Notas iniciais
Era pra eu ter postado esse capítulo no final de semana. Ele tá pronto a um tempão. Por que eu não postei? Por que eu esqueci. Pois é. Eu tenho a memória da Dory, de Procurando Nemo. Enfim, espero que aproveitem esse capítulo, que eu fiz com muito carinho! Alias, rapidinho: Fiquem atentos as datas que aparecem em itálico entre uma parte e outra. Eu sempre vou ficar fazendo essas idas e vindas entre passado/presente/futuro pra ou explicar alguma coisa, ou dar um suspense básico. Mas isso na maior parte da vezes sempre vai ficar no final do capítulo, poucas vezes vão parecer no meio ou no começo, mas fica aqui o aviso. Qualquer dúvida, me perguntem :) Edit [14/10/15]: Capítulo betado por Ana Luísa Coelho, a.k.a, Bunny.

Acho que uma das provas que consegui durante esses últimos anos sobre o quão próximo o amor pode estar foi esta:

Durante as pesquisas para meus livros, viajei por muitos lugares, conheci todo o tipo de pessoa. A maioria dos casais felizes que conheci se encontraram na mesma vizinhança, na mesma universidade ou no mesmo emprego. Quantas vezes alguém já passou pela sua alma gêmea na rua e não percebeu? Eu própria tive a felicidade de conhecer meu noivo no ensino médio, mas claro que na época eu não fazia ideia disso, e diria a qualquer um que insinuasse que eu acabaria me casando com ele que era loucura. Mas aqui estou eu, de casamento marcado. E ainda tem pessoas que se apaixonam depois de crescerem juntas. Um amor tão forte assim... eu não poderia não escrever sobre.

— Bianca Rowling, para a Revista Time

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Novembro, 2007

Todos na cantina olhavam embasbacados para o mesmo ponto. Anabelle, uma garota do segundo ano de cabelos castanhos e de olhos da mesma cor, estava em pé, em cima de uma cadeira, de onde tinha acabado de gritar, para quem a quisesse ouvir, o quanto gostava de Arthur. O próprio ficou tão chocado que deixou seu cachorro quente cair no chão. Porém, enquanto ele não conseguia articular uma palavra sequer, estas não faltaram a Guinevere.

— Essa foi uma cena tão patética que estou disposta a cometer suicídio de tanta vergonha alheia. — Sua expressão era horrorizada, e de maneira quase teatral, ela colocou uma mão espalmada no coração.

Arthur lhe lançou um olhar de reprimenda antes de se levantar.

— Aonde você vai? — Guinny sussurrou, quase assustada.

— Aonde você acha? — Foi a resposta carregada de irritação. — Falar com ela. — E ele começou a se afastar.

— Acho bom que seja pra dispensar ela!

Sem responder, Arthur foi até uma muito envergonhada Anabelle e, sob o coro da gozação dos presentes, eles saíram para o pátio, deixando Guinevere com o coração na mão. Ela pegou o celular em cima da mesa, mas, ao abrir o flip, estacou. Sempre que ficava angustiada assim, falava com Arthur, mas, nessa situação, obviamente, ela não poderia. Então com quem...?

— Bianca! — exclamou pra si mesma ao começar digitar uma mensagem.

Não demorou a receber a resposta à pergunta sobre a localização da amiga e foi ao encontro dela. Assim que se sentou à frente de Bianca, naquele canto afastado da biblioteca, despejou o acontecimento.

— Mas o que tem de mal o Arthur sair com a Anabelle? Ela é legal. — Mas, como resposta, recebeu apenas um olhar preocupado. Guinevere tremia como se estivesse batendo os dois pés no chão, e pelos ruídos, era o que devia estar acontecendo. E, então, Bianca teve um estalo. — Espera, você gosta do Arthur? Quero dizer, não como amiga de infância...

