E Ainda Assim, Amor
28 Capítulo 28 – O Último Olhar
Os dias finais de exames trouxeram a Hogwarts um silêncio diferente.
Já não havia aulas nem a rotina habitual a empurrar os alunos de sala em sala. Restavam corredores cheios de passos cansados, olheiras profundas e um nervosismo quase palpável no ar. O castelo parecia respirar mais devagar, como se soubesse que aquele era um fim — de um ciclo, de uma segurança, de uma vida que nunca mais seria igual.
Lucy sentia isso em cada esquina.
Os exames tinham corrido melhor do que esperava. Não perfeitos, mas sólidos. Fizera um esforço consciente para se manter concentrada, para não deixar que a dor, o medo ou a presença constante de Harry a desviassem do que realmente importava. O futuro dela dependia daquelas provas. O dela… e o daquele pequeno ser que crescia silenciosamente dentro de si.
Mesmo assim, Hogwarts tornara-se um campo minado.
Quase-encontros. Olhares evitados. Silêncios que gritavam.
Harry surgia sempre onde menos esperava — num corredor estreito, ao fundo da biblioteca, na saída de uma prova. Às vezes os olhos cruzavam-se por breves segundos. Outras, ele desviava o olhar antes mesmo de ela se aperceber da sua presença. Cada gesto desses deixava marcas invisíveis, pequenas fissuras no peito de Lucy.
Hermione permanecia ao seu lado sempre que podia.
Na manhã do último exame, surgiu ao seu lado com um sorriso largo, quase eufórico, contrastando com o cansaço geral.
— Lucy, sabes o que isto significa? — perguntou, praticamente saltitando enquanto caminhavam pelo corredor.
Lucy franziu o sobrolho.
— Que finalmente vamos poder dormir?
Hermione riu-se.
— Também. Mas significa que hoje é o último exame… e que o baile de despedida é dentro de três dias!
Lucy parou de andar.
— O quê?
— O baile! — repetiu Hermione, entusiasmada. — Só para os alunos do sétimo ano. Um verdadeiro baile. Vestidos, música, tudo! É tradição.
Lucy sentiu um aperto imediato no estômago.
— Não, Hermione. Não vou.
— Vais sim — respondeu a amiga, sem hesitar.
— Hermione…
— Nem penses em fugir. Já passaste por demasiado para te esconderes agora. Além disso — acrescentou, num tom mais suave — é a nossa despedida de Hogwarts.
Lucy desviou o olhar.
— Não quero ir sozinha.
Hermione pousou-lhe a mão no braço.
— Então vais sozinha. E isso não tem nada de errado.
Os dias seguintes passaram num turbilhão estranho.
Os alunos do sétimo ano foram autorizados a ir a Hogsmeade para comprar roupas para o baile. Lucy tentou recusar-se, mas Hermione foi implacável.
— Nem penses que te deixo ficar no castelo.
Hogsmeade estava cheia de risos, excitação, promessas de futuro. Lucy sentia-se deslocada, como se observasse tudo através de um vidro espesso. Experimentou vestidos sem grande entusiasmo até que Hermione lhe colocou um nas mãos.
— Este.
Era simples, elegante, num tom suave que lhe realçava a pele e os olhos. Lucy olhou-se ao espelho durante longos segundos.
— Não faz sentido — murmurou.
— Faz — respondeu Hermione com firmeza. — Faz porque és tu.
Lucy acabou por comprar o vestido. Não por vontade, mas por cansaço de lutar contra tudo.
A noite do baile chegou demasiado depressa.
Lucy vestiu-se devagar, quase mecanicamente. O castelo estava diferente — iluminado, vivo, cheio de expectativa. Olhou-se ao espelho uma última vez antes de sair do dormitório. Não sorria. Mas também não parecia quebrada.
Desceu a escadaria que dava acesso ao salão principal com passos controlados, o coração acelerado.
E então viu-o.
Harry estava à entrada do salão, impecavelmente vestido, o cabelo rebelde um pouco mais domado do que o habitual. Ao seu lado estava Ginny.
Ela estava linda. O vestido assentava-lhe perfeitamente, e o sorriso no rosto era genuíno, luminoso. Segurava o braço de Harry com naturalidade — como alguém que sabia exatamente o lugar que ocupava.
Lucy sentiu o mundo inclinar-se ligeiramente.
Parou por um instante no topo da escadaria, invisível por um breve segundo… e depois avançou.
Harry levantou o olhar.
E tudo parou.
Não esperava vê-la ali. Não assim.
Lucy descia as escadas com uma elegância silenciosa, o vestido a acompanhar-lhe os movimentos, o rosto sereno apesar de tudo. Não trazia par. Caminhava sozinha. E, ainda assim, havia nela uma força estranha, uma dignidade que lhe apertou o peito de forma quase dolorosa.
Harry esqueceu-se de respirar.
Ginny disse algo ao seu lado, mas ele não ouviu. Só via Lucy. O modo como mantinha o olhar em frente. Como não procurava ninguém. Como parecia… distante. Inatingível.
— Harry? — chamou Ginny, suavemente.
Ele piscou os olhos, voltando à realidade.
— Sim. Desculpa.
Mas era tarde demais.
Lucy já o tinha visto. Já os tinha visto juntos.
E algo dentro dela fechou-se em definitivo.
O baile decorreu como um sonho estranho.
Lucy dançou uma vez com Neville. Sorriu quando esperado, respondeu quando lhe falavam. Mas por dentro estava longe. Harry observava-a de longe, sempre. Viu-a rir brevemente. Viu-a afastar-se. Viu-a sair do salão antes do fim.
Não a seguiu.
Dessa vez, não teve coragem.
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