Duas Metades de um Coração Partido
2 Capítulo 01
Notas iniciais
Onde você acha ser possível encontrar o amor?
Não qualquer amor, mas aquele, sabe... o verdadeiro.
Durante a minha vida eu vi muitos tipos de amor, e experimentei vários desses tipos também. Vi o nascer dos locais mais improváveis e o vi faltar onde deveria sempre existir. Vi o amor entre amigos, entre casais e entre uma garota e dois caras que pareciam viver muito bem juntos, obrigada. Vi o amor dos pais por seus filhos, e vi também famílias quebradas, sem se importarem uns com os outros. Percebi que, obrigatoriamente, não existe só um amor verdadeiro na vida. E, às vezes, ser de verdade nem sempre é sinal de que vai durar. Só amor não basta. É preciso esforço. É preciso sorte. Precisa estar destinado. Porque você vai partir seu coração várias vezes na vida, mas, um dia, você vai encontrar alguém que tenha um coração partido que encaixa perfeitamente com o seu. E quem pode dizer onde essa pessoa está? Pode estar mais perto do que você imagina, basta saber ver.
Porém, esta é a história de duas pessoas que não sabiam.
— Bianca Rowling
–x-
Outubro, 2007.
Guinevere McLean estava entediada. Já parecia terem passado cinco horas desde o início da aula, mas o estúpido relógio em cima do quadro negro tinha a insolência de dizer que apenas quarenta e cinco minutos da aula se tinham esgotado.
Tornou a bater a cabeça em sua carteira pela quinta vez, e não demorou até sentir-se observada. Sem se levantar, olhou para o lado e viu Arthur e sua careta de reprovação. Ela apenas lhe mostrou a língua e voltou ao seu protesto infantil, só se levantando quando sentiu uma presença ao seu lado.
— Onde estão suas anotações? — Era o professor que lhe perguntava.
— Com o Arthur, ué — respondeu tranquilamente. — Tantos anos dando aula pra gente e não aprendeu que tudo que é dele é meu?
E foi ao ver o olhar irritado do professor e ao ouvir o suspiro frustrado de Arthur que Guinevere percebeu que ia passear na diretoria pela quinta vez na semana. E a quarta-feira nem tinha acabado.
–x-
Os McLean e os Fitzgerald sempre tiveram boas relações e acabaram por se unir ainda mais com a chegada, quase ao mesmo tempo, dos dois bebês. Além disso, Louise, segunda esposa de John Fitzgerald, estava tendo seu primeiro filho e aceitou de boa vontade a ajuda de Marie, que já tinha um menino de cinco anos, Lucas.
E foi assim que Guinevere e Arthur se conheceram. Sempre tão acostumados à presença um do outro que não entendiam as brincadeiras de péssimo gosto dos colegas. Sempre estavam gritando coisas como eles serem namorados, ou Arthur ser um maricas ou Guinevere ter sempre sua feminilidade questionada por sua brutalidade e paciência curta.
No fundamental, quando pela primeira vez ouviram falar a história d’A Távola Redonda, as brincadeiras ganharam força, até que Arthur, que sempre era tão calado, disse em alto e bom som:
— Se soubessem mais, saberiam que, no fim do livro, Guinevere fica com o cavaleiro Lancelot.
Isso, acompanhado do olhar indiferente de Arthur, fez com que as brincadeiras parassem. Quando entenderam o verdadeiro teor da história, que nada tinha a ver com contos de fadas como parecera de início, já estavam crescidos o suficiente e acostumados o suficiente com a dupla para não fazerem mais brincadeiras.
Porque, diferentes dos personagens do livro, nada parecia separar aqueles dois amigos. Eles não tinham nada a ver com A Távola Redonda.
–x-
— Você está brincando com a sorte. — Foi com essa animadora frase que Arthur recepcionou Guinevere à saída da diretoria.
— Eu vou ficar bem. Só recebi uma bronca por não respeitar o professor. O que foi injusto, eu não disse nada demais.
— É o conjunto da obra, Guinny. Todo mundo tem um copo onde guarda o que lhe torra a paciência, mas, enquanto pessoas normais jogam nos copos das outras pequenas quantidades de água, você joga um balde inteiro.
— Tá me chamando de irritante?
— Irritante, insolente, pé no saco... Escolha o termo que preferir. — Arthur sorriu satisfeito.
A essa altura eles já estavam no pátio, se dirigindo a cantina.