— Claro que não! — Guinny revirou os olhos. — Eu só quero que, além de ser bons amigos como agora, andar de mãos dadas, trocar presentes no dia dos namorados, ir ao cinema mas não assistir o filme, se é que me entende… — Piscou um olho, maliciosa. — … e, depois de passar uma quantidade apropriada de anos, casar com ele e ter dois filhos. — Sorriu de forma angelical.

— Então, você gosta dele. — Bianca tentava conter o riso.

— O que você acha? É claro que eu gosto dele! — Guinevere se levantou e se debruçou na mesa, para sussurrar mais perto de Bianca: — Isso é um fato óbvio, escancarado, e só aquela besta quadrada e pelo visto você não perceberam. —Paciência definitivamente não era um dos fortes de Guinny.

— Mas você sempre ameaçou de morte quem ficava falando sobre vocês dois terem algo mais... — A essa altura, Bianca estava falhando na sua tentativa de não rir.

— E você queria que eu fizesse o quê, amor? — Voltou a se sentar, tão frustrada que Bianca só riu ainda mais.

— Sei lá, contasse pro Arthur.

— Claro que não, você não conhece ele como eu. — Guinny apoiou os cotovelos na mesa e o queixo nas mãos. — Você vai ver, ele vai sair com a Anabelle só pra ela não ficar mais constrangida depois da cena que fez. Ele vai dizer algo como “ela já ficou envergonhada por ter se declarado desse jeito, como eu poderia envergonhá-la ainda mais rejeitando ela?” — Imitava o jeito de falar de Arthur. — Eu não quero que o Arthur fique comigo por não querer partir meu coração nem nada disso.

Bianca mordeu o lábio inferior, se controlando. A verdade é que Guinevere gostar de Arthur era um pensamento que raramente passava pela mente dos estudantes, mas, quando a situação se invertia, era quase um fato para Bianca. Apesar de muitos poderem achar que ele se comportava como o irmão mais velho de uma garota pirracenta, ela sentia que tinha algo mais na maneira de ele olhar para Guinny. Porém, não queria dar esperanças para a amiga e acabar estando errada... Sem falar que era bem provável que Arthur começasse a namorar com Anabelle para poupá-la da humilhação certa, afinal, como Guinevere assinalou, isso era uma atitude típica de Arthur. Estava quase falando alguma coisa quando o celular de Guinevere vibrou sobre a mesa, indicando uma mensagem.

— É o Arthur? — perguntou.

— É. Eu ‘tô dizendo pra ele vir pra cá — Guinny respondeu desanimada.

Não demorou muito para que ele chegasse.

— E então? — Guinevere nem o cumprimentou. — Fala logo, tá rolando uma roda importante de apostas aqui.

Até Bianca ficou constrangida pelo olhar acusador e irritado de Guinny, e este nem era direcionado pra ela. Então, não foi surpresa Arthur hesitar.

— Eu... fiquei de ir ao cinema com ela. — Deu de ombros, encarando a mesa.

— ‘Tá aí. — Guinevere apontou para Arthur e se virou para Bianca. — Não te falei? — Bateu com a mão que antes apontava o adolescente na mesa. — É mesmo um imbecil.

— O que você queria que eu fizesse? — ele perguntou exasperado.

— E sair com ela por pena vai ajudar em quê? — Foi a resposta. — Quer saber? Você me diga o que você deveria ter feito. E, até você chegar a essa resposta, eu não vou mais falar com você. — Dito isso, levantou-se e retirou-se como um furacão.

Arthur olhou desamparado para Bianca.

— Nem me pergunte. Você fez a bagunça, você que ajeite. — Bianca sorriu. — E você sabe que ela tem um pouco de razão.

Um suspiro cansado foi a única resposta que ele ofereceu.

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— Você está sendo ridícula — Arthur disse ao encontrar Guinevere na saída da escola, uma semana depois da discussão na biblioteca.

— Eu diria que eu não estou, se eu estivesse falando com você. — Ela não olhou pra ele, nem mesmo com um olhar de desdém, o que indicava o nível de sua irritação.

