E Ainda Assim, Amor
33 Capítulo 33– O Que Fica Quando Tudo Arde
Harry Potter aprendera cedo que fugir nem sempre significava covardia.
Às vezes, era sobrevivência.
Depois de deixar Hogwarts, desapareceu durante quase um mês. Não avisou ninguém além de Kingsley. Viajou sem destino definido, passando por vilas pequenas, pousadas anónimas, lugares onde ninguém o reconhecia como o Menino Que Sobreviveu — apenas como um jovem cansado, de olhar pesado, que dormia mal e falava pouco.
Tentou não pensar em Lucy.
Ou melhor: tentou pensar nela apenas como alguém que já não lhe pertencia.
Mas o corpo não obedecia. O coração muito menos.
Quando regressou, foi para Grimmauld Place. A antiga casa de Sirius parecia-lhe o único sítio possível: um espaço cheio de fantasmas, mas onde a dor fazia sentido. Passou semanas a restaurá-la — não por gosto, mas por necessidade. Arrumar, reparar, limpar. Cada feitiço era uma forma de não pensar. Cada parede restaurada era uma distração temporária.
Havia ainda um elfo doméstico na casa.
Kreacher.
Continuava rabugento, desconfiado, resmungando sempre que Harry entrava numa divisão. Havia algo quase simbólico naquela convivência: dois seres presos a um passado que não sabiam largar.
— Mestre Potter faz tudo errado — murmurava Kreacher, puxando o pano de limpeza com força exagerada. — Sirius Black fazia melhor. Sempre fazia melhor.
Harry limitava-se a ouvir.
Até ao dia em que, sem aviso, deixou uma meia dobrada sobre a mesa da cozinha.
Kreacher congelou.
— O que… o que é isto? — perguntou, a voz a falhar.
— É tua — respondeu Harry, simples. — Estás livre.
O elfo olhou para a meia como se fosse uma coisa viva. Depois, para Harry. Os olhos encheram-se de lágrimas que ele tentou esconder, falhando redondamente.
— Kreacher… livre? — sussurrou.
Harry assentiu.
Kreacher desapareceu pouco depois. A casa ficou silenciosa de um modo novo — menos pesado. Como se algo tivesse sido finalmente libertado. Talvez não fosse só o elfo.
Pouco depois, Harry iniciou oficialmente o treino de aurores.
As aulas eram duras. Exigentes. Físicas e mentais. Combate, estratégia, resistência emocional. Era exatamente o que precisava. O cansaço deixava-o sem energia para pensar demais. As noites continuavam difíceis, mas os dias tornavam-se suportáveis.
Tentava esquecer Lucy.
Tentava convencer-se de que o que tinham vivido fora apenas um erro bonito, condenado desde o início.
E, ainda assim, havia momentos em que tudo regressava.
Um cheiro familiar.
Uma gargalhada parecida com a dela.
Uma sala silenciosa demais.
Foi nesses meses que voltou a ver Ginny com mais frequência.
Ela entrara oficialmente para uma equipa profissional de Quidditch — as Holyhead Harpies — e falava disso com um brilho contido no olhar, como se aquela conquista fosse uma espécie de vingança silenciosa contra tudo o que perdera.
Encontravam-se para café. Para caminhadas rápidas. Para conversas que, do lado de Harry, eram seguras, quase fraternas. Ginny aceitava isso. Pelo menos em aparência.
Ela nunca falava de Lucy.
Nunca perguntava.
E isso, de certa forma, tornava tudo mais fácil.
No início de dezembro, Ginny convidou-o para passar a passagem de ano na Toca.
— A mãe vai dar uma festa — explicou, num tom aparentemente leve. — Não é só pelo Ano Novo. É… para o Fred. Ele adorava festas. Achámos que fazia sentido celebrar.
Harry aceitou sem hesitar.
Precisava de algo para se agarrar.
Naquela noite, Ginny chegou ao seu quarto na Toca e fechou a porta com cuidado. Sentou-se na cama, sorrindo sozinha. Harry tinha-lhe dito, dias antes, que ia fazer de tudo para esquecer Lucy.
Aquilo bastava-lhe.
Para já.
Foi a meio de dezembro que tudo quase se desfez outra vez.
Harry foi enviado numa missão de treino confidencial para Glenshire — uma vila discreta, protegida por feitiços antigos, usada ocasionalmente pelos aurores para simulações e reconhecimento.
Quando o nome surgiu no relatório, sentiu um aperto estranho no peito. Ignorou-o.
Até que a viu.
Estava do outro lado da rua, envolta num casaco grosso, caminhando devagar. A barriga era impossível de ignorar — grande, redonda, viva. O coração de Harry disparou com tanta força que teve de parar.
Lucy.
Estava linda.
Mas havia algo no olhar dela que o atingiu com violência.
Tristeza.
Não a tristeza escancarada do choro. Era mais fundo. Um cansaço antigo. Uma dor contida com cuidado excessivo, como quem aprende a sobreviver sem fazer barulho.
Ela não o viu.
Harry ficou imóvel, escondido na multidão que passava. Observou-a afastar-se, a mão pousada no ventre, os passos lentos, conscientes.
Dois mundos a centímetros de distância.
E ainda assim, separados por tudo o que nunca fora dito.
Quando Lucy desapareceu na esquina, Harry soltou o ar que nem sabia estar a prender.
Percebeu, com uma clareza cruel, que não a esquecera.
Que talvez nunca fosse capaz.
E que algumas perdas não se superam.
Apenas se carregam.
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