Dust Angels

14 Cap. 14 - For the errant scars and the dying stars


Notas iniciais
Demorei um pouco mais com esse, desculpa :B
Mas corri pra terminar de escrever agora pra poder ainda postar hoje. Viu, eu sou legal '-'
Então, eu decidi enfiar mais dois capítulos nessa fic antes de terminar, e esse é um deles. Ao invés de ir pra faixa 14, que é "Goodnite, Dr. Death", esse capítulo tem como trilha a faixa bônus "We don't need another song about California"
Ou seja, mais um pouquinho de enrolação antes da luta com o Korse -q
Boa leitura!

Remote Heart se sentia estranho; sentado de pernas cruzadas sobre a cama, o olhar baixo e os dedos mexendo nervosamente na própria roupa, ele parecia uma criança que tinha feito algo errado, enquanto Grace, de pé e com um expressão dura, parecia a adulta que daria uma bronca nele.

— O Fun implorou pra que eu deixasse você se explicar — ela disse, a voz gélida. — E não dá pra dizer não pro Fun, então desembucha logo.

— Eu... não sei o que dizer.

— Então acho que não vamos chegar a lugar nenhum, né?

Ela se virou, parecendo ansiosa para sair do quarto, mas Remote Heart não podia deixar que eles ficassem nessa situação.

— Espera, Grace. Tenho algo pra dizer sim. Senta aqui.

Ela suspirou e hesitou por alguns segundos, mas se sentou, um pouco longe de Remote Heart.

— Não vou pedir desculpa porque você já deve saber o quanto eu sinto por isso — ele começou, procurando olhá-la nos olhos. — Você é inteligente e eu sei que você percebe que eu estou falando a verdade.

— Isso não muda o que você fez, mesmo que eu saiba que você tá arrependido.

— Não. Você tem que entender uma coisa. Eu... — ele parou, tentando acreditar no que iria falar. — Eu não estou arrependido.

Grace arregalou os olhos e quase foi possível ver a chama de raiva se acender nela.

— Como não?

— Eu não tive escolha. Faria de novo, porque eu descobri que aquela não era uma killjoy, não era sequer um ser humano de verdade.

— C-como assim? — não dava para saber se Grace gaguejava por culpa da raiva ou por nervosismo.

— A BL/ind fez uma lavagem cerebral completa nela em Battery City antes que eu a conhecesse.

— Mas aquelas pílulas não mudam tanto assim! O Party e o Fun disseram que tomaram delas sem querer naquela festa e eles estão normais!

— Porque eles tomaram pouco. Black Flower estava trancafiada na BLI, sendo obrigada a tomar aquilo toda hora, até que ela ficou tão viciada e dependente que não pensava mais sozinha. Na verdade, Grace, eu nunca cheguei a conhecer sua mãe. Eu conheci uma...

— Uma o que?

Remote Heart suspirou. Era a primeira vez que ele estava admitindo aquilo para si mesmo, por mais que já soubesse que era a verdade.

— Uma robô. Eu me apaixonei por uma robô.

Ele sentiu as inevitáveis lágrimas subirem aos seus olhos; e tentou engolir, junto com o choro, o peso do silêncio que se instalou. Grace não falou nada por mais de um minuto.

— Você se apaixonou por ela? — ela disse por fim.

Remote Heart assentiu.

— De verdade?

Ele assentiu novamente, e Grace suspirou. Ela parecia estar fazendo um esforço enorme para entender, para aceitar, e Remote Heart não podia se sentir mais grato por isso.

— Eu não vou conseguir parar de pensar nisso — ela continuou. — Mas eu não estou com raiva de você, só.... acho que... decepcionada. Acho que uma parte de mim achou que ela...

— Pudesse estar viva?

— É.

— Seria pior se ela estivesse. Se... e preste atenção no “se”... se ela ainda estava em algum lugar naquela mente, ela estava odiando ser controlada pela BLI.

— Com certeza, eu sei disso... ela odiava a BLI... quase tanto quanto eu.

Remote Heart hesitou, mas decidiu arrastar a mão até segurar a de Grace. Percebeu aliviado que ela permitiu, apesar de não ter nem levantado o olhar para ele.

— Você não devia ter ódio no coração — ele murmurou. — Você devia estar brincando e se preocupando com coisas pequenas.

