, cheguei à frente da abertura. Era tão larga que daria para um navio de guerra passar. Meu queixo caía lentamente enquanto admirava aqueles imensos muros colossais. Duas paredes de ambos os lados se estendiam pelo o corredor até o fim, e depois dobravam, uma para a esquerda e outra para direita. As paredes dos corredores também eram cobertas de hera.

Hera? Pensei. Espera... já ouvi esse nome antes.

Algo me dizia que esse nome era de uma pessoa muito importante. Vasculhei minha mente a procura de algo que me fizesse lembrar, mas não veio absolutamente nada. Xinguei baixinho, de tão frustrante que aquilo era.

— Não pode sair para lá. — advertiu Chuck.

— Por que?

— Por que não pode. É a mais importantes das regras.

— Regras?

— Alby irá falar disso com você. — murmurou ele. O seu olhar se animou de repente. — Quer ver uma coisa incrível?

Não estava com saco para aquilo, mas também não queria parecer um garoto chato e insuportável.

— O quê? — quis saber.

Ele ergueu o dedo indicador, seu olhar se tornando vago.

— Já está quase na hora das Portas se fecharem.

Eu ri.

— Portas?

— Sim, fedelho. Essas imensas aberturas. Fecha todas as noites.

Olhei para o céu, e percebi que estava mesmo escurecendo. Com a testa franzida, olhei para Chuck meio preocupado.

— Não está falando sério, está?

Ele sorriu, divertindo-se.

— Você irá descobrir daqui há... poucos minutos.

Assenti, atordoado.

Foi quando no fim do corredor, fora da Clareira, algo se mexeu. Recuei, assustado, e cutuquei Chuck.

— Tenha calma, novato. — disse ele. — É apenas um corredor.

Fiquei observando, e vi que o que estava lá fora tomava forma humana, vindo em nossa direção. Era um garoto. Ele corria, arfando e exausto, enquanto passava por nós com o rosto vermelho e pingando de suor, e sem dizer nada entrava na Clareira. Acompanhei o garoto, e vi que mais três garotos entravam na Clareira pelas outras três aberturas que havia lá. Eles foram em direção ao edifício com a porta de ferro. Um deles girou o círculo de metal que funcionava como maçaneta e a abriu. Todos entraram e fecharam a porta.

Pousei o olhar em Chuck.

— Você disse que ninguém podia sair daqui.

— Eles são diferentes. — respondeu. — São corredores. Sabem das coisas.

— Você já saiu daqui? Quer dizer...

— Nunca saí para fora da Clareira. Já lhe disse. É muito perigoso no Labirinto. Se você sair para lá...

— O quê? — interrompi. — O que disse?

Ele me olhou, confuso.

— Hã?

— Você disse algo sobre um Labirinto. — lembrei-o.

Chuck tentou disfarçar me olhando como se fosse maluco.

— Não disse isso.

— Ah, você disse sim.

Algo veio a minha mente quando Chuck falara sobre um Labirinto. Uma imagem passou repentinamente pela minha cabeça. Eu, com mais outros garotos e garotas, dentro de um estranho túnel embaixo da terra. Tentei fazer com que essa imagem ficasse ali. Tentei prendê-la, captura-la, qualquer coisa, mas ela já havia ido embora.

— Droga. — resmunguei.

Nesse momento, um estrondo altíssimo, como um forte trovão, fez meu coração saltar como um ginasta olímpico. Gritei e virei-me, completamente apavorado, enquanto balançava a cabeça a procura do que estava causando esse som. Outro estrondo, e o muro da esquerda se mexeu, começando a se mover lentamente em direção ao muro da direita. Meu queixo caiu. Tapei os ouvidos enquanto o imenso muro se arrastava no chão fazendo faíscas e pequenas pedras saltarem. A terra inteira tremia.

— O que está acontecendo? — gritei.

— São as portas! — a voz de Chuck soava fraca devido ao barulho.

O imenso muro estava no meio de seu trajeto, prendendo-nos na Clareira. Eu estava paralisado, com os olhos fitos no que estava acontecendo. Uma luta de emoções acontecia dentro de mim.

Com um último estrondo, a parede da esquerda se juntou a outra, fechando-nos completamente naquele lugar. Um silêncio absoluto pairou na Clareira.

— Ah... meus... deuses. — murmurei, abobalhado com tudo aquilo.

— Que mértila é essa que você fala? — perguntou Chuck. — Negócio de deuses. E de celulares se transformando em espadas. Você é esquisito, fedelho.

Eu também queria saber por que falava aquilo. Mas nesse momento, só queria dormir e acordar daquele terrível pesadelo.

— Venha... — Chuck chamou. — Você está precisando descansar. Hoje foi um longo dia.