— De qualquer forma, passou. — Guinevere fez pouco caso. — Estou mais preocupada com o clube de teatro. Amanda continua sendo uma vadia de esquina e Viollet já disse que não vai mais participar se ela continuar, e eu realmente preciso da Vivi, não sou nada sem aquele talento para criar figurinos com o orçamento microscópico que temos.
— E por que Amanda cismou de participar do teatro? Não era ela que vivia dizendo que ele era pra idiotas? — Arthur se sentou em uma das mesas da cantina, Guinny fez o mesmo ao seu lado.
— Quando eu assumi o clube, realmente aquilo tava bem caidinho, mas eu o recuperei. Você vai ver esse ano. — Os olhos verdes de Guinevere brilhavam de expectativa.
— Queria que você sempre usasse sua inteligência em coisas construtivas como essa.
Guinevere provavelmente estava preparando uma resposta à altura, mas foi interrompida pela chegada de Bianca Rowling, que se sentou em uma das cadeiras vagas, ofegante, porém parecendo satisfeitíssima consigo mesma.
— Terminei o roteiro, Guinny! — Colocou um envelope pardo na frente da amiga. — Se não quiser alterar nada, acho que podemos facilmente começar as audições na próxima semana.
— Não acredito! — Guinevere agarrou as bochechas de Bianca com as duas mãos. — Me diz, Arthur, se essa criatura não é um anjo?
— Só por te aguentar, eu diria que ela é uma sobreviven... — Ele calou-se ao receber um chute na perna por baixo da mesa.
— Você é sempre insuportável, mas hoje está de parabéns! — Guinny tinha um certo tom de desprezo, mas seus lábios tremiam na tentativa de reprimir uma risada pela careta de dor de Arthur.
Bianca achava aquela dupla de amigos — eles odiavam que a palavra casal fosse usada para se referir a eles — a coisa mais inexplicável que ela já tinha visto. Tinham personalidades praticamente opostas, e viviam brigando. Piores que as discussões entre eles, apenas as brigas que eles arrumavam pra defenderem o outro. Ela já vinha estudando com os dois há alguns anos e nunca se esqueceu do incidente memorável em que Arthur — o calmo e racional Arthur — jogou uma tarântula em cima de uma garota que tinha trancado Guinevere em um armário. Porém, por alguma estranha lei da natureza, parecia certo eles serem assim como eram.
–x-
— Arthur — Guinny chamou, sentada ao lado dele no metrô na volta pra casa —, hoje eu posso dormir no anexo com você?
A casa de Arthur era composta da casa principal e de um anexo que nada mais era que um quitinete. Quando seu meio-irmão Andrew saiu de casa para estudar em outra cidade, Arthur se mudou para o anexo que antes era ocupado por ele. Não que ele não se desse bem com os pais,só era mais confortável.
— Seus pais estão brigados de novo? — adivinhou.
— Papai está louco de raiva porque Lucas reprovou na faculdade de novo. Até eu vejo que o Lu não tem um pingo de talento pra Administração. — Suspirou. — Mamãe quer convencer o pai a deixar o Lu trocar o curso por Direito, que é a praia dele, mas o pai só vai deixar se eu cursar Administração pra assumir a empresa junto com o mano.
Arthur passou o braço pelos ombros de Guinny e ela encostou a cabeça em seu ombro. Ele entendia bem aquela cobrança familiar.
— Lucas está voltando pra casa e eu tô com medo dele ficar me pressionando pra ajudar ele.
— O Lucas não faria isso, ele te adora. — Arthur tratou de tranquiliza-la. — Pra ele é Deus no céu e você na Terra. — Os dois riram brevemente. — Mas pode dormir no anexo, sim. Aliás, fico feliz de pelo menos uma vez você pedir, na maioria das vezes você apenas invade.
Guinevere gargalhou.
— Nem é pra tanto. — Bateu sua cabeça no ombro dele, de brincadeira. — E Andrew, quando ele vem fazer uma visita?
— Acho que em breve. Acho que logo ele vai noivar.
— Vou só pelo bolo, eu odeio a Anne.
— É, eu também. — Riu.
— Eu ‘tô com sono.
— Aguenta, porque eu não vou carregar ninguém. Você pesa.
Guinevere se desvencilhou do meio abraço e o encarou irritada.
— ‘Tá me chamando de gorda?
Arthur apenas riu em resposta e colocou uma mecha do cabelo ruivo de Guinevere atrás da orelha dela para em seguida apertar sua bochecha para desfazer aquela careta mal-humorada. Porque era assim que os dois funcionavam.
