E O Que Eu Queria Te Dizer: Eu Te Amo.
4 Capítulo 4: Contemplação
Notas iniciais
Tive uns contra-tempos em off, mas finalmente consegui um refresco. E bem, a inspiração também voltou, de qualquer forma. Obrigado pelos reviews, e espero que gostem. ;d
Londres, 5 de Abril de 1987.
Deitado na cama, paro um pouco para refletir sobre o que acontecera nos últimos dias. Primeiramente, houve uma aproximação devastadora entre mim e Aaron, o que nos torna... amigos. No sábado passado, ele me levou para conhecer a parte mais "animada" de Londres. Bem, no começo tentei fingir interesse, mas logo ficou bastante claro que eu não queria estar ali. Então, se dando conta disso, ele me perguntara o que eu queria fazer. A partir daí, fomos para uma parte realmente interessante: no centro da cidade, há uma área onde existem diversas livrarias, com seus Cafés sempre abertos e limpos. São locais agradáveis, bons para se visitar. Com algum esforço, até consegui — acho — convencer Aaron de que os livros são bons. De qualquer forma, passamos um sábado agradável.
Hoje é terça-feira, e as atividades não são lá as mais interessantes. A primeira aula é de matemática (eu sinceramente pensava que escaparia dela se cursasse letras, mas enfim), e depois há também algumas outras matérias menos importantes. O dia está ameno: uma sensação primaveril toma conta da cidade, e a temperatura fica entre 20~25°. Nem precisei vestir casaco, o que considerando o típico frio londrino, é anormal. Quando chego ao campus da faculdade, paro um pouco e perscruto o lugar rapidamente. Avistando-o, vou até lá a passos lentos, olhando o chão. Aaron me recebe com um sorriso e um aperto de mão, assim como as outras pessoas que estão em volta dele. Sem jeito, devolvo os cumprimentos. Há um garoto de olhos e cabelo castanho-claro e uma garota de cabelos loiros, com exuberantes olhos azuis. A garota me fita por alguns segundos, provavelmente tentando advinhar quem sou. Aaron é quem dá início às apresentações:
— Bem — ele diz, apontando para o garoto de olhos castanhos — esse é o Richard, o aluno mais exemplar de todos. — diz, com sarcasmo.
Richard dá uma careta para ele e ri, cumprimentando-me com um meneio. Depois, o ruivo apresenta-me à garota de cabelos loiros.
— E essa é a Allie, minha quase-irmã. — informa, abraçando-a com um dos braços.
Ela o afasta rapidamente, rindo, e depois se aproxima de mim, abraçando-me também. Demorei alguns segundos para ter reação; quando levantei os braços, ela já estava no seu lugar de origem. Quase peço desculpas, mas impeço-me quando vejo que ela aparenta não ter ligado. Eles conversam mais um pouco, enquanto eu me mantenho na minha área segura, gesticulando pouco e falando ainda menos, sempre tentando não encará-los. Todavia, posso perceber por vezes o olhar atento da loira sobre mim, mesmo que sejam por frações de segundo. Por fim, o garoto de olhos-claros diz que precisa ir para aula, bem na hora em que eu iria informá-los minha saída.
— Bem, tenho de ir agora. A aula começa em poucos minutos. — informa, dando de ombros.
Ele dá um beijo no rosto de Allie, que fica corada. Ela devolve, e também se despede, dando um breve tchau antes de ir até o seu prédio. Aaron continua ali por um tempo, mas ele também tem horários para cumprir. Me encara por um tempo — novamente essa sensação de petrificação, enquanto esses olhos verdes me fitam —, e depois um aperto de mão, seguido de um leve abraço. Devolvo, um pouco menos fervoroso. Ele diz:
— Bem, até mais tarde então, Rapha. — ele acena e entra no prédio, andando sem pressa.
