E O Que Eu Queria Te Dizer: Eu Te Amo.

3 Capítulo 3: Ansiosamente, aguardarei


Londres, 30 de março de 1987.

Recomecei a anotar o que me vinha a cabeça: frases de autores famosos, letras de música, matéria, ou simplesmente coisas aleatórias. Na hora do almoço, sempre tenho tempo livre. Não costumo comer muito, e como não há ninguém para conversar, acabo ficando por observar as pessoas de um modo bem discreto.

De onde me sento, posso ver praticamente todo o refeitório da faculdade (que por acaso, é um só), o que me dá uma percepção melhor do que está acontecendo. Mesmo estando somente há uma semana na universidade, já é possível ver os grupos formados e espalhados por aí, como ilhas num grande mar. Juntam-se, normalmente, pelo que almejam: matemática, inglês, ciências, engenharia e muitos das outras faculdades aqui oferecidas. Mas acho que me prendo a esse fato, pois não quero ficar pensando no quão isolado acabo sendo nesse cenário.

As pessoas são educadas, embora não se deem muito a conversar com desconhecidos. É preciso confiança para que elas comecem a realmente conversar com você. Mas eu não ligo — ou tento mostrar que não ligo. Volto a escrever algo desconexo no meu caderno quando subitamente, alguém se senta ao meu lado. Olhando na direção da pessoa, reconheço-o de primeira.

É Aaron.

Minha primeira reação é corar. Ele está sorrindo e, novamente, olho em seus olhos por alguns segundos antes de voltar a escrever no caderno. Por que não consigo me controlar quando perto dele? Parece ser mais forte que eu e eu sei que isso tudo é muito estranho. Mal nos conhecemos; depois do nosso "incidente", não trocamos nenhuma palavra, embora tenhamos talvez trocado olhares nos corredores. Mas são coisas normais, não? São só olhares, oras! Nada que possa fazer uma pessoa tão controlada como eu perder, gradualmente, meu controle.

Pensando nisso tudo, acabo não o cumprimentando, mas como na outra vez, ele é quem começa o diálogo.

— Hey, Rapha. — ele diz, informal, enquanto me olha.

Espera. Desde quando ele me chama de Rapha? Só minha mãe costumava me chamar assim. E mesmo quando era ela eu pedia para não me chamarem assim. Ao menos não enquanto estivéssemos perto de alguém.

— Ahn... oi, Aaron. — digo, tentando não mostrar meu desconforto.

As vezes, quer dizer, na maior parte do tempo, eu simplesmente não sei como prosseguir com uma conversa; por isso, deixo a outra pessoa continuar, embora isso também não seja nenhuma garantia de que eu vá chegar a conversar realmente. Após alguns incômodos segundos de silêncio, ele prossegue:

— Você parece ter me evitado esses dias. — comenta, pegando algo de forma despretensiosa no prato.

Nisso ele está certo. Tentei ao máximo ignorá-lo, embora tal feito fosse impossível, pois ao vê-lo ou lembrar de como ele sorria, eu ficava quase instantaneamente corado. Minha mente se tornou um lugar ainda mais perigoso, onde apenas um simples gesto, um simples olhar, podia gerar uma enorme reação em cadeia, que terminaria acionando alguma armadilha. Mas a armadilha sou somente eu e minha timidez, pois não há algo além disso que realmente me impeça de dizer o que penso ou o que sinto. Obrigo-me a encará-lo e com a voz controlada, digo:

— Não, não. Eu só andei estudando bastante. — menti, usando meu argumento padrão. Se estava na escola, era porque estava estudando, se estava em casa, também.

Quando ele voltou a me encarar, eu soube que não tinha conseguido convencê-lo. Sim, seus olhos demonstravam isso; ou ao menos minha tão estranha impressão parecia dizer-me isso. Mas, seja lá o que ele tenha achado do que eu contei, recebo um sorriso; novamente, a sensação de que aquele é um dos sorrisos mais lindos que já vi volta e meu rosto começa a queimar. Provavelmente estou corado de novo, sem motivo algum. Ele põe a mão sobre meu pulso e o aperta levemente, chamando minha atenção.

— Entendo. Tudo bem, então. Já procurei me informar sobre seus horários — me disse casualmente, expondo algo restrito a mim —, e sei que você não tem nada para fazer depois das 15:00. Então, vim perguntar se não gostaria de passear pelo campus, para que eu pudesse te mostrar como é.

Primeiramente, penso no por que dele se interessar tanto assim. Não tenho nada de especial e sei que há muitas pessoas melhores por aí, até em volta de nós mesmos. Mas, de todas as pessoas, ele escolhe logo a mim. A resposta demora a ser dita, já que eu fico lutando com aquele estranho conflito interno até ter certeza do que dizer.

Estranhamente, minha ideia não é de negação, como seria normalmente. Aaron parece ter algum efeito em mim — o que acaba me dando outra dúvida: o que seria? De onde seria esse efeito? Sim, eu sei que muitas pessoas achariam isso pura bobeira. Mas para mim, não é o inteiro que conta. São os ideais, os olhos, a voz, o interior da pessoa que me dizem quem elas são. É uma avaliação minha já usada a muito tempo, e não pretendo abandoná-la. Pois ao contrário de mim, minha avaliação nunca falhou.

— Tudo bem. — disse, sentindo minha garganta seca, e minha resposta lenta provavelmente foi bem irritante.

O som de sua risada é outra coisa que vai ficar guardada em minhas lembranças: pura, desprovida de maldade e divertida, completamente natural. Diferente das que eu costumo dar, que são o completo contrário, tirando a parte da maldade. Após terminar de rir, ele pisca uma vez para mim e aperta meu pulso novamente, da mesma forma que fez antes.

