Dual

4 Segredos


— Não sei qual sua definição de lugar muito legal, mas um resort me soa como um lugar para idosos.

Thomas riu se acomodando numa espreguiçadeira ao lado da que Beatriz havia se sentado. Eles estavam na parte externa de um resort, ao redor de uma piscina quase sem ninguém. Um bar os supria logo ao lado e quase que como sendo chamado, o garçom dele se aproximou com o cardápio.

— Você pode não achar tudo isso – ele pegou o cardápio e acenou para o homem, que se afastou – mas aqui tem os melhores petiscos.

— E você é sempre bom demais no quesito comida para deixar passar nossa vinda aqui – ela o olhou por cima dos óculos escuros e viu-o dar de ombros.

Beatriz riu baixinho deitando teatralmente no assento. Os cabelos lisos se esparramaram na espreguiçadeira e um sorriso de satisfação surgiu no rosto dela. Precisava realmente relaxar um pouco, ainda que não pretendesse fazer isso com o responsável por seu caos.

— Terminei de pedir – Thomas se acomodou no assento, ficando de frente para a piscina – daqui a pouco você vai provar os melhores petiscos da região.

— Estou contando com isso.

Thomas sorriu, mas seu sorriso mal preencheu seu rosto, como sempre fazia. Beatriz o observou calada através dos óculos escuros e, sob o sol do início da tarde, o garoto pareceu momentaneamente frágil. Os dedos dele se mexiam inquietos e os olhos estavam focados em algo além do que ele estava encarando.

— Há algo lhe incomodando?

Ele virou-se surpreso para ela, mas Beatriz apenas deslizou os óculos tirando-o de seu rosto.

— Eu sou observadora.

Thomas a encarou, alguns segundos mais do que deveria, e depois voltou a olhar para a água tranquila da piscina. Ondas suaves se formavam ali, a partir do vento ameno que circulava ao redor. Algumas árvores ao longe balançaram e o silêncio do local pareceu se tornar tenso.

Inconscientemente Beatriz sentou, mas manteve a pose o mais confortável possível.

— Não sei se deveria falar para você – foi sincero – não acho...

— Que eu vá entender?

Novamente​ houve surpresa nos olhos do garoto e Beatriz soltou um risinho.

— Somos desconhecidos, Tom. Não vou julgar você.

A expressão de relaxamento no rosto do garoto aqueceu as mãos de Beatriz.

— Prometo – sussurrou.

Thomas endireitou sua postura e respirou fundo, com os olhos contemplativos no céu azul encoberto por poucas nuvens.

— Estou vivendo um drama dentro de casa. Meus pais estão com problemas no trabalho, e não os culpo pois sei como é puxado manter tudo em ordem. Toda e qualquer coisa que aconteça eu viro automaticamente o culpado. Sou culpado pelos investimentos não terem dado certo, sou culpado pela perca de parceria, sou culpado por ainda não ter aceitado o cargo do meu pai na empresa.

Beatriz sentiu os pelos se eriçarem.

— Ainda? Você não faz faculdade de Letras?

Um sorriso tristonho fez o coração dela se apertar.

— Faço, mas para eles é só um capricho. Eu realmente me interesso pelo curso, gosto dos assuntos, dos livros, das discussões – o sorriso aumentou – mas sei que em algum momento vou ter que assumir os negócios da família. Foi um acordo que fiz com meus pais.

— Acordo?

Aparentemente fazer acordos era um hobby muito praticado por ele.

— Sim. Eu bati o pé e disse que só entraria nos negócios da família quando pudesse fazer, antes, um curso que me interessasse. Eles aceitaram, mas meu tempo está acabando.

Ele abriu e fechou as mãos, encarando-as sem vê-las realmente.

— Reprovei quantas matérias pude, estou entrando no meu sexto ano numa faculdade de média quatro anos e não sei mais o que fazer. Eu não estou pronto para abrir mão de projetos meus para me tornar meu pai.

Thomas a olhou buscando compreensão e o que encontrou fez seu corpo inteiro se aquecer. Não era só compreensão naqueles olhos castanhos, era algo mais. Algo muito mais profundo.