Embora eu não queira admitir, também tenho meus deveres. Suspiro e vou até o meu prédio, indo para o maior martírio educacional imposto para mim: aulas de matemática.
○ ○ ○
A primeira parte do dia transcorre lentamente, e tento prestar o máximo de atenção aos deveres. Se eu estudar bastante, sei que posso tirar boas notas, o que seria ótimo para minha já-não-tão-boa-auto-estima. Na hora do almoço, vou até o refeitório. Não vejo Aaron em lugar algum, então vou até a fila e sirvo-me, indo sentar em uma das mesas mais vazias, longe do movimento das pessoas. Atenho-me à comida, pensando sobre coisas que surgem aleatoriamente em minha mente. Alguns minutos depois, percebo uma aproximação quase sorrateira. Allie está segurando a bandeja com sua comida, e pergunta:
— Posso me sentar com você?
— C-claro que pode. — atrapalho-me na resposta. Ela senta-se e por um tempo só comemos, os dois aparentemente entretidos demais em seus pratos para dizer algo. Mas quando nossos olhares se encontram, ela começa um diálogo.
— Então... seu nome é Raphael, não é?
— Sim. — respondo, forçando-me a encará-la.
— Bem, não pude falar mais cedo, mas é um prazer conhecê-lo. Já ouvi falar muito de você.
Surpreendo-me, as sobrancelhas erguidas e os olhos surpresos. Como assim, ela escutou falar muito de mim? Tudo bem, ela e Aaron são amigos, mas... ele teria falado de mim? A resposta é óbvia, mas não vejo um motivo para ele ter conversado sobre, hum, nós. Mesmo por que não há nada de especial — tudo bem, talvez para mim haja, mas é muito cedo para concretizar qualquer coisa.
— Ouviu? — digo, tentando disfaçar a surpresa.
— Uhum. Aaron gosta de conversar, e como ele disse, somos quase irmãos. Conhecemo-nos desde crianças e em suma, sabemos quase tudo um sobre o outro. — ela lança outro olhar atento, tentando detectar minhas reações.
Esforço-me para manter o rosto sereno, calmo. Uma máscara fria e sem-graça, usada na maioria do tempo por mim, na tentativa de escapar de um sentimento que tente se intrometer em minhas reações.
— Entendo. E é verdade? Sabem quase tudo? — pergunto, tentando aparentar indiferença.
Ela assente e dá um sorriso, enquanto bebe um gole do copo de suco. Com um tom menos incisivo — é, eu sei reconhecer esses tons, por mínimo que sejam —, ela responde:
— É. Quase tudo. Embora saibamos o suficiente. — outro sorriso, um pocuo mais ameno.
Franzo as sobrancelhas levemente, mas dou de ombros. Que saiba, oras. Não vai fazer diferença alguma. E afinal, por que me preocupar tanto? Aaron e eu nem somos amigos! Bem, ok, podemos até ser, mas de qualquer forma... ainda não há nada. E tirando o fato do diálogo ter parecido estranhamente investigativo, gosto do olhar dela, do jeito como fala: imponente, auto-suficiente, clara. Voltamos a comer e quase não conversamos mais, até que Aaron e Richard chegam. O ruivo olha para mim com uma expressão forçadamente carrancuda, brincando de alguma piada desconhecida por mim.
— Eu disse ao Richard que te encontraríamos facilmente no lugar mais isolado possível. — ele diz, dando um olhar do tipo "eu-estava-certo" para o amigo.
O garoto de olhos-castanhos assente e sorri, olhando quase discretamente para Allie, enquanto os dois coram mutuamente. Bem, é transparente que há algo entre eles, mas essa conclusão fica guardada somente para mim. Eu já terminei de comer, então fico somente observando-os da forma mais singela que posso. Allie e Richard estão rindo de alguma coisa, enquanto Aaron olha desprentesiosamente pelo refeitório, vendo tudo, mas parecendo não ver nada. Depois, ele me encara e dá um sorriso, apoiando os cotovelos na mesa.
