E Ainda Assim, Amor
36 Capítulo 36 – O Que É Meu
A neve caía com força quando Ginny Weasley regressou à Toca. O frio entrava-lhe pelos ossos, mas era outra inquietação que a fazia andar mais depressa. A festa decorria no jardim, a música ecoava dentro da tenda aquecida, risos e vozes misturavam-se no ar — mas Ginny não conseguiu juntar-se a eles.
Algo dentro dela não estava certo.
Entrou em casa e fechou a porta atrás de si. O silêncio do interior contrastava com o barulho da festa lá fora. Caminhou alguns passos pela sala quando, de repente, sentiu a magia no ar — forte, abrupta.
Aparatação.
Ginny virou-se a tempo de ver Molly, Harry e uma elfa doméstica desaparecerem quase ao mesmo tempo, como se a própria casa os tivesse engolido.
Ficou imóvel.
— O quê…? — murmurou, com o coração a acelerar.
Reconhecera Harry de imediato. E a elfa… nunca a tinha visto antes.
Algo estava muito errado.
Os minutos seguintes pareceram horas. Ginny sentou-se no sofá, levantou-se, voltou a sentar-se. Tentou convencer-se de que não era nada grave, mas a sensação no peito não a largava. Conhecia demasiado bem aquela energia — aquela urgência — para ignorar.
Quando finalmente ouviu o som inconfundível de aparatação de novo, levantou-se de um salto.
Molly surgiu na sala, visivelmente cansada, o rosto marcado por tensão e emoção misturadas.
— Mãe! — disse Ginny, aproximando-se de imediato. — O que foi aquilo? Para onde foste?
Molly pousou o casaco devagar, como se precisasse de um segundo para respirar antes de falar.
— A Lucy entrou em trabalho de parto — disse por fim. — Os bebés nasceram esta noite.
Ginny sentiu o chão fugir-lhe por um instante.
— Nasceram…? — repetiu, incrédula. — Hoje?
Molly assentiu.
— Foi tudo muito rápido. Não havia tempo de a levar ao hospital.
Ginny engoliu em seco.
— E o Harry? — perguntou, já sabendo a resposta, mas precisando de a ouvir.
Molly levantou os olhos.
— Ficou lá.
A palavra ecoou dentro dela como um golpe.
— Ficou… lá? — repetiu, a voz a subir. — Tu levaste-o para lá?!
— Ginny… — começou Molly, num tom de aviso.
— Não! — interrompeu-a. — Não tinhas o direito! Ela fez as escolhas dela! Não é justo o Harry ser arrastado para aquilo outra vez!
— Ela estava em trabalho de parto — respondeu Molly, firme. — Precisava de ajuda.
— E isso não muda nada! — gritou Ginny, os olhos a arderem. — O Harry é meu! Sempre foi! E vocês tratam isto como se eu não existisse!
Molly respirou fundo, tentando manter a calma.
— Isto não é sobre ti, Ginny. É sobre duas crianças que acabaram de nascer.
— Não — disse Ginny, fria. — É sobre ela. Sempre foi sobre ela.
Começou a andar de um lado para o outro, incapaz de ficar parada.
— Ela não pode continuar a puxá-lo para a vida dela! Já destruiu o suficiente!
— Isso não é verdade — respondeu Molly, magoada. — A Lucy nunca pediu nada disto.
Ginny parou abruptamente.
— Pediu tudo no momento em que decidiu tê-los — disse, com dureza. — E eu não vou fingir que isto é normal.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— O Harry ficou porque quis — disse Molly por fim. — Ninguém o obrigou.
Essas palavras atingiram Ginny com mais força do que qualquer outra coisa.
— Então ele fez a escolha dele — murmurou. — E eu faço a minha.
Virou-se e subiu as escadas sem olhar para trás. No quarto, fechou a porta com força e encostou-se a ela, o peito a subir e descer de forma irregular.
Na sua mente, a imagem repetia-se: Harry naquele quarto, ao lado de Lucy, das crianças. A família que nunca deveria ter existido.
— Ele é meu… — sussurrou para o vazio, como se repetir aquilo pudesse torná-lo verdade. — Sempre foi.
Mas, pela primeira vez, a certeza não veio.
E isso deixou Ginny furiosa.
No dia seguinte, acordou disposta a fazer alguma coisa. Ainda não sabia o quê, mas, de alguma maneira, Harry seria seu.
Fale com o autor