— Você saiu com o imbecil do Sammuel no início do ano e eu não falei nada.

“Mas devia ter falado, idiota,” foi o pensamento de Guinevere, mas o que ela disse foi diferente:

— Eu não saí com ele por pena.

— Primeiramente, você saiu com ele porque perdeu uma aposta, não é muito diferente. Segundo, eu não gosto que você diga que eu vou sair com a Anabelle por pena, ela é uma garota legal.

— Ótimo, já que ela é tão legal, aproveite que seu aniversário de dezoito anos está perto e case com ela. Mas eu quero meu box de Jogos Mortais de volta! — Guinevere lançou um olhar irado para Arthur e começou a andar.

— Eu não consigo nem pôr em palavras o quanto o que você disse não faz sentido nenhum. — Ele a seguiu. — Quem vê pensa que você está com ciúmes. — Olhou-a discretamente, para ver a reação dela.

— É você que tá dizendo coisas sem sentido nenhum — rebateu de forma imediata. — Eu? Com ciúmes? Imagina! Agora para de me seguir. Você tem um encontro — ela frisou a palavra com ironia — e eu tenho que ir ver o pai na empresa, ele quer começar a organizar a festa de aniversário da mãe. Se você parar de ser um idiota até lá, eu te convido.

— Você é a única que está sendo idiota aqui. — Arthur revirou os olhos, mas mordeu o lábio para não rir do bico malcriado que Guinevere fazia. — Anda, vai logo, antes de voltar pra casa eu passo lá na sua pra gente conversar.

— Se você for lá em casa, eu te jogo pela janela. — E com essa amável frase, Guinevere se despediu.

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Ninguém reparou quando a filha do chefe entrou no saguão e se dirigiu aos elevadores. Guinny subiu até o andar do escritório de seu pai ouvindo Umbrella, da Rihanna, em seu mp3 player. Imaginava o que poderiam fazer para surpreender sua mãe no aniversário dela, mas estava sem ideias, e culpava as últimas atitudes de Arthur por isso. Saindo do elevador, passou pela mesa vazia da secretária, revirando os olhos. Nunca tinha visto a secretária do pai trabalhando. Dirigiu-se à porta entreaberta do escritório, mas, antes que pudesse entrar, viu algo que a congelou no lugar.

Não havia palavras pra descrever a traição que via, a vulgaridade da cena. Guinevere sentiu a própria mão ir para a porta, mas não se lembrava de ter decidido fazer alguma coisa, sentia-se dormente. Abriu-a um pouco mais e teve a prova definitiva de que era mesmo seu pai ali, destruindo a família deles. Ela queria entrar e gritar, mas não aguentaria ver o grande Charles McLean se refazendo daquela situação, a olhando envergonhado e humilhado por ser flagrado assim.

Ela não tinha forças para fazer aquilo com o pai. E, sentindo as lágrimas caindo, deu meia-volta e se foi.

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— Obrigada por ter vindo comigo hoje, Arthur. — Anabelle disse à saída do cinema, segurando um balde de pipoca pela metade. — Eu sei que é só pra eu não ser ainda mais zoada na escola, mas isso só me faz gostar ainda mais de você.

— Anabelle... — Arthur fez uma expressão desconfortável.

— Não se preocupe, eu entendi que você não gosta de mim desse jeito. — Ela parecia triste, mas sorriu.

— Desculpe.

— Não tem problema. Eu não tinha muitas esperanças. — Deu de ombros, ainda sorrindo triste. — Mas você e a Guinevere estão brigados? Desde aquele dia não vi mais vocês juntos.

— Ela acha que eu saí com você por pena — respondeu sincero.

— Mas você não explicou pra ela?

— E você acha que aquela imbecil para pra escutar alguém? —Arthur revirou os olhos. — Mas acho que ela sabe, ela sempre sabe mais do que fala.

— Você gosta dela, não é?

