Os dias seguintes ao domingo de neve devolveram Hogwarts ao seu ritmo habitual. O branco permanecia nos jardins, mas dentro do castelo havia calor, vozes e o cheiro constante de comida a anunciar o almoço. Para Harry, porém, o tempo parecia ter mudado de textura. Conhecia Lucy desde o primeiro ano, sempre na mesa da Grifinória, algumas cadeiras abaixo da dele, mas só agora reparava verdadeiramente nela — no modo decidido como andava, na gargalhada contida, na força tranquila que raramente chamava atenção.

Naquela manhã encontraram-se por acaso a descer as escadas de mármore. Ela ajustava o cachecol vermelho e dourado.

— Andas desaparecido, Harry — disse com um sorriso leve. — Neville queixou-se que já não tem público para as partidas de xadrez.

— Tenho dormido mal — admitiu ele. — Culpa tua, suponho.

Lucy ergueu as sobrancelhas, divertida, e seguiram juntos até ao Salão Principal. A conversa correu fácil, sem perguntas difíceis. Ginny, sentada ao lado da Hermione, observou a cena de longe. O olhar da ruiva demorou um segundo a mais, mas quando Harry passou por ela limitou-se a acenar, como se nada estivesse diferente.

Ao entardecer, Harry decidiu ir estudar para a biblioteca. A guerra terminara, mas a ansiedade ainda lhe apertava o peito em certos dias, sobretudo quando pensava no futuro e nas pessoas que podia perder. Ao entrar, viu Lucy numa das mesas do fundo, rodeada por uma quantidade absurda de livros. Alguns estavam abertos, outros cheios de marcadores coloridos. Parecia uma fortaleza de papel.

Aproximou-se.

— Posso sentar-me?

— Claro — respondeu ela, fechando um volume grosso para lhe arranjar espaço.

Harry olhou em volta, impressionado.

— Porque estás com tantos livros? Vais fundar outra disciplina em Hogwarts?

O sorriso dela desapareceu devagar.

— Estou a estudar feitiços defensivos — disse, passando os dedos pela lombada gasta de um manual. — Sempre pensei que, se me tivesse conseguido defender melhor… talvez os meus pais não tivessem morrido.

O silêncio da biblioteca pareceu crescer como uma sombra.

— Lucy, tu não te podes cobrar assim— murmurou Harry.

— Eu sei. Mas é mais forte do que eu.

Ele reconheceu aquela sensação. Tremores antes de entrar no turno da vida, exatamente como tu descreves a tua ansiedade: coração acelerado e enjoo de enfrentar o dia. Sentiu empatia imediata.

— Deixa-me ajudar — disse com firmeza.

Fez um gesto para a pilha.

— Aceito — respondeu ela. — Antes que estes gigantes me esmaguem.

Sentaram-se a rever alguns capítulos. Harry explicou-lhe que muitos daqueles feitiços eram úteis em teoria, mas que a defesa verdadeira dependia de reflexos e confiança. Ao fim de uma hora, Lucy parecia mais leve.

— Podias ensinar-me? A sério? — perguntou de repente.

— Posso — respondeu Harry, surpreendido com a própria vontade. — Amanhã, na Sala Precisa. É o lugar mais seguro do castelo para treinar sem plateias.

Lucy assentiu.

— Depois das aulas. Levo só dois livros, prometo.

— Combinado.

Quando se preparavam para sair da biblioteca, cruzaram-se com Ginny, que ia a entrar. Lucy adiantou-se de imediato, sempre simpática.

— Olá, Ginny! Como estas? — perguntou Lucy

A ruiva lançou um olhar rápido para Harry e depois para a pilha que ele carregava.

— Pois — respondeu friamente. — Vejo que continuas bem acompanhada.

Harry tentou intervir:

— Ginny, eu só estava a ajudá-la a levar os livros…

— Ninguém te pediu explicações — cortou ela, começando a subir os degraus de pedra. — Boa noite, Luna deve estar à tua espera, Lucy.

O nome dela saiu seco como vidro gelado.

Lucy manteve a compostura.

— Boa noite, Ginny — disse com delicadeza.

Mas a outra já se afastava, deixando no ar o mesmo gelo que Harry sentira nos jardins.

Ele percebeu que os ciúmes da ruiva estavam a ganhar forma — não em gritos, mas em frio calculado, em palavras curtas, em portas quase batidas.

Nessa noite, ao regressar ao dormitório, Harry pensou no treino do dia seguinte. Não era apenas ajudar Lucy; era talvez aprender ele próprio a proteger as pessoas que amava.