— Já me disseram isso. Mas eu não tenho muita escolha, tenho?

— Não. Eu sei. Só quero que você saiba que se você quiser esquecer de tudo, do mundo, dos problemas, e precisar da minha ajuda pra qualquer coisa, eu estou aqui, ok? Eu espero que você não me deixe de lado.

— Não dá, você mora comigo, lembra?

Remote Heart se assustou com a frase, que saiu um pouco dura demais, mas Grace sorria de leve. Ele deu uma risada rápida de alívio.

— Não vou te deixar de lado — ela falou. — Mas você tem que prometer que não vai esconder nada de mim. Eu sei que eu sou criança, mas aguento mais do que vocês todos imaginam.

— Claro, você já provou isso. Eu realmente não sabia que Black Flower era sua mãe, juro, por isso...

— Eu sei, Remote. Só promete que não vai esconder nada daqui pra frente, tá?

— Tá... — a voz de Remote Heart morreu de repente e ele desviou o olhar. Havia se lembrado repentinamente de que ele escondia alguma coisa da menina.

— Remote? Que foi? — Grace falava com um tom de censura, parecendo novamente a adulta falando com uma criança.

— É que... tem uma coisa... mas eu não sei se eu devo...

— Deve. Eu já disse, eu aguento.

— Mas é que me pediram pra não contar...

Remote. Como você quer que eu confie em você de novo se não...

— Tá, tá bom. É que... — ele pegou fôlego antes de continuar. — O Jet Star era seu pai.

Grace o observou quieta, impassível. Remote Heart não sabia se tinha feito a coisa certa. Ela devia estar em choque, absorvendo a novidade de quem era seu pai, e, o pior, de que ele estava morto. Como devia ser para ela descobrir sobre o parentesco depois de já ter perdido a pessoa? Ela devia estar entrando em outra onda de tristeza agora, e...

— É isso?

Remote Heart arregalou os olhos.

— Você sabia?

Grace deu de ombros.

— Supus. Quando os Dust Angels foram me salvar em Battery City, o Jet ficou o tempo todo grudado na minha mãe, e ela falou alguma coisa no ouvido dele que o fez me segurar e me empurrar pra fora dali. Deve ter contado que eu era filha dele, só pode...

— É, mas você já soube aí? Podia ter sido só coincidência!

Remote Heart estava atônito com o fato da última pessoa que poderia saber daquilo ter sido a primeira a descobrir.

— Não, eu só desconfiei — Grace prosseguiu calmamente, mas com uma nota de tristeza. — Mas depois que eu vim morar com eles o Jet ficou estranho comigo, todo protetor e cuidadoso, parecia que eu era feita de vidro. E várias vezes eu vi que ele ia me olhar de noite, acho que pra ver se eu estava dormindo.

Ela deu uma risada baixa, saudosa.

— Ele nunca se tocou que eu via. Como eu não ia ver, com aquele cabelo gigante fazendo sombra em cima de mim? Aliás, meu cabelo também é igual ao dele. Essa foi a pista final.

Remote Heart estava pasmo, mas feliz.

— Então você sabia...

— Sabia. Mas se ele não queria contar, eu ia fingir que nem fazia ideia. Mas é, eu sabia sim... e ele foi um ótimo pai. Mesmo sem contar pra ninguém.

Algumas lágrimas desceram dos olhos brilhantes da garota, e Remote Heart não conteve o impulso de abraçá-la. Sabia que isso não adiantaria de nada, mas pelo menos assim poderia sentir que estava fazendo alguma coisa. Protegendo-a.

Depois de alguns minutos, quando Grace se recuperou do acesso de choro, ela enxugou as lágrimas e sorriu de leve para Remote Heart, que retribuiu.

— Você sempre foi boa assim pra perceber as coisas?

— Acho que sim. Deixa eu ver... já sei que você e o Pony estão a fim um do outro desde o segundo dia que você chegou, e sei que o Party tá escondendo a vontade de ficar com o Fun desde que eu cheguei.

— O Party?

— É. O Fun é óbvio, né, mas o Party esconde um pouco melhor. Mesmo assim dá pra perceber quando ele fica super-protetor. E ele também fica olhando pro Fun direto, mas só quando acha que não tem ninguém vendo.

