E Ainda Assim, Amor
10 Capitulo 10
O tempo parecia voar. Em cada corredor de Hogwarts havia sempre um aluno do sétimo ano com livros apertados contra o peito, como se o conhecimento pudesse cair se o largassem por um segundo. Dividiam-se entre as aulas e os estudos para os exames, e até o riso soava mais contido, mais adulto. Ainda assim, chegara finalmente o momento de descansar e aproveitar as férias de Natal.
O castelo ganhava vida com a magia típica da época. Velas flutuantes refletiam tons dourados nas janelas, e o Salão Principal cheirava a pinho e a doces recém feitos. Durante o verão, numa conversa tranquila com Minerva, Lucy dera a ideia de decorarem a grande árvore com estrelas encantadas que mostrassem as fotografias dos que tinham padecido na guerra — uma para cada nome, uma para cada ausência. A então nova diretora aceitara na hora, com aquele aceno breve que valia mais do que discursos inteiros.
Quando Lucy entrou no salão e viu a sua ideia concretizada, sentiu uma lágrima rolar pelo rosto, e depois outra. Reconheceu sorrisos que nunca conhecera pessoalmente, olhares demasiado jovens para serem memória. Tentou respirar fundo, mas a emoção veio em ondas e viu-se incapaz de parar quando viu as fotografias dos pais e do padrinho a acenar-lhe e a sorrir.
Na mesa da Grifinória, Harry observava a cena em silêncio. Houve qualquer coisa no modo como ela tremia que o fez levantar-se sem pensar duas vezes. Caminhou direito a Lucy e abraçou-a, ignorando o burburinho à volta. Sentiu-a render-se nos seus braços, como se tivesse estado à espera daquele gesto há muito tempo.
Lucy, ao perceber os braços dele à sua volta, sentiu o corpo relaxar. Naquele instante compreendeu, com uma clareza quase assustadora, que aquele era o único lugar no mundo onde queria estar para sempre. Nos braços de Harry havia paz, amor e segurança. A amizade que os unira transformava-se, devagar, em algo mais profundo. Mas será que ele sentia o mesmo? Fechou os olhos e abraçou-o com mais força, decidida a deixar esses pensamentos de lado por enquanto.
Um pouco mais adiante, Ginny Weasley apertava as mãos com força sobre a mesa. Não conseguiu comer. O salão, tão quente e luminoso para todos os outros, parecera-lhe subitamente estreito. Saiu depressa, com uma raiva contida a que nem ela sabia dar nome, e levou consigo a certeza de que o Natal em casa seria uma penitência.
A maioria dos alunos embarcou no Expresso de Hogwarts na manhã de 20 de dezembro. Ron, Hermione e o resto dos Weasley partiram para junto das famílias. Harry e Lucy, porém, ficaram no castelo. Ele preferira não forçar o regresso aos tios, apesar da serenidade do verão anterior; ela não tinha para onde ir. Minerva permaneceria na escola, dividida entre o papel de diretora e o de professora de Transfiguração, e Lucy sabia que os tios jamais a chamariam. Culparam-na pela morte dos pais, e o tio repetia, sempre que podia, que a irmã e o cunhado tinham morrido porque ela era fraca. Aquelas palavras acompanhavam-na como passos invisíveis na neve.
Ainda assim, decidiram acompanhar os amigos até à estação e seguiram depois para Hogsmeade fazer as compras de Natal. Beberam cerveja amanteigada, fizeram guerra de bolas de neve e riram como crianças por uma tarde. Esqueceram o peso da dor até o sol começar a descer. Separaram-se para comprarem a prenda um do outro e regressaram ao castelo com a sensação de que algo novo pairava no ar.
Depois de regressarem de Hogsmeade, Lucy passou algum tempo a ajudar Minerva a organizar as estrelas que ainda faltavam pendurar. Harry ficou perto, entregando-lhe fios prateados e fingindo interesse em detalhes técnicos, quando na verdade só queria prolongar a companhia.
À noite caminharam pelos corredores iluminados. Hogwarts vazia parecia menos assustadora quando estavam juntos.
Ao longo dos dias seguintes, aproveitaram o tempo para pequenas coisas que lhes davam prazer: ajudaram Minerva a terminar as decorações, treinaram alguns feitiços na Sala Precisa, revisaram matérias para os N.E.W.T.s e riram-se juntos das pequenas falhas nos feitiços. Lucy passava horas a preparar pequenas surpresas para a ala hospitalar e Harry observava-a com atenção, admirando a concentração e o cuidado dela. A cada gesto descobriam mais sobre si próprios e sobre o outro, e a cumplicidade crescia sem que precisassem de palavras para perceber.
Na véspera de Natal, durante o jantar especial no Salão, caminharam pelos jardins gelados e desfrutaram da tranquilidade do castelo quase vazio. Riram-se das pequenas brincadeiras e combinaram que o dia seguinte seria só deles, um momento para celebrar não só o Natal, mas também a amizade e o que nascia entre eles. Ao regressarem aos dormitórios, o coração de Lucy batia mais depressa, e Harry ficou a observar a lua sobre o lago, sentindo que, pela primeira vez desde o fim da guerra, aguardava o Natal com verdadeira expectativa e esperança.
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