E O Que Eu Queria Te Dizer: Eu Te Amo.
2 Capítulo 2: Olhos Esmeralda
Notas iniciais
Londres, 20 de março de 1987.
Era cedo. Bem cedo, aliás. Quando fazem piadas sobre o clima no Reino Unido, não estão sendo totalmente irônicos. Nos invernos o sol parece recolher-se para longe e as nuvens cinzentas sufocam os que estão ali em baixo; ou seja, nós, meros humanos suscetíveis ao clima cruel de Londres. Acordei dez minutos mais cedo hoje, pois realmente não posso me atrasar em meu primeiro dia na faculdade. Tomei um banho quente demorado, imaginando se não seria possível ficar ali para sempre. Terminado o banho, fui até meu quarto — a propósito, não moro mais com meus pais; e essa sim, é uma grande conquista — e me troquei. Costumo usar roupas mais confortáveis, mas hoje terei de escolher entre um frio mortal ou uma calça menos apertada. Demoro algum tempo para me vestir, como sempre e me olho no espelho assim que termino. Eu pareço... bem, uma pessoa normal. Nada chamativo, tampouco desleixado. Pego meu sobretudo atrás da porta e desço, saindo de casa rumo ao frio inverno londrino.
○ ○ ○
Na descida do ônibus, respiro fundo ao olhar a estrutura da Universidade onde irei estudar. Ela é composta de vários prédios em uma formação de quadrado, sendo o prédio principal o que está a poucos metros de mim. É nele que ficam os diretores, professores e outros órgãos responsáveis pela escola; nos outros prédios ficam as respectivas faculdades e áreas centradas a alguma coisa. Eu vim aqui cursar letras, embora também tenha vontade de fazer relações internacionais. O lugar parece vazio, ainda mais à rarefeita luz do sol, que só é equilibrada por causa dos diversos postes de luz por ali dispostos.
Pego em minha mochila o mapa da Universidade, dando uma rápida olhada em qual prédio eu devo ir. Me apresso — tentando não congelar — e logo chego na área, assinalada no mapa como C. Lá dentro, vejo que meu primeiro pensamento estava errado: as pessoas estão ali, conversando normalmente e a maioria está sem casacos ou roupas de frio. Deve haver algum sistema de aquecimento, pois eu comecei a sentir calor alguns segundos após ter entrado no lugar. De qualquer forma, vou ter de ficar com essas roupas até achar um lugar para pô-las, pois ainda não tenho um armário.
Avanço pelos corredores com certa urgência; os olhares a mim dirigidos são curtos, mas estranhamente avaliativos. Vou andando de cabeça baixa, evitando maior contato com meus novos "colegas" e acabo tendo de esperar algum tempo até que a aula tenha início. Sento-me em uma das primeiras fileiras — afinal, eu estava ali pra estudar e não há lugar melhor para escutar o professor do que as primeiras fileiras — e peguei meu material. Rabisquei algo para testar a caneta e dei uma olhada em volta. Algumas pessoas falavam nos segundos que antecediam a chegada do professor, sendo que a maioria já parecia se conhecer. Os ingleses são bem conhecidos por sua cortês frieza, até mesmo com amigos. Tento ignorar qualquer olhar diferente que venha em minha direção (apesar de ser londrino, minha pele é morena), embora saiba muito bem que talvez eles nem estejam dando tanta importância. É só mais um de meus complexos: o de timidez. Quando a aula tem início, tento esquecer do mundo e me foco somente na figura do professor — um homem já na transição de meia-idade/idoso —, que consegue explicar a matéria extraordinariamente bem.
A primeira aula transcorre bem e eu espero todos saírem de sala até que decido segui-los. Minha mochila vai ficar lá na sala (junto com o excesso de roupas, que eu consegui por num banco vazio ao lado) e só carrego alguns livros comigo. Sem um local em mente, acabo me perdendo nos meus pensamentos. Quando recebo algum olhar, penso: "Será que tem algo errado? Com minha roupa? Algo no meu rosto? Ahn... qualquer coisa. Parece que está todo mundo me olhando!" Mas forço-me a perceber que sou só eu delirando, novamente.