— Como foi a aula, Rapha?
— Hm... foi maçante, acho. — digo, cruzando os braços de forma inconsciente.
— Pra você dizer que algo foi maçante, então a aula deve ter sido um verdadeiro porre. — diz, dando um risinho zombeteiro.
Não respondo; fico só a olhar pelo lugar, sem pensar muito acerca de algo específico. Não seria nada aconselhável encarar Aaron ou puxar muita conversa, pois sei que não conseguiria manter esse controle por muito tempo.se estivesse sobre a influência deste sobre mim. Allie e Richard parecem absortos no mundo deles, rindo e fazendo piadas sobre diversas coisas que só eles entendem, mas nunca ultrapassam o limite de "amizade".
Dou um suspiro e levanto-me, pegando meu material de cima do banco.
— Bem, vou indo agora. Tentar aproveitar esse tempo livre pra ler alguma coisa. — dou um aceno rápido para eles e saio do refeitório, indo até a área verde da faculdade.
Ao invés de ir para a área "comum", onde ficam a maioria das pessoas, lendo e conversando, vou até a árvore mais antiga, a área mais afastada do lugar. Fora lá que senti aquela ardência no rosto, com Aaron a me deixar totalmente sem defesas. Mas passou, ao menos eu acho que passou.
Contemplo a sentinela por algum tempo: com o clima caloroso, algumas flores desabrocharam, dando um outro aspecto de cor ao arredor. Sento-me na grama, perdendo instantaneamente a vontade de ler. Na realidade, havia usado esse subterfúgio para ter um pretexto; assim, sairia de lá mais facilmente. Encosto-me no tronco da árvore e olho o céu, difuso por entre os espaços das folhas, e o aprecio por um tempo antes de fechar os olhos, tentando descansar na hora que me resta do almoço.
○ ○ ○
Não sei exatamente quanto tempo se passou; pode ter sido minutos ou horas. Espero que tenham sido minutos, embora meu histórico de "cochilos" provem que tenho, normalmente, um sono rápido e pesado. Um pouco zonzo, olho para os lados e surpreendo-me quando vejo Aaron sentado no banco, apoiando o rosto no punho, olhando-me, parecendo me contemplar.
Levanto, com uma expressão confusa no rosto. O ruivo também se levanta, caminhando até mim. Pego minhas coisas no chão e surpreendo-me dizendo:
— Você 'tá me observando há quanto tempo? — pergunto, um pouco incisivo.
Ele parece ter de arranjar as palavras e ordená-las, coisa que nunca o vi fazer. Ele coça o cabelo, corando, sem-graça.
— Provavelmente uns dez minutos. Ou um pouco mais. — diz, evasivo. — Procurei você pelo campus, mas como não te achei... pensei que você iria vir aqui, e quando cheguei, te encontrei ali, dormindo. — ele dá um sorriso, como se tivesse me pego cometendo algum crime.
Ignoro o tom brincalhão dele e suspiro. Olhando a hora, vejo que o tempo quase se esgotou. Faltam agora uns cinco minutos para que as aulas retornem. Tentando não encará-lo, olho pelo lugar sem captar nada, apenas tentando disfarçar a intensa atração que sinto só de tê-lo perto.
— Entendo. De qualquer forma, as aulas começam daqui a pouco. Vamos andando?
Aaron assente e me segue, pondo as mãos no bolso. O percurso até os prédios é feito em silêncio; obrigatório para mim, contemplatório para ele. Lá, nos despedimos brevemente, e ele vai até sua sala, e eu vou pra minha, ainda sem termos trocado uma palavra.
○ ○ ○
As outras aulas passam mais rapidamente, pois meu interesse é maior nelas. No fim da tarde, vou até onde costumo encontrar Aaron e deparo-me com os três juntos novamente. Aproximo-me tentando não ligar para o fato, e uma vez lá, despeço-me de todos de uma forma rápida, evasiva.
