Duas Faces
2 Chapter 02
Notas iniciais
Além da cor do meu cabelo, as pessoas me acham estranha por não me importar de rolar na neve de biquíni, nem de vestir roupa de esquimó no verão... Eu não sinto frio, nem calor. A neve me aquece, o calor me refresca.
Estava na porta da escola, agora o relógio me dizia estar quase 40 minutos atrasada... Depois de perceber que iria me ferrar de qualquer jeito, continuei andando, mas andando bem devagar, parando para olhar qualquer coisinha que aparecesse, qualquer distração que encontrasse...
Imaginei que minha mãe estaria ali, na porta da secretaria, então já entrei com a cabeça baixa pelo portão de ferro, agora coberto de neve...
Estava enganada, na verdade, não havia ninguém ali... Continuei em frente, indo para minha sala, que não era muito longe da entrada.
Hesitei, minha mãe poderia estar ali dentro, esperando para me dar uma bronca por ter a feito sair de casa... Mas naquele momento, eu não tinha escolha, teria que entrar e encarar o que quer que fosse que estivesse esperando por mim.
Levei um choque ao abrir a maçaneta. Tirei minha mão rapidamente, assustada. Analisei a maçaneta, em busca da causa do choque... Um pequeno dispositivo, colado com fita adesiva na parte inferior da maçaneta, TALVEZ, seja a causa.
Arranquei-o, com toda a fúria que me restava. Guardei-o no bolso e entrei na sala, todos olhavam para mim, me sentei em minha carteira, simplesmente ignorando a presença de minha mãe e da supervisora na frente da classe.
—Por onde você andou Senhorita Ganzer? – Perguntou a supervisora com aquela voz de taquara rachada.
Ouvi risadinhas no fundo, de muitas pessoas, menos dos irmãos irritantes.
—E-eu cai no rio! – Gaguejei.
Desta vez somente os Stuart gargalharam, como se eu tivesse contado uma piada engraçada.
Minha mãe olhou pra mim franzindo os lábios, mas continuou em silêncio enquanto a supervisora continuava falando — ou gritando – comigo:
—Me conte onde tem um rio que não está congelado nessa cidade! – Em seguida gargalhou – Conte a verdade, mentirosa! Aposto que estava tomando uma com seus amigos, ou cheirando alguma pedra! Acha que eu não te conheço?
—Acho! Pois a “Senhora” diz que me conhece e nem sabe que eu NÃO TENHO AMIGOS! – Gritei, aumentando o tom no fim da frase.
Todos pararam de rir, e ficaram sérios.
—Filha, vamos para a sala da Sra. Aldegunda , e lá nós conversamos... – Disse minha mãe, com sua voz melodiosa e aconchegante.
—Sim... – Respondi.
Andamos um pouco, minha escola não é tão grande. Entramos na sala dela, onde havia três cadeiras para visitantes, logicamente, uma para a mãe, uma para o pai, e uma para o estudante.
Nos sentamos. Uma pausa longa e cheia de olhares ocorreu até que, após pensar muito sobre o assunto, disse:
— Os gêmeos jogaram água em mim...
A supervisora olhou pra mim com uma cara de bunda:
—Aqueles três acidentes... Só podia dar nisso! Sabe o motivo de ter três cadeiras ai?– Disse – Vou chamá-los imediatamente.
Arregalei os olhos e apertei a mão de minha mãe, a qual estava dada com a minha. A supervisora saiu da sala, e então minha mãe disse.
—Não fique triste, você tem que se preocupar mais com a sua consciência do que com sua reputação. Porque sua consciência é o que você é, e a sua reputação é o que os outros pensam de você. E o que os outros pensam, é problema deles.
Ela voltou, acompanhada dos três, que jogaram para mim um olhar assassino.
—Vocês podem me dizer o que fizeram com a garota? – perguntou a supervisora.
—Nada mãe! Ela chegou nos agredindo, só porque chamamos ela, carinhosamente, de foguinho, e então nós a jogamos no chão, que por acaso estava coberto de água por causa da neve.
—Mentirosos! – Gritou minha mãe, tão alto que até na classe devem ter escutado – Ela não ficaria encharcada somente por cair no chão com neve, VOCÊS jogaram água nela!
—Concordo – Disse a supervisora – Está nevando, não chovendo, você está certa, vou avisar os professores o motivo do seu atraso. Não se preocupe você não sairá prejudicada.
—Vamos filha... – Disse minha mãe, baixinho, como se ela não tivesse gritado agora pouco.
Peguei minhas coisas e saímos.
— Eu converso com vocês depois! – Ouvi a supervisora gritar, e logo em seguida, os três passarem esbarrando em mim como se eu fosse invisíve
Chegamos em casa bem rápido, já que ninguém jogou água em nós no caminho. Fiquei entediada o dia todo, sentada na cama comendo pipoca e assistindo televisão.
