E Ainda Assim, Amor

34 Capítulo 34 – Um Natal Silencioso


O Natal finalmente chegara, trazendo consigo a luz suave das manhãs curtas e o frio insistente que transformava cada respiração em vapor. Para Lucy, este ano seria diferente. Diferente de tudo o que esperara. Ao contrário do ano passado, não haveria pic nic improvisado na Sala Precisa, nem risadas com Harry, nem o calor dos seus lábios nos dela.

Ela sentou-se na cama, sentindo a barriga mais pesada do que o costume. Cada movimento era acompanhado por uma consciência silenciosa, profunda, do que carregava. Estava na reta final da gravidez. Os médicos diziam que o dia 10 de janeiro era a data mais provável para o nascimento dos gémeos, mas algo lhe dizia que conheceria os filhos antes disso. Um pressentimento que lhe subia da barriga ao coração, acompanhando cada pontapé, cada movimento.

Lucy suspirou, deixando-se ficar mais alguns minutos entre os lençóis, a ouvir o vento frio bater nas janelas da casa. O silêncio da manhã parecia mais denso do que o habitual. Um silêncio cheio de lembranças, de saudade, de amor e de dor. Um silêncio que falava por ela, e apenas para ela.

Decidiu não fazer a sua caminhada matinal. A barriga estava pesada, os músculos cansados e a respiração mais difícil. Sentiu-se grata por poder ficar em casa, pelo menos hoje.

Quando desceu as escadas, o cheiro de chocolate quente e torradas a invadiu imediatamente. Um conforto simples, mas tão poderoso que quase a fez sorrir sem pensar. Mia, a elfa doméstica que a acompanhava desde que chegara à casa, movimentava-se com a agilidade típica da sua espécie, colocando cuidadosamente xícaras, pratos e um pequeno tabuleiro com biscoitos recém-assados.

— Bom dia, Lucy — disse Mia, com um sorriso tímido e olhos já marejados. — Chocolate quente, torradas… Mia quis fazer tudo perfeito.

Lucy sorriu, sentindo-se calorosamente envolvida por aquela dedicação silenciosa.

— Bom dia, Mia. Obrigada, cheira mesmo bem. — A voz era suave, mas firme. — Vem sentar, come comigo.

A elfa hesitou por um instante, a felicidade quase a fazer tremer as mãos, antes de se aproximar da mesa. Para Mia, Lucy era o mundo inteiro. A liberdade que sentia na casa não tinha preço. Pensar que antes fora escrava e agora podia chamar aquele espaço de lar enchia o coração de ambas de um sentimento único.

Comeram em silêncio, sem pressa. Não era um silêncio frio ou solitário; era reconfortante, cheio de pequenas presenças, da familiaridade e da rotina construída com cuidado ao longo dos meses. Depois da refeição, Lucy acenou com a varinha, lavando as loiças rapidamente, observando Mia afastar-se para limpar a mesa com precisão.

Sentou-se depois no sofá em frente à lareira, sentindo o calor envolver-lhe o corpo. Pegou num livro que Hermione lhe emprestara recentemente, tentando perder-se na história. Mas a mente teimava em vaguear. Pensava nos amigos, na sua ausência naquele Natal. Hermione e Ron estavam em Paris, viajando para celebrar a temporada. Ela sentia falta deles, mas a alegria deles também trazia conforto.

Lucy lembrou-se de Luna e Neville. Trocaram cartas nos últimos dias. Neville estava ocupado com as aulas de Herbologia e não parava de falar em novas plantas mágicas, enquanto Luna mergulhara ainda mais fundo no mundo do Pasquim, trabalhando com o pai. A vida seguia, lenta mas firme, e ela sentia-se de algum modo ligada a todos, mesmo à distância.

Mia entrou silenciosamente com cartas, colocando-as cuidadosamente ao lado da chávena de chá quente. Todas eram de amigos: Ron, Hermione, Luna e Neville, cada um com palavras de carinho, votos de Natal e felicidades pelo aniversário. Lucy sorriu, mas no fundo sentiu o vazio de uma carta que nunca chegaria. Harry. Ela soube, sem necessidade de ler, que aquela carta não existia.

Após o almoço, a campainha soou e, para sua surpresa e alegria, era a professora McGonagall. Cada vez mais, Lucy sentia a mulher como uma segunda mãe, alguém que se preocupava genuinamente e que a ajudara de formas que nem sempre podia agradecer.

— Como tens estado, querida? — perguntou a professora, acariciando a barriga de Lucy com ternura. — E os bebés?

— Estão bem, professora — respondeu Lucy, suspirando e deixando que a mão repousasse sobre a barriga, sentindo os pequenos movimentos. — Eu… vou tentando levar um dia de cada vez. Mas não está fácil… sem ele, sem os meus pais.

— Eu sei — disse McGonagall com suavidade, mas firmeza —. O tempo ajuda, e acredita, eles, onde quer que estejam, devem estar muito orgulhosos de ti. E eu estou.

Lucy sentiu o beijo na testa, delicado e reconfortante.

— Vou regressar a Hogwarts — disse McGonagall, levantando-se com cuidado —. Mas se precisares de mim, avisa-me, sim?

— Sim, professora — respondeu Lucy, com um pequeno sorriso, sentindo-se protegida e amada.

O resto do dia passou de forma tranquila. Lucy leu, meditou, observou o frio dançar nas janelas, a neve tímida que começava a cair. Cada sopro do vento lembrava-lhe a chegada iminente do Natal e o ano novo, e com isso uma mistura de nostalgia, alegria e saudade.

Enquanto se preparava para dormir, repousada no seu quarto, sentiu-se envolta por uma sensação nova: de paz, de amor, de futuro. Apesar de tudo o que perdera, apesar da distância de Harry e da ausência dos amigos, sabia que era amada por alguns, e que aqueles laços eram suficientes para enfrentar o que viria.

No silêncio da noite, Lucy fechou os olhos, mãos pousadas sobre o ventre, sentindo os movimentos suaves dos bebés. Dois corações, batendo juntos com o dela. Dois futuros que ela protegeria, mesmo que o mundo parecesse às vezes frio demais.

E, sem se aperceber, um sorriso tranquilo surgiu-lhe nos lábios. Pela primeira vez em muito tempo, podia simplesmente existir, sentir e esperar. Esperar pelo Natal, pelo nascimento dos filhos, e por tudo o que ainda estava por vir.