— É claro que sim, fomos criados juntos.

— Não, quero dizer que ela é a garota que você falou pra mim.

— Mas é claro que não — Arthur disse levemente esganiçado, com uma careta engraçada de desespero. — Ela é meu carma. Não sabia? Eu fui um nazista na vida passada e, para pagar meus crimes contra os judeus, tenho que aguentar aquela sociopata.

Anabelle provavelmente retrucaria depois de parar de rir, mas o celular de Arthur começou a tocar. Ele estranhou ao ver o nome da mãe de Guinevere no visor, mas não perdeu tempo fazendo hipóteses.

— Oi, tia, o que foi? — atendeu.

— Arthur, a Guinny tá com você? — Marie não escondia o desespero na voz.

— Não, ela disse que ia ver o pai dela. — Arthur estranhou a ligação, já que quando Guinevere ia visitar o pai no trabalho, era algo que era avisado em casa por Charles, que sabia muito bem que a filha não ligava para horários.

— Ela não tá com ele, e ninguém na empresa lembra-se de ter visto ela por lá e ela não atende as ligações. Você tem alguma ideia de onde ela possa estar, com quem...?

— Eu posso ligar pra alguns amigos nossos e ver se ela tá com algum deles — respondeu rápido.

— Por favor, me dê notícias se conseguir encontrá-la.

— Tudo bem, tia. — Arthur fez uma pausa, mas não podia desligar ainda. — Não se preocupe tanto, ainda não escureceu e você sabe como ela é, deve estar em algum lugar e esqueceu de avisar.

— É por saber como ela é que eu me preocupo, Arthur. — E desligou.

— O que foi, Arthur? — Anabelle perguntou preocupada.

— Guinevere sumiu. Tem problema se você voltar pra casa sozinha? Tenho que sair na captura do kraken. — Ele não se sentia à vontade pedindo isso, mas...

— Minha casa é perto, não se preocupe. — Ela sorriu triste

— A gente se fala depois — falou antes de sair apressado, digitando algo no celular.

— Duvido. — Anabelle suspirou triste enquanto falava pra si mesma.

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Guinevere estava sentada em um balanço de um parque, se impulsionando levemente. Ouvia o toque do celular, mas não fazia movimento para atender. Sabia que era sua mãe, e era a última pessoa com quem queria falar. À exceção, claro, de seu pai. Sua atitude só mudou quando, em uma nova chamada, o toque mudou. Guinny, em uma brincadeira infantil, programou seu celular para soar como uma sirene de polícia quando Arthur lhe ligasse.

— Onde você tá, idiota? Sua mãe tá louca te procurando! — Foi a primeira coisa que ela escutou quando atendeu a ligação. — Me diz onde você tá que eu vou te buscar e vamos pra casa juntos.

— Arthur... — A voz dela estava embargada pelo choro que vinha segurando.

— Guinny? — Arthur pareceu preocupado. — Você tá chorando? — Se alarmou. — O que aconteceu? Você tá bem? Se machucou? Onde você tá?

Guinny explicou sua localização tentando não voltar a chorar. Meia hora depois, um Arthur ofegante surgiu. Ele se aproximou, tentando recuperar o fôlego, e sentou-se no balanço do lado esquerdo.

— Então... — Ele respirou mais algumas vezes antes de conseguir continuar. — O que aconteceu?

Guinevere apenas meneou a cabeça negativamente. Não tinha como pôr em palavras tudo aquilo. Não tinha olhado para Arthur desde que ele se sentara ao seu lado, e quase foi uma surpresa quando viu a mão dele segurar a sua. Encarou-o finalmente e, quando viu sua expressão preocupada, também enxergou o que tanto gostava nele. Arthur tinha algo bom dentro de si. Guinny não sabia explicar o que era, mas sabia que ele tinha de sobra.

— Meu pai... — Ela se ouviu dizendo. — E a secretária... — Viu o entendimento passar pelo rosto de Arthur e só pode agradecer por isso. — O que eu vou fazer, Arthur?

