A sensação de um bom dia começou antes mesmo de Lucy abrir totalmente os olhos. Havia manhãs assim, raras, em que o castelo parecia menos pesado e o passado ficava do lado de fora das muralhas, misturado com a neve que ainda resistia nos jardins. Do dormitório chegava o rumor distante das escadas e o riso de colegas que se preparavam para as aulas. Lucy deixou-se ficar um momento, a observar o teto conhecido, como se Hogwarts lhe concedesse uma trégua silenciosa.

No Salão Principal o ar estava morno e cheirava a pão acabado de fazer e café. A luz de inverno entrava pelos vitrais e espalhava manchas coloridas sobre as mesas. Sexta-feira trazia sempre a promessa de fim de semana, e depois de meses de reconstrução pós-guerra até os fantasmas pareciam mover-se com mais leveza. Lucy tomou o pequeno-almoço com calma invulgar, ouvindo conversas sobre visitas a Hogsmeade e trabalhos por entregar. Tentou convencer-se de que partilhava apenas desse ânimo coletivo, e não de algo mais pessoal que lhe acelerava o coração.

Caminhou para História da Magia com os livros apertados contra o peito. Os corredores ainda exibiam vestígios do feitiço de aquecimento que a direção lançara no início do mês; das janelas via-se o branco intacto do exterior, quase irreal. A meio do percurso encontrou Harry, Ron e Hermione. Vinham na mesma direção, e Lucy juntou-se a eles sem pensar demasiado. Falavam dos exames que se aproximavam, de carreiras no Ministério e de como a escola mudara depois da batalha final. Harry escutava mais do que dizia, com aquele ar atento que Lucy aprendera a reconhecer.

A sala de Binns estava, como sempre, envolta numa monotonia confortável. O professor atravessou a parede com o seu deslizar espectral e iniciou a longa narrativa sobre rebeliões de duendes. Lucy respirou fundo e, contrariando a timidez habitual, sentou-se ao lado de Harry. Ele pareceu agradado, afastando a cadeira para lhe dar espaço. Durante a explicação, os braços tocaram-se duas ou três vezes sem querer; o arrepio que percorreu a espinha de Lucy foi tão nítido que quase deixou cair a pena. Corou, escondendo o rosto atrás do livro, e ouviu Ron segredar uma piada qualquer que Hermione fingiu reprovar.

Quando o sino ecoou, seguiram todos para a biblioteca. O grupo do sétimo ano ocupava as mesas centrais como um exército pacífico de pergaminhos. Lucy tentou concentrar-se nas revisões para os exames, mas a presença de Harry desviava-lhe os pensamentos para territórios menos académicos. Ele detestava algumas teorias de Poções e agradeceu quando Lucy se ofereceu para lhas explicar com paciência. Em troca, ajudou-a com um feitiço de proteção que ela nunca executara com verdadeira segurança. Hermione observava a interação com curiosidade bondosa, como se já antevisse segredos que nenhum dos dois ousava nomear.

À hora do almoço regressaram ao Salão. A comida quente e as vozes misturadas devolveram Lucy à realidade. Harry sentou-se na mesa da Grifinória e lançou-lhe um olhar de despedida breve; encontrar-se-iam mais tarde para treinar. A ideia acompanhou Lucy durante toda a tarde, tornando as últimas horas de estudo quase intermináveis.

Às três e poucos, Lucy subiu as escadas para o sétimo andar. Hogwarts parecia suspensa numa pausa preguiçosa de sexta-feira; ou talvez fosse apenas o seu próprio nervosismo a alterar a textura do tempo. Harry já a esperava quando a parede se abriu. Entrou primeiro, examinando o espaço que a sala criara: alvos flutuantes, almofadas gastas, uma lareira discreta a arder ao fundo.

– Parece que hoje ela está do nosso lado – comentou ele, com um meio sorriso.

