Era o último dia do ano, lá fora a neve começava a cair com mais força anunciando o nevão que viria.

Lucy acordara com a sensação de que carregava o mundo na barriga. Hoje estava mais pesada do que nunca. Sentia-se inquieta. Não saiu da cama; Mila cuidou dela, ajudou-a a tomar banho, levou-lhe o pequeno-almoço à cama e fez-lhe companhia.

Divertia-se a ver as tentativas de Mila de aprender a fazer tricô; passara os últimos dois meses a tentar, sem sucesso, fazer uma roupinha para os bebés. As suas mãos eram grandes demais, desajeitadas demais para a função.

Lucy agradecia mentalmente a distração, o dia era difícil. Passou a noite a sonhar com o pedido de namoro um ano antes e com o quanto ficara feliz ao dizer que sim.

Não tinha planos para aquele dia; aliás, até tinha: passaria o resto do dia deitada na cama, pois o desconforto era grande, e depois dormiria e sonharia com a chegada dos filhos, James e Lily. Estava desejosa de os conhecer. Por volta das cinco horas da tarde sentiu a primeira pontada de dor. Deixara de ser apenas desconforto. Não ligou. Pensou ser normal. Mais tarde outra pontada, e mais outra, a dor a aumentar. Percebeu que entrara em trabalho de parto. Logo naquele dia em que sabia que a curandeira estaria ausente. E agora? Chamou Mila, mas ela não a ouvia, provavelmente estaria na cozinha a fazer alguma coisa. Ao longe ouvia o velho rádio dos pais a tocar uma melodia qualquer.

Decidiu então levantar-se; as dores cada vez mais fortes não lhe permitiam ficar mais tempo deitada. Andou um pouco pelo quarto, mas quando viu que o alívio não vinha decidiu tomar um banho para acalmar as dores das contrações. A água do chuveiro a cair sobre o corpo trazia alívio, mas sabia que iria piorar.

Vestiu-se e desceu a longa escada em direção à cozinha. Quando estava a chegar aos últimos degraus sentiu uma contração muito forte, mais forte do que as anteriores; teve uma tontura e caiu da escada. Felizmente foram só três ou quatro degraus e, por sorte, não bateu com a enorme barriga no chão.

Mila assustou-se com o barulho e foi ver o que tinha acontecido. Encontrou Lucy caída no fundo da escada e correu até ela. Lucy pediu para chamar alguém, talvez Madame Pomfrey pudesse ajudar com o parto.

Entretanto, ao mesmo tempo, Harry estava na Toca. Naquele dia era impossível não se lembrar dela — Lucy — afinal tinha sido um dia importante. Tentou deixar esses pensamentos de lado e aproveitar a festa na casa dos Weasley.

No jardim havia uma tenda montada, aquecida para que ninguém passasse frio durante a festa. Nevava bastante, mas todos se estavam a divertir.

Harry estava sentado numa das muitas mesas redondas que havia no local. Ouvia a música a tocar, mas não lhe apetecia dançar. Ginny bem que tinha tentado arrastá-lo para a pista de dança, mas não tinha tido sucesso. Precisava de apanhar ar e ficar um pouco sozinho; saiu da tenda, entrou na Toca, sentou-se no sofá e, de repente, viu uma elfa que nunca tinha visto aparatar bem à sua frente.

— Harry Potter, senhor, precisa ajudar — disse a elfa inquieta.

— Quem és tu? — perguntou, desconfiado.

— Mila, senhor Harry Potter — disse — precisa ajudar senhora Lucy, cair da escada, bebés vão nascer.

Ao ouvir as palavras da elfa, o seu coração perdeu uma batida. Não sabia o que fazer. Será que devia ouvir o seu coração ou a razão?

Não teve tempo de pensar. Molly Weasley vinha a descer as escadas e ouvira tudo.

— Fica descansada, Mila, eu e o Harry vamos contigo e vamos ajudar a Lucy — disse a matriarca da família Weasley.

— Mas… — disse o moreno.

— Não há mas nem meio mas, vamos e pronto — disse, irredutível — independentemente do que aconteceu entre vocês, ela precisa de ajuda e nós vamos ajudar.

— Harry Potter, senhor, ajudar filhos dele — disse Mila antes de aparatar. Os dois bruxos aparataram logo em seguida.

Lucy continuava caída à beira da escada; as contrações estavam insuportáveis, sentia-se como se estivesse a ser rasgada por dentro. Arrastou-se até junto da parede mais próxima e esperou. Mila deveria chegar logo com Madame Pomfrey. Se a curandeira não pudesse ajudar, só lhe restava aparatar para o Hospital de São Mungo.

Num segundo estava sozinha; no outro, uma elfa e dois bruxos aparataram à sua frente. Para seu espanto, era Harry.

Como era possível ele estar ali naquele momento? Porque é que Mila o chamara? Não sabia, mas mais tarde tinha de se lembrar de lhe agradecer. Ter o homem que ama, pai dos filhos, ao seu lado naquele momento era mais do que podia esperar.

