E Ainda Assim, Amor
39 Capítulo 39 – A Loja de Poções
Lucy abriu a porta da sua loja de poções com um leve estalo, os gémeos atrás dela, agarrados às suas mãos. Era manhã de verão e o céu claro prometia um dia longo e quente. Mila tinha oferecido ficar com as crianças, mas James e Lily queriam ir com a mãe; insistiram tanto que Lucy não teve coragem de os deixar para trás.
— Mãe, quero ver as poções! — disse James, saltitando quase ao nível do balcão.
— E eu quero ajudar! — acrescentou Lily, com os olhos grandes a brilhar de curiosidade.
Lucy sorriu, colocando uma mão na cabeça de cada um.
— Hoje portem-se bem, sim? Algumas poções são perigosas — avisou, com um tom firme, mas carinhoso.
A loja estava cheia de frascos de vidro, estantes repletas de ingredientes raros e um aroma forte a ervas e infusões mágicas. Bruna, a sua ajudante e amiga de escola avançada de poções, estava a organizar algumas ervas secas num dos balcões laterais.
— Bom dia, Lucy! — disse Bruna, sorrindo. — E os pequenos aventureiros?
— Estão a tentar não fazer demasiado estrondo — respondeu Lucy, rindo-se. — Por agora…
Os gêmeos começaram a explorar, mas com cuidado. James pegava num frasco de pétalas de mandrágora, cheirava e abanava a cabeça, fazendo caretas engraçadas. Lily observava um caldeirão com bolhas coloridas, fascinada.
— Olha, mãe, bolha! — exclamou, apontando para a espuma verde que se formava.
Lucy riu-se, puxando-os suavemente para perto dela.
— Sim, Lily, é muito bonito… mas não toquem, está quente!
O dia corria tranquilo, Lucy a ensinar os gêmeos a falar com cuidado sobre as poções, Bruna a atender clientes ocasionais que passavam na rua. Entre frascos e ingredientes, Lucy mantinha a rotina com calma, misturando poções menores, organizando as ervas e anotando receitas novas no caderno que sempre carregava consigo.
Foi então que a porta se abriu com o tilintar do sino e um homem entrou, alto, cabelo escuro ligeiramente despenteado, e olhos verdes que a deixaram em suspenso. Harry. Reconheceram-se imediatamente — e por um momento, o tempo pareceu parar.
Harry olhou à volta, aparentando concentrar-se nos frascos e na lista de ingredientes que levava na mão. Lucy sentiu o coração apertar, mas manteve-se serena, segurando firme a mão de James.
— Olá — disse Harry, num tom neutro, olhando para os frascos à sua frente. — Preciso de crina de unicórnio, algumas pétalas de mandrágora e… hm, raiz de asfódelo.
Lucy assentiu, mantendo a voz calma:
— Está bem. Posso ajudar a separar. —
Enquanto recolhia os ingredientes, não conseguiu evitar um olhar rápido para Harry. Ele, por sua vez, mantinha a postura profissional, mas o seu olhar passou por ela com o mesmo reconhecimento silencioso. Nenhum dos dois falou, mas sabiam: reconheciam-se, sentiam o impacto, e ainda assim seguiam o ritual do dia a dia.
James saltitava aos pés de Lucy, tentando tocar num pequeno frasco de bolhas de poção.
— Mãe! Quero bolhas!
— Calma, querido, ainda não — respondeu Lucy, rindo-se.
Lily agarrava o avental da mãe, olhando para Harry com curiosidade inocente.
— Quem é aquele? — perguntou baixinho, quase para si própria.
Harry sorriu discretamente para as crianças, mantendo distância, enquanto Bruna completava a recolha dos ingredientes no balcão.
— Estão a portar-se muito bem — disse, sem se aproximar demasiado.
Lucy entregou-lhe os ingredientes, e ele fez o pagamento com um aceno de cabeça. Um silêncio confortável pairou por alguns segundos, carregado de tensão e memórias não ditas.
Harry colocou os frascos cuidadosamente na sua mochila, lançou um último olhar para Lucy e os gêmeos, e saiu da loja com o tilintar do sino. Lucy suspirou fundo, observando a porta fechar-se atrás dele, sentindo o coração ainda a palpitar.
Os gêmeos agarraram-se-lhe às pernas.
— Mãe, ele foi embora! — disse James, quase desiludido.
— Sim, fomos bons, não é? — acrescentou Lily, sorrindo com as mãos na saia da mãe.
Lucy sorriu, rindo-se suavemente, pegando-os ao colo e deixando-os explorar um pouco mais a loja antes de fechar para almoçar e regressar a casa, onde descansariam todos um pouco antes da tarde continuar.
Enquanto caminhava de regresso a casa com os gêmeos de mãos dadas, Lucy sentia-se cansada, mas satisfeita. O verão passava rápido, os dias eram longos e cheios de pequenas rotinas, mas cada momento com os filhos fazia tudo valer a pena.
Nos meses seguintes, a vida seguiu o seu ritmo. Lucy continuava na sua loja de poções em Hogsmeade, Bruna ajudava-a nas tarefas mais pesadas, e os gêmeos cresciam cheios de curiosidade e energia. Mas, como qualquer criança pequena, também havia dias difíceis.
Numa manhã chuvosa de outono, James e Lily acordaram com febre alta, tossindo e queixando-se de dor de cabeça. Lucy sentiu o coração apertar. Após uma rápida avaliação, percebeu que não podia arriscar e decidiu levá-los imediatamente a São Mungo.
— Mãe… dói-me a cabeça — resmungou Lily, apoiando-se em Lucy.
— E eu estou com frio — queixou-se James, abanando os braços.
Lucy pegou neles ao colo, um em cada braço, protegendo-os da chuva com a sua capa. Bruna tentou ajudá-la com um guarda-chuva, mas Lucy insistiu:
— Não, é melhor assim, estão comigo.
O caminho até São Mungo parecia mais longo do que o habitual. Lucy sentia o peso da preocupação, lembrando-se das noites que passara a cuidar dos filhos e das longas madrugadas em que os tranquilizava. No hospital, a equipe de curandeiros recebeu-os rapidamente, e Lucy observou com atenção enquanto os examinavam, segurando-lhes as mãos e sussurrando palavras de encorajamento.
— Não te preocupes, mamã está aqui — dizia, acariciando-lhes os cabelos. — Vai ficar tudo bem.
Enquanto esperava pelos resultados, Lucy pensava na fragilidade da vida e na força que precisava ter. Sabia que cuidar dos filhos exigia coragem e paciência, mas também amor incondicional, algo que nenhum desafio podia abalar.
Finalmente, os curandeiros confirmaram que não era nada grave, apenas uma forte gripe. Lucy suspirou de alívio, sentindo uma mistura de cansaço e gratidão. Pegou nos gêmeos, já mais confortáveis, e regressou a casa, decidida a mantê-los aquecidos e aconchegados pelo resto do dia.
Ao atravessar a porta de casa, Lucy sentiu novamente aquele aperto no peito que só os momentos de verdadeiro amor podiam trazer. Sentou-se no sofá com os filhos, embrulhando-os em mantas e observando-os adormecer lentamente. A vida podia ser imprevisível, mas a certeza de que fazia tudo pelo bem deles dava-lhe força para continuar.
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