—Filha, vou sair, estou indo na padaria. Você não pode comer só pipoca em um dia inteiro!
Rimos, e concordei com a cabeça, iria levantar e sair um pouco no terreiro, ficar olhando o sol se por sentada nas pedras do lago.
A neve já estava derretendo, a primavera já já chega... O lago fica lindo na primavera, todos esses brotos de flores, desabrochariam num arco íris mestiço.
Continuei observando, o sol já estava quase começando a se pôr... Ouvi passos de pessoas correndo, mal deu tempo de olhar pro lado e eu já estava no chão, com as costas doendo, ouvi mais passos, e uma voz perguntou:
—Ela morreu?
Afs era aquela “perfeição” da Millena.
Todos riram, começaram a me chutar, e pular em cima de mim.
—Se ela morrer vai ser bom! Ninguém a mandou por aquele troço de choque na minha cadeira, e estamos de castigo... POR TRÊS MESES! – Me chutou e analisou cada bolso que eu tinha em meu corpo — O que é isso no seu pescoço, é caro?
Ele puxou a grossa corrente de prata do meu pescoço, deixando leves cortes na nuca. Eles sangravam e ardiam, como cortes de papel.
—Não! – Gritei – Faça o que quiser comigo, mas não estrague essa corrente. Por favor!
Ele colocou a corrente no bolso e me chutou mais ainda, se juntando com as outras que já o faziam. Ouvi um estalo no meu joelho, e em seguida na costela, onde ele havia dado o primeiro bicudo. Meu nariz explodiu em sangue, me fazendo tossir e engasgar.
O Jeb me olhou com uma cara de "qualquer coisa?" e me puxou pela gola da camiseta, o que acabou fazendo com que o tecido frágil se rompesse e eu ficasse só com os ombros e a barriga tampados.
Ele começou a apertar meus seios, não acariciando, mas machucando.
Milena veio e apertou meus mamilos, por cima do sutiã, me fazendo gritar de dor.
—P-parem! – Gritei.
Ele “parou” dando um chute em minha cara. O lago parecia me chamar, mas estava congelado, não tinha como escapar...
Ele chutou o local onde as costelas estalaram. Uma dor aguda percorreu meu corpo, a essa altura ouvia o lago berrar para eu entrar nele. Percebi um orifício, como uma portinha no lago congelado... E vi água.
Me agarrei nas pedras tentando me arrastar.
—Quer brincar de patinar? – Disse Jeb, me chutando, e em seguida me arrastando para cima do lago congelado.
Será que eles não viram o buraco no lago? Dei um impulso deslizando até o buraco, já tinha guardado o ar, era só cair...
—O que? – Ouvi Jeb gritar, enquanto eu deslizava para dentro do lago – C-como essa vadia...
Senti o calor do frio, a portinhola acima de mim se fechou. Me desesperei, iria morrer afogada... Mas estava tão bom... A dor em meu joelho e costela parou. Estava revigorada, já nem era preciso usar o ar que tinha guardado... Estava em casa.
Dava pra ver a cara das meninas, olhando pro lago com cara de ‘Anh?’, a Millena saiu, parecia não estar nem ai, ficou só a Ângela, me observando afundar...
Gargalhei, eu estava com MUITA raiva deles.
Dei um grito, na tentativa de aliviar a raiva, mas apenas senti coisas pontiagudas saindo da minha mão.
Estalagmites gigantes perfuraram a superfície congelada do lago, atingindo Ângela, que estava lá, olhando com cara de c*.
Seu braço começou a sangrar, onde ela foi atingida, mas a pele continuava bonita. A cor escarlate do sangue se juntando ao cachecol de cor parecida, encharcando-o.
Passo a outra mão na cabeça, imaginando uma coroa de gelo, com o pingente do meu colar no meio — Um par de asas, de um lado vermelho e do outro branco gelo. – Senti uma coisa crescendo na minha cabeça.
Um trono enorme começou a crescer no fundo do lago, me erguendo para cima. Cheguei lá com olhar superior, com as pernas cruzadas e o cabelo num penteado para cima, revelando algumas mechas brancas que surgiram na nuca. Os dois bobões que sobraram estavam olhando para mim, já deviam estar cagados. Olhei para Ângela, caída no chão, ela congelou rapidamente, de baixo pra cima. O sol deixava as estalagmites alaranjadas, num tom bonito.
Imaginei como Ângela estava se sentindo agora, naquela prisão de gelo, e sorri, olhando para a bela escultura de gelo, com apenas a região do cachecol num tom de gelo avermelhado, que havia se juntado ao sangue.
—Próximo! — Gritei, com um sorriso maldoso nos lábios.
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