— Depressa, Harry, temos de a levar para o quarto — disse Molly, apressada — o que estás à espera para pegar nela ao colo? Depressa!

Quando Harry aparatou e a viu no chão, encostada à parede, com o semblante carregado de dor, sentiu as suas pernas tremerem. Ficou estático, sem se mexer, até ouvir Molly mandá-lo pegar nela ao colo.

Naquele momento não havia espaço para mágoas. Era altura de ajudar Lucy. Com todo o cuidado, pegou nela ao colo. Por momentos, os seus olhos cruzaram-se e eram só eles ali. Senti-la novamente com o corpo colado ao seu parecia tão normal, tão correto. O cheiro do seu perfume chegou-lhe às narinas e, por um instante, fechou os olhos, como a querer guardar para sempre aquele momento.

Mila indicou o caminho para o quarto e, com delicadeza, deitou-a na cama.

Molly usou Accio para convocar toalhas e tudo o que seria necessário para ajudar no parto. Não tinham tempo de chegar ao hospital.

A partir daquele momento foi tudo muito confuso para Lucy, um misto de dor, emoção e amor.

Harry esteve o tempo todo ao seu lado, deu-lhe a mão, que ela prontamente apertava cada vez que vinha uma contração.

Nunca imaginou tê-lo ali naquele momento, mas sentiu-se feliz.

— Com mais força, Lucy. Vai nascer — disse a matriarca Weasley.

Em seguida, o primeiro bebé nasceu.

— É um menino.

Harry assistia a tudo maravilhado. Sentia que era ali que devia estar; o seu coração sentia isso, mas os seus pensamentos teimavam em voltar para aquela noite.

Lucy estava quase sem forças. Molly ordenou que Harry se sentasse por trás dela e que a apoiasse contra o seu corpo. O moreno fez isso; encostou-se à cabeceira da cama e encostou-a a si. Sussurrou-lhe palavras de incentivo ao ouvido, dizia-lhe que ela era forte e que iria conseguir, só precisava de fazer força mais uma vez.

De repente, sentiu o corpo dela enrijecer contra o dele e ouviu um choro baixinho.

Molly colocou a menina sobre o peito de Lucy. Harry viu-a emocionar-se e ele próprio deixou cair uma lágrima, que não passou despercebida a Molly.

Ron e Hermione tinham-lhe contado o que tinha acontecido entre eles e a matriarca acreditou em Lucy mesmo sem a conhecer. No fundo do seu ser, algo lhe dizia que ambos tinham sido vítimas da maldade alheia. Agora, olhando para as crianças, não existiam dúvidas: eram a cara do pai. Harry só não percebia porque não queria.

Molly colocou as crianças nos berços que estavam no quarto, trocou os lençóis e mandou Harry ficar com Lucy e as crianças até ao dia seguinte, porque podiam precisar de ajuda. Não foi preciso insistir; ele quis ficar. Algo lhe dizia que tinha de o fazer. Viu Lucy adormecida na cama, com o ar cansado, mas sereno. Acariciou-lhe a face rosada; queria recordar cada pedacinho dela para sempre. Se pudesse congelar o tempo, faria isso naquele momento. Queria ficar ali para sempre.

Depois de toda a adrenalina, a fome bateu. Desceu as escadas até à cozinha, abriu o frigorífico e comeu. Mila tinha ficado no quarto com as crianças.

Depois de comer, subiu novamente e reparou numa porta entreaberta em frente ao quarto. A curiosidade foi maior e decidiu entrar no cômodo. Ao abrir a porta, parou em choque. Numa parede, os nomes James Lupin e Lily brilhavam e mexiam por magia.

Dentro dele, uma guerra acontecia. Viu estampado o nome do pai, da mãe e do antigo professor. Se as crianças não eram dele, porque será que Lucy escolhera aqueles nomes?

Começou a ouvir um choro e saiu do transe. Foi rapidamente para o quarto em frente, pegou no menino ao colo, um pouco desajeitado, sob o olhar atento da elfa. Nunca tinha trocado uma fralda na vida, mas deu o seu melhor. Quando terminou, viu Lucy a olhar para si com ternura.

Colocou-lhe o bebé nos braços e ficou a vê-la amamentar. Naquele momento, palavras não precisavam ser ditas, mas mesmo assim Lucy falou.

— Obrigada por tudo, sem ti eu não seria capaz.

— Não precisas de agradecer, fiz o que qualquer um faria — disse, embalando Lily, que acordara.

— Foi muito importante estares presente neste momento — disse — mesmo que não acredites, eles são nossos filhos, teus e meus, mas eu não vou mais insistir. Tenho a certeza de que um dia a verdade virá ao de cima e, nessa altura, vais perceber que nunca te menti.

Harry abriu a boca várias vezes, mas não conseguiu falar. Decidiu deixá-la descansar e, de manhã, saiu antes de ela acordar.

Saiu em silêncio, deixando para trás o quarto, as crianças e a única verdade que ainda não tinha coragem de aceitar.