— Eu estou com medo – confidenciou baixinho, sentindo aquelas palavras rasgarem sua garganta.

— Você não vai se tornar seu pai – Beatriz afirmou sentando de frente para ele e pegando a mão dele na sua – e você pode fazer o que você quiser. Se gosta de letras, faça letras e seja o melhor. Não viva submisso a ninguém. O dinheiro não vai comprar sua felicidade.

Thomas digeriu as palavras dela lentamente, inspirando profundamente. O aperto cálido entre seus dedos o tranquilizou, como uma mãe, e vagarosamente ele sentiu-a se afastar, lhe dando espaço.

Ele sabia o que tinha que fazer. Soube desde o momento em que achou o diário de sua colega de classe. Soube na hora em que pensou que não faria mais diferença estar entre os ricos como um fantasma.

— Obrigado.

Beatriz sorriu e por um momento o sorriso dela o lembrou alguém. Seu coração se aqueceu.

— Na verdade​ eu tenho mais algumas coisas que gostaria de falar, vai me ouvir?

Cruzando as pernas e se apoiando na espreguiçadeira de forma preguiçosa ela ronronou enquanto via os petiscos chegarem.

— Nós temos a tarde inteira querido.

•••

Thomas contou a Beatriz sobre o que havia acontecido na faculdade na quarta-feira. Sobre seus amigos idiotas. O garoto pôs para fora toda a raiva pelas ações deles, assim como a vergonha de ter sustentado por tanto tempo amizades como aquelas.

Beatriz descobriu, no monólogo do garoto, que Thomas realmente se comportava de forma diferente na faculdade. Ele agia como o rico mimado que deveria ser, era negligente e esquivo. Disse, para a outra identidade de Beatriz, com suas palavras que aquele jeito era como uma armadura.

Vinculado ao fato de ter que seguir os passos de seu pai assim que terminasse a faculdade Thomas confidenciou que buscou, durante todos os seus seis anos na instituição, afastar possíveis amigos e colegas. Ele era um solitário e quanto mais Thomas falava sobre isso, mais Beatriz o reconhecia.

Por um momento Beatriz pensou que ele havia descoberto quem ela era e estava brincando consigo antes de jogar a verdade na sua cara, mas a cada frase as palavras dele se tornavam reais. Thomas vivia isolado na faculdade. Ela nunca o havia visto antes dele ir pagar cadeiras na sua sala. Nem mesmo o via nos corredores com frequência, como o fazia com outros colegas.

O coração da garota apertou e ela se dedicou a escutá-lo e finalmente entendeu o porquê de Thomas estar vinculado aos garotos do terraço. Ele precisava se camuflar. Se camuflar como um garoto rico e esnobe, que afastava as pessoas de seu seleto grupo.

Thomas só precisava afastar os outros, pouco importando por quais meios.

Enquanto ouvia com atenção as técnicas e artimanhas dele para manter outros afastados Beatriz pensou no advento Ana. Entre tantas formas de afastar as pessoas, seria Ana mais uma a ser afastada? O comportamento dele com ela explicava sua habilidade de esquiva, mas e o acordo?

Fazer um acordo com ela não o colocara mais próximo? Qual era o significado de manter o diário?

Ele pretendia afastá-la também?

— Tenho dramas maiores do que esses, mas essa semana foi isso que me assombrou. Até quando minha necessidade de afastar as pessoas as machucou?

A expressão no rosto de Thomas inquietou a garota ao seu lado.

— Eu não acreditei que estar nesse grupo odioso fosse prejudicar alguém. Mas a culpa é minha, na verdade, eu que a arrastei para tudo aquilo. Talvez eu devesse só afastar ela de mim também...

— Ela?

— Não fique com ciúmes – brincou o garoto e apesar de rir Beatriz pensou seriamente no assunto.

Até que ponto ela podia ficar com ciúmes de si mesma?

— Eu fiz um acordo com uma garota da faculdade. Ela é extremamente irritante, se acha a sabe tudo, tem um nariz arrebitado e é tão direta que deixa todos chocados – ele riu de sua descrição.

