E Ainda Assim, Amor

29 Capítulo 29 – O Lugar Onde Ficaram as Coisas Não Ditas


Na manhã seguinte, Hogwarts acordou envolta numa melancolia suave, quase respeitosa.

Não era silêncio absoluto, mas um murmúrio contido, feito de despedidas sussurradas, do arrastar de malas pelas escadas de pedra e de promessas lançadas ao ar sem a certeza de serem cumpridas. O castelo parecia consciente do que estava a acontecer — como se soubesse que aqueles alunos não voltariam a atravessar os seus corredores da mesma forma. Para muitos, aquele era o último adeus.

Lucy caminhava pelos corredores com a mala numa mão e a mochila no ombro, sentindo cada passo como uma pequena rutura. Observava tudo com uma atenção estranha, quase dolorosa, como se quisesse gravar cada detalhe na memória: as tapeçarias gastas pelo tempo, os retratos que murmuravam despedidas, as janelas altas por onde entrava a luz clara da manhã.

Hogwarts fora casa.

Mesmo quando doera.

Talvez sobretudo quando doera.

Antes de se dirigir à plataforma, algo a puxou noutro sentido.

Lucy subiu ao sétimo andar quase sem perceber porquê. Havia uma inquietação no peito que não a deixava seguir em frente, uma sensação insistente de que ainda faltava qualquer coisa — um último gesto, um último espaço onde pudesse respirar como aluna de Hogwarts.

Caminhou várias vezes em frente à parede vazia, os pensamentos confusos, o coração acelerado.

Preciso de um lugar para me despedir.

Preciso de um lugar onde possa ficar inteira… nem que seja por alguns minutos.

A porta surgiu.

Lucy entrou.

A Sala Precisa revelou-se simples, quase despida. Uma luz suave entrava por uma janela alta, tingindo o espaço de dourado. Havia uma lareira apagada e duas cadeiras afastadas, como se a própria sala tivesse entendido que aquele não era um momento de conforto, mas de verdade. Lucy aproximou-se da janela e pousou as mãos na pedra fria, respirando fundo.

Ali, permitiu-se sentir.

Não chorou. Ainda não. Apenas deixou que o peso se acomodasse no peito.

A porta abriu-se atrás dela.

Harry não planeava ir ali.

Subira ao sétimo andar levado por um impulso antigo, quase instintivo. Precisava de um lugar onde pudesse despedir-se do castelo sem olhares, sem perguntas, sem a obrigação de parecer forte. Apenas um espaço para organizar o caos dentro de si antes de partir.

Quando entrou e viu Lucy, o mundo pareceu suspender-se.

Ela virou-se lentamente. Os olhos encontraram-se.

Durante longos segundos, nenhum dos dois falou. A Sala Precisa mantinha-se em silêncio absoluto, respeitando aquele encontro que nenhum deles pedira… mas ambos precisavam.

— Não sabia que estarias aqui — disse Harry por fim, a voz baixa, contida.

— Nem eu — respondeu Lucy.

Harry deu um passo em frente, depois parou. Havia uma linha invisível entre eles que nenhum parecia ter coragem de atravessar. O conflito era evidente: a vontade de dizer tudo e o medo de dizer demais.

— Vim despedir-me — confessou ele. — Achei que… precisava.

Lucy assentiu devagar.

— Eu também.

Havia perguntas que queimavam. Verdades que pediam espaço. Mas o tempo parecia curto demais, e ambos sabiam que não era ali que tudo se resolveria. Não naquele instante suspenso entre o que tinham sido e o que seriam.

— Espero que… — Harry começou, passou a mão pelos cabelos e suspirou. — Espero que encontres o que procuras.

Lucy sustentou o olhar dele, firme apesar da dor.

— Também espero que sejas feliz e quero que saibas que se um dia descobrires a verdade eu e o nosso bebé estaremos à tua espera

As palavras eram simples, mas carregadas de tudo o que não tinham coragem de dizer. Harry abriu a boca, como se fosse acrescentar algo — talvez um pedido, talvez um arrependimento — mas acabou por fechar os lábios.

— Adeus, Lucy, não me esperes porque não vou voltar.

— Adeus, Harry.

Nenhum se aproximou. Nenhum tentou mais nada. A Sala Precisa deixava-os partir.

Lucy saiu primeiro tentando esconder os seus sentimentos. Harry permaneceu ali por mais alguns segundos, o olhar fixo no espaço vazio onde ela estivera, antes de virar costas.

Na plataforma, o Expresso de Hogwarts aguardava, soltando nuvens de vapor que se misturavam com o ar fresco da manhã. Os alunos do sétimo ano reuniam-se em pequenos grupos, abraçando-se, chorando, rindo, prometendo manter contacto, os alunos dos outros anos sorriam felizes por irem de férias.

Lucy subiu para o comboio em silêncio.

Escolheu um compartimento junto à janela, colocou a mala no suporte e sentou-se, as mãos entrelaçadas no colo. Viu Hermione na plataforma, que lhe acenou com um sorriso triste e determinado. Lucy respondeu do mesmo modo.

Harry entrou noutro vagão e sentou-se junto à janela. Observava Hogwarts a afastar-se lentamente — as torres, as muralhas, os lugares onde crescera, onde amara, onde perdera.

Não a procurou.

Não porque não quisesse… mas porque sabia que, se o fizesse, talvez não conseguisse deixar o passado ali.

O apito soou.

O comboio começou a mover-se.

Lucy inclinou-se para a frente e lançou um último olhar para trás. Harry fez o mesmo no seu vagão.

Não se viram.

Mas ambos sentiram o mesmo aperto no peito.

Hogwarts ficava para trás.

E com ele, tudo aquilo que nenhum dos dois soubera salvar a tempo.