E Ainda Assim, Amor

37 Capitulo 37 – Ecos do que Nunca Morreu


O tempo passara de forma estranha. Rápido demais para quem tentava esquecer, lento demais para quem ainda sentia.

Três anos.

James e Lily tinham agora três anos, cheios de vida, risos fáceis e personalidades tão diferentes quanto o dia e a noite. Lucy aprendera a viver com essa dualidade — a força que encontrara nos filhos e a dor silenciosa que nunca a abandonara por completo.

A loja de poções em Hogsmeade prosperava. Tornara-se conhecida pela qualidade, pela precisão e pelo toque quase pessoal que Lucy colocava em cada frasco. Era ali que canalizava a mente quando o coração ameaçava falhar.

Naquela manhã, porém, nada disso parecia importar.

Era o dia do casamento de Ron e Hermione.

Lucy observava-se ao espelho enquanto ajustava o vestido com mãos ligeiramente trémulas. Não era o vestido que a incomodava. Era a certeza de que, pela primeira vez em três anos, voltaria a vê-lo.

Harry Potter.

Sabia que ele não estaria sozinho. Sabia que estaria com Ginny — agora sua mulher — e com o pequeno Albus Severus, ainda um bebé de seis meses. E, ainda assim, nada a preparava para o aperto no peito que sentia.

James corria pela casa como um pequeno furacão.

James Lupin, estou a chamar-te! — disse Lucy naquele tom muito específico de mãe que misturava aviso e carinho. — Temos de te vestir para o casamento dos padrinhos!

— Não querooo! — respondeu ele, rindo, enquanto desaparecia pelo corredor.

Lucy suspirou, contendo um sorriso cansado.

Lily, pelo contrário, já estava pronta. Sentada com uma serenidade quase adulta, deixava Mila pentear-lhe os cabelos com cuidado. Os olhos atentos, o corpo quieto.

— A Lily é mesmo o oposto do irmão — comentou Lucy, mais para si do que para alguém.

Mila sorriu, orgulhosa.

— Menina calma… menino vento — respondeu, satisfeita com a própria definição.

Pouco depois, estavam a caminho da Toca.

Os jardins estavam transformados. Lanternas encantadas flutuavam no ar, luzes douradas entrelaçavam-se nas árvores, e o cheiro a flores misturava-se com comida quente e bolo recém-preparado. Tudo refletia Ron e Hermione: simplicidade, afeto e uma alegria sincera.

Lucy sentiu o coração apertar quando viu Hermione surgir ao longe, de braço dado com o pai. O vestido caía-lhe perfeitamente, simples e elegante. A mãe chorava sem qualquer pudor, limpando as lágrimas com um lenço encantado que parecia nunca ficar molhado.

Ron, ao fundo, não conseguia desviar o olhar. Estava completamente embevecido, como se o mundo tivesse parado no instante em que Hermione começou a caminhar na sua direção.

Lucy sorriu. Sentia-se genuinamente feliz por eles.

A cerimónia foi curta, mas cheia de emoção. Promessas ditas com voz trémula, risos entre lágrimas, aplausos espontâneos.

A festa começou logo depois.

Música, pessoas a dançar, gargalhadas, copos a tilintar. Lucy tentou manter-se presente, tentou ignorar a presença dele… mas falhou no instante em que o viu dançar com Ginny.

Durante breves segundos, imaginou-se no lugar dela.

Afastou o pensamento com culpa.

Foi Neville quem a salvou daquele momento.

— Dança comigo — disse, simples, estendendo-lhe a mão.

Neville dançava de forma desajeitada, sincera, e isso arrancou-lhe uma gargalhada verdadeira. Do outro lado do jardim, Luna, agora sua mulher, observava os dois com um sorriso divertido, os olhos a brilhar, como se visse algo que mais ninguém via.

Lucy dançou. Riu. Por instantes, conseguiu esquecer.

Mas os olhares cruzaram-se.

Harry e Lucy.

Nada foi dito. Nada era preciso.

Ainda assim, ver os filhos a olharem para ele — mesmo sem saberem quem ele era — fez-lhe o estômago apertar de uma forma quase dolorosa.

Mais tarde, já com a noite avançada, Lucy aproximou-se de Molly com alguma hesitação.

Importa-se que eu vá deitar um bocadinho os miúdos no sofá? Estão cheios de sono…

Molly sorriu de imediato, aquele sorriso que parecia sempre conter compreensão demais.

— Claro que sim, querida. Vai.

Lucy entrou na Toca com Lily ao colo e James pela mão. Deitou-os com cuidado no sofá, cobriu-os com uma manta e ficou ali alguns instantes, apenas a observá-los respirar.

Foi então que Harry entrou.

Ia a caminho da casa de banho. Parou.

Olhou para as crianças.

Depois para Lucy.

Trocaram poucas palavras. Coisas simples. Nada que arranhasse a superfície do que ambos sentiam.

Harry subiu as escadas. Lucy ficou.

Quando regressaram a casa, o silêncio caiu pesado.

Mila tratou de deitar as crianças, falou-lhes baixinho até adormecerem. Lucy mal conseguiu responder.

Assim que ficou sozinha, subiu para o quarto.

Fechou a porta com cuidado e deixou-se cair na cama. O rosto enterrou-se na almofada e o choro veio — primeiro contido, depois intenso, como algo que já não podia ser segurado.

As imagens repetiam-se: Harry a dançar, o olhar dele sobre os filhos, a distância impossível.

Como era possível amar da mesma forma depois de tudo?

Lucy chorou até o corpo cansar, até a dor se tornar surda, até o sono finalmente chegar.

Lá fora, a noite avançava.

E dentro dela, o amor permanecia exatamente no mesmo lugar.