Beatriz internamente o acompanhou.

— Eu acabei pegando um diário dela, na verdade da avó dela, e usei algumas coisas escritas nele para chantageá-la. Me pareceu a vingança perfeita por nossas discussões.

Ele levantou as mãos em sinal de inocência.

— Eu juro que nunca pretendi fazer nada de mais, só pedi para ela carregar uma bolsa velha minha por aí, uns livros, comprar algumas coisas – Thomas lembrou da dança estranha no jardim e segurou o riso – por favor, não me ache um monstro. Se a conhecesse iria fazer igual.

Não imagina o quanto eu faria isso com você, Beatriz pensou sorrindo para que ele continuasse.

— Mas aí acabou que esses meninos quase machucaram ela. Eu consegui chegar a tempo, mas se algo acontecesse... a culpa ia ser inteiramente minha. Eu cruzei os limites, em vez de afastar a coloquei próxima demais.

— E o que ela acha disso?

A pergunta fez Thomas encarar novamente as águas da piscina.

— Eu não sei. Ela não sabe nada sobre mim e não sei se contar vai ajudar alguma coisa. Pode não parecer – ele sorriu com diversão – mas ela me odeia, então, não sei. Só não quero que ela se machuque.

Ele pegou um copo longo com suco em mãos.

— Eu me preocupo com ela.

O coração de Beatriz revirou-se dentro dela, acelerado, desesperado, sem qualquer indício de se acalmar. Thomas se importava com ela? Se preocupava com ela?

Os pensamentos se debatiam. A história dele fazendo complemento com o que se passara no terraço, nos corredores, na sala. Thomas agora fazia sentido. E as palavras dele mexiam com ela dos pés à cabeça.

— E você pensa em afastá-la?

Ele assentiu.

— Mas já sei como fazer isso.

Beatriz se segurou para não o impedir. Ela não queria ser afastada. Ela queria ajudar. Queria ajudar o garoto vulnerável na sua frente com tudo que ela tinha. E não tinha. Mas a decisão não era dela, era dele.

Thomas havia desabafado com Beatriz, não com Ana.

Ela estava impotente.

Com a tristeza se alastrando dentro dela Beatriz ouviu-o suspirar, tão pesarosamente quanto ela o faria se pudesse sair do personagem, e se encostar na espreguiçadeira.

— Obrigado por me ouvir. Não acho... eu não acho que conseguiria perceber o que percebo agora se não falasse sobre isso.

Em meio ao seu caos Beatriz sorriu, verdadeiramente satisfeita por poder ajudá-lo, e acenou para ele, bebendo o resto de seu suco para abafar as palavras que tentavam insistentemente escapulir, delatando-a.

— Não se preocupe, algum dia você vai ter que me ouvir também.

O sorriso no rosto de Thomas acalmou todas as incertezas e confusões no coração da garota. Por hora, era tudo que ela precisava.

•••

Quando a segunda-feira chegou Beatriz não sabia o que fazer. Ir à faculdade para ser dispensada? Ficar em casa e adiar o inevitável? Thomas não voltaria atrás em sua decisão, ele deixara bem claro isso para Beatriz. Tudo agora estava nas mãos dela. E ela não sabia o que fazer.

Suspirando pesarosamente Beatriz se desenrolou e trotou da cama para o banheiro de seu quarto. Thomas, antes alvo de todo seu ódio, começava a ganhar uma forma diferente, algo mais palpável e concreto. Ele não era mais só o garoto irritante da sua sala. Ele tinha uma história agora, mas ele não contou essa história a ela.

Na verdade, não contou a Ana, a garota que o conhecia antes. Thomas contou a uma completa estranha sobre sua vida. Mas Beatriz não o culpava, desabafar com estranhos fora uma das formas que ela encontrou para colocar para fora toda a dor daquele dia.

Daquele relacionamento.

Com mais um suspirou Beatriz iniciou mais um dia, sabendo que talvez o final dele não lhe agradasse muito.