Arthur olhou o rosto vermelho de Guinevere e viu o quanto ela estava se segurando. Ele a conhecia e sabia que ela preferiria morrer sufocada com tudo aquilo. E naquela situação, onde Guinny tanto precisava, não havia ajuda possível. O mal estava de todo feito e ele odiou Charles McLean por isso.

— Agora você vai voltar pra casa. É a única coisa que você pode fazer agora — ele disse suavemente, acariciando os dedos dela. — E depois é depois. Você não está sozinha, sabe? Eu vou estar com você por todo o tempo que você precisar de mim.

― Eu sempre o amei muito, sabe? ― Não era necessário dizer que ela estava falando do pai. ― Não tínhamos o melhor dos relacionamentos, mas eu sempre o amei demais. E agora eu sinto como se não fosse mais certo fazer isso. Ele traiu a minha mãe. É como se a nossa família não fosse importante o suficiente pra ele. ― Guinevere se empurrava levemente no balanço, mas não soltava a mão de Arthur. ― Eu podia não ser a filha que ele queria, mas não quer dizer que eu não queria deixá-lo orgulhoso.

― Eu sei, Guinevere, eu sei ― Arthur sussurrou, se odiando por não poder fazer mais do que aquilo.

— Eu não vou conseguir olhar pra minha mãe e muito menos pro meu pai ― Guinny respirou fundo, tentando se recompor.

— Mas você tem que fazer isso. Ou vai morar aqui pra sempre?

— Você não me deixaria sem teto, deixaria? ― Ainda que seus olhos estivessem vermelhos, Guinevere fez seu melhor ao sorrir brincalhona.

Aquilo, de certa forma, partiu o coração de Arthur. Mas ele sorriu de volta mesmo assim.

— Fugir de casa pra casa ao lado não é exatamente uma fuga, como você deve ter aprendido depois da segunda série.

Guinevere riu um pouco e adorou Arthur por aquilo. Passou a mão livre no rosto, enxugando o que havia restado das lágrimas.

— Você acha que eu ‘tô sendo muito dramática? Eu só penso que isso vai ser bem pior pra mamãe e ela não precisa lidar comigo agora.

— Nem ao menos pense nisso. Isso afeta você também, e você não tem que ficar engolindo sua dor só porque outra pessoa vai sofrer mais. Você só não sabe como lidar com isso, mas ficar se escondendo ou subestimando o que sente não vai ajudar. — Sorriu solidário. — Mas por que não me ligou ao invés de sumir assim?

— Você ‘tava no cinema e é do tipo chato que desliga o celular quando mandam.

— Só quando você tá comigo. — Arthur se levantou e puxou Guinevere para que ela ficasse de pé também. — Vamos pra casa. Vamos dizer que você foi pra casa da Bianca depois da aula e perdeu a noção da hora até você resolver como quer tratar desse assunto. Você não precisa ter um plano completo agora.

— Obrigada, Arthur. Você sabe... por estar aqui.

Ele sorriu enquanto passava o braço pelos ombros dela e começaram a caminhar para casa.

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No fim das contas, foi simples se livrarem dos pais de Guinevere. Eles aceitaram a desculpa dada e, depois da bronca, ela pôde escapar para o anexo de Arthur. Tinha passado a conversa inteira com os pais olhando para o chão, sem encarar nenhum dos dois. Ainda estava envergonhada, confusa e magoada pelo que tinha visto.

— Eu trouxe sorvete — ela anunciou mostrando o pote com duas colheres em cima. — Eu quero conversar sobre qualquer coisa, menos o que eu vi hoje a tarde.

— Seu desejo é uma ordem. — Arthur sorriu, descendo da cama e sentando-se no tapete, onde logo Guinevere veio se juntar a ele. ― Embora isso não vá exatamente ajudar, você sabe disso.

― Cale a boca e coma.

