E Ainda Assim, Amor
38 Capítulo 38 – O Que Fica Quando Tudo Cala
O casamento fora tudo o que se esperava que fosse.
Bonito. Luminoso. Cheio de risos, música e promessas ditas em voz alta, perante todos. Harry sorrira, batera palmas, brindara aos noivos. Fizera tudo o que se espera de alguém que está presente — mesmo quando, por dentro, se sentia deslocado, como se ocupasse um lugar que não lhe pertencia por inteiro.
Mas nada o preparara para a sala da Toca.
Para Lucy.
Tinha sido um instante breve. Silencioso. Demasiado carregado para caber em palavras. Ele entrara distraído, a pensar em nada em particular, e dera de caras com ela ali — com os filhos. As crianças que não saíam da sua mente desde o momento em que as vira no jardim, a correrem, a rirem, a existirem com uma naturalidade que lhe desorganizara tudo por dentro.
Agora estavam ali, a dormir.
O menino e a menina. Tão pequenos. Tão iguais a algo que ele conhecia demasiado bem para ignorar.
Harry sentira o coração disparar no peito, como se tivesse acabado de correr quilómetros sem aviso. O ar parecera rarear. O mundo reduzira-se àquela sala, àquele sofá, àquela mulher que conhecera numa vida que já não era a sua.
Lucy olhara para ele. Ele olhara para ela.
Não havia acusação no olhar dela. Nem pedido. Apenas uma tristeza funda, antiga, contida com esforço — e isso fora, talvez, o que mais o desarmara.
Trocaram poucas palavras. Frases neutras. Educadas. O suficiente para não chamar atenção. Demasiado pouco para tudo o que ficara por dizer.
E depois ele subira as escadas, como se fugir fosse a única coisa que soubesse fazer.
Na casa de banho, apoiara as mãos no lavatório e ficara a olhar para o próprio reflexo. O rosto parecia-lhe mais velho do que se lembrava. Cansado. Os olhos verdes carregavam uma inquietação constante, como se estivessem sempre à procura de algo que nunca encontravam.
— Controla-te — murmurara para si próprio.
Mas o coração não obedecia.
Voltara à festa. Dançara com Ginny. Rira quando era suposto rir. Conversara com pessoas que lhe diziam que parecia feliz. Ginny estava bonita, segura de si, orgulhosa. Tocava-lhe no braço com familiaridade, inclinava-se para lhe dizer algo ao ouvido, como se tudo estivesse exatamente onde devia estar.
E talvez estivesse.
Pelo menos no papel.
A noite acabara, como acabam todas as festas: com despedidas, promessas vagas de encontros futuros e um cansaço geral que empurrava todos para casa. Aparataram em silêncio.
A antiga casa dos Potter recebia-os com a mesma quietude de sempre.
Tinham vendido Grimmauld Place meses antes — por insistência de Ginny. “Uma casa carregada de fantasmas”, dissera ela. Harry não discutira. Nunca discutia muito. Limitara-se a concordar, mesmo sentindo, no fundo, que mais uma parte da sua história ficara para trás.
Ginny adormeceu depressa naquela noite.
Harry ficou deitado ao seu lado, de olhos abertos, a ouvir a respiração dela tornar-se lenta e regular. Havia serenidade ali. Segurança. Uma vida construída com esforço, com decisões racionais, com aquilo que todos considerariam normal.
E ainda assim… algo faltava.
Levantou-se devagar, sem a acordar. Caminhou pelo corredor escuro até ao quarto ao lado. Abriu a porta com cuidado.
Albus dormia profundamente, enroscado nos lençóis, uma mão fechada junto ao rosto, o cabelo escuro espalhado pela almofada. Harry aproximou-se, sentou-se na beira da cama e ficou a observá-lo durante longos minutos.
— Está tudo bem, campeão — sussurrou, quase sem voz.
Ali, naquele quarto, sentia sempre algo diferente. Uma clareza estranha. Um amor simples, direto, sem conflitos internos. Beijou-lhe a testa e saiu, fechando a porta com cuidado.
Mas o sono não vinha.
Desceu até à sala e sentou-se junto à lareira apagada. Ficou ali, envolto no silêncio, com as imagens da noite a repetirem-se como um feitiço insistente: Lucy no jardim. Lucy a rir, puxada para dançar. Lucy na sala, com os filhos a dormir.
As crianças.
Os nomes que ouvira alguém mencionar ao longe. A forma como o menino se parecia com ele quando sorria. A maneira como o coração lhe batera forte demais, sem razão lógica.
— Não — murmurou para o vazio. — Não faz sentido.
Mas o coração não queria saber de lógica.
Ficou ali até o céu começar a clarear. Até o frio da madrugada lhe entrar nos ossos. Até perceber, com uma lucidez dolorosa, que podia ter tudo aquilo que sempre achara que queria — e, ainda assim, sentir-se incompleto.
Quando o primeiro raio de sol entrou pela janela, Harry não tinha respostas.
Apenas a certeza inquietante de que algumas verdades, por mais que se tentem enterrar, encontram sempre uma forma de regressar.
E de que aquela noite tinha mudado algo dentro dele — mesmo que ainda não tivesse coragem de lhe dar nome.
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