•••

— Está atrasada! – queixou-se Thomas seguindo-a depois do portão.

Ana olhou para ele de lado e o ignorou, fingindo não escutar. O garoto ao seu lado sorriu e, pigarreando, a interceptou.

— Depois das aulas vamos fazer compras. Esteja no portão assim que forem doze e meia. Não se preocupe, eu pago o almoço.

Beatriz ficou atônita com tanta informação e Thomas aproveitou para escapar. Quando ele ia sumir de sua vista os movimentos dela voltaram.

— O quê?

O sorriso travesso no rosto do garoto, do outro lado do pátio, fez a raiva de Beatriz surgir novamente. Thomas era impossível!

Ignorando o fato de que ele havia marcado para ir às compras com ela quando tinha a clara intenção de quebrar o acordo, ela seguiu para sala, já que sua primeira aula do dia não era com o garoto. E nem a segunda.

Que diabos!

•••

— O que pretende me trazendo para um supermercado?

A sobrancelha de Beatriz ergueu-se enquanto ela percorria o corredor de frios empurrando preguiçosamente um carrinho vazio. A iluminação excessiva parecia cega-la, mas nada a impediria de ver o garoto logo a sua frente encarando concentradíssimo o rótulo de uma caixa de leite.

— Eu disse que íamos às compras.

Beatriz parou.

— Quando você diz compras a primeira e última coisa que vou imaginar com certeza é um supermercado – sorriu irônica, pegando um iogurte da prateleira – vai me dizer por que estamos aqui? Tenho a sensação que não é para fazer as suas compras do mês.

Thomas sorriu, algo entre tristeza e complacência, mas voltou a focar na caixa de leite.

— Faz parte do nosso acordo – ele endireitou os ombros – você vai fazer o que eu mandar e não tenho qualquer tipo de obrigação em lhe dizer sobre – Thomas piscou – então vai continuar em segredo.

Beatriz suspirou.

— Certo – ela se afastou do carrinho – então eu vou dar uma volta na ala de limpeza, quem sabe encontrar um veneno de rato. Nunca se sabe quando vou precisar matar você.

O sorriso da garota fez Thomas rir, mas mesmo que ela tenha se afastado indo realmente para a ala de limpeza, e talvez fugindo, ele não a impediu. Beatriz soltou um longo suspiro quando entrou num corredor adjacente, sendo recebida por vários amaciantes e sabões em barra.

— Que droga Thomas Mason – ralhou sozinha batendo o pé ao longo do corredor.

Era óbvio que ela ia voltar. Apesar de tudo Beatriz estava curiosa em relação a finalidade de tudo aquilo.

Depois de passar por mais dois corredores ela agarrou uma barra de chocolate e voltou para onde deixara Thomas e quase pulou assustada quando viu o carrinho, antes vazio, cheio de produtos. E o castanho continuava encarando a caixa de leite.

— O que aconteceu aqui?

Os olhos verdes saíram do rótulo para Beatriz e ele sorriu.

— Alguém tem que fazer o trabalho aqui.

Ela fez uma careta. Saindo de perto do refrigerador Thomas entregou a caixa em suas mãos.

— Consegue ver a validade?

Beatriz estreitou os olhos para ele.

— Você não consegue ler isso? Está aqui embaixo.

Ela apontou e Thomas sorriu constrangido.

— Preciso usar óculos, mas a faculdade ocupa muito tempo para ir ao médico.

— Displicente – murmurou pondo a caixa no carrinho – você não pode ficar sentando no fundo quando tem um problema tão sério de visão.

Thomas a olhou de lado, meio surpreso.

— O que disse?

— Disse que devia procurar ir logo ao oftalmologista​. Ou pode ficar muito mais sério – ela pegou mais uma caixa – quantas?

Ele fez o número dois com o dedo e, sem parar de falar, ela colocou mais uma caixa no carrinho.

— Como sabe que íamos precisar de mais? – ele se aproximou, empurrando o carrinho.

— Você colocou o dobro de tudo aqui dentro – ela encarou a quantidade gritante de materiais dentro do carro – me faz pensar que estamos indo fazer um bolo enorme.