O anexo não era muito pequeno, mas não podia ser chamado de casa. Tinha uma cama de casal enorme, principal motivo para Arthur ter se mudado pra lá, além de um escritório que ele usava para estudar. Era dividido em dois cômodos, o segundo era o banheiro. O quarto também tinha um guarda-roupa embutido que era o sonho de consumo de Guinevere, mas ela nunca conseguiu convencer os pais a comprarem um igual para ela. A decoração era simples e impessoal, e tudo era muito organizado.

— Como foi seu encontro? — Guinevere perguntou, antes de engolir uma generosa colherada de sorvete de flocos.

— Não foi bem um encontro. — Arthur revirou os olhos. — Eu teria te dito se você não tivesse tido um ataque. Eu só saí com a Anabelle dessa vez pra não pegarem muito no pé dela e ela sabe disso.

— Ainda foi maldade com as esperanças dela.

— Eu tentei ser o mais sincero possível.

— O problema é que você quer sempre assumir responsabilidade por tudo — Guinny acusou, apontando para o rosto dele com a colher. — Certas coisas não são responsabilidade sua como, por exemplo, a Anabelle. Ela inventou de fazer aquele espetáculo porque quis, ela que se virasse.

— Eu só não quis piorar nada. E, depois do seu sumiço hoje, eu até deixei a coitada sozinha pra ir atrás de você, imbecil.

Guinevere olhou para o pote de sorvete para disfarçar seu sorriso.

— De qualquer forma, não fique muito amiguinho dela pra não ficar alimentando falsas esperanças.

— Não se preocupe. Eu disse que gosto de outra pessoa.

— Como assim, você gosta de alguém? — Guinevere ficou de joelhos repentinamente, fazendo Arthur cair pra trás pelo susto. — E como é que euzinha não sei disso? Tipo, você é o Pink e eu sou o Cérebro, você é meu caro Watson e eu sou a Sherlock! Eu é que tenho que saber dessas coisas!

— Calma, eu só disse isso pra dar um fora diplomático, idiota.

— Devia ter dito logo. — Guinny voltou a sentar-se e a entupir-se de sorvete.

— Como você tá agora?

— Eu te disse que não quero falar disso. — Sabia bem a que ele estava se referindo. — Eu não quero magoar a mamãe, mas não acho certo esconder dela. Mas, se eu falar, sinto que vou ser acusada de acabar com o casamento dos meus pais, embora quem tenha errado tenha sido o papai. — Largou a colher dentro do pote e escondeu o rosto nas mãos antes de voltar a olhar Arthur. — O que eu faço? Você é o ajuizado de nós dois.

— Acho que você tem que falar com seu pai.

— Mudei de ideia, você não tem juízo. Tem é sorte de ter a família perfeita e que seu pai nem em um milhão de anos trairia sua mãe, ele é apenas o cara mais doce do mundo e até ele diria que é lógico que eu não posso falar pro meu pai que peguei ele estrelando um protótipo de filme pornô com a secretária. — Fez uma pausa, sem fôlego. Então arregalou os olhos, sua ficha caindo. — Eu não acredito que eu disse isso, apesar dele merecer.

— Você realmente não tem filtro. — Arthur revirou os olhos. — Mas você realmente devia conversar com seu pai. Esse é um erro dele, cabe a ele consertar. E o que quer que aconteça com o casamento dos seus pais, não vai ser sua culpa.

— Mas como eu falo com ele?

— Do jeito que você fala com todo mundo. Direto ao ponto. Mas corte a parte do filme pornô, não pega bem.

Guinevere revirou os olhos.

— Eu vou pensar, mas acho que você está certo. — Suspirou. — Que filmes estavam em cartaz? ― Trocou de assunto outra vez, e Arthur resolveu dar esse espaço para ela, sabendo que era muito para se lidar de uma vez só.