Lucy riu, pousando os frascos e os livros sobre a mesa que surgira do nada. Durante alguns minutos repetiram encantamentos básicos, como se necessitassem de aquecer também as palavras. Harry demonstrou o Protego com precisão; Lucy imitou o movimento, guiada pela voz dele, e o feitiço formou uma película azulada no ar. A cada tentativa bem-sucedida a sala parecia aquecer um pouco mais como se fosse cúmplice do dois.

Fizeram então um duelo de treino. Varinhas erguidas, movimentos rápidos, passos que levantavam poeira antiga. Lucy sentiu-se surpreendentemente segura; Harry não atacava para vencer, mas para lhe ensinar limites. Quando um raio mais forte a desequilibrou, ele amparou-a pelo cotovelo.

– Desculpa, entusiasmei-me.

– Eu é que pedi feitiços difíceis – respondeu Lucy, ainda a recuperar o fôlego.

Sentaram-se perto da lareira. O silêncio que se seguiu era diferente do das aulas formais, um espaço onde cabiam confissões. Lucy observou o fogo e tomou coragem.

– Tens pensado no que vais fazer depois dos exames?

Harry encolheu os ombros.

– Auror, provavelmente. É o que todos esperam de mim. Mas… às vezes imagino dar aulas de Defesa. Reconstruir as coisas de outro modo.

A frase ficou a pairar. Lucy falou então do seu próprio sonho, de trabalhar com Poções, de um laboratório luminoso onde ninguém temesse experimentar. Aprendera a amar poções graças à ajuda de Hermione. Harry escutou com interesse genuíno, fazendo perguntas que a obrigaram a explicar fórmulas e ingredientes. A proximidade tornou-se quase natural, e quando os relógios mágicos recolheram as estantes para anunciar treino livre, nenhum dos dois se moveu.

Harry levantou-se e propôs testar um feitiço de desarme avançado. Lucy aceitou, mas a concentração já não era perfeita. Entre uma tentativa e outra, trocaram risos e pequenos fracassos. A certa altura a varinha de Lucy voou para longe e Harry foi buscá-la. Devolveu-a com uma solenidade brincalhona.

– A sala diz que precisas de praticar mais.

– Ou de um professor melhor – respondeu ela.

Os olhares cruzaram-se e o ar pareceu mudar de densidade. Harry aproximou-se para corrigir-lhe a posição dos dedos; o gesto demorou mais do que o necessário. Lucy sentiu o rubor subir-lhe outra vez ao rosto e perguntou-se se ele ouviria o seu coração descompassado. Harry, porém, recuou, como se acordasse de um pensamento perigoso.

Treinaram até ficarem exaustos. À saída a parede fechou-se atrás deles com um suspiro quase humano. Desceram as escadas lado a lado, comentando progressos e dores nos pulsos. Lucy teve a sensação estranha de que Hogwarts lhes concedera um segredo.

Ao entardecer o céu ganhou tons lilases sobre os jardins. Na última hora antes do jantar, Harry e Lucy encontraram-se novamente na biblioteca para arrumar o material. Ron passou por eles apressado, ansioso por um fim de semana longe de pergaminhos, e Hermione falou com entusiasmo de projetos sociais para o Ministério, mencionando os elfos domésticos e a necessidade de uma lei que os protegesse. Harry ouviu com aquele ar pensativo; Lucy admirou-lhe a seriedade silenciosa.

No Salão, durante o jantar, as mesas enchiam-se de planos. Lucy sentou-se com colegas, mas o olhar fugia-lhe para Harry algumas cadeiras abaixo. Ele parecia partilhar do mesmo desvio, e quando os vitrais refletiram a luz das velas nos seus óculos redondos, Lucy acreditou outra vez que teria um bom dia – e talvez algo mais do que isso.

Subiu para o dormitório com os livros revistos e o coração inquieto. Sexta-feira terminava, mas a sensação de expectativa permanecia, como a neve que insiste em não derreter.