Nessa pequena andança, minha mente já vai longe e quando caio no chão, demoro um pouco a entender o que estava acontecendo.
Meus livros se espalharam para os lados e agora, teriam provavelmente, algumas orelhas. Começo a recolhê-los, tentando disfarçar minha reação automática de corar. Odeio quando não posso me controlar. Mas uma mão firme e forte me ajuda a levantar, ajudando-me com os livros depois.
— Oh... desculpe-me. — disse o garoto, sorrindo com certa timidez.
Ao escutar sua voz, observei-o pela primeira vez. Um pouco mais alto do que eu, porém com olhos claros, num tom verde, e cabelos castanho-avermelhados. Tento disfarçar que corei ainda mais e pego os livros dele, andando na direção contrária. As pessoas ali parecem não ter visto nada... ou teriam?
Sinto uma mão no meu ombro e me viro, deparando-me com o garoto novamente. Ele está com uma expressão confusa no rosto, como se não soubesse o por que de eu tê-lo deixado assim, sem falar nada. Ele me entrega uma folha, que provavelmente caiu de um dos meus cadernos, e novamente sorri. Aquele simples ato é imposto à mim como um soco em minha parede. A estrutura abala, mas não cai. Ele se apressa em dizer:
— Desculpe mesmo! Não foi minha intenção... — ele explica.
Engulo em seco, os olhos presos ao chão, como se ele pudesse esconder o maior mistério da vida humana.
— Hu-hum. — disse, simplesmente.
Já virando, novamente sinto sua mão em meu ombro. Fecho os olhos por alguns segundos antes de poder encará-lo. Sua expressão confusa agora é quase indecifrável, pois parece um misto de indecisão, felicidade, sarcasmo e mistério.
— É sério. Desculpe. — ele insiste, completando: — A propósito, meu nome é Aaron. — estende a mão.
Aperto-a, me obrigando a olhá-lo. Ele tem lindos olhos, penso comigo mesmo, dando uma chance ao meu lado avaliativo. Ele continua sorrindo, e pondero se não deveria só ir embora. Mas ele parece ter algo que me prende, como se eu estivesse preso ao chão, sem poder me mover.
— Me... meu nome é Raphael. — respondo, me obrigando a dar um meio-sorriso.
Os momentos em que passo encarando-o e sendo encarado parecem uma eternidade. Uma eternidade aonde eu poderia certamente me perder sem data para voltar, bem diferente de outras "eternidades" bem mais dolorosas do que aquela. Eu quebro o contato inconscientemente, virando o rosto e dizendo, saindo de perto dele.
— Bem... até mais. Foi um prazer te conhecer, Aaron.
Antes de eu ter me afastado completamente, porém, posso escutá-lo dizer:
— Espero mesmo, Raphael!
E pelo seu tom de voz, posso dizer com certeza que ele estava sorrindo.
○ ○ ○
Esforço-me o máximo que posso para ignorar as simples lembranças do meu primeiro contato direto com alguém nessa universidade. Continuo a prestar atenção nas aulas, anotando tudo o que o professor diz e por vezes, pergunto algo. Minha linha de pensamento às vezes é interrompida por um flash do que aconteceu mais cedo, até que finalmente não consigo prestar mais atenção no que o professor diz.
Fico assim até a hora de ir embora; quando eu já havia cumprido com todas as aulas, almoçado e lanchado, vou até o ponto de ônibus e o espero. Só posso estar ficando doido... penso, pois nunca antes tive uma reação (tardia ou instantânea) como aquela que tive com Aaron. Não foi, aos olhos da maioria das pessoas, nada demais, mas para mim significou uma atitude muito ousada. Flagro-me pensando novamente nele, e forço-me a tentar esquecer.
No caminho de casa, olho pela janela do ônibus. Começara a cair uma neve fina, e ela já se acumulava em certos pontos. Penso novamente no que seria aquilo. O que seria esse aperto no peito? Essa... fixação? Afinal, além daquele incidente, nunca antes havíamos nos encontrado. Tenho de dizer que, por mais racional que eu seja, os sentimentos parecem, pela primeira vez em minha vida, terem influenciado em minhas reações.
Cabe descobrir se isso é bom ou ruim.
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