— Então te vejo mais tarde, Rapha. — disse enquanto se afastava de mim, saindo do refeitório.

○ ○ ○

As aulas transcorrem normalmente, comigo tentando a todo tempo esquecer a imagem insistente de Aaron. Sua procura por mim, seu repentino interesse. O que seria isso? Algum concurso que a universidade promove para que, o aluno que ajudasse um novato ganhasse algo? Não sei, mas posso dizer que pelo semblante de Aaron, sorridente e travesso, não.

Por fim, quando a última classe termina, vou andando até a saída que dá no campus. O inverno parece ter dado uma meia-trégua, pois embora esteja frio, o sol consegue passar por entre as raras nuvens cinzentas no céu, e assim, aquecem a vida, dando um tom bem mais bonito à vida em Londres. Dou um sorriso inconsciente ao sentir o sol sobre o rosto e continuo andando, perdido na inebriante sensação de bem-estar. Seria bem melhor assim, não? Com o sol a iluminar e aquecer todos os dias, ao invés do rigoroso frio que congela-nos até os ossos. A vida é uma coisa agridoce, embora a parte salgada pareça estar sempre mais presente em minha vida.

Vejo, com o canto dos olhos, que alguém me chama. Só pode ser ele. E ao olhá-lo, constato minhas primeiras impressões. Seus olhos verdes parecem brilhar à luz do sol, seus cabelos castanho-avermelhados ficam ainda mais chamativos, como um fogo brando no meio de um ambiente marrom. Ele está sorrindo, o que mostra duas covinhas que eu não tinha percebido antes; um leve tremor involuntário percorre meu corpo, e eu reforço a imagem dele em minha mente. Quando perto de mim, ele me observa rapidamente e diz:

— Então... pronto para conhecer o lugar?

Minha resposta é um assentir de cabeça calmo, previamente controlado. Ele então começa a andar e eu o sigo por entre os caminhos desconhecidos daquele local. Pelo campus há vários locais gramados, onde os estudantes podem sentar-se para ler ou estudar ao ar livre (quando sol, imagino), ou simplesmente caminhar. Esse verde da natureza quebra um pouco a seriedade e frieza impostas inconscientemente pela imagem da universidade, um lugar normalmente feito somente para o estudo.

Ele me faz entrar em um dos caminhos de paralelepídos paralelos à entrada principal, e vai citando os melhores lugares para o caso d'eu querer algum descanso posterior. Andamos por quase uma hora, ele a todo tempo me chamando atenção para algum detalhe especial do lugar, e por fim, chegamos a um último lugar onde ele para subitamente. Ao olhar na direção em que o mesmo olha, vejo uma árvore grande, provavelmente bem antiga, que lança uma sombra enorme para os lados. Suas folhas verdes não parecem ter perdido sua vida, mesmo que tenham de lutar constantemente contra o frio. Seu tronco, marrom e antigo, é imponente e enorme, bem maior do que as outras árvores do campus. Aaron e eu continuamos a contemplá-la em um respeitoso silêncio, mas, estranhamente, sou eu o primeiro a falar.

— É linda. — comento, observando pela primeira vez que estávamos em um local mais afastado, quase secreto no coração daquela universidade.

Ele assente positivamente e sorri; pego-me novamente pensando em como esse sorriso é lindo. Em como eu queria tê-lo só para mim... e acho que o encarei por muito tempo, pois ele agora me olha como se tivesse me flagrado olhando-o. Esse momento de mútua observação não passa em branco, e ele se aproxima. Sinto meu corpo queimar, minha mão treme, mas me mantenho parado. Sua proximidade é quase palpável, e sinto novamente sua influência sobre mim, mantendo-me aonde estou. Sei o que está por vir. Ou não? É algo diferente. Pois nunca antes aconteceu comigo. Ele, ainda tão próximo, parece quebrar todo efeito ao por as mãos para trás, apoiando-as na cabeça displicentemente, relaxado, e me pergunta:

— Tem algo para fazer sábado à noite?

O momento fora quebrado tão subitamente que demorei a responder. O efeito tardio daquelas sensações todas pesou sobre mim, e desviei o olhar por alguns segundos antes de por fim, voltar e poder encará-lo.

— Não. — respondo.

Ele tira as mãos da cabeça e estende uma, que eu aperto de volta. Sua mão é quente, e seu aperto, caloroso. Ele dá um outro sorriso, capaz de quebrar minha resistência em mil pedacinhos, e se afasta um pouco, indo por onde viemos. Mas ele para e diz, meio perguntando, meio sugerindo:

— Então... posso te convidar para sair?

Não consigo formular uma resposta, então, só confirmo positivamente com um meneio. Aaron parece estar contente, pois seus olhos brilham travessos por debaixo da sombra da árvore.

— Depois pego o seu telefone, então. Até mais. — se despede, indo embora.

Sei o quê quase aconteceu, e o fulgor do momento parece voltar, deixando-me corado. Mas eu estou sozinho, então posso dar-me esse pequeno luxo. De corar, rir e sorrir ao mesmo tempo. Assim que chegar em casa, vou correr até o telefone e ficar lá, ansiosamente esperando seu telefonema.

Notas finais
Capítulo postado (eu fiquei até bem tarde desenvolvendo porque estava sem sono lol), e espero que tenham gostado. Fiz um maior desenvolvimento no lado sentimental, mas nada demais. As surpresas ficam pros próximos!