Thomas riu, mas nada disse. Eles implicaram um com o outro um pouco mais antes de irem para o caixa e depois de comprados os materiais, saíram juntos no carro do garoto. Beatriz não se impressionou com o Mustang dele, entrando com tanta normalidade que a falta de reação deixou Thomas surpreso.

Mas Beatriz já havia andando em um daqueles com seu irmão numa viagem que fizeram para o litoral, e esse tipo de ostentação não lhe enchia os olhos.

— Para onde vamos?

Thomas sentou e sorriu, girando a chave na ignição.

— Você vai ver quando chegarmos lá. É melhor se segurar.

Os olhos arregalados de Beatriz o fez rir e tão logo estavam na pista ele pisou fundo.

•••

— Você quase me matou para me trazer numa pizzaria? – Beatriz bateu a porta do carro com mais força do que pretendia – Eu poderia ter vindo andando, muito obrigada.

Thomas riu e abriu a mala. Com dificuldade tirou todas as sacolas, enchendo seus braços, e a garota o observou sair quase caindo com tanto peso. Ele realmente não ia pedir sua ajuda.

Sem pedir permissão ela puxou para si três das sacolas e antes que ele pudesse reclamar fechou a traseira do carro num só movimento. Ele a olhou admirado.

— Para onde vamos?

Thomas guiou a garota por uma porta lateral do prédio, visto que a principal estava fechada. Seguindo-o de perto os olhos de Beatriz correram todo o cômodo da dispensa, preenchida por tantos materiais quanto os que ele havia comprado.

— Eu realmente gostaria de saber para onde estamos indo – Beatriz sussurrou se aproximando mais do que deveria do garoto a sua frente.

O vão pelo qual eles passavam, escuro devido ao estabelecimento estar fechado, deixava-a apreensiva. Nunca fora muito boa em lidar com o escuro, e depois de algumas péssimas experiências envolta em escuridão nada ali lhe enchia os olhos.

Beatriz sentiu a mão de Thomas envolver a sua. Ela o olhou assustada, mas ao ver que ele segurava precariamente as outras sacolas com um só braço apenas para confortá-la sorriu, pegando mais uma sacola para si.

— Obrigada – sussurrou, sem saber se ele a ouviria.

Mas Thomas não soltou nenhum sorriso travesso ou lançou alguma brincadeirinha, apenas continuou atravessando o espaço com a mão sobre a dela. Com as sombras do lugar escondendo, com maestria, o rubor em seu rosto.

Depositando as sacolas em uma mesa dentro da suposta cozinha Thomas finalmente ligou as luzes. Os olhos de Beatriz brilharam com a decoração calorosa do lugar. Os papéis de parede florais, os castiçais, os retratos familiares pendurados ao redor.

— É um restaurante familiar – explicou Thomas, vendo-a fascinada.

Quando Beatriz olhou para ele, Thomas não conseguiu evitar sorrir. Através das lentes do óculos da garota seus grandes olhos castanhos o incitavam a continuar, animados. Enquanto organizava a mesa e seus materiais ele contou que aquela era a pizzaria de sua avó.

— Ela comanda isso daqui como ninguém – explicou tirando as caixas de leite da sacola – ela já é velha, mas tem uma energia enorme.

Thomas parou por um momento, olhando ao redor.

— Eu vou herdar isso daqui, sabe? No futuro quero conseguir manter ele exatamente assim. Você sente isso, não é?

— Sinto – Beatriz encostou a cintura na mesa – é aconchegante.

— Sim – ele sorriu, voltando a tirar os materiais – mas isso não vai ser tão cedo. Aquela mulher não vai morrer nunca.

Beatriz riu.

— Pensei que você quisesse cursar letras – murmurou ajudando-o a organizar os itens sobre a mesa.

Thomas travou por alguns segundos antes de olhar para a garota ao seu lado. Beatriz não se atreveu a olhar de volta, mas prosseguiu agrupando os alimentos sentindo na pele a incerteza que circulava ao redor dele, segurando-o.