— Bem... até amanhã então, Raphael. — diz Allie, parecendo entender a subliminar urgência em minha voz.
Richard também se despede de mim, mas logo volta sua atenção a loira. Saio dali olhando para baixo, não focando nada além do chão. Quando estou no meio do caminho, porém, alguém põe a mão no meu ombro. Viro-me, para me deparar com Aaron, que com uma expressão preocupada, pergunta:
— Aconteceu alguma coisa, Rapha?
Seus olhos demonstram uma curiosidade genuína e seu tom, preocupação. Sei que não é uma pregunta de praxe, usada para ser "educado" quando vê-se que alguém não está bem.
— Não... não aconteceu nada. Por quê?
Ele põe a mão nos bolsos novamente, como fez mais cedo. Seus olhos esmeralda param de me encarar por alguns segundos, percorrendo outros lugares, como se buscassem alguma informação. Ele começa a falar algo, mas para antes mesmo de expressar o quê quer que fosse. Mas depois continua:
— Tudo bem então, Rapha. Até amanhã. — ele gira rapidamente nos calcanhares e volta pelo caminho, apressado.
Olho-o por algum tempo, sentindo-o se afastar. De repente, o clima primaveril parece um pouco mais frio, conforme ele se afasta. Estranho. Vou até o ponto e pego o meu ônibus, tendo sorte de chegar na hora certa. No caminho para casa, tenho tempo de refletir.
Não, com certeza não está tudo bem comigo. Ainda não sei como classificar ou entender meus sentimentos. Eles são coisas confusas, ambíguas, e muito provavelmente instáveis. Esses momentos de reflexão acontecem por vezes, e eles são ruins e bons ao mesmo tempo. Bons por que me fazem olhar para mim mesmo e ruins pelo mesmo motivo. É difícil pensar de forma crítica à mim mesmo, embora seja necessário.
Não vou ignorar o que sinto, pois já sei de antemão que é impossível. Só tenho de encontrar uma forma de coexistir com eles — meus sentimentos — e seguir a minha vida da forma mais saudável possível, física e psicologicamente.
Quando chego em casa, ponho meu material sobre a mesa da pequena sala e tomo um copo de água, indo até o meu quarto. Estou quase tirando a roupa para tomar um banho quando escuto o telefone tocar. Bufo e arrasto-me até lá, atendendo. Do outro lado da linha, quem fala é a minha mãe; sua voz animada, rápida e calorosa. Um fervor que é sempre sentido quando falo com ela.
— Meu bebê! Como você tá, hein? Comendo direito? Tomando banho, escovando so dentes? — ela pergunta, tudo muito rápido.
— Mãe, já pedi pra não me chamar de bebê, não foi? Eu não sou mais, oras! E sim, eu sou um adulto mãe, e sei me cuidar.
— Mas vai sempre continuar sendo meu bebêzinho. Eu quem te criei, e vai ser assim até a hora em que eu morrer. Bem, de qualquer forma, liguei para te relembrar que você tem um compromisso logo, logo hein?
— O quê? — pergunto, já suspirando.
— O aniversário do seu irmão, ora. Como se esqueceu? É nessa sexta. E é melhor você estar aqui, por que 'tá todo mundo morrendo de saudade, inclusive eu.
Sei que não posso refutar seu argumento. Prometi que ia, e agora tenho de ir, mesmo que inventasse a melhor mentira de todas. Suspiro por um tempo, dizendo logo após:
— Tudo bem, mãe. Eu vou; não esqueci. Mas agora tenho de desligar. Até mais. Eu te amo.
Ela responde com um 'eu te amo' animado de sempre, mas eu desligo rapidamente. Passo a mão pela cabeça, fechando os olhos. Volto ao banheiro e tomo uma ducha de água quente, tentando esquecer que, certamente, terei problemas nexta sexta-feira.
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