–x-
O sábado chegou com um céu bonito, o dia perfeito para sair e se divertir. Menos para Guinevere, claro, que era uma ursa em eterna hibernação.
— Acorda — Arthur disse ao dar uma travesseirada em Guinny — agora — mais uma —, Guinevere — e outra — McLean.
Ela se enroscou no edredom e choramingou, escondendo o rosto com a coberta, que logo foi arrancada por Arthur.
— Guinny, colabora!
— O que é, seu monstro estraga-prazeres? — Ela se sentou tentando organizar seu cabelo, que se tinha transformado em um ninho de passarinhos.
— São quase dez horas.
— E você me acorda a essa hora da madrugada?
Arthur bateu na cabeça dela com o travesseiro mais uma vez.
— Anda, mamãe fez panquecas pra gente.
— E você só me fala agora?! — Guinevere se levantou do sofá-cama que Arthur sempre disponibilizava pra ela quando ela cismava em dormir no anexo e correu para o banheiro.
Voltou minutos depois, tagarelando animada enquanto amarrava o cabelo em um rabo de cavalo. Arthur teve que desviar o olhar. Ainda se constrangia ao perceber o quanto sua amiga de infância era bonita.
Foram para a casa principal e comeram o café da manhã na cozinha. Guinevere gostava de comer na casa de Arthur, gostava de ver como ele parecia um menino de cinco anos quando comia.
— O que foi? — ele perguntou ao perceber que era observado.
Guinny se sobressaltou por um instante. Não tinha percebido o que fazia.
— Tem... tem calda no seu rosto. — Ela fingiu limpar a bochecha dele, para disfarçar.
Houve um período de silêncio, que foi quebrado por Guinevere:
— Você também recebeu um e-mail do Marco? Eu recebi um com ele convidando pro aniversário de dezoito anos dele.
— É, eu recebi, mas eu nunca fui muito amigo dele, então acho que não vou.
— Nem eu, ele é um idiota. — Guinny fez uma pausa calculada. — Foi ele que começou aquela brincadeira com nossos nomes, não foi?
Arthur, de boca cheia, só assentiu como resposta. Guinevere não teve mais coragem de falar nada relacionado ao assunto, porque o que ela realmente queria perguntar era se era mesmo estranho assim pensarem que eles poderiam ser algo mais. Porém, ela sabia a resposta. E isso a frustrava. Então, apenas preferia não arriscar.
Mas não mudava o fato que ela achava que, para certos assuntos, Arthur era muito lerdo.
–x-
Fevereiro, 2015 ― 8 anos depois
Guinevere e Bianca embarcaram no voo em silêncio. Ambas estavam exaustas. Bianca passara as últimas duas horas discutindo com seu editor sobre um corte que ele queria fazer em seu novo livro e que ela não permitiria nem morta. Já Guinevere vinha sofrendo e resistindo aos reveses da vida há meses. Para alguém que até aos dezoitos tivera uma vida sem complicações, a vida adulta estava tratando de nocauteá-la.
— Como você está, Guinevere? — Nos últimos tempos, todos estavam evitando usar o apelido que Arthur inventara.
— Eu vou sobreviver, B. Imagine se logo eu vou morrer por causa de algo assim. E, além do mais, não é como se tivéssemos deixado de ser amigos ou rompido para sempre. — Guinevere forçou um sorriso que não chegou a seus olhos. — Só... não é hora.
— Mas... ele ama você.
— Acho que essa é a pior parte. — Bianca julgou que Guinevere fosse cair em prantos, mas, ao invés disso, ela abriu a pasta de documentos que levava e pegou um contrato qualquer para ler. — Queria que nós dois pudéssemos voltar no tempo, pra quando tudo isso não importava.
— A história de vocês não terminou, Guinevere — Bianca disse com confiança. — Você vai ver. E eu vou escrever um livro sobre isso.
— Acho que vai ser um livro muito triste.
— O amor nunca é triste. Ainda mais o seu com o Arthur.
— Você acha que realmente ainda existe chance pra nós? Mesmo com o universo conspirando contra? — O olhar de Guinevere mostrava a esperança que ela ainda mantinha.
— Você é Guinevere McLean e ele é Arthur Fitzgerald. Vocês fazem o próprio destino.
Guinevere riu.
— Obrigada, B.
Guinny voltou a ler o contrato, mas, pelo seu olhar congelado, Bianca podia ver que não haveria avanço nenhum ali. Porque a mente de Guinevere estava em outro lugar: Tinha ido se juntar ao seu coração...
... e ambos estavam com Arthur.
Fale com o autor