— Eu Sou a Lenda ainda tá em cartaz. Devíamos ir ver. — Arthur puxou Guinevere e a envolveu em um meio abraço. — Se não quiser, sempre tem Eu Sei Quem Me Matou. — Riu.

— Nem me fale desse filme! É o melhor filme pra se assistir em uma tentativa de suicídio. — Encostou a cabeça no ombro dele. — Vamos assistir Eu Sou a Lenda no sábado e pronto.

Arthur beijou os cabelos ruivos e não disse nada. Também não viu o rosto de Guinevere se avermelhando.

— Seu aniversário é no próximo mês — ela disse em um sussurro. — O que quer de presente?

— Me surpreenda. — Ele sorriu.

Agosto 2002 ― Cinco anos atrás.

— Ei, Guinevere — Arthur chamou enquanto se dependurava em um galho da enorme árvore com as duas mãos, nos fundos da escola. Seus colegas estavam espalhados por todo o lado. — O que ‘tá fazendo?

— O que você acha? A tarefa que a professora passou. — Guinevere estava no chão, escrevendo em uma folha branca, apoiada em uma caixa de madeira. A professora pedira que todos escrevessem uma carta para si mesmo no futuro para serem enterradas nos fundos da escola e, depois de passarem dez anos, todos voltariam e recuperariam as cartas.

— Você ‘tá fazendo isso agora?! Ela passou isso semana passada. — Soltou-se da árvore e caiu apoiado nos dois pés, com um baque surdo.

— É meu aniversário, posso fazer o que quiser.

— Você está fazendo treze, devia começar a criar juízo.

— Prefiro criar gatos.

Arthur revirou os olhos e tentou puxar a folha, mas antes que pudesse ler a primeira palavra, recebeu um tapa na nuca.

— O que foi que te deu? — ele massageou o local.

Guinevere estava corada quando pegou a caixa de volta.

— Você não pode ver o que eu escrevi.

— Por que não? O que você ‘tá escondendo?

— Não importa, só não quero que você veja — teimou, mas, ao ver a face confusa de Arthur, não pôde evitar ceder um pouco. — Não agora. Quando eu desenterrar daqui a alguns anos, eu deixo.

— Tudo bem... — Arthur disse incerto. Guinny ainda tinha o rosto vermelho, e isso o incomodava. Não gostava quando ela ficava envergonhada por causa dele. — Quando eu desenterrar a minha daqui a alguns anos, eu também vou te mostrar, então.

Guinevere sorriu e ele soube que tinha dito a coisa certa.

Ela ficou esperando enquanto Arthur corria até a sala para pegar a sua redação na mochila. Não demorou tanto para que ele estivesse de volta, com o papel branco dobrado bem seguro em sua mão.

— Eu não sei o que você colocou — disse com um sorriso arteiro enquanto colocava a sua carta junto da dela dentro da caixa de madeira —, mas acho que coloquei a mesma coisa que você, Guinny.

— Mas você não sabe o que eu coloquei!

— Você colocou aí um segredo, e eu também.

Guinevere riu.

— Então esse vai ser o único segredo que vamos guardar um do outro, ok? — ela sugeriu animada. — Tirando isso, temos que contar tudo um pro outro! — Dito isso, sorriu e ofereceu o dedo mindinho de sua mão direita a ele.

Arthur sorriu de volta e assentiu enquanto entrelaçava o próprio mindinho com o dela.

E eles cumpriram a promessa. Desde aquele dia, passaram a contar tudo um pro outro. A única coisa que escondiam, estava naquela caixa.

Notas finais
Para que não exista um mal-entendido por o Arthur ter chamado a mãe da Guinevere de tia: Chamar a mãe dos amigos de tia, quem nunca? XD E então, gostaram? :D Espero ter mostrado mais da personalidade dos protagonistas, e não se preocupem, logo conheceremos melhor os secundários! Oh, as caixinhas aqui embaixo estão solitárias, por que não fazem companhia a elas e deixam uma review pra mim? Heim? *-*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.