Grace parecia feliz em compartilhar suas descobertas. Remote Heart abandonou alegremente o assunto anterior e passou a conversar sobre os detalhes que a garota via na convivência com os killjoys; ela era muito perceptiva. Já imaginou que Show Pony tinha algum passado sombrio por trás daquele capacete na primeira vez que o perguntou sobre ele, e ficou feliz ao descobrir que Remote Heart conseguiu fazê-lo superar o trauma. A pessoa mais difícil de decifrar para Grace era Dr. Death; ele nunca mostrou mais do que queria, nunca deixou escapar nada sem querer. Grace o admirava também por isso.

Só quando Party Poison apareceu na sala e pigarreou é que Remote Heart se lembrou de que tinha que conversar sobre a missão. Grace deu uma piscadela para ele e assentiu, mostrando que ele podia ir, e Party Poison o levou para o quarto, onde Fun Ghoul e Show Pony o esperavam; esse último, com o capacete.

Remote Heart se sentou ao lado dele e o lançou um olhar de dúvida.

— Você não espera que eu consiga me livrar disso aqui tão rápido, né? — Show Pony exclamou, respondendo a pergunta silenciosa de Remote Heart, sem se importar se os outros dois não entenderiam.

— É, acho que não.

— Mas... — Show Pony segurou a mão de Remote Heart, novamente sem se importar com os outros. — Se você ainda quiser me ajudar, talvez eu consiga deixar isso totalmente pra trás. Ou pelo menos mais algumas vezes.

— Nunca vou deixar de te ajudar, Pony — Remote Heart abaixou o tom de voz, de modo que só Show Pony o ouvisse. — E você vai tirar esse capacete mais vezes, sim. Aquele beijo não foi o último.

Show Pony deu uma risada tímida e se virou para Party Poison e Fun Ghoul; o primeiro tentando fingir impaciência, e o segundo a ponto de suspirar com a cena que via.

— Prontos agora? — Party Poison perguntou, e continuou sem esperar resposta: — Bom, o Fun me disse da tal ideia de irmos atrás do Korse. Eu só não fiz isso até agora pra não comprometer vocês, e sei que sozinho não tenho chance. Mas se vocês estão dispostos mesmo a praticamente se suicidarem nessa missão, podemos ir agora mesmo.

— Aham, até parece — Remote Heart falou. — Precisamos de planejamento antes.

— Eu sei, idiota, foi forma de expressão.

— Vindo de você, não dá pra saber.

— Parem com isso — Fun Ghoul os cortou. — Qual é o plano?

Passaram a analisar as coordenadas que tinham da base da SCARECROW, mas desistiram logo; só os quatro não durariam lá dentro, ainda mais agora que já sabiam dos coletes. Poderiam tentar atrair Korse para fora de Battery City, mas como? Ele não era estúpido, não iria acreditar em qualquer coisa que ouvisse. Não, teriam que ir para Battery City mesmo...

— A base da BLI! — Show Pony disse. — Lá só é guardado por Draculoids, a gente dá conta.

— Mas o que vai fazer o Korse ir pra lá? — Party Poison perguntou.

— Você. Foi por sua causa que ele foi da última vez, lembra? Os Exterminators foram chamados, mas ele quis ir pessoalmente por que era você que estava lá.

— Então eu fico visível, espero que a base chame um Exterminator e aguardamos ele aparecer?

— Basicamente isso. E no meio tempo matamos quantos Dracs aparecerem.

— Pelo menos não vamos ficar entediados — Fun Ghoul comentou.

— Certo, então é isso. Quando vamos? — Remote Heart olhou um relógio.

— Acho que de noite é melhor... — disse Show Pony. — Vamos com a van, que é preta, vai ser difícil de vê-la pelas câmeras deles no caminho.

— Mas o Dr. D. sabe disso?

— Ah, não, claro que não, ele não iria permitir.

Party Poison e Fun Ghoul arquearam as sobrancelhas.

— E você vai mesmo assim? — o ruivo questionou, desconfiado.

— O Remote vai. Eu vou.

— Meu Deus... amor mata mesmo — Fun Ghoul murmurou, e logo corou ao perceber os olhares de Show Pony e Remote Heart em sua direção.

Eles prepararam as armas, os coletes e o que mais acharam necessário levar. Grace observou tudo em silêncio, vendo a correria deles de um lado para o outro com um ar meio entediado, de quem vê aquilo o tempo todo.

