Dual

5 Ciúmes


Beatriz gritou contra o travesseiro, rolou na cama, pulou na colcha, beijou incansavelmente todos os funcionários de sua casa e se trancou sorridente no banheiro. A água não conseguia conter toda a sua alegria e ela ria deliciando-se ao saber que havia conseguido mais tempo.

Ao mesmo tempo que tanta euforia tomava conta da garota um antigo sentimento começava a se esgueirar sob sua pele. Mas ela não pensaria nele naquele momento. Não havia engatado num relacionamento amoroso com Thomas ou algo do gênero, era apenas a satisfação de poder realizar seu desejo.

Desejo de poder ficar junto dele como ela mesma e não numa versão embonecada. Ele veria Ana e conversaria com Ana, riria com ela e discutiria com ela. Seria Ana quem o ouviria desta vez, não Beatriz.

Mas no final ela não era só uma ou a outra. Todas as duas personalidades que havia criado para si se remexiam lá dentro. Ela era Ana Beatriz. Havia um pedaço dela em cada uma das garotas que Thomas havia conhecido e esse fato a inquietava.

Entretanto, sob uma ducha refrescante, Beatriz não queria ouvir nem mesmo uma letra vinda da sua consciência. O momento era de se viver, não pensar.

E era isso que ela faria.

•••

Quando a terça-feira chegou Beatriz se arrumou rapidamente. Cogitou se maquiar, mas pelo medo de ser descoberta optou pelo básico: óculos e cabelos cacheados. Saiu de casa como um raio, sem tomar café da manhã, e encontrou, na entrada da faculdade, os cabelos cacheados que tanto odiou.

Sorrindo ela se aproximou, apertando contra seu corpo a pasta com os textos para o dia.

Thomas a avistou quando Ana atravessou a rua, e por mais que tentasse esconder a mistura de emoções que cresceram dentro de si, ele não conseguiu. Seu corpo tremeu e ele sorriu, deixando que a alegria em a ver ficasse evidente.

Depois do episódio na pizzaria de sua avó, que ele penou para conseguir deixá-la fechada naquele dia afim de seguir com seu propósito, Thomas não sabia se ficava frustrado por ter cedido ou feliz por saber que teria mais tempo com Ana.

Ainda que tudo dentro dele dissesse para deixá-la ir, que ele iria machucá-la, Thomas aceitou o desafio dela. Só mais duas semanas, repetiu para si mesmo. Ele queria só mais duas semanas antes de se afastar. Antes de protegê-la.

— Qual a missão de hoje? – ela parou na frente do garoto, pondo a mão na cintura – Ouvi dizer que minhas atividades seriam mais pesadas, estou esperando.

Thomas a avaliou de cima a baixo e aumentou o sorriso, jogando para ela sua bolsa velha e alguns livros leves.

— Que comece o dia!

•••

Depois de subir e descer o elevador pela terceira vez Beatriz questionou verdadeiramente suas ações. Thomas a fez ir na xerox do andar inferior duas vezes seguidas para tirar mais de cinco cópias diferentes e lá ia ela de novo com um livro inteiro para o rapaz duplicar. Até quando ela ficaria dentro daquele cubículo com cheiro de tinta?

Suspirando ela ouviu o elevador apitar. A porta abriu e, para sua surpresa, lá fora estava o sorriso travesso de Thomas em contraste a seus braços cruzados.

— O que faz aqui? Pensei que tivesse me dito para ir sozinha na xerox.

— Infelizmente, não estou aqui para acompanhar você – ele seguiu ao lado dela pelo corredor que levava ao pátio ao lado do estabelecimento – só vim conferir se estava indo tudo certo.

Beatriz o olhou de esgueira, não acreditando em uma só palavra dele. Ele queria ver na verdade como sua nova ideia de tortura estava indo, era o que ela acreditava, mas os olhos dele desmentiram qualquer teoria insana que sua raiva tentava formular

Ele só estava ali para ver se ela estava bem, era o que diziam.