— E eu quero – disse pausadamente – mas não sei se vai ser tão fácil quanto você imagina.

— Mas quem disse que eu imagino alguma coisa? – ela terminou de mexer nas caixas e voltou-se para ele – Eu não sei nada sobre você, como posso imaginar alguma coisa?

Thomas a olhou e só então notou que o que ela dizia era verdade. Ana não sabia nada sobre ele, sobre seus problemas familiares, sobre o caos que ele vivia no limite entre as realidades de ser filho de um grande empresário e ser um estudante comum.

Ana estava na realidade que ele não podia se dar ao luxo de se aproximar verdadeiramente. Era melhor...

— E então o que pretende fazer com... – ela fingiu contar – essas dez cestas básicas?

Thomas sorriu, saindo de seus pensamentos, e amassou as sacolas que restaram, livrando a mesa.

— Esse é um segredo que tenho guardado por muitos anos e agora vou mostrar a você​.

Algo dentro de Beatriz se revirou, animado, e ela não conseguiu esconder a expressão de expectativa que cruzou seu rosto. Thomas sorriu confiante.

— Está na hora de você descobrir minha habilidade de fazer pizza!

•••

Beatriz riu às gargalhadas enquanto o garoto a olhava com orgulho. Depois de se recuperar e, obviamente, fazer piada com isso, seguiu as instruções dele e juntos começaram a trabalhar na fabricação da iguaria.

Beatriz o alfinetou durante todo o processo, criticando a forma como ele tratava a massa, cortava e até mesmo temperava. Thomas não se abalou e agiu com toda sua arrogância teatral, afirmando que ela iria se arrepender no final.

Thomas a ensinou, com uma pose irritante de profissional que Beatriz não deixou de cutucar, a esticar a massa da pizza. Ela tentou não reagir ao toque dele sobre si, totalmente profissional, mas falhou miseravelmente quando se arrepiou assim que ele apoiou a mão sobre a sua.

Era estranho estar numa situação como aquela com um garoto que ela havia odiado com todas as suas forças dias atrás. Era muito íntimo, o toque, que ele se desculpou por tê-lo feito na primeira vez, a companhia, as pequenas discussões sobre temperos, a briga sobre quem iria fazer o molho.

Ali havia um quê de comodidade que fazia as entranhas de Beatriz se retorcerem. Era bom. Era como se sempre devesse ser assim. Era certo.

Beatriz bufou ignorando a risada de Thomas depois de estar polvilhada e focou no salame, fazendo careta para ele. O garoto riu e Beatriz se xingou por gostar tanto daquilo.

Era terreno perigoso.

E ela sabia.

•••

— Quando você me disse grande segredo eu juro que imaginei corpos no armário, não pizza. — ela riu lavando as mãos na pia – Você é realmente estranho.

Thomas deu uma última checada no forno antes de se voltar para ela.

— Não sei de onde você tirou uma versão tão sombria de mim, mas tenho muitas qualidades se quer saber.

Beatriz fechou a torneira e o fitou.

— Eu também não sei – sussurrou, para si, mas teve certeza de ele lhe ouviu, mudando de assunto.

— Certo, hora de organizarmos a mesa. Eu disse que pagava o almoço, não disse?

O sorriso animado no rosto de Thomas fez Beatriz bufar ainda que o acompanhando no sorriso. Ele parecia uma criança enorme naquela cozinha minúscula. Havia realmente uma parte dele que ela não conhecia.

— Pizza no almoço? Você realmente tem uma mente maligna.

•••

— Eu não acredito que isso tá bom! – Beatriz cobriu a boca enquanto mastigava.

Thomas sorriu convencido.

— Sou um chefe profissional.

Ela o encarou desconfiada. A mesa que Thomas organizara para eles ficava próxima a uma janela, com vista direta para a rua agitada. A tarde começava lentamente lá fora enquanto os carros iam vagarosamente para seus destinos.

— O que você pretende com isso, Mason?

A expressão de animação do garoto esvaneceu e ele se remexeu no assento. Beatriz comeu mais um pedaço da pizza, sabendo o que viria, e engoliu com dificuldade a massa recém preparada.

— Bom, agora você sabe meu segredo – ele apoiou os cotovelos na mesa, numa posição longe de qualquer etiqueta – e sabe uma parte vergonhosa minha. Estamos quites.

Ah, não.

Lentamente Thomas puxou, de sua bolsa apoiada na cadeira do lado, o diário de Beatriz. As mãos dela tremeram, mas ela escondeu o movimento tomando um longo gole de água.

— Lhe dei a chance para uma revanche. Está na hora de anul...

— Lembra quando tivemos nossa primeira briga?

Thomas olhou confuso para ela, mas assentiu. Beatriz depositou o copo sobre a mesa.

— Você insistiu que a interpretação que a sala estava fazendo do texto era distorcida e ficamos até o final da aula debatendo sobre isso.

Um sorriso de lado surgiu no rosto do garoto com a lembrança.

— Lembra da cantina?

— Quando você jogou pipoca em mim? – ele riu – Eu fiquei com cheiro de manteiga o resto das aulas.

Beatriz o acompanhou.

— E você na mesa de debates? O quão longe você ia para tentar provar seu argumento totalmente sem lógica?

— Ei! Ele tinha lógica sim, você que não me acompanhou. E não venha dar uma de inocente não que no grupo de estudos foi você que começou a discussão sobre tempo verbal.

Eles riram.

— Você é impossível – Thomas pegou o copo em mãos – Não pensei que fosse arranjar alguém que ficasse no meu pé desse jeito.

Beatriz sorriu de lado.

— Eu não sou impossível. Na verdade, o impossível aqui é você – ela se inclinou na mesa – que história é essa de anular nosso acordo? Você me põe como sua empregada e agora simplesmente quer me jogar fora?

— Não é desse jeito...

— Na nossa primeira discussão eu não quis perder para você, mas seu argumento era válido. Todas as coisas que você falou faziam sentido.

Beatriz puxou o diário da mão do garoto e jogou de volta dentro da bolsa dele.

— Agora eu também não pretendo abrir mão. Eu não vou aceitar que você anule o acordo. Irei com ele até o final e você também vai.

Os olhos castanhos foram intensamente para o garoto estático a sua frente e um sorriso de desafio cruzou os lábios de Beatriz.

— Porque sei que também não vai querer perder para mim, não é?

Ela viu a indecisão cruzar os olhos esverdeados e o dono deles vacilar em sua postura. Depois de ouvi-lo naquele resort, servindo como ponto de apoio para ele, Beatriz desejou só mais uma única coisa: ficar um pouco mais.

Ficar um pouco mais com Thomas e sua odiosa mania de discutir sobre tudo. Ficar um pouco mais naquela polarização entre ódio e desejo. Só um pouquinho mais no limite entre sua própria sanidade.

E toda essa esperança de continuar quase se esvaiu quando Thomas vacilou na mesa, indeciso. Ele achava que sabia o que era bom para ela, mas não, ele não sabia. Ninguém sabia e talvez nem ela mesma soubesse completamente. Aqueles dias que se passaram a mostraram que ela também não precisava saber.

As coisas aconteciam simplesmente, sem precisar de sentido.

E era bom.

Quando Thomas abriu um sorriso travesso, aquele que Beatriz tanto odiou, ela conseguiu ouvir sua própria respiração sair, sem saber que a prendia. Ele se recostou na cadeira levando um grande pedaço de pizza a boca. Beatriz o imitou.

— Você sabe mesmo como me desafiar garota.

Beatriz sorriu, orgulhosa de si mesma, e deu de ombros.

— Eu nunca perco um desafio, você sabe.

Thomas inclinou-se sobre a mesa e rebateu o sorriso dela.

— Então vamos ter uma longa semana pela frente.

Beatriz não podia estar mais ansiosa por isso.

Notas finais
Demorei um pouco, mas cá está mais um capítulo fresquinho! Obrigada por todos que estão lendo, hihi (imagine aqui um coração)