Mas ela estava na verdade perdida em pensamentos. Os killjoys perceberam isso quando ela falou, de repente.

— Como era antes da BL/ind?

— Hmm? — Fun Ghoul perguntou, distraído.

— Como era a California antes da BL/ind tomar conta? Era legal?

Os quatro riram. Pararam de mexer em seus pertences e se acomodaram ao longo do quarto, olhando para a menina.

— Sim, era legal — Party Poison respondeu. — Talvez legal demais.

— Por quê?

— Acho que tinha muita... como dizer... Californication?

Os quatro riram novamente e Fun Ghoul se adiantou, animado pela conversa.

— Pode parar, Party. Não precisamos de mais uma música sobre a California.

— Ah, eu sei disso.

— Era um lugar divertido — Remote Heart explicou, vendo que Grace não estava entendendo nada. — Mas muito superficial. Era a capital mundial da fama, do dinheiro. A Hollywood de antes era a razão de ser desse país todo antes da BLI censurá-la, e por isso aqui era um lugar muito importante.

— Wow. E eles acabaram com isso tudo?

— É, pois é. Mas por que a pergunta?

— Estava só imaginando... o que teria sido. Se a BLI não existisse.

Os sorrisos de todos murcharam lentamente.

— Às vezes eu também me pergunto isso — Party Poison suspirou.

— Pois não deviam — Show Pony falou, surpreendendo-os um pouco. — Vocês não podem ficar pensando no “e se”. É assim que as coisas aconteceram, ponto. Se for pra pensar no passado, pensem no lado ruim dele. Assim vão poder comemorar que ele é passado.

— Dê um exemplo de um lado ruim, então — Grace disse, não em um tom acusatório, mas parecendo mesmo curiosa.

— Da California de antes? É fácil. Todo o “fogo” das cidades, as mentiras dos tablóides, os caras da televisão.... É só imaginar o jeito que é quando dinheiro é tudo que você tem.

— É, Pony tem razão — Remote Heart afirmou. — Tinha um lado ruim. Sempre teve. Na época a gente reclamava, porque agora estamos com saudade?

Fun Ghoul assentia, e Party Poison suspirava em concordância.

— E não importa, Grace — Show Pony prosseguiu. — O lugar não importa, nem no passado nem no presente. Pare e veja os acidentes e as estrelas que parecem inúteis pra você agora... são elas que importam. Os problemas de hoje, sim, mas as alegrias de hoje também.

Grace sorriu, como se dissesse “eu só queria que você falasse isso em voz alta”. Os outros ficaram em silêncio, pensativos, absorvendo as palavras de Show Pony, cada um de uma forma.

— Então — Grace disse. —, acho que chegamos à conclusão de que o passado é passado, certo?

— Exatamente — Show Pony confirmou, bagunçando levemente os cabelos da menina.

— Não — Party Poison falou repentinamente. — Ainda não. Mas depois de hoje, será. Completamente.

Grace suspirou. Remote Heart percebeu que aquela fora uma tentativa muito inteligente de desviá-los da missão, mas não deu certo.

— Ok então... cuidado. Você vão lutar com Exterminators, né?

— Esperamos que não — Fun Ghoul disse, voltando a mexer em sua raygun, avaliando seu estado. — Vamos na base central da BLI, o Korse é o único Exterminator que esperamos ter que enfrentar... além de todos que atrapalharem, claro.

— Ahn... vocês vão na base? — Grace perguntou, um pouco perturbada, mas tentando esconder.

— Sim. Algum problema?

— Não... não. Podem ir... é, podem ir.

Todos estranharam, mas não acharam que fosse grande coisa. Seja lá o que fosse, poderia esperar.

Assim que a noite caiu, eles foram todos para o carro dos Dust Angels, Grace espremida no banco de trás entre Remote Heart e Show Pony.

— Você consegue distrair o Dr. D. até pegarmos a van lá atrás? — Party Poison perguntou à menina, e ela assentiu. — Ótimo. Espero que ele não fique muito bravo.

— Por enquanto — Fun Ghoul falou, apreensivo. —, o Dr. D. é o menor dos nossos problemas.

Notas finais
Espero que tenham gostado :)
O próximo vai ser outra música bônus, "Zero Percent" *-*
Dependendo do quanto eu escrever, a fic acaba essa semana :/
Beijos o/