— Devo dizer que está indo melhor do que o esperado – Beatriz sorriu desafiadora – estou amicíssima dos funcionários da copiadora agora e é só sorrir que eles farão qualquer coisa. Na verdade, as coisas estão ótimas sem você, obrigada.

Thomas não impediu que sua boca se franzisse, a contragosto, e limitou-se a encarar o final do corredor, que saia no pátio. Alguns estudantes se aglomeravam em mesas diversas ao longo do gramado.

— Ah é? Então talvez eu deva mandar mais cinco livros que preciso para você tirar xerox.

A careta de Beatriz o fez rir.

— Vou ficar por aqui – ele apontou para uma mesa próxima a construção pequena – depois de tirar a cópia me encontre ali.

Beatriz assentiu e ainda que continuasse a seguir para a xerox viu Thomas sair do seu lado, cumprimentando animado um grupo de jovens calouros numa mesa próxima, estrategicamente prostrada em baixo de uma árvore.

Ela esperou uma hora para que o funcionário copiasse o livro. Lá fora o sol chegava em seu pico e o estômago da garota roncou. Saindo da xerox Beatriz avistou na mesa ao lado Thomas, agora sozinho, encarando concentrado um conjunto de livros e papéis.

Beatriz quis rir da expressão dele, mas manteve a pose e se aproximou. Quando estava ao lado do garoto, pigarreou.

— Você não parece estar indo muito bem.

Thomas a fitou com a mesma expressão de concentração, mas suavizou-a assim que viu o livro pesado nos braços de Beatriz. Afastando os papéis sobre a mesa lhe indicou a superfície para ela apoia-los. Assim ela o fez.

— Estou estudando estatística.

— Pelo que eu saiba – ela sentou no banco a frente dele – essa matéria é dada no terceiro período.

Thomas não a olhou, virando a página. Ela sorriu.

— Você reprovou a cadeira, não foi?

Ele fez uma careta.

— Talvez eu tenha, mais de uma vez – murmurou rabiscando números no caderno – e talvez agora eu queira passar, mas não prestei muita atenção para conseguir nessa primeira prova.

Beatriz o observou, se apoiando sobre a mesa. Como a garota rica que ele encontrou na confraternização e compartilhou seus medos ela sabia que ele havia reprovado de propósito. Que estava adiando sua saída da faculdade, único lugar onde ele conseguia se realizar. Mas agora ele queria passar?

— Ninguém reprova nessa matéria se não for por vontade própria – ela deslizou o dedo sobre o livro virando-o para si – por que quer passar agora?

Thomas tentou instintivamente mudar de assunto, mas quando olhou para a imagem a sua frente, não conseguiu​ mentir. De novo.

— Tenho que começar a assumir responsabilidades. – ele apoiou o queixo na palma da mão – Tenho uma empresa para administrar e está na hora desse curso acabar.

Os olhos de Beatriz brilharam, envoltos na confiança que ele depositava nela, e cautelosamente esquadrilhou o rosto do garoto. Ele havia fechado os olhos, como se o peso daquelas palavras as tornassem reais.

Beatriz lutou contra a vontade de pôr sua mão na dele.

— Ele teria que acabar em algum momento mesmo – ela folheou o livro na sua frente – mas não quer dizer que você precisa abandonar ele completamente.

A garota sorriu e Thomas observou como os lábios dela, com um rosado natural, pareciam tão convidativos.

— Tudo que você aprendeu aqui vai acompanhar você. O curso não é só a faculdade, é a experiência. Sua experiência no futuro com tudo que você aprendeu aqui só vai embora se você permitir. Nem mesmo cem escritórios podem confinar isso.

Thomas se calou impressionado com as palavras da garota. Ela não o olhava, e ele sabia que dizer aquilo parecia bastante constrangedor naquele momento, mas virava as páginas do livro com tanta suavidade quanto o que lhe dizia.

Era verdade, afinal. Só ele poderia determinar o seu futuro. Administrar a empresa do seu pai ou o restaurante de sua avó não lhe mandavam escolher um lado. Ele que queria escolher um, por medo. Mas não era preciso. Não realmente.

Abrindo um sorriso de lado ele sorriu.

— Obrigado.

Quando Beatriz olhou para ele, depois de chegar na página desejada, sentiu o coração acelerar. Corando virou o livro de volta para ele.

— Já que você pretende passar em estatística vou te ajudar.

Ela correu o dedo pela página parando numa equação.

— Sou boa com cálculos, afinal.

Beatriz sorriu e Thomas a acompanhou, fitando o papel a sua frente.

— E por que você faria algo assim?

— Nada em especial – ela se apoiou na superfície da mesa – acho que me afeiçoei por meu carrasco. Síndrome de Estocolmo, você sabe.

Thomas sorriu de lado e apesar da expressão de brincadeira no rosto da garota, ele gostou do que ouviu. Ele estava se afeiçoando a ela também.

— Vamos começar – Beatriz puxou uma caneta – e depois você paga o almoço – piscou.

Thomas riu e juntos eles começaram a estudar.

•••

Depois de estudar incansavelmente com Thomas e descobrir que ele era pior do que ela imaginava com cálculos, eles almoçaram juntos ainda na faculdade. O sol da tarde começava a esfriar e o relógio de pulso de Beatriz apitou lembrando-a de um compromisso importantíssimo.

Limpando a boca com um guardanapo, apressada, ela se levantou.

— Para onde vai com tanta pressa? – Thomas riu terminando de beber seu suco.

— Tenho um compromisso e dois ônibus para pegar – disse apenas, reunindo as canetas e livros seus que usou para ajudar o garoto – até amanhã.

— Ei – ele levantou e se Beatriz tivesse prestado atenção teria visto que o garoto pareceu triste com a sua saída – eu te levo em casa.

Alarmes soaram dentro de Beatriz que abriu um sorriso de desdém torcendo para que suas palavras funcionassem.

— Os assuntos familiares estão fora do nosso acordo, lembra?

Como se percebendo o que havia acabado de fazer Thomas novamente sentou na mesa olhando fixamente para Ana. Ele sequer cogitou o acordo quando propôs levá-la em casa, não pensou na situação que passava em casa com a sua própria família nem com a pretensão que tinha de afastá-la.

E vendo-a encará-lo com um sorrisinho no rosto sequer pensava no quanto a odiou por um ano inteiro. Não agora, não ali.

— Então tá certo.

O alívio de Beatriz foi evidente e uma curiosidade que Thomas até então não tinha percebido o corroeu. Ele não sabia absolutamente nada sobre aquela garota além do seu nome e sua capacidade de discutir sobre qualquer assunto com autoridade.

Mas por que dentro dele algo lhe dizia que ele queria saber mais?

— Obrigada, nos vemos depois.

Apressada Beatriz quase correu para fora da faculdade e suspirou aliviada quando saiu pelos portões, deixando Thomas lá dentro. Ela não estava louca​ de deixar ele levá-la para casa. Ele ia saber na hora que ela era Beatriz e que estivera mentindo para ele todo aquele tempo.

Esse pensamento a fez estancar na calçada em direção a parada de ônibus sentindo como se uma rocha imensa caísse sobre ela. E se ele acabasse descobrindo que ela era as duas garotas? Thomas se abriu como nunca com sua “outra” personalidade, o que ele faria se descobrisse que sua arqui-inimiga sabia de assuntos que ele jamais tocou em sua presença enquanto Ana?

Ele ficaria com raiva, a resposta foi clara. E mais do que isso: ele iria se afastar. Não ia ter acordo ou famílias que pudessem mantê-los próximos e Beatriz sentia que aquela decepção a quebraria junto.

O que diabos estava exatamente sentindo por Thomas Mason?

Desejo? Raiva? Am...

Uma buzina a acordou de seus pensamentos e Beatriz percebeu que estava literalmente parada na calçada, com algumas pessoas passando e olhando intrigadas para ela. Tomando fôlego voltou a caminhar. Não era hora de pensar sobre isso. Thomas nunca descobriria isso se ela não permitisse. Não tinha como ele descobrir.

Outra buzina chamou a atenção de Beatriz que parou de andar, voltando-se para um carro prata andando devagar ao seu lado, alarmada. Quando a janela fumê abaixou e seu irmão sorriu de dentro dele, tirando os óculos escuros ela o retribuiu de imediato.

— Onde está com a cabeça, hm?

Ela o ignorou se aproximando do carro.

— O que está fazendo aqui? Achei que fossemos nos encontrar no restaurante.

O irmão mais velho de Beatriz aumentou o sorriso.

— É assim que sou recebido quando decido ser generoso e oferecer uma carona a minha irmã?

A atuação de ofensa dele a fez rir.

— É pelas garotas, não é?

Dando de ombros Murilo recolocou os óculos escuros.

— Às vezes é bom ser visto por algumas mulheres bonitas.

Novamente Beatriz riu.

— E então? Vai entrar ou devo considerar que nosso acordo está desfeito?

Automaticamente a garota abriu a porta do carro jogando a bolsa e os textos no banco traseiro.

— Eu trabalhei muito duro por esse japonês, você não ouse me enrolar.

Murilo riu enquanto a irmã entrava e afivelava o cinto.

— Só espero que eles estejam com promoção.

Foi a vez de Beatriz rir enquanto o carro começava a andar. Deixando para trás a faculdade, seus sentimentos conflituosos e um curioso garoto de cabelos castanhos parado no portão.

•••

Beatriz e Murilo foram conversando até o restaurante japonês que a garota era apaixonada, no centro da cidade. Desceram rindo da aventura dele naquela noite da confraternização, que foi encontrar uma colega na balada e levou um bolo, uns tapas e um garoto para o motel.

Beatriz sentou e se colocou a pedir tudo que gostava no cardápio, enquanto Murilo revirava os olhos repetindo que ela precisava ser boazinha com o bolso dele se quisesse um presente de aniversário. Rindo ela concluiu o pedido e enquanto a garçonete se afastava virou para o irmão com os braços cruzados.

— E desde quando você me dá presentes?

— A partir desse momento – disse convicto – preciso de uma aliada para minhas escapadas.

Beatriz sorriu ao comentário, mas o encarou séria.

— Não pode ficar fugindo para sempre.

— Posso sim.

— Precisa começar a assumir responsabilidades, Murilo. Somos adultos já.

O garoto cruzou os braços e ergueu a sobrancelha para Beatriz.

— Desde quando você adquiriu esse discurso? Parece nossa mãe, credo.

Ela riu.

— E desde quando você esqueceu sua meta de vida?

Assobiando e colocando as mãos atrás da cabeça Murilo se recostou à cadeira.

— Está em andamento.

Beatriz o olhou curiosa.

— Em andamento?

O sorriso do garoto foi enorme.

— Andei comprando algumas ações no mercado e digamos que tudo está indo muito bem.

— Que ótimo! – ela riu, quase histérica – Então quer dizer que posso pedir mais do que só duas barcas.

No momento em que Beatriz levantou a mão para chamar a garçonete Murilo segurou o pulso dela e foi no instante exato que a porta abriu e Thomas entrou, despretensioso, se deparando com a cena.

Beatriz estava risonha e Murilo também, mas as sobrancelhas dele lhe davam um ar de repreensão. Ela ainda estava com as mesmas roupas da faculdade e ele... muito próximos.

O clima íntimo dos dois instantaneamente incomodou Thomas que parou alguns segundos na soleira da porta vendo-os voltarem a posição normal e rirem entre si. Quem era aquele garoto? E o que Ana estava fazendo em um restaurante tão caro? Eles estavam...

Saindo?

A pergunta que o cérebro de Thomas concluiu foi dolorosa e ele a agarrou com unhas e dentes. Quase deu meia volta, mas quando a comida deles chegou e a castanha fez uma imitação péssima do agradecimento oriental pré-refeição o corpo dele estancou.

Sem saber o que estava prestes a fazer, apesar de ter seguido eles vergonhosamente até ali, Thomas foi até a dupla e os olhos surpresos de Beatriz a traíram completamente irradiando o choque de vê-lo ali.

— Ana?

Murilo virou-se automaticamente para o estranho que chamava sua irmã e a troca de olhares da dupla deixou a mesa um pouco tensa. Se não para eles, foi exatamente o que Beatriz sentiu tentando rapidamente chamar a atenção de volta para si.

— Ah, oi Thomas – lançou um falso sorriso de simpatia que o garoto leu em segundos.

— Atrapalho?

Murilo, que ainda o encarava, lentamente sorriu.

— Claro que não – respondeu antes dela, deslizando a mão para a de sua irmã sobre a mesa.

Foi por um milésimo de segundo que ele viu uma veia saltar no pescoço do estranho, aumentando ainda mais seu sorriso. Aquele garoto estava afim da sua irmã, era óbvio. Uma de suas sobrancelhas automaticamente levantou.

— Quer se sentar e comer conosco?

Thomas olhou dele para Ana e a viu suspirar, tirando a mão da do garoto. Um sorriso ameaçou surgir no rosto dele.

— Pare com isso – Beatriz resmungou voltando-se para o castanho – ele é meu irmão, Thomas.

Os olhos do garoto se arregalaram, surpresos, e o sorriso de Murilo se tornou travesso. Ela beliscou o irmão.

— Ei! É divertido! – argumentou pegando um sushi – Você nunca me apresenta seus amigos. Principalmente os garotos.

— Você daria em cima de todos eles.

Murilo sorriu ainda mais e deu de ombros. Parado ao lado da mesa Thomas sentiu o corpo relaxar. Irmãos, a palavra ecoou em sua cabeça. Ana tinha um irmão.

Então aquele era o compromisso de família.

Thomas quis rir pela desconfiança que sentiu e em seguida se questionou o porquê de ter se sentido daquela forma.

— E então? – ela o tirou dos pensamentos – Vai sentar com a gente?

O sorrisinho dela, o mesmo que sempre o desafiava, o fez quase instintivamente sorrir. Mas balançando a cabeça Thomas declinou o convite. Já não bastava ter seguido a garota agora ia atrapalhar o encontro dela com o irmão?

— Não, vim buscar uma encomenda para a galera da faculdade – ele mentiu rapidamente e rodou a chave do carro nos dedos – sou o único habilitado do grupo.

Ela assentiu beliscando mais um sushi da barca.

— Vocês estudam na mesma faculdade?

A pergunta fez Thomas voltar-se para o irmão de Beatriz e ela quase se engasgar.

— Sim, pagamos algumas cadeiras juntos.

Murilo soltou um chiado de compreensão.

— Ah, minha irmã falou muito sobre você...

— Não falei, não.

Thomas olhou de um para o outro e o sorriso travesso do irmão lhe deixou em dúvida.

— Qual é, me deixe me divertir. A última vez que você levou alguém lá em casa...

Antes de Murilo concluir a frase Thomas percebeu a mudança na expressão da garota. A Beatriz que sempre rebatia suas provocações rindo e brincando parecia ter sumido. Os olhos sempre afiados estavam opacos e fitavam o irmão sem realmente vê-lo.

Os olhos dela viam outras coisas. Dolorosas demais.

— Eu lembro.

A voz dela saiu baixa, mas os dois à mesa a escutaram e preocupação nublou tanto Thomas quanto Murilo, que se martirizou. Antes que o garoto fizesse qualquer movimento na direção de Beatriz ela abriu um sorriso falso, completamente falso, ele notou, e olhou para o irmão.

A troca de olhares foi intensa e Thomas se sentiu perdido ali no meio. Pigarreando e chamando a atenção da dupla para si, ele sorriu de lado.

— Preciso ir. Bom japonês para vocês.

— Obrigada.

A voz de Beatriz saiu automática e ela só acordou do transe quando Murilo se manifestou, perguntando o nome do garoto.

— Thomas, e o seu?

— Anthony – Beatriz se adiantou e o olhar de seu irmão foi confuso diretamente para ela.

— Foi um prazer – Thomas sorriu para ambos antes de ir ao balcão.

Assim que o garoto estava longe o suficiente Murilo ergueu a sobrancelha para a irmã, cruzando os braços. Mordendo mais um sushi para fugir do olhar inquisidor a jovem olhou para o lado oposto.

— Anthony?

Beatriz demorou alguns segundos para responder, mas em seguida suspirou, derrotada.

— É uma longa história.

— Nós temos duas barcas de sushi até lá.

Lançando um olhar de soslaio para o castanho no balcão Beatriz novamente expirou. Por um segundo ela lembrou das duas personalidades que atuava e se não fosse aquele reflexo, a identidade dela poderia ter sido descoberta.

E para mantê-la intacta, assim que Thomas saiu do restaurante, sem olhar para trás como ela desejou que o fizesse, contou a Murilo tudo o que estava se passando. Desde a confraternização a seu insano desejo de continuar com o acordo.

— É simples, você quer ficar perto dele.

Beatriz chiou mordiscando o oitavo sushi.

— Mas por que?

O olhar de Murilo foi suave e o sorriso no rosto dele meramente ilustrativo.

— Você sabe o porquê, Beatriz. Negar para si mesma não muda o fato. É claro para mim que você está gostando dele.

Deslizando a mão sobre a barca quase vazia que ele mesmo havia devorado Murilo pairou a mão sobre os últimos sushis.

— E ele de você.

Beatriz quase se engasgou com o vinho que bebia fazendo o irmão rir.

— Estou errado?

— É óbvio. Desde quando Thomas...

As lembranças de Thomas com Beatriz, a filha de um empresário, passaram pelos pensamentos da jovem. Eles se davam bem, ele havia dito. Para ela, eles se davam muito mais do que bem. Thomas se abriu com Beatriz, ria com ela, transava com ela.

E com Ana?

— Só de olhar para você já sei que está procurando alguma desculpa para dizer que não, que ele não gosta de você.

Tomando um gole do vinho Murilo balançou a cabeça.

— Você é sempre tão previsível, maninha. Sempre fugindo, sempre buscando desculpas.

Quando os olhos de seu irmão caíram sobre ela Beatriz se sentiu fraca. Murilo sabia sobre isso. Sempre soube. Sempre a protegendo. Sempre a ajudando.

— Não pode ficar fugindo para sempre.

Ele sorriu.

— Precisa começar a assumir responsabilidades. Somos adultos já.

Beatriz ficou presa entre uma risada e o choro que lhe subia a garganta. Aquele era um assunto delicado, um passado parcialmente esquecido e superado. Mas Thomas era presente e trazia consigo angústias e frustrações muito antigas.

— Por favor, mantenha segredo.

Com a taça de vinho pairando em frente a sua boca Murilo mais uma vez sorriu.

— O que você não me pede chorando que eu faço sorrindo, querida?

E em seguida ele bebeu do líquido arroxeado enquanto Beatriz organizava as coisas dentro de si. Ficaria com Thomas até o final do acordo, mas depois, o deixaria ir como sabia que ele o faria. Como ele falou que faria para sua outra personagem.

Acompanhando o irmão Beatriz sentiu o vinho descer rasgando sua garganta. Desde quando tinha se afeiçoado aquele garoto ao ponto de se sentir assim com a perspectiva de sua partida?

Notas finais
Já consigo enxergar o final chegando e vocês? ahsjhajs